Il Veleno Kantiano de Guido Mattiussi

“Raccoglieva di fatto nel suo sistema gli errori di tutti questi e rendeva impossibile ogni filosofia.” – Guido Mattiussi, Kant, incorporado elementos de Hume (ceticismo), Protágoras (idealismo) e Locke (sensismo), produziu uma filosofia que impossibilita o conhecimento filosófico objetivo
Guido Mattiussi apresenta uma crítica sistemática à filosofia de Kant a partir da tradição aristotélico-tomista. Sustenta que o problema do kantismo não está apenas em algumas teses particulares, mas na mudança radical do ponto de partida da filosofia: em vez de começar pelo ser e pela realidade objetiva, Kant desloca a investigação para as estruturas do sujeito cognoscente – uma inversão que produz uma cadeia de consequências que atinge a metafísica, a teoria do conhecimento, a apologética cristã e a própria concepção da verdade.
O autor começa identificando o agnosticismo kantiano como uma das raízes dos erros filosóficos modernos. A crítica kantiana da razão estabelece uma separação entre aquilo que aparece à consciência e a realidade em si mesma, tornando problemática a possibilidade de alcançar intelectualmente o ser. Mattiussi considera especialmente perigosa a tentativa, feita por alguns pensadores católicos, de incorporar elementos kantianos à filosofia ou à apologética para torná-las compatíveis com a filosofia moderna. Em sua perspectiva, isso significa abandonar os fundamentos objetivos da tradição escolástica para tentar preservar a fé mediante uma filosofia que já colocou em dúvida a capacidade da razão de conhecer a realidade.
Em a Crítica da Razão Pura, Kant procura determinar os limites do conhecimento mediante a análise das formas a priori da sensibilidade e das categorias do entendimento. O conhecimento humano, nessa perspectiva, não alcançaria as coisas tal como são em si mesmas, mas apenas os fenômenos constituídos segundo as estruturas do sujeito. Mattiussi considera que essa solução cria uma dificuldade fundamental: se a razão especulativa é incapaz de conhecer o ser além do fenômeno, não se compreende como a razão prática possa posteriormente recuperar, por outra via, realidades que a própria crítica havia colocado além dos limites do conhecimento. A distinção entre razão especulativa e razão prática não resolveria, portanto, o problema epistemológico fundamental.
Abordando as “absurdidades da nova crítica”, Mattiussi aprofunda a objeção de que a crítica kantiana da razão contém uma dificuldade autorreferencial. Para afirmar que a razão possui determinados limites, é necessário, de algum modo, conhecer esses próprios limites e justificar a distinção entre fenômeno e coisa em si. Mas, se o intelecto está estruturalmente impedido de alcançar a realidade tal como ela é, surge a questão de como pode saber que existe uma realidade para além dos fenômenos ou determinar corretamente a relação entre ela e o conhecimento humano. O autor vê nisso uma tendência ao ceticismo, pois a tentativa de estabelecer limites absolutos ao conhecimento acaba comprometendo a própria possibilidade de fundamentar racionalmente esses limites.
Mattiussi confronta a “nova crítica” com a filosofia antiga e escolástica. Aqui aparece com maior nitidez a alternativa defendida pelo autor. Para Aristóteles e para a escolástica, o intelecto não cria arbitrariamente o objeto conhecido. Ele recebe inteligivelmente a forma da coisa e, dessa maneira, pode conhecer algo que existe independentemente dele. O conhecimento não é, portanto, uma construção puramente subjetiva. A verdade consiste na correspondência entre o intelecto e a realidade. Mattiussi considera essa concepção muito mais coerente do que a solução kantiana, porque preserva simultaneamente a existência objetiva das coisas e a capacidade da inteligência humana de conhecê-las.
Tratado da imanência, Mattiussi distingue a posição escolástica daquilo que chama de imanentismo moderno. Na tradição aristotélico-tomista, o conhecimento ocorre no sujeito, mas tem por objeto uma realidade que não depende dele. O imanentismo moderno, ao contrário, tenderia a fazer da própria consciência ou de suas estruturas o horizonte último do conhecimento. A consequência seria uma crescente dificuldade de afirmar a transcendência do ser. Mattiussi relaciona esse movimento a tendências filosóficas que acabam se aproximando do subjetivismo, do relativismo, do panteísmo ou de concepções evolucionistas da realidade.
A análise da imanência é estendida à ordem sobrenatural. Mattiussi critica a tentativa de reconstruir a relação entre natureza e graça a partir de categorias influenciadas pelo pensamento moderno. Ele insiste na distinção entre a ordem natural e a sobrenatural e rejeita qualquer solução que transforme a graça em simples desenvolvimento ou exigência interna da natureza humana. O problema é que uma filosofia centrada na imanência tende a dissolver a transcendência não apenas no conhecimento filosófico, mas também na compreensão da revelação cristã.
Voltando à questão da cognição intelectual, é particularmente importante a interpretação tomista segundo a qual o intelecto pode “tornar-se todas as coisas” ao receber suas formas inteligíveis. Para Mattiussi, isso não significa que a mente produza os objetos, mas justamente o contrário: a capacidade intelectual de conhecer muitas realidades depende de sua abertura às formas existentes nas coisas. O ser, portanto, precede logicamente o conhecimento. O intelecto conhece porque existe uma realidade que pode ser conhecida, e não porque suas próprias estruturas fabricam a realidade cognoscível. Essa tese constitui um dos principais pontos de oposição entre Mattiussi e Kant.
Mattiussi apresenta algumas consequências práticas e teológicas do kantismo. Ele critica especialmente as tentativas de conciliar a filosofia crítica com a tradição católica mediante compromissos conceituais. Uma vez que a verdade deixa de possuir um fundamento objetivo plenamente acessível à inteligência, abre-se espaço para formas de relativismo e para a transformação dos conceitos filosóficos e teológicos segundo as necessidades históricas. Mattiussi teme que a adaptação excessiva da doutrina às categorias modernas termine por alterar o próprio conteúdo que se pretendia defender.
Quanto ao primado da vontade, o autor critica a tendência moderna de atribuir à vontade um papel que ela não pode desempenhar: determinar a verdade ou substituir o conhecimento objetivo. A vontade pode dirigir a atenção, escolher entre possibilidades e aderir a uma verdade conhecida, mas não pode transformar o falso em verdadeiro. Essa crítica alcança também formas de voluntarismo e pragmatismo, nas quais o valor de uma ideia passa a ser relacionado sobretudo à ação, à decisão ou aos seus efeitos. Para Mattiussi, a ordem correta é inversa: o intelecto conhece a realidade e a vontade segue o bem apresentado pelo conhecimento. Mesmo a fé envolve a vontade, mas não pode ser reduzida a um ato voluntário desligado da inteligência.
Em conjunto, portanto, Il Veleno Kantiano apresenta o kantismo como uma espécie de inversão da ordem filosófica tradicional. A filosofia aristotélico-tomista parte do ser, da realidade objetiva e da capacidade do intelecto de conhecê-la; Kant parte das condições subjetivas do conhecimento e, segundo Mattiussi, termina restringindo o acesso ao próprio ser. Dessa primeira inversão decorreriam o agnosticismo, o subjetivismo, o relativismo, o imanentismo, certas dificuldades na apologética cristã e, posteriormente, tendências voluntaristas e pragmatistas.
A tese central de Mattiussi pode, assim, ser condensada em uma oposição fundamental: não é o intelecto que determina a realidade; é a realidade que determina o intelecto. A inteligência humana não é soberana criadora do objeto, mas capacidade de receber e conhecer o ser. A verdade não nasce das estruturas da consciência nem da vontade; consiste na conformidade do intelecto com aquilo que é. É justamente a perda dessa prioridade do ser sobre o conhecer que Mattiussi considera o verdadeiro “veneno kantiano”.
Notas
Guido Matiussi (1852-1925) nasceu em Vergnacco, Itália.
Jesuíta italiano, filósofo, teólogo e professor, importante representante do neotomismo italiano na passagem do século XIX para o XX. Tornou-se particularmente conhecido por sua defesa rigorosa da filosofia de São Tomás de Aquino e por sua crítica contundente a Kant, ao modernismo e às correntes filosóficas modernas.
Outas obras importantes do autor incluem a síntese positiva do tomismo Le XXIV tesi della filosofia di S. Tommaso (1917), e Distinzione tra l’essenza e l’essere (1912) onde apresenta o núcleo metafísico de sua posição.
Il Veleno Kantiano: Nuova e antica critica della ragione foi publicado em 1907.
Segundo a metafísica escolástica, na qual o ser é anterior ao conhecimento, o objeto determina o intelecto, a verdade consiste na conformidade entre intelecto e realidade e a vontade deve ser orientada pelo bem que o intelecto conhece.
Ao investigar incessantemente as condições subjetivas do conhecimento, Kant perdeu de vista aquilo que, para Aristóteles e Tomás de Aquino, deveria ser o ponto de partida da filosofia: o ser real conhecido pelo intelecto. Kant está tão concentrado em investigar os óculos através dos quais conhecemos a realidade que acaba deixando de enxergar a própria realidade. Daí seu merecido epíteto de Mr. Magoo da filosofia.


