Os Duelistas de Joseph Conrad

Personagens Principais Armand d’Hubert – hussardo, alto e claro, 26 anos Gabriel Florian Férand – hussardo, baixo e escuro

Personagens Secundárias Leonie – irmã de d’Hubert Adèle de Valmassigne – noiva de d’Hubert Le Chavalier de Valmassigne – tio de Adele, monarquista ex-exilado Madame de Lionne – dama da sociedade estraburguense


Durante muitos anos, o general d’Hubert sentira-se exasperado e humilhado pelo absurdo atroz que lhe havia imposto o capricho selvagem deste homem (Férnad)” – a saudável dor na consciência que alerta e libera o homem de seus maus instintos

Interpretação Férand é um duplo (doppergänger) de d’Hubert, seu lado obscuro, irracional e belicoso – isto explica a misteriosa atração existente entre ambos: o sensível e comportado jovem officer d’ordonnance é facilmente atraído para o primeiro combate, e teima em não se desvencilhar da irracional perseguição de Férand apesar de todos os conselhos e recomendações em contrário.


Oficial da cavalaria (cavalo simboliza a impetuosidade do desejo), d’Hubert precisará aprender a dominar seus próprios instintos refletidos em Férand. Com o passar dos anos d’Hubert amadurece, torna-se mais compassivo, até secretamente sustentar Férand, e encontra o amor em Adèle (a mulher como redenção do homem).


Todos os revezes militares poderiam ter estragado o carácter de d’Hubert, como aliás o fez com Férand e outras personagens militares, mas ao final o herói domina seus instintos e alcança um equilíbrio que até então, aos quarenta anos, nunca desfrutara. Férand segue como um morto-vivo, pois, como a última cabeça da Hidra de Lerna (ver os trabalhos de Héracles na Biblioteca de Apolodoro de Atenas), o homem não elimina nem seus piores instintos mas apenas os domina (d’Hubert sustenta Férand), pois eles seguem latentes – como explicou Sócrates “o exercício da virtude é a constante vigilância dos seus vícios”. Curiosamente, na situação limítrofe durante o êxodo do abatido exército napoleônico na Rússia, os duplosajuntam forças para sobreviver. É como que se Conrad nos dissesse que o homem pode precisar dos seus piores impulsos para enfrentar determinadas situações.


Alegoricamente pode-se traçar um paralelo entre a falta de sentido dos duelos com a empreitada napoleônica que só resultou em destruição e morte (produto da ruinosa Revolução Francesa) – onde a situação de morto-vivo de Férnad corresponderia ao exílio de Napoleão.


Notas

  • Joseph Conrad (1857-1924) nasceu em Berdyczów, Ucrânia. Mas escreveu em inglês.

  • Em sua obra destacam-se também os romances Lord Jim (1900), Nostromo: A Tale of the Seabord (1904), The Secret Agent (1907), e Victory: An Island Tale (1915); e a novela O Coração das Trevas (1908).

  • Os Duelistas foi publicada em série na The Pall Mall Magazine no começo de 1908.

  • Conrad inspirou-se na leitura de um parágrafo de dez linhas narrando a história real de dois oficiais franceses do exército de Napoleão, François Louis Fournier e Pierre Dupont, que duelaram diversas vezes ao longo de quase duas décadas por algum motivo fútil.

  • A narrativa desenvolve-se entre 1801 e 1816, principal período do terror francês sobre a Europa.

  • Conrad não é conhecido por suas personagens femininas, mas o amor, discernimento, compaixão e recato que envolvem Leoni e Adèle apresentam a mulher no seu mais elevado sentido.

  • Ridley Scott levou Os Duelistas para a tela do cinema em 1977. O filme é bom, mas a antecipação do casamento de d’Hubert desperdiçou o clímax emocional da novela.

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