Cristianismo: A Religião do Homem de Mário Ferreira dos Santos



Nenhuma religião pode ir contra a estrutura da realidade. Ao contrário, ela deve ajudar-nos a simbolicamente entende-la. Os preceitos religiosos expressam algo mais profundo refletindo a estrutura da realidade, e.g. “honrar pai e mãe” não é uma regra moral para respeitar seus pais, mas entender que você veio de um esforço anterior e que deve dar-lhe continuidade para seguimento da vida humana – condição necessária para a vida humana. E nenhuma religião faz isso como o Cristianismo, daí ser ele a religião do homem. Esta obra é uma explicação filosófica do Cristianismo.


Seguem extratos destas explicações filosóficas:


O Cristianismo não é uma religião cultural (como o judaísmo). Não está restrita a alguma raça (como o hinduísmo), região, casta ou qualquer outra coisa. É uma religião universal, natural do ser humano. Nenhuma lida com a natureza humana de forma tão completa (corpo, mente e alma).


Oferece uma proposta totalmente nova, não sendo síncrise (junção de partes perdidas de uma crise) ou síncrese (junção caótica de partes de várias doutrinas). O Cristo não é um novo avatar, o Cristianismo não é uma nova possibilidade de religiões anteriores.


Para o Cristianismo este mundo é real e concreto e vive em paralelo ao mundo divino. É, portanto, paradoxal como nossa própria existência (“nós estamos neste mundo, mas não somos deste mundo”). Cheio de mistérios de uma beleza extraordinária, o Cristianismo ensina a viver neste mundo enigmático.


Não pede que você mude sua natureza humana ambígua e paradoxal (carne e espírito). Não é uma religião para santos, mas para pecadores. Uma igreja para o homem em sua totalidade, feita na exata medida para a natureza humana.


O Cristianismo ajuda alcançar sua verdadeira natureza, com todas as suas imperfeições, mas buscar o melhor que o ser humano tem a oferecer, seu patamar mais alto. Que o ser humano realize a sua potência partindo do entendimento da sua reles condição. O objetivo do homem deve ser buscar a perfeição no conceito grego de aretê: ser perfeito é aquele que atinge o melhor da sua verdadeira natureza. Reconhece a potência (conceito aristotélico) humana real e concreta como primeiro passo para poder atualizá-la (torna-la realidade). O Cristianismo é a única religião que lida com o homem real e verdadeiro – com toda sua pequenez e potencia de grandeza – a inescapável ambiguidade humana.


Se você não aceita a complexidade paradoxal do homem, você não aceita o ser humano. Rebelar-se contra a complexidade humana (e.g. como Tólstoi propunha) não é um ato de humildade, mas sim de uma grande soberba (perversão dos desejos evolutivos – Équidna na mitologia grega), uma revolta contra o Criador.


Não é uma religião do homem isolado, mas do homem que compreende e sente sua personalidade, sabendo que também há entre seus semelhantes outras personalidades iguais as suas, e que sofrem as mesmas fraquezas e carências. E que são animados pelo mesmo amor e pelo mesmo anelo, que estão como ele destinados a realizar uma grande façanha.


Nós já nascemos com uma essência que estabelece a nossa existência, ao contrário do pensamento dos existencialistas. E nossa essência tende para o belo, o bom e o verdadeiro – é a força do amor platônico que impulsiona o homem nesta busca.


Esta busca, este desejo (oréxis), envolve numa mesma natureza o nosso amor, entendimento e vontade que constitui nosso psiquismo superior. Há uma sintonia perfeita entre a trindade humana (vontade, entendimento e amor) com a Divina Trindade (Deus, Espírito Santo, Jesus). Não aceitar a Trindade é renegar a própria natureza humana. O Cristianismo não é uma religião imposta ao homem, mas brota do homem (da sua natureza) desde o Ser Supremo, por isso Cristo também foi um homem.


O desvio nesta busca indica ignorância do que é a Beleza, o Bem e a Verdade. O que

caracteriza a essência humana é não saber o que fazer – ter dúvida moral. Os animais não tem esta característica.


Em função do livre arbítrio (liberdade da escolha) o cristão é obrigado a estudar para saber o que fazer – a evitar a ignorância acima. Por isso o cristianismo foi o maior fomentador da educação na nossa civilização. O obscurantismo não pertence à Igreja Católica. Não há Cristianismo sem educação.


O muçulmano abdica do livre arbítrio – a sharia predefine direções morais. O Estado (a sociedade) define todo o comportamento do muçulmano, em contrapartida ele seria iluminado pelo Espírito Santo. No Islã não é preciso educar ninguém, daí o seu atraso tecnológico e econômico.


Na essência do homem está a bifurcação da vontade, a dúvida moral. O homem não sabe o que fazer. Um conjunto de orientações externas vem em seu auxílio: (a) leis, (b) filosofias morais e (c) religiões. São instrumentos de orientação da vida humana. Mas quando, apesar disso, você ainda estiver em dúvida pergunte-se o que Deus gostaria que você fizesse, mesmo que vá de encontro aos instrumentos acima. Em dúvida entre as regras dos homens siga a regra do Cosmo, de Deus. Toda a tragédia grega foi feita para ensinar aos governantes que o verdadeiro estadista sabe quando apelar às leis do Cosmo. Seremos julgados aos olhos de Deus por nossas decisões morais.


Os animais não têm dúvida moral, mas o homem sim. E para decidir ele empregará sua vontade e inteligência, e dirigirá o seu amor. A Moral (conjunto de aconselhamentos) pode ser variada, pois o homem erra. O homem especula sobre as diferentes condutas morais humanas e chega a Ética (estudo do fenômeno moral – invariante) que é mais especulativa do que prática, porque nela há princípios eternos, indestrutíveis (e.g. o direito a vida, o respeito ao direito). A variabilidade dos códigos morais é a prova da dúvida moral e de sua essência humana.


O Cristianismo parte da natureza humana e faz perfeita sintonia com a estrutura da realidade da criação do mundo. Daí ser o Cristianismo a religião do homem.



Notas

  • Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) é o maior filósofo das Américas. Apenas ele e Bernard Lonergen construíram estruturas filosóficas próprias. Mário é o maior estudioso pitagórico da modernidade.

  • As grandes influências dele foram Pitágoras, São Tomás de Aquino, Aristóteles e Platão.

  • Livros destacados: Filosofias da Afirmação e da Negação, Tratado de Simbólica, A Sabedoria das Leis Eternas e Filosofia Concreta.

  • Filosofia Concreta é (muito simplificadamente) a junção da ideia (conceito, abstração) com a vida concreta e real.

  • Avatar é uma corporificação de Deus. Segundo o hinduísmo nosso atual ciclo cosmo já teve nove avatares, faltando um para completar o ciclo.

  • O Brasil é um país de farsantes, o brasileiro prefere “parecer” ser algo do que fazer o esforço para “ser” este algo. Todas as personagens literárias são farsantes, com exceção de Braz Cubas (que já morreu), do Conselheiro Aires (que já está no fim da vida) e do Paulo Honório (que já tinha perdido tudo – São Bernardo). Num país de fingimento é natural que nossa religião assim também a fosse. O primeiro imperador era maçom, o segundo era simpatizante. E os republicamos eram positivistas (“ordem e progresso”).

  • O país desperdiçou a oportunidade de ter um nome inspirador. Dos iniciais Terra de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz acabamos com Brasil, uma commodity.

  • Freud disse que “civilização é repressão”. E no Brasil não há repressão dos instintos básicos (“não há pecado no lado de baixo do Equador”).

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