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La Crise de la Certitude de Albert Farges

há 41 minutos
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“La Certitude dont nous entreprenons la défense, n'est pas une Certitude purement subjective, c'est-à-dire un simple état de conscience, une disposition purement affective du sujet pensant, qui croit sans aucun doute posséder une vérité.” – Albert Farges



O autor procura responder a uma questão fundamental da filosofia: é possível ao homem alcançar certezas objetivas sobre a realidade? Sua resposta é afirmativa. O livro constitui uma defesa sistemática do realismo epistemológico de matriz aristotélico-tomista, segundo o qual a inteligência humana é naturalmente ordenada à verdade e pode, mediante seus diversos instrumentos cognitivos, alcançar o ser das coisas, ainda que de modos e com graus de certeza diferentes.


O ponto de partida de Farges é a distinção entre certeza subjetiva e certeza objetiva. Uma pessoa pode estar psicologicamente convencida de algo e, contudo, estar enganada. A verdadeira certeza não consiste simplesmente na intensidade da convicção, mas na existência de um fundamento objetivo que justifique o assentimento. Por isso, Farges combate o ceticismo e todas as doutrinas que transformam a verdade em algo dependente exclusivamente do sujeito. Para ele, os sentidos, a consciência, a inteligência, o raciocínio e o testemunho constituem diferentes vias pelas quais o homem entra em contato com a realidade.


A primeira dessas vias é a experiência sensível. Farges rejeita a ideia de que os erros ocasionais dos sentidos invalidem o conhecimento sensível em geral. Os sentidos podem enganar quando funcionam em condições inadequadas, mas isso não significa que sejam essencialmente enganadores. A consciência, por sua vez, fornece uma certeza imediata acerca dos estados presentes do sujeito, enquanto a memória permite conservar e recuperar conhecimentos anteriormente adquiridos. Assim, o conhecimento não começa com uma dúvida absoluta sobre a existência do mundo exterior, mas com uma relação efetiva entre sujeito cognoscente e realidade.


Em seguida, Farges analisa a inteligência e a formação das ideias universais. O homem não conhece apenas imagens particulares, sua inteligência é capaz de abstrair conceitos gerais a partir da experiência. Essa capacidade de abstração é essencial para explicar como podemos conhecer, por exemplo, não apenas determinado homem, mas o conceito universal de “homem”. Farges rejeita tanto o sensualismo, que reduz as ideias às imagens ou sensações, quanto o nominalismo, que considera os universais meros nomes. Também critica concepções que fazem das ideias algo exclusivamente inato ou produzido pelas estruturas subjetivas do espírito.


O passo seguinte é o juízo, pois conhecer conceitos não basta: é necessário afirmar ou negar alguma coisa acerca da realidade. É no juízo que o intelecto se compromete diretamente com a verdade. Farges examina os juízos necessários e analisa problemas como causalidade e necessidade. Nesse contexto, critica a tentativa de explicar a necessidade racional como simples resultado de hábitos psicológicos ou generalizações empíricas. A repetição de determinados fenômenos não explica, por si só, por que a inteligência reconhece relações necessárias.


A análise passa então ao raciocínio, especialmente à relação entre dedução e indução. A dedução permite extrair conclusões a partir de princípios, enquanto a indução conduz da experiência particular a conhecimentos mais gerais. Para Farges, ambos os procedimentos são indispensáveis e complementares. Ele rejeita explicações associacionistas segundo as quais o pensamento racional seria apenas uma combinação de imagens, hábitos ou associações psicológicas. Uma associação de imagens não consegue explicar o caráter necessário de uma demonstração lógica.


Outro importante instrumento do conhecimento é o testemunho humano. Grande parte daquilo que qualquer pessoa sabe não foi diretamente observado por ela, mas recebido de outros. História, geografia, ciência, acontecimentos políticos e inúmeras experiências cotidianas dependem do testemunho. O autor, portanto, rejeita tanto a aceitação ingênua de qualquer testemunho quanto sua rejeição sistemática. A validade do testemunho depende da análise de fatores como autenticidade dos documentos, integridade, competência e veracidade das testemunhas, convergência dos relatos e autoridade dos especialistas. O conhecimento humano é, assim, necessariamente também um conhecimento social e histórico.


A partir daí, Farges chega ao testemunho divino, isto é, à questão da revelação. Ele sustenta que razão e fé não são inimigas. A razão possui seu próprio campo de atuação, mas existem verdades que ultrapassam sua capacidade demonstrativa. Isso não significa irracionalidade: a razão pode examinar os fundamentos que tornam legítimo aceitar uma revelação. Farges procura, portanto, preservar simultaneamente a autonomia da razão e a possibilidade da fé, rejeitando tanto o racionalismo que pretende reduzir tudo à demonstração filosófica quanto o fideísmo que considera a fé independente de qualquer fundamento racional.


Farges então examina diferentes tentativas de estabelecer a certeza sobre fundamentos extrínsecos. Ele discute posições associadas ao fideísmo e ao tradicionalismo, nas quais a autoridade, a tradição ou a transmissão social da verdade assumem papel fundamental. Farges reconhece a importância desses elementos, mas sustenta que eles não podem constituir o fundamento último da certeza. Uma tradição ou uma autoridade pode transmitir uma verdade, mas é preciso explicar por que essa autoridade é digna de crédito. Do mesmo modo, a utilidade prática de uma crença ou seu sucesso psicológico não constitui prova suficiente de sua verdade.


Em seguida, examina as tentativas de fundamentar a certeza em critérios intrínsecos puramente subjetivos ou psicológicos. O positivismo, certas formas de psicologismo e algumas modalidades do racionalismo são submetidos à crítica. Farges considera insuficiente identificar certeza com determinado estado psicológico de convicção, pois alguém pode estar profundamente convencido de algo falso. Tampouco basta a coerência interna de um sistema de ideias: uma construção intelectual pode ser logicamente coerente e ainda assim não corresponder à realidade.


Daí surge a tese central de toda a obra: o fundamento supremo da certeza é a evidência objetiva. A evidência ocorre quando o objeto se apresenta ao intelecto de tal maneira que o conhecimento se torna racionalmente justificado. Ela envolve, portanto, uma relação entre objeto, sujeito cognoscente e ato de conhecimento. Não se trata simplesmente de um sentimento de clareza, mas da manifestação inteligível da verdade ao espírito.


Farges também procura mostrar que não é necessário demonstrar absolutamente tudo por meio de uma demonstração anterior. Se cada certeza dependesse de outra certeza demonstrada anteriormente, teríamos uma regressão infinita e jamais alcançaríamos conhecimento algum. Existem, portanto, verdades primeiras ou evidências fundamentais que não são demonstradas por outras proposições, mas constituem justamente o ponto de partida das demonstrações posteriores. Nesse sentido, a evidência não é uma deficiência da filosofia: é a condição de possibilidade de qualquer demonstração.


A análise da dúvida metódica ocupa outro momento importante da obra. Farges distingue a dúvida utilizada como instrumento de investigação da dúvida cética absoluta. A primeira pode ser útil para evitar preconceitos e verificar cuidadosamente os fundamentos de uma afirmação. A segunda, entretanto, destruiria a própria possibilidade de conhecimento. Ele considera que a dúvida metódica pode ter uma função pedagógica ou metodológica, mas não pode constituir o fundamento último da certeza. Toda demonstração precisa partir de algum conhecimento já suficientemente seguro.


Por fim, Farges examina a diversidade dos métodos e dos graus de certeza. Não existe apenas uma forma de certeza. A matemática possui características próprias; as ciências experimentais trabalham com observação, hipótese e verificação; as ciências morais utilizam elementos históricos, psicológicos e testemunhais. A certeza científica pode, portanto, assumir modalidades diferentes conforme o objeto estudado e o método empregado. Isso não significa relativismo: significa que a certeza deve ser adequada à natureza do objeto.


O resultado geral da obra é uma defesa da possibilidade do conhecimento objetivo da realidade contra as diversas formas modernas de ceticismo, subjetivismo, positivismo, relativismo, psicologismo, racionalismo excessivo, fideísmo e tradicionalismo. Farges não afirma que o homem conhece tudo nem que todos os conhecimentos possuem o mesmo grau de certeza. Sua tese é mais precisa: a limitação do conhecimento humano não implica sua incapacidade de alcançar a verdade.


Assim, a estrutura profunda de La crise de la certitude pode ser resumida em uma sequência: os sentidos fornecem dados da realidade; a inteligência os apreende e abstrai conceitos; o juízo afirma ou nega algo sobre o ser; o raciocínio desenvolve e demonstra consequências; o testemunho permite ampliar enormemente o campo do conhecimento; a evidência fornece o fundamento objetivo do assentimento; e a razão, reconhecendo seus próprios limites, pode também compreender racionalmente a possibilidade da fé e da revelação.


A verdade não é criada pelo sujeito, nem reduzida àquilo que é útil, psicológico ou convencional. O intelecto humano pode conhecer a realidade porque existe uma correspondência fundamental entre a inteligência e o ser. A chamada “crise da certeza” seria, nesse sentido, menos uma demonstração da impossibilidade de conhecer e mais uma crise das concepções filosóficas que romperam a confiança na capacidade natural da razão de alcançar a realidade.


Em última análise, o livro procura restaurar uma confiança racional no conhecimento: não uma confiança ingênua, que ignore erros e limitações, mas uma confiança crítica fundada na distinção entre os diferentes instrumentos, métodos e graus de certeza. É essa concepção que permite a Farges defender simultaneamente a ciência, a filosofia e a fé, sem reduzir nenhuma delas às outras.





Notas


  • Albert Farges (1848-1926) nasceu em Beaulieu, França.

  • Padre, filósofo e teólogo francês, ligado à Companhia de São Sulpício, e uma das figuras importantes do renascimento neotomista francês entre o final do século XIX e o início do século XX.

  • O centro de sua obra foi a restauração e divulgação da filosofia de Aristóteles e São Tomás de Aquino. Farges não pretendia simplesmente repetir os textos medievais: procurava mostrar que a metafísica escolástica poderia dialogar com as descobertas científicas contemporâneas.

  • Seu grande empreendimento foi a série Études philosophiques pour vulgariser les théories d'Aristote et de S. Thomas et montrer leur accord avec les sciences, publicada em nove volumes entre aproximadamente 1885 e 1907.

  • La Crise de la Certitude constitui o nono volume de suas Études philosophiques e foi publicado 1907.

  • Para Immanuel Kan1724-1804t conhecemos a realidade tal como ela aparece mediante as estruturas do sujeito. Porém conhecemos a realidade através de nossas faculdades, sendo que o objeto conhecido não é reduzido às estruturas do sujeito. Por isso, o kantismo é uma das raízes da crise da certeza moderna: ao colocar em dúvida a capacidade da inteligência de alcançar o ser, Kant criou dificuldades que o realismo tomista dispensa.

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