Moby Dick de Herman Melville



Personagens Principais Ismael – tripulante do Pequod, observador cínico, narrador da história Acab – capitão do Pequod Starbuck – primeiro piloto do Pequod, natural da Nova Inglaterra, quacker


Personagens Secundárias Stubb – segundo piloto do Pequod, natural da Nova Inglaterra Flask – terceiro piloto do Pequod, natural da Nova Inglaterra Peleg e Bildad – armadores do Pequod Padre Mapple – pároco em New Bedford que faz o sermão sobre Jonas Queequeg, Tashtego e Daggoo – arpoadores selvagens do Pequod Peter Coffin – proprietário do Sprouter-Inn em New Bedford Elias – estranho enlouquecido que faz profecias a Ismael Pip (Pippin) – tripulante negro do Alabama que enlouquece na caçada Fedallah – tripulante sinistro suspeito de conexões diabólicas Perth – ferreiro a bordo do Pequod Fleece – cozinheiro a bordo do Pequod

Interpretação “Ego non baptizo te in nomine patris, sed in nomine diaboli!” – Acab batizando a lança com a qual quer matar a condição humana


Moby Dick é uma história metafísica, o protagonista é a própria condição humana.

Ismael bíblico é rejeitado pelo pai sem que nada tenham feito de errado. Assim é nossa existência terrena, ora somos aceito, ora rejeitados sem que haja uma razão ou explicação para isso. O Ismael de Moby Dick é este órfão (de pai) que vaga pelo mundo com um olhar cínico e distante a procura de algo (quer entender o que está acontecendo), ampliando seu horizonte de consciência. Ele está numa posição única para narrar a história.


O pior crime que o filho aceito pode praticar é rebelar-se contra o pai, como fez, por exemplo, o Rei Ahab, casado com Jezebel, que cultuou Baal. O capitão Ahab também pratica cerimônia satânica para forjar um arpão contra Moby Dick, batizando-o “não em nome do Pai, mas em nome do diabo!”


Capitão Ahab é um rebelado metafísico (“Quem esta acima de mim?”), revoltado com sua condição humana. Gnóstico e soberbo, ele quer destruir sua precariedade humana, quer dominar aquilo que ele não entende (“Essa coisa inescrutável é o que mais odeio, seja a baleia branca o agente, seja a baleia branca o principal, descarregarei meu ódio sobre ela... eu lutaria contra o sol, se ele me insultasse.”). Elijah (como o profeta que alerta o Rei Ahab), ainda em terra, e depois Starbuck, em mar, tentam evitar o desastre, mas não têm forças e são derrotados.


É a luta do homem que não se aceita como criatura e busca destruir sua própria condição humana, e cujo destino só pode ser mesmo transformar-se em nulidade sem forma (engolido pelas águas). A humanidade, inspirada pelo diabo, que caminha para o abismo da hübrys – a soberba humana levada ao extremo e suas funestas consequências.


O Pequod simboliza a humanidade decaída depois do pecado original que será dirigida pela divisão (Peleg) e a discórdia (Bildad), e guiado pela soberba (Acab) até ser engolido pelo mar (transformando a humanidade em nulidade sem forma – perda da causa formal, da qualidade).


No final, Raquel resgata o órfão agarrado ao resquício de cristianismo representado pelo caixão de Queequeg (o mínimo de espiritualidade para escapar daquele processo) e tudo recomeçará (“... como rolava há cinco mil anos.”). As civilizações se sucedem e a condição humana é imutável.



Notas

  • Herman Melville (1819-1891) nasceu em New York, EUA. Morreu empobrecido e esquecido do público.

  • Moby Dick é publicado em 1851 e é considerado o maior romance das Américas (apesar de desprezado quando da sua publicação). O artigo publicado em jornal Mocha Dick or the White Whale (1839) foi a primeira fonte de inspiração para o romance.

  • Outras obras: Bartleby, o Escriturário (novela – 1853), The Piazza Tales (contos – 1856) e Billy Budd (1924 – póstumo).

  • Significado dos nomes: Pequod: então já extinta tribo indígena da Nova Inglaterra. Os donos do barco são Divisão e Discórdia. Acab: rei de Israel (cerca de 850 a.C.), casado com Jezebel. Deu trabalho a Deus, segundo o Velho Testamento. Morre na guerra com o rei de Damasco. Ismael: primeiro filho de Abraão com a escrava Agar. É repudiado pelo pai e irá vagar pelo deserto, fundando o povo árabe. Rejeitado pelo pai, está fora do processo e pode olhá-lo com cinismo, ou ressentimento. Peleg: divisão, um dos filhos de Eber. Bildad: filho da Discórdia, um dos filhos de Jó. Padre Mapple: Mapple Tree, é a árvore nacional do Canadá, bordo em português. Dela se extrai xarope muito calórico. Coffins: caixão, esquife. Elias: profeta bíblico que censurava Acab e Jezebel de instalar o culto a Baal em Israel. Pip (Pippin): colosso (com certa ironia), o nome também aparece no Senhor dos Anéis e Great Expectations. Fedalás: indianos da seita parse, zoroastristas, também chamados adoradores do fogo. Raquel (embarcação): irmã de Lia e filha de Jacó – mãe dos filhos das tribos perdidas.

  • Moby Dick não pode morrer, pois a condição humana é imutável.

  • A cor branca (ausência de cor) simboliza transição, candidato a algo, em transição de um estado a outro (e.g. noiva de uma família para outra). A condição humana é a transição da vida para a morte. O soberbo, o homem moderno, vê a morte como um mal e não uma transição. Acab que derrotar a condição humana, sua mortalidade.

  • Segundo correspondência de Melville a Hawthorne a declaração de batismo é a chave do livro.

  • Entre as interpretações equivocadas da obra despontam (1) o embate do homem contra os elementos, destruindo a si próprio, e (2) a luta do bem (Acab) contra o mal (Moby Dick).

  • Os existencialistas admiram Ismael e seus comentários sobre a condição humana – a vida vista com certa absurdidade.

  • O número três (3) aparece inúmeras vezes na narrativa. Sentido de completude cósmica do Homem entre o Céu e a Terra – a condição humana.

  • Soneto (29) de Luís de Camões: Jacó e Raquel Sete anos de pastor Jacó servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prêmio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe deu a Lia. Vendo o triste pastor que com enganos Assim lhe era negada a sua pastora, Como se não a tivera merecida; Começou a servir outros sete anos, Dizendo: Mais servira, se não fora, Para tão longo amor, tão curta a vida.

  • Ismael (rejeitado) e Isaac (aceito) – dupla que representa a condição humana. Ismael vai fundar o povo árabe (potencial de revolta contra o favorecido). Isaac fez o pacto com Deus (o judeu errante nega o presente recebido e vai ser a fonte do maiores componentes diabólicos) – Acab (rei Judeu) rejeita o pacto com Deus.

  • Toda a rejeição obriga a subir mais um degrau de consciência – entender porque isso aconteceu. De alguma forma Deus o quis naquela posição.

  • Moby Dick é a tragédia da humanidade incapaz de entende sua própria condição e marcha para seu desastre.

  • Na obra Leviatã aparece como sendo as forças naturais incompreensíveis e terríveis que se bate contra Behemoth representado pela rebelião de Acab – os monstros aparecem aqui invertidos em comparação ao Livro de Jó.

  • Albert Camus considera Moby Dick como a obra que melhor representa a condição humana – homem incapaz de vencer a batalha da vida, sempre um náufrago resistindo por um fio, condição absurda (sentido existencialista). Não está errado, mas as soluções propostas por Camus são nefastas.