O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald
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"Can't repeat the past? Why of course you can!” – Jay Gatsby, epitáfio da tragédia da personagem
Personagens Principais
Jay Gatsby – milionário, pouco mais de 30 anos
Nick Carraway – narrador, primo de Daisy e vizinho de Gatsby
Daisy Buchanan – grande amor de Gatsby
Tom Buchanan – marido de Daisy, rico e arrogante
Personagens Secundárias
Jordan Baker – golfista profissional, amiga de Daisy, independente e cínica
Myrtle Wilson – amante de Tom Buchanan, casada com George Wilson
George Wilson – marido de Myrtle, proprietário de uma oficina mecânica
Meyer Wolfsheim – associado de Gatsby
Catherine – irmã de Myrtle, frequenta os encontros de Myrtle e Tom
Interpretação
Gatsby é exemplo de um erro humano fundamental: acreditar que pode fabricar a realidade de acordo com o seu desejo. Ele transforma sua própria identidade, acumula uma fortuna e constrói uma espécie de cenário teatral – a mansão, as festas, os automóveis, a posição social – para recuperar Daisy.
Mas há uma diferença entre possuir meios e possuir aquilo que realmente se deseja. Gatsby consegue praticamente tudo o que a sociedade pode considerar sinais de sucesso, mas não consegue obter aquilo que deseja porque seu desejo está voltado para uma imagem idealizada do passado – não basta desejar intensamente alguma coisa para que ela seja um bem verdadeiro.
O homem virtuoso ordena seus desejos segundo fins objetivos, Gatsby, ao contrário, transforma um desejo subjetivo em uma espécie de absoluto – ele passa a viver para realizar uma imagem mental. Gatsby conseguiu criar o futuro que imaginou, mas não conseguiu criar o passado que desejava.
O homem moderno pretende dominar o tempo, reconstruir o passado e fabricar o futuro. Mas a realidade possui uma estrutura que não se submete inteiramente ao desejo humano. Gatsby quer abolir a contingência, quer transformar “isso aconteceu” em “isso acontecerá novamente porque eu quero que aconteça.” Sua tragédia começa justamente aí.
Gatsby é uma espécie de herói trágico porque existe nele uma capacidade genuína de desejar algo absolutamente elevado, mesmo que ele escolha um objeto indigno desse desejo – há algo grande em sua capacidade de amar, mas essa grandeza é aplicada a um sonho que não pode ser realizado. Ele é uma figura quase messiânica, construída pelo próprio ego, cuja missão acaba reduzida à perseguição de uma aparência.
A grandeza e o pathos de Gatsby estão no fato de que sua enorme vitalidade, ambição e capacidade criadora são dedicadas a uma beleza “vasta, vulgar e meretrícia”, indigna da emoção que ele nela deposita – Gatzby não encontra uma realidade suficientemente elevada para receber esse sonho.
De fato, Gatsby não ama propriamente Daisy Buchanan, ele ama o ideal que criou através dela – Daisy é o recipiente de uma fantasia. O Grande Gatsby é a tragédia do homem que continua avançando em direção a um futuro idealizado enquanto é continuamente arrastado de volta à realidade.
Pode-se ler o romance como uma parábola da própria América: Gatsby e a América possuem a mesma estrutura espiritual. Gatsby é um homem que se inventa a partir de uma concepção ideal de si mesmo. James Gatz não aceita a realidade que recebeu: cria um novo “eu” – Jay Gatsby – e procura transformar esse ideal em realidade. Simbolicamente poderia-se pensar na própria nação americana: assim como Gatsby nasce de uma “concepção platônica de si mesmo” – Gatsby e a América são divididos entre poder e sonho.A América possui uma enorme capacidade de realização prática: dinheiro, indústria, mobilidade social, conquista material, poder econômico. Mas simultaneamente conserva o sonho romântico dos Founding Fathers, uma aspiração a algo absoluto.
Gatsby possui exatamente essa combinação. Ele acumula dinheiro, organiza festas gigantescas e constrói uma identidade social impressionante – mas tudo isso é colocado a serviço de um sonho essencialmente romântico: Daisy.
Gatsby é a América porque ambos possuem uma extraordinária capacidade de realizar coisas no mundo, mas também uma capacidade igualmente extraordinária de sonhar com algo que transcende aquilo que o poder material pode proporcionar.
O dinheiro é uma manifestação do poder americano, mas o problema espiritual aparece quando esse poder material passa a ser utilizado para realizar desejos que deveriam exigir uma transformação moral muito mais profunda.
O livro retrata especificamente os Estados Unidos dos anos 1920, mas não fica preso a essa época. Fitzgerald conseguiu transformar uma circunstância histórica particular em uma verdade moral sobre a existência americana.
Para Fitzgerald, “A Era do Jazz” (The Jazz Age) não é o nome de um período musical, mas uma expressão que resume o espírito cultural e moral dos Estados Unidos dos anos 1920 – justamente o mundo que aparece em O Grande Gatsby. Fitzgerald popularizou a expressão, sobretudo no ensaio autobiográfico Echoes of the Jazz Age (1931), no qual olha retrospectivamente para a década passada (a Grande Depressão de 1929 destruiu a imagem de prosperidade ilimitada dos anos 1920).
O jazz rompe padrões de harmonia tonal clássicos, sendo comum o emprego de notas que poderia soar equivocadas: notas cromáticas, blue notes, acordes com sétimas, nonas, décimas primeiras e décimas terceiras, substituições harmônicas, dissonâncias, ritmo sincopado e alterações de acordes – abandona o vínculo à partitura, entregado-se a improvisação.
Depois da Primeira Guerra Mundial, uma geração queria esquecer o conflito e viver intensamente. O jazz tornou-se a trilha sonora dessa atitude decadente. A liberdade musical do jazz era uma alegoria das pulsões que agitavam a sociedade: ruptura com os costumes tradicionais, liberdade sexual e social, culto ao prazer e à diversão, valorização da juventude, consumo ostensivo, festas, álcool e vida noturna, despreocupação com o futuro, e o desejo de experimentar intensamente o presente.
Fitzgerald participava daquela cultura e conhecia intimamente seus prazeres, mas também percebia seu caráter vazio e autodestrutivo. A Era do Jazz tinha uma espécie de paradoxo: quanto maior a liberdade exterior, maior podia ser o vazio interior.
As pessoas tinham dinheiro, automóveis, festas, novas liberdades sexuais e novas formas de entretenimento. Mas isso não significava que tivessem encontrado um propósito para suas vidas – é essa tensão que está no centro de O Grande Gatsby, Fitzgerald é um escritor da crise espiritual americana.
A crítica de Fitzgerald é clara: uma sociedade pode possuir enorme riqueza e liberdade e, simultaneamente, perder o sentido da responsabilidade moral. Ocorria uma mudança perniciosa no conceito de liberdade: de livre para governar a si mesmo (domínio das pulsões) para livre para realizar meus desejos (liberar as pulsões) – de “liberdade como autogoverno” para a “liberdade como autoexpressão”.
América imaginada pelos Founding Fathers estava associada a valores como: autogoverno, responsabilidade individual, virtude cívica, sobriedade, família, propriedade, religião, disciplina pessoal, e desconfiança diante do luxo e da corrupção moral. Nos anos 1920, aqueles valores esmoreciam, em parte substituídos pela liberdade para experimentar, consumir, divertir-se, amar, dançar, beber e romper convenções. É neste contexto que o jazz se torna uma alegoria representativa do período.
Notas
F. Scott Fitzgerald (1896-1940) nasceu em St. Paul, Minnesota, EUA.
Escritor cujos romances e contos registraram as mudanças nas atitudes sociais durante a década de 1920, período batizado pelo autor como a “Era do Jazz”. Ele é relevante porque experimentou o fracasso por dentro e conseguiu transformá-lo em literatura.
Fitzgerald e sua esposa (Zelda) tornaram-se símbolo da vida sofisticada e extravagante dos anos 1920, vivendo entre os Estados Unidos e a Europa – uma relação tão intensa quanto turbulenta, terminando em insanidade, falência, alcoolismo e morte.
Fitzgerald se destaca pela habilidade em retratar a distância entre os sonhos humanos e a realidade. Seus trabalhos mais relevantes, além de O Grande Gatsby, são o romance Suave é a noite (1934), e os contos Babylon Revisited (1931). The Rich Boy (1926), Winter Dreams (1922), The Curious Case of Benjamin Button (1922), e The Diamond as Big as the Ritz (1922).
O Grande Gatsby, publicado em 1925, é considerado sua obra-prima.
A narrativa do romance se desenvolve no verão de 1922.
A riqueza nunca é em si um mal. O problema seria quando os bens econômicos passam a funcionar como medida suprema do valor humano. A ordem social saudável não pode ser fundada apenas na posse, na força ou no prestígio. Ela precisa estar subordinada a uma ordem de valores.
O jazz representa simbolicamente para a América, o que A Sagração da Primavera de Igor Stravinsky representou para a Europa na queda de valores observada antes da I Grande Guerra.


