Limite (1931)


Há poucas razões para justificar a mística do filme Limite (1931), dirigido por Mário Peixoto, e eleito por parte da nossa crítica especializada como o melhor filme brasileiro de todos os tempos. As principais justificativas elencadas para tal título estão fora da tela, para começar, Limite foi considerado o primeiro filme de vanguarda realizado no Brasil. De fato o tema e a técnica apresentados eram diferentes do que a audiência estava acostumada a ver. Tanto que o filme nunca chegou ao circuito comercial, ficando restrito a sessões privadas e cineclubes. Quase perdido em 1959, Limite foi resgatado em longo processo de restauração para voltar aos cineclubes em 1978. Sua mítica foi também fomentada por seu suposto reconhecimento por diretores geniais. Orson Wells teria elogiado o filme em uma sessão privada quando esteve por aqui em 1942 filmando o documentário inacabado It’s All True. Dizia-se que Sergei Eisenstein também elogiara o filme em artigo (A Film from South America) escrito para a revista inglesa Tatler. Mas ao menos este último foi desmentido pelo próprio Mário Peixoto ao confessar ter sido ele o autor do artigo e propagador da lenda. E, finalmente, a vida o próprio diretor ajudou a criar a fama de Limite, seu primeiro e único filme. Com recursos próprios, era de família abastada, ele realizou o sonho de todo cineasta: contar sua história sem nenhuma restrição. Mário Peixoto morreu em 1992 sem nunca mais completar um filme. Chegou aos 83 anos sem nunca trabalhar e morreu na miséria depois de delapidar sua herança.

Mas há justificativas no próprio filme para seu reconhecimento superlativo? É verdade que o alemão Edgar Brazil emprestou uma técnica excepcional ao manejar a câmera para o jovem diretor. E Mário Peixoto, educado na Europa, aprendeu as lições sobre linguagem cinematográfica com o cinema alemão e russo daqueles tempos. E foi também da Europa que Peixoto trouxe a temática existencialista do filme. Três indivíduos desesperançados a deriva num bote representando simbolicamente a falta de escapatória de uma existência infeliz revelada em flashbacks: uma fugitiva da prisão e agora “presa” num trabalho que não lhe agrada, outra mulher infeliz no casamento com um pobre coitado, e um homem que descobre que sua amante casada tem lepra.

Aí esta o maior defeito de Limite, mostrar a humanidade impotente e entregue diante das adversidades que a vida lhe impõe. Tivesse denunciado o buraco existencial ao qual o humanismo tenta empurrar o homem, Limite mereceria seu título de melhor filme nacional. Mas ao somar-se, mesmo que inadvertidamente, a tentativa de limitar-nos para fácil absorção por uma futura doutrinação, o filme de Peixoto sobrevive apenas como um dos precursores na importação das então novas tendências cinematográficas europeias. E isso é muito pouco para justificar tal título, mesmo no nosso paupérrimo cinema nacional.


Filme Nota 3 (escala de 1 a 5)

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