O País dos Coitadinhos de Emil Farhat


Quando eu era garoto, não tinha essa história de bullying. O gordinho dava pancada em todo mundo, hoje o gordinho chora. Tudo é ‘coitadismo’, coitado do negro, coitado da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino, coitado do piauiense, tudo é ‘coitadismo’ no Brasil. Vamos acabar com isso.” – Jair Bolsonaro (entrevista TV Cidade Verde em 2018)

O autor apresenta exemplos de como o ‘coitadismo’ é estimulado pelos políticos para beneficiarem-se eleitoralmente, quando não financeiramente. Além de perenizar maus políticos em seus cargos, a prática do ‘coitadismo’ provoca desperdícios financeiros exorbitantes e atrasos irremediáveis ao país e sua população. E o estamento burocrático logo trata de apontar algum bode expiatório para estas indesejáveis consequências, sendo o genérico “capitalismo” seu principal alvo, retroalimentando o ‘coitadismo’ com a surrada e imaginária figura do “despossuído”. Para Emil Farha o subdesenvolvimento nacional era resultado do estatismo combinado com o sistema eleitoral (elementos que também estão compreendidos no patrimonialismo).


Escrito nos anos 60, o principal objetivo do livro era combater o grande mito da ‘Reformas de Base’, proposta pelos trabalhistas, sindicalistas, comunistas e nacionalistas de todos os matizes, que propunha reforma agrária, reforma urbana, reforma educacional e assim por diante, uma revolução tendo como desculpa a assistência aos brasileiros coitadinhos. Apesar de transcorrido meio século, o livro não perdeu atualidade, pois não só o país ainda sofre prejuízos resultantes dos exemplos citados, como também ajuda no reconhecimento das mazelas do ‘coitadismo’ no presente tratamento de supostas “minorias”, na promessa de resgate de imagináveis “dividas históricas”, e no combate à retórica “desigualdade social”.


Seguem os exemplos de ‘coitadismo’ dados pelo autor, com eventuais atualizações:

  • Na década de 1920 barcos portugueses pescavam nos mares brasileiros sem prestar contas a ninguém. Na tentativa de ordenar a indústria pesqueira, o governo exigiu a naturalização das empresas (portugueses poderiam aqui pescar sempre que naturalizassem suas empresas), porém a trupe adepta ao ‘coitadismo’ demandou que só pudesse aqui pescar os nativos da terra, dividindo o mar entre 100 mil pescadores brasileiros. Saíram os experientes pescadores portugueses e ficaram nossos românticos jangadeiros, resultando no colapso na oferta de peixe no mercado brasileiro – alimento mais caro e em menor quantidade para o povo. Hoje, apesar de seus quase 9 mil km de litoral e imensa base hidrográfica, o Brasil é apenas o 25º produtor mundial de pescados, atrás do Equador e produzindo não mais que 1/3 do volume norueguês. Em 2003 o governo petista ataca novamente com o ‘coitadismo’ pesqueiro criando a Bolsa Defeso, resultando na multiplicação de pescadores que saltaram de 230 mil para 1,2 milhões, sem que a produção de pescados aumentasse – em 2017 a CGU (Controladoria-Geral da União) afirmou que 2 de cada 3 assegurados eram falsos, produzindo uma fraude de R$1,5 bilhões por ano. O inútil, e já extinto, Ministério da Pesca, responsável pela administração da Bolsa Defeso, ainda concedia licenças para pesca costeira por R$100 mil de propina.

  • A legislação trabalhista também prejudicou a economia marítima. Com a desculpa de proteger os empregados acabaram aumentando a composição das forças de trabalho das embarcações, e.g. um rebocador de bandeira holandesa utilizava 5 homens para vir da Holanda ao Brasil, mas aqui chegando precisava obrigatoriamente elevar este número para 14 homens – aumentando custos, inibindo o desenvolvimento da navegação fluvial e de cabotagem e, ao final, diminuindo oportunidades de emprego.

  • Os portos também não ficaram imunes das legislações trabalhistas, empreguismo e abuso de taxas – naqueles anos o porto de Nova York tinha 170 km de cais acostável e operava com 3.500 homens, já o porto do Rio de Janeiro, com apenas 7 km de cais acostável, exigia 8.000 homens (20 homens/km de cais em NY e 1.143 homens/km no RJ – mais de um homem por metro!). Em Natal (RN) um estivador chegou a receber salário mais de dez vezes superior ao prefeito da cidade. Com a desculpa de proteger os pobres marujos e estivadores encareceram transporte, exportações e importações, aumentaram o custo de vida do povo e inibiram o desenvolvimento do país.

  • No caso das ferrovias, o número de pessoas empregadas em 1964 daria para atender o triplo de quilometragem de vias férreas existentes, e capazes de transportar uma tonelagem de mercadorias dezenas de vezes maior daquela que carregavam. A crescente estatização do sistema ferroviário, e consequente empreguismo, nos anos seguintes apenas piorou a situação. Na infame Central do Brasil era notório que os funcionários atrasavam os comboios apenas para ganharem hora-extra. Até hoje nossas ferrovias estão aquém da necessidade do país. Apesar da grande adequação para transporte de nossa grande produção de minério e grãos, o sistema ferroviário brasileiro tem a mesma dimensão do francês, sendo que o território francês é um pouco menor do que o do estado da Bahia.

  • Compreendendo o passado do transporte fluvial e ferroviário fica fácil entender porque atualmente 75% do transporte de mercadoria no Brasil recaem no modal rodoviário. E que a logística nacional seja considerada apenas a 56ª mais eficiente no mundo, atrás da Costa do Marfim (World Bank Logistic Performance Index 2018).

  • A ignóbil Justiça do Trabalho julga, quase sempre, a favor do empregado tenha este razão ou não. Certa vez um magistrado sentenciou favoravelmente o empregado relapso que “tendo seus atrasos tolerados ingenuamente pela empresa, exigiu que aquele fosse considerado o ‘seu’ especial horário de chegada”, em contraposição aos empregados pontuais. O autor não viveu para ver a Justiça do Trabalho obrigar as empresas a indenizar funcionário por lavarem os uniformes graciosamente cedidos a estes, ou a pagar hora extra por deslocarem-se ao trabalho em coletivos oferecidos (sem custo) ao coitadinho do funcionário. Absurdos como este sucedem todos os dias. Com tamanhos despropósitos não surpreende que em 2016, o Brasil concentrou 98% das reclamações trabalhistas de todo o planeta com mais de 3,1 milhões casos (após a reforma trabalhista de 2018 houve uma redução inicial de 36% no número de processos, mas o Brasil ainda tem muito mais processos trabalhistas do que todo o resto do mundo somado). A postura de justiceiro social é na verdade desculpa para despudoradamente enriquecer magistrados e advogados. O custo da Justiça de Trabalho em 2017 foi de R$21,2 bilhões, gerando indenizações (a maioria injusta e inibindo negócios) de R$8.5 bilhões. Pior: a máquina brasileira de injustiça do trabalho acaba encarecendo os custos de produzir no Brasil. Estes custos maiores são repassados para os preços de todos os produtos e serviços que consumimos. Para piorar, quando o custo de produzir no Brasil fica mais alto do que o de trazer o mesmo produto do exterior, fábricas são fechadas aqui, seus trabalhadores são demitidos e o desemprego aumenta. Com desemprego alto, os salários caem. Em resumo, os direitos trabalhistas que supostamente protegeriam os trabalhadores coitadinhos acabam gerando preços mais altos, desemprego maior e salários mais baixos.

  • O ‘coitadismo’ justiceiro social praticado pelos soretes togados extrapola a área trabalhista: em 2016 mais de 500 mil beneficiados pelo auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez por ordem da justiça após ter o direito negado pelos peritos (meio milhão de vagabundos vivendo à custa de quem trabalha). E o sistema judiciário vira cúmplice assassino com a bandidolatria vigente, mais preocupada em deixar livres bandidos reincidentes (que veem como coitadinhos injustiçados sociais) do que com suas vítimas inocentes (Bandidolatria e Democídio de Diego Pesi e Leonardo Giardin de Souza).

  • A prática do ‘coitadismo’ também desvirtua o papel dos sindicatos. No Brasil tornaram-se verdadeiros negócios mais voltados ao embate político revolucionário que aos anseios dos trabalhadores. Em 2017 o país somava 17.288 sindicatos (15 mil criados na era do PT), correspondentes a mais de 90% de todos os sindicatos no mundo – nos EUA, segundo maior número de sindicatos, são 191 entidades, Reino Unido, berço das lutas trabalhistas, 152 e na Dinamarca 18. O valor de uma “carta sindical”, espécie de certidão de nascimento de entidade, custava no “mercado” (leia-se funcionários do então Ministério do Trabalho) entre R$200 mil a R$4 milhões em propina. Virou negócio rentável: os 17 mil sindicatos brasileiros rateavam R$3 bilhões do “imposto sindical” extraído do salário dos trabalhadores – uma obrigatoriedade extinta em 2018 que os políticos tentar reimpor sobre os trabalhadores, afinal, quem cuidará dos coitadinhos senão os sindicatos.

  • Reforma Agrária nos anos 60 já era um tema antigo onde se equivocavam os bem-intencionados e lucravam os oportunistas e demagogos de sempre – um espantalho que volta e meia reacende as labaredas da justiça social e termina nas cinzas do fracasso. A ineficiência dos transportes prejudicava a vazão da produção agricola, desestimulando o empreendedorismo, e acelerando o êxodo do campo para as cidades. O contingente de miseráveis e subempregados urbanos virou pressa fácil dos demagogos e suas promessas de terra – e.g. os reformistas agrários em 1962 e 1963, fundaram a SUPRA (Superintendência da Reforma Agrária), que conseguiu criar 500 sindicatos rurais, mas nenhuma escola de ensino agrícola. No processo de redemocratização na década de 80 Xico Graziano, então no Incra, descobre que os famigerados latifúndios não passavam de fantasmas (O Carma da Terra de Xico Graziano). Fato é que os assentamentos da reforma agrária se dão em terras produtivas que acabam tornam-se menos produtivas. Também não há ‘sem terras’ e sim subempregados urbanos que buscam uma saída de sua penúria na posse de um pedaço de terra. Sem aptidão para plantar e administrar um empreendimento agrícola, os falsos ‘sem terras’ ilegalmente vendem ou arrendam sua terra (não sem antes também ilegalmente venderem madeira e implementos agrícolas financiados pelo governo), não pagam suas dívidas e terminam retornando às cidades ou trabalhando como boia-fria (Reforma Agrária: O Mito e a Realidade de Nelson Ramos Barretto). Atualmente mais de 10% do território nacional, e 21% das áreas agrícolas é ocupado por pouco mais de 1 milhão de famílias assentadas pela reforma agrária. Em 2016 o TCU apontou que 1 em cada 3 cadastros existentes no Incra eram irregulares – encontraram políticos, funcionários públicos, mortos e crianças. O prejuízo histórico da reforma agrária chegaria então a R$159 bilhões, fora a menor produção de alimentos, encarecendo-os para o povo.

  • Os índios ainda não haviam entrado no rol dos coitadinhos nos anos em que Emil Farhat escreveu este livro. Em 2017 as reservas indígenas correspondiam a 14% do território nacional onde se estimava viverem 517 mil índios – isso sim é latifúndio improdutivo. Apesar de viverem nas reservas que exploram ilegalmente (principalmente madeira e garimpo), 64% desses índios recebem bolsa família e 46% recebem cesta básica – fora os milhões do Erário entregues as ONGs especializadas no ‘coitadismo’ indígena, e.g. em 2014 a ONG Missão Caiua, voltada exclusivamente aos índios, recebeu R$ 345 milhões enquanto a Santa Casa de Misericórdia em São Paulo recebia R$ 68 milhões no mesmo ano. Em 2003 criaram o coitadinho quilombola, que em 2017 já pleiteava 1% do território nacional num processo fraudulento e eivado por interesses escusos (A Revolução Quilombola de Nelson Ramos Barretto)

Se antes o ‘coitadismo’ dilatava-se numa população cujos valores restringem-se a satisfazer as necessidades corpóreas, hoje se potencializa ainda mais numa sociedade que prima pelo vitimismo.

Notas

  • Emil Farhat (1914-2000) nasceu em Maripá de Minas (MG), Brasil.

  • Jornalista, escritor e publicitário, alcançou a presidência da filial brasileira da McCann-Ericsson.

  • O País dos Coitadinhos foi publicado em 1968.

  • Outras obras destacadas: Educação, a nova ideologia (1975), O Paraíso do Vira-Bosta (1987) e Memórias Ouvidas e Vividas (1999).

  • Muitas reservas indígenas são fraudes arquitetas por interesses políticos e internacionais (A Farsa Ianomâmi de Carlos Alberto Lima Menna Barreto).

  • O autor lista o que considera as funções do Estado: atender os problemas da Educação em todos os graus, saúde pública, segurança interna e externa, códigos e leis que regulem a vida econômico-social, justiça de todos os graus e tipos, estradas e vias fluviais, portos, correios, finanças e recenseamentos nacionais, urbanismo, defesa florestal, trânsito, acumulação e depósitos de água doce, poluição da atmosfera e dos rios, prevenção e assistência contra as hecatombes, assistência social à invalidez, ao desemprego e à velhice, e os programas nacionais de habitação para as classes menos favorecidas. Mesmo esta lista é exagerada e estatizante.

  • Farhat chama de “ricos fedorentos” os empreendedores que se associam aos políticos, independentemente do viés ideológico, para obter vantagens em detrimento do povo, seja prestando serviços e realizando obras superfaturadas, coibindo o desenvolvimento da concorrência local ou externa, obtendo vantagens fiscais indevidas, conseguindo financiamentos à custa do Erário, recebendo informações antecipadamente ao restante da sociedade, obtendo pareceres favoráveis na Justiça mesmo que contra as leis, acelerando processos burocráticos, e tantas outras formas de obter vantagem em troca de propina.

  • Entre 2003 e 2014 o Ministério do Desenvolvimento Agrário repassou R$2,75 bi para 1.424 ONGs e mais R$1,98 bi via a CEF para outros 8.303 convênios. Em 2003 já havia sido exposto a dinheirama ilegalmente repassada para o MST. Dinheiro de impostos pagos pela ‘burguesia’ para, repassados aos ‘movimentos sociais’ combater a ‘burguesia’ – de fato, dinheiro do povo extraviado para demagogos e seus cumplices.

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