O Paraíso do Vira-bosta de Emil Farhat


“Vira-bosta (ave parasita – Molothrus bonariensis) – o hábito de fuçar nas fezes do gado em busca de sementes mal digeridas dá origem ao seu nome popular. Não constrói ninhos, utilizando ninhos do joão-de-barro ou sabiá-do-campo.” – Aves do Brasil (OpenBrasil.org) -

Emil Farhat fala dos parasitas que infestam o estamento burocrático e esfolam o povo de diferentes formas. Praticamente todo membro do estamento burocrático (algo como 11 milhões de funcionários lotados nos três poderes das administrações federais, estaduais e municipais, e suas autarquias e fundações) é um vira-bosta, seja ele ativo (corrupto) ou passivo (apenas beneficiado pela corrupção ativa).


A corrupção é sempre imoral, mas pode ser de caráter ilegal ou legal:


A de natureza ilegal (fere leis e normas estabelecidas e é passível de punição) é obra do corrupto ativo. O ato ilegal sempre visa o benefício pessoal de forma direta, ou indireta através desvio de recursos para o partido com vistas na perpetuação no poder (normalmente encoberta pela ladainha revolucionária – a corrupção orgulhosa). Aqui se destaca (a) o desvio do dinheiro público em contratos e compras superfaturadas, (b) contratação de serviços desnecessários e até inexistentes, (c) contabilidade fraudulenta, (d) vender a promulgação de leis (normalmente de incentivos fiscais) que favorecem determinados grupos, (e) transferência de recursos para ONGs (a maioria fraudatória ou de fachada), (f) vender facilidades para vencer os obstáculos burocráticos, (g) vender informação privilegiada, (h) vender concessões para novos serviços, e qualquer forma, direta ou indireta, que desvia os recursos públicos para o bolso do vira-bosta ou seu partido político. Por pior que esta corrupção de caráter ilegal seja, seu impacto negativo é irrisório em comparação com a corrupção, igualmente imoral, mas legal.


Esta corrupção de natureza legal beneficia o vira-bosta tanto na busca de poder como, principalmente, no enriquecimento pessoal à custa do povo. Para angariar simpatias e votos (manutenção de poder) o vira-bosta implementa medidas que beneficiam grupos de eleitores mesmo que a ação seja deletéria para o resto da população, e.g. (a) criação de feriados (Dia da Consciência Negra – feriado reduz a geração de riquezas, prejudicando a todos), (b) criação de “bolsas” assistencialista, (c) criação de normas trabalhistas para determinadas categorias, e outras definições de normas e leis apenas destinadas a agradar parte do eleitorado.


Mas a pior e mais nociva corrupção legalizada é o tratamento que os vira-bostas dão a si mesmos mirando ganhos financeiros próprios (ou de cumplices) em detrimento do erário. E aqui vale tudo: (a) salários astronômicos (em 2016 um vira-bosta ganhava, em média, 67% acima de um celetista para funções similares – a maior diferença no mundo segundo o Banco Mundial – de lá para cá esta diferença apenas aumentou), (b) aposentadorias faraônicas (o bilionário déficit previdenciário dos vira-bostas é maior que dos celetistas apesar do número de aposentados vira-bostas ser 10% dos aposentados celetistas), (c) criação ou manutenção de cargos de confiança e comissionados (nenhum país no mundo em número tão grande de cargos nesta condição), (d) criação de estados e municípios – aumentado o número de vira-bostas (a República nasceu com 20 estados, hoje já são 26 mais o DF – Brasil tem 5.570 municípios contra 3.243 counties nos EUA), (e) criação e manutenção de estatais ineficientes, quando não deficitárias, abrigando vira-bostas (há no Brasil mais de 400 empresas estatais), (f) diferentes penduricados (férias adicionais, aditivos benesses, cartões de crédito corporativos, carro, motorista, ano sabático, ajudas de custo de todo tipo), (g) reclassificação de ganhos para obter isenção fiscal, (h) criação de órgãos e conselhos para abrigar vira-bostas, (i) multiplicação de assessores, (j) diárias e verbas de representação em viagens inúteis, (k) fundos partidário e eleitoral, a alista é longa.


Com isso podemos classificar os vira-bostas em quatro tipos (um mesmo vira-bosta pode ser de dois ou mais tipos):

  • Vira-bosta corrupto, que quando pego com mão na cumbuca (coisa rara), ganha grande visibilidade, e.g. Lula.

  • Vira-bosta orgulhoso, é aquele que quando questionado sobre a imoralidade de suas benesses enche o peito, empina o nariz e branda “são direitos adquiridos” (costuma habitar as cortes jurídicas e ciscar no Congresso).

  • Vira-bosta cara-de-pau, que defende seus ganhos, no presente, como uma aspiração para todo o povo no futuro, diz “todos deveriam ter esta qualidade de vida” (finge não saber que sua situação presente é obstáculo para o desenvolvimento do povo).

  • Vira-bosta néscio, que não entende nada quando reclamam da imoralidade de seus benefícios.

Emil Farhat também volta a abordar temas discutidos em sua obra O País dos Coitadinhos, como (a) os “ricos fedorentos” que se associam ao vira-bosta no assalto ao povo, (b) a miséria nordestina provocada pela má gestão política (lembra que no NE o índice pluviométrico e 2x maior que em Israel e 4x maior que no Texas), (c) falência dos serviços do Estado que deveria dedicar-se apenas as funções de sua competência exclusiva, e (d) o abandono da verdadeira educação, afirmando que combateram o analfabetismo com emburrecimento (afinal, o burro terá menos condições de combater o vira-bosta).


Notas

  • Emil Farhat (1914-2000) nasceu em Maripá de Minas (MG), Brasil.

  • Jornalista, escritor e publicitário, alcançou a presidência da filial brasileira da McCann-Ericsson.

  • O Paraíso do Vira-Bosta foi publicado em 1987.

  • Outras obras destacadas: O País dos Coitadinhos (1968), Educação, a nova ideologia (1975) e Memórias Ouvidas e Vividas (1999).