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Laquete de Platão

  • Foto do escritor: Cultura Animi
    Cultura Animi
  • 29 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Sou de opinião […] que nós quatro precisamos procurar, cada um para si mesmo, com o maior empenho, o melhor professor possível. […] O que não aconselho é ficarmos como estamos. – Sócrates enfatiza a busca incessante pelo saber (201a-201b)


Personagens Sócrates – filósofo Nicias e Laquete – generais atenienses Lisímaco e Melésias – pais buscando conselho para educação dos filhos



Preocupados com a educação de seus filhos. Lisímaco e Melésias indagam se a prática da hoplomaquia os ajudaria a “virem a ser homens de verdade”. A discussão encaminha-se para a melhor maneira de cultivar a alma dos jovens visando serem homens o mais excelente possível. Já que qualquer prática educativa, como a hoplomaquia, só é valiosa se contribuir para a virtude, e como definir a virtude inteira seria demasiado amplo, Sócrates sugere começar a discussão por uma parte dela que parece mais relacionada à hoplomaquia: a coragem (andreía).


Dirigidas pelas indagações de Sócrates as personagens formulam as seguintes definições de coragem, sendo todas refutadas:


Laquete: “homem de coragem é o que decide a não abandonar seu posto no campo de batalha” – refutada tanto militarmente (e.g. retirada estratégica) como pelo fato de buscarem a definição de coragem para enfrentar todas as vicissitudes da vida (e.g. doença, pobreza)


Laquete: “coragem é a perseverança da alma unida a razão” – refutada pelo fato de nem toda perseverança ser corajosa, sendo prejudicial a perseverança tola ou imprudente.


Nicias: “coragem é uma forma de conhecimento do que inspira medo ou confiança, tanto na guerra como em tudo o mais” (conhecimento do bem e do mal futuro) – refutada posto que isso tornaria a coragem equivalente ao conhecimento total da virtude, sendo que antes concordaram que coragem é apenas uma parte da virtude.


A contradição da definição de Nicias faz com que a discussão termine em aporia.


Como em outros diálogos socráticos iniciais (diálogos aporéticos), Laquete não visa fornecer uma definição definitiva de uma virtude isolada (como a coragem neste caso), mas revelar a busca socrática pela essência da virtude como um todo unificado.


O impasse final (aporia) é uma demonstração intencional da limitação do conhecimento comum e da necessidade de uma investigação mais profunda. A coragem não pode ser definida isoladamente sem referência à sabedoria (phronesis) e à virtude integral (areté).


O diálogo aponta para a ideia platônica (desenvolvida mais plenamente no período mediano do filósofo) de que as virtudes não são partes separadas, mas aspectos de um conhecimento único do Bem. A definição de Nicias (coragem como conhecimento do temível e do esperançoso) antecipa isso, mas leva à contradição ao mostrar que coragem seria então equivalente à virtude total.


Laquete é uma introdução à problemática platônica da verdade do ser na vida humana, onde a coragem não é mero instinto, mas está ligada ao conhecimento e à realidade eterna das Ideias. Para Platão, as virtudes não são compartimentos isolados, mas aspectos interconectados de uma excelência integral da alma, guiada pelo conhecimento do Bem – a verdadeira virtude é una e leva à eudaimonia (felicidade), sendo a filosofia o caminho para acessá-la.



No diálogo A República, Platão modera e enriquece a doutrina da unidade das virtudes ao introduzir a tripartição da alma (racional, irascível/espírito, apetitiva) e da cidade ideal.


As quatro virtudes cardeais correspondem às partes da alma e classes sociais:


(a) Sabedoria: parte racional (governantes-filósofos);

(b) Coragem: parte irascível (guardiões/guerreiros);

(c) Temperança: harmonia entre partes, com domínio do apetite; e

(d) Justiça: ordem geral, cada parte fazendo sua função ("cada um no seu lugar").


Aqui, as virtudes são distintas (partes de um todo harmônico), mas unidas pela justiça, que orquestra o conjunto. O conhecimento (do Bem via Ideias) permanece necessário, mas não suficiente sozinho — há conflito psíquico, e a virtude plena requer harmonia entre razão, espírito e apetites. Não se tem uma virtude perfeita sem as outras; virtudes imperfeitas podem existir em almas/cidades degeneradas.





Notas


  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • Laquete, da coragem é diálogo legítimo (gênero maiêutico), do período socrático (forma dramática platônica com conteúdo socrático).

  • O diálogo ilustra a ironia e a maiêutica de Sócrates: os interlocutores (especialistas em coragem prática) reconhecem sua ignorância, abrindo caminho para a filosofia como exame da vida.

  • Generais atenienses discutindo educação e coragem – reflexo da realidade pós-guerra do Peloponeso, onde a coragem militar tradicional é questionada em favor de uma coragem ética e racional da alma.

  • Hoplomaquia =arte de lutar com armadura pesada, combate simulado para treinamento militar.

  • Lisímaco e Melésias dizem não querer errar como a maioria dos pais que “deixam os filhos viver como bem entendem”. Aqui o diálogo escrito no século IV a.C. soa atualíssimo.

  • São Tomás de Aquino (1225-1274) define a Fortaleza (fortitude – equivalente à Coragem) como a virtude que firma a parte irascível da alma para enfrentar os maiores perigos (especialmente a morte) em defesa do Bem.

©2019 by Cultura Animi

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