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John Frankenheimer (1930-2022)

I'm a filmmaker... I like to work. – John Frankenheimer


Diretor de sucesso na TV cujo início na carreira cinematográfica na década de 1960 criou grandes expectativas em Hollywood. Frankenheimer trazia as inovações técnicas que introduzira na TV e inovava a temática cinematográfica com thrillers políticos, avançando posteriormente aos thrillers de ação.


No entanto, nas décadas seguintes a qualidade de seu trabalho despencou, tendo dirigindo não mais que um par de filmes meritórios. Seguem anotações sobre os destaques de sua obra:


Birdman of Alcatraz (1962): Assassino condenado (interpretado por Burt Lancaster) e mantido em isolamento permanente se redime tornando-se um renomado especialista em pássaros. Frankenheimer começou sua fase áurea neste seu terceiro longa-metragem, com excelente fotografia em preto e branco e, talvez, o melhor desempenho da carreira de uma lenda do cinema. Como ficção é uma lição de persistência e esperança – um tributo ao espírito humano. Porém o filme pretende ser a biografia do assassino Robert Franklin Stroud que na vida real, apesar das conquistas no campo da ornitologia, nunca abandonou o comportamento violento e psicótico. O fictício Stroud foi criado como panfleto em favor da leniência penal, encarando todos os criminosos como destinados à reabilitação – um erro que ignora a lição aristotélica sobre os criminosos viciosos e bestiais.


The Manchurian Candidate (1962): Prisioneiro de guerra americano da Guerra da Coreia sofre uma lavagem cerebral e é devolvido aos EUA a serviço de uma conspiração comunista. O filme é baseado no romance homônimo de Richard Condon publicado em 1959.Thriller de intriga política que diverte apesar do roteiro implausível. Em plena Guerra Fria, o filme deveria ser entendido como um alerta, mas muitos críticos preferiram apresentá-la como uma sátira. A figura ridícula do senador Iselin é uma provocação ao trabalho do senador McCarthy denunciando a infiltração soviética nos EUA (no que ele estava coberto de razão, enganando-se apenas em dimensioná-la abaixo daquela que a realidade apresentava).


Seven Days in May (1964): Os líderes militares dos Estados Unidos, temendo um furtivo ataque soviético, conspiram derrubar o presidente por ele ter assinado um tratado de desarmamento nuclear. Baseado no romance homônimo de Charles Waldo Bailey II publicado em 1962. Mais um thriller político explorando a guerra fria, desta vez temperado com o medo provocado pela ameaça atômica. Excelente elenco, trama bem construída e alguns bons diálogos mais que compensam o pueril discurso pacifista ao final – o tempo demonstrou que a ameaça não era atômica mas sim cultural, incluído o tal discurso pacifista. Afinal, quem era o Judas?


The Train (1964): Em 1944, coronel alemão carrega um trem com tesouros da arte francesa para enviá-los à Alemanha, e a Resistência deve detê-lo sem danificar a carga. Fascinante thriller com excelentes elenco, trama e roteiro. A questão moral central do filme, se podemos justificar a perda de vidas humanas para salvar objetos inanimados, permanece tão potente como sempre. E um dos maiores atributos do filme é deixar a resposta para o espectador.


Seconds (1966): Banqueiro de meia-idade concorda com um procedimento que simula sua morte e dá-lhe uma aparência e uma identidade completamente novas. Fantasia explorando a quimera de recomeçar a vida como outra pessoa, uma inviabilidade bem demonstrada por Luigi Pirandello no romance O Falecido Mattia Pascal. O filme é bom, porém peca na racionalização das frustrações da personagem principal como fruto de uma educação voltada para o consumismo – simplificação em voga nos anos 1960. Notar a decadência do ser humano nas cenas de orgia em Santa Mônica apresentadas de forma condescendente.


Grand Prix (1966): Piloto é demitido por sua equipe Jordan-BRM após um acidente em Mônaco que fere seu companheiro de equipe. Primeiro trabalho em cores do diretor. O filme teria sido melhor caso Paul Newman ou, principalmente, Steve McQueen estrelasse no lugar de James Garner, e o piloto italiano (interpretado por Antonio Sabato) fosse menos caricato. Mesmo assim, Grand Prix ainda é referência para filmes de corrida, um filme que estava décadas à frente de seu tempo em termos de realismo nas pistas. Frankenheimer também incorpora alguns comentários interessantes sobre profissões que assumem riscos em geral e sobre o piloto de Fórmula 1 em particular – dos 32 pilotos profissionais que participaram ou foram vistos no filme, cinco morreram em acidentes de corrida no período de dois anos, e mais outros cinco nos dez anos seguintes.


Black Sunday (1977): O grupo terrorista Setembro Negro tentando explodir um dirigível da Goodyear pairando sobre o estádio do Super Bowl com 80.000 pessoas e o presidente dos Estados Unidos – o filme incorpora cenas do Superbowl X disputado no ano anterior. Um thriller bem escrito, complexo e intenso; com as personagens centrais bens construídas. Infelizmente a narrativa faz algum esforço para justificar a monstruosidade islâmica (neste caso travestida de palestinos) relativizando-a com os atos defensivos israelenses – melhor faria se abordasse a influência soviética na instrumentalização do terrorismo islâmico.


Ronin (1998): Ex-agente de inteligência dos EUA freelancer (interpretado por Robert De Niro) tenta rastrear um pacote misterioso que é disputado entre irlandeses e russos. Um belo thriller: elegante sem ser pesado, complexo sem ser complicado. Ultimo bom trabalho do diretor.

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