Hamlet de William Shakespeare

Ophelia – John Everett Millais (1829-1896)

Personagens Principais Hamlet – filho do defunto rei e sobrinho do rei reinante Cláudio – rei da Dinamarca Horácio – amigo de Hamlet, modelo de lealdade Personagens Secundárias Fortimbrás – príncipe da Noruega Polônio – camareiro-mor Laertes – filho de Polônio, levado pela paixão Gertrudes – rainha da Dinamarca, mãe de Hamlet Ofélia – filha de Polônio Reinaldo – criado de Polônio Francisco - soldado

Interpretação Por que hesita Hamlet? Esta é a pergunta chave para interpretar este drama. E só podemos encontrar a resposta se também entendemos porque Hamlet é enterrado como um herói.


Hamlet percebe que há uma desordem cósmica no seu tempo. Desordem que ultrapassa o quase incesto da mãe (casou com o cunhado) e o assassinato de seu pai, e que é revelada somente a ele. Hamlet também sente que a aparição do fantasma do pai pode ter algo de demoníaco. Caso agisse por impulso, guiado apenas por suas paixões, e mata-se seu tio Cláudio, poderia piorar ainda mais a desordem já reinante. Hamlet sente que a recuperação da ordem virá da Providência e busca fazer aquilo que lhe é apenas humanamente possível, sem piorar a situação. Várias de suas falas deixam isso claro:


“O céu dará remédio.”


“Quanto à minha pobre parte... Ora vede: vou rezar.”


“Há uma especial Providência na queda de um pardal.”


Não há maneira perfeita de lidar com tal situação. Hamlet sofre e erra (num momento cede à paixão e mata Polônio), mas resignadamente encontra seu caminho. De fato é Fortimbrás quem recupera a ordem perdida com a morte de seu pai pelas mãos do pai de Hamlet, mas não sem este ter antes exposto a verdade sobre seu pai e alcançado sua retribuição. Hamlet é enterrado como grande herói, aquele que mesmo conhecendo a verdade consegue controlar suas paixões (“Mostra-me o homem liberto das paixões; pô-lo-ei no coração...” Ato III – Cena II) em prol de uma ordem superior. Daí o “Ser ou não ser, eis a questão.” (Ato III – Cena I) – como comportar-se na farsa depois de conhecer a verdade? Essência humana da dúvida moral.


A lição de Hamlet é mais atual do que nunca. Nosso mundo está na mais aterradora das desordens, que até nos anestesiamos para não a perceber. Mas se pararmos para pensar damo-nos conta deste estado deplorável, mesmo que outras pessoas assim não o entendam. Que fazer então? Hamlet já mostrou que não será fácil. Você vai sofrer. Mas deve primeiro salvar sua alma (não cometer erros que piorem o mundo) e interferir na medida do possível e justo para combater o mal. Assim nos ensina Shakespeare nesta peça.



Notas

  • William Shakespeare (1564-1616) nasceu em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. Era católico num mundo protestante.

  • Shakespeare escrevia, dirigia, produzia e atuava em suas peças. Deixou-nos a maior obra teatral do mundo moderno.

  • Apesar de serem denominadas como Tragédias, as peças de Shakespeare são Dramas. Pois o que caracteriza a tragédia é a inexistência da malicia humana. Os franceses Pierre Corneille (1606-1684), jansenista que acreditava na ira divina, e Jean Racine (1639-1699) tentaram reviver a tragédia grega, assim como o alemão Friedrich Hebbel (1813-1863).

  • Para Northrop Frye o teatro deve ser lido como você estivesse dirigindo os atores numa peça de teatro.

  • Hamlet deve ter sido composta em 1602, sua peça mais longa e complexa. Monir a considera como a principal peça de Shakespeare.

  • O reino da Dinamarca da peça é formado quando o rei Hamlet mata o rei Fortimbrás há trinta anos.

  • Ouvir La Mort d’Ophélie de Berlioz (segundo movimento da Tristia Op. 18) – descreve o afogamento de Ofélia no Ato IV.

  • Citações famosas: “Algo está a apodrecer na Dinamarca.” – Marcelo (Ato I – Cena IV) “O resto é silêncio.” – Hamlet (Ato V – Cena II) “Há muita coisa mais no céu e na terra, Horácio, do que sonha a nossa pobre filosofia.” – Hamlet (Ato I – Cena V) “Palavras, palavras, palavras.” – Hamlet (Ato II – Cena II) “Apesar de loucura, revela método.” – Polônio (Ato II – Cena II)