The Three Waves of Modernity de Leo Strauss

“O homem ocidental moderno já não sabe o que quer — já não acredita que possa saber o que é bom e mau, certo e errado.” – Leo Strauss diagnostica a crise existencial moderna
Leo Strauss, parte da ideia de que a crise contemporânea do Ocidente é, em seu núcleo, uma crise da filosofia política: o homem moderno deixou de acreditar que a razão pode determinar racionalmente o que é justo, bom ou melhor para a sociedade. Strauss procura compreender essa crise examinando a ruptura da modernidade com a filosofia política clássica e identificando três grandes etapas dessa transformação.
A primeira onda, iniciada por Maquiavel e desenvolvida sobretudo por Hobbes, rompe com a tradição clássica e cristã que entendia a política à luz de uma ordem natural ou divina e buscava o melhor regime como aquele que favorece a virtude. Maquiavel substitui a preocupação com aquilo que os homens deveriam ser pela análise de como eles efetivamente são e procura reduzir o papel da fortuna, tornando a política uma questão de técnica e de poder. Hobbes radicaliza essa transformação ao colocar a autopreservação no centro do direito natural, substituindo progressivamente a linguagem dos deveres e da lei natural pela dos direitos individuais. A política passa, assim, a ser concebida como um problema técnico que pode ser resolvido por instituições adequadas, sem depender da formação moral dos cidadãos.
Essa primeira onda é reforçada pela ciência natural moderna, especialmente pela rejeição das causas finais. A natureza deixa de ser vista como uma ordem dotada de fins próprios e passa a ser concebida como algo que o homem pode dominar e transformar. Conhecer já não significa simplesmente apreender uma ordem independente do homem, mas também produzir, controlar e transformar a realidade. Daí nasce o ideal moderno de conquista da natureza e a concepção da sociedade política como artefato humano.
A segunda onda, associada a Rousseau, surge como reação às consequências da primeira. Rousseau critica a redução da política à economia, ao comércio e à autopreservação e procura recuperar a importância da virtude. Entretanto, não consegue retornar à concepção clássica de virtude, porque conserva a ideia moderna do estado de natureza. Para Rousseau, o homem natural é anterior à racionalidade e à vida social, sua humanidade é produto de um processo histórico. Surge, assim, uma nova concepção da história como processo pelo qual o homem se torna aquilo que é, sem que esse desenvolvimento tenha sido previamente determinado por uma finalidade natural.
O conceito decisivo dessa segunda onda é o de vontade geral. Rousseau procura superar a separação entre o que é e o que deve ser fazendo da vontade geral, enquanto expressão da vontade comum racionalizada, o próprio critério da legitimidade. Essa ideia será posteriormente radicalizada por Kant e Hegel: a razão deixa de encontrar seus critérios na natureza e passa a fornecê-los por si mesma. O homem é, nesse sentido, libertado da tutela da natureza – a razão substitui a natureza como fundamento do dever. Em Hegel, essa concepção se combina com uma filosofia da história segundo a qual o processo histórico caminha racionalmente para sua realização.
A terceira onda, ligada a Nietzsche, nasce da crise dessa confiança na racionalidade da história. Nietzsche aceita a descoberta moderna de que os valores e princípios humanos possuem uma dimensão histórica, mas rejeita a esperança de Rousseau, Kant e Hegel de que a história conduza necessariamente ao progresso. Se todos os ideais são produtos de criações humanas historicamente situadas, nenhum deles pode reivindicar um fundamento objetivo simplesmente na natureza, em Deus ou na razão. A consequência é uma crise radical dos valores tradicionais e a possibilidade de uma “transvaloração de todos os valores”, mediante a criação de novos valores.
Para Strauss, Nietzsche leva a modernidade ao seu ponto extremo: o homem já não procura descobrir uma ordem objetiva à qual deva submeter-se, mas pretende tornar-se criador de valores e senhor de seu próprio destino. Seu ideal é o "além-do-homem", em oposição ao “último homem”, figura do homem acomodado, satisfeito e sem grandes aspirações. Nesse aspecto, há uma curiosa aproximação entre Nietzsche e Marx: ambos imaginam uma situação futura em que o homem finalmente deixará de estar submetido ao acaso. A diferença é que, para Marx, a sociedade sem classes resultará necessariamente do processo histórico, enquanto, para Nietzsche, o surgimento do "além-do-homem" depende da escolha e da criação humanas.
Strauss conclui estabelecendo uma relação política entre as três ondas: o liberalismo democrático e o comunismo têm suas raízes nas duas primeiras ondas da modernidade, enquanto a terceira, em sua dimensão política, encontrou sua expressão no fascismo. Contudo, Strauss adverte que não é possível simplesmente abandonar a modernidade e retornar ao passado, pois a crítica de Nietzsche à confiança moderna na razão não pode ser ignorada. É justamente essa tensão que está no fundo da crise da democracia liberal. Apesar disso, Strauss sustenta que a superioridade prática da democracia liberal sobre o comunismo e o fascismo permanece evidente e observa que sua defesa mais profunda não provém necessariamente do pensamento moderno, mas também da tradição pré-moderna do Ocidente.
Em síntese, Strauss apresenta a modernidade como um processo de progressiva emancipação do homem em relação a uma ordem objetiva anterior a ele: Maquiavel reduz a política à realidade efetiva e ao domínio da fortuna, Hobbes transforma o direito natural em direito à autopreservação, Rousseau substitui a natureza pela história e pela vontade geral, Kant e Hegel elevam a razão e a história a fundamentos da liberdade, e Nietzsche finalmente questiona a própria possibilidade de fundamentos objetivos, fazendo da criação humana de valores o horizonte último. A crise contemporânea resulta do fato de que a modernidade destruiu sucessivamente os fundamentos tradicionais sem conseguir estabelecer um fundamento definitivo para aquilo que o homem deve querer.
Notas
Leo Strauss (1899-1973) nasceu Kirchhain, Alemanha.
Filósofo político, passou a maior parte de sua carreira como professor de Ciência Política na Universidade de Chicago.
A obra de Leo Strauss foi uma tentativa de recuperar a pergunta clássica – “qual é a melhor vida para o homem?” – contra uma modernidade que, segundo ele, havia progressivamente perdido confiança na capacidade da razão de responder objetivamente a essa pergunta.
O ensaio The Three Waves of Modernity foi publicado em 1975 no volume coletivo Political Philosophy: Six Essays editado por Hilail Gildin.


