Coriolano de William Shakespeare


Coriolanus – Soma Orlai Petrich (1822 – 1880)

Personagens Principais Caio Márcio (Coriolano) – general romano, candidato a cônsul Volúmnia – mãe de Coriolano Menêncio Agripa – amigo de Coriolano Personagens Secundárias Sicínio Veluto – tribuno do povo Júnior Bruto – tribuno do povo Tito Lárcio e Comínio – generais romanos Vergília – mulher e Coriolano Tulo Aufídio – general dos volscos

InterpretaçãoAs if a man were author of himself, and new no other kin.” – Coriolano (Ato V – Cena III)


Não há dúvidas de que Coriolano era um homem de virtudes: corajoso, integro e grande guerreiro. Qualidades essenciais para um povo guerreiro como o romano, que teria o estoicismo como sua filosofia – a ação valorosa na guerra é a virtude mais honrada e estimada em Roma. E Coriolano, segundo Plutarco, era o homem de guerra idealizado por Catão: não somente rude e duro nos golpes, mas também tremendo ao inimigo pelo som de sua voz e pelo seu aspecto terrível.


Tais qualidades o fizeram candidato ao mais alto cargo político (cônsul), porém Coriolano tinha um defeito fatal, a hybris. Orgulhoso, acreditando-se criador de si mesmo, Coriolano apresentava independência exagerada, julgando não precisar do resto do mundo. Também era desagradavelmente senhorial com todos, mantendo uma relação fria e intransigente até com os mais próximos.


Coriolano carecia das características necessárias para um governante: gravidade, frieza e doçura, temperadas pelo discernimento da boa doutrina e razão. Inapto ao convívio humano dada sua cólera impaciente e obstinação inflexível em não querer jamais ceder a ninguém – a contumácia é solitária (Platão). Ele não faz parte da comunidade e desafia os costumes estabelecidos na relação dos patriarcas com o povo, ao qual não considerava realmente como romanos.


Apesar de desprezar o povo, irritou-se com a rejeição deste. E quando desterrado antagoniza toda a cidade e não apenas aqueles que o ofenderam. Esta ira irracional é quebrada com o ajoelhar de sua mãe implorando pela cidade e sua família. Só então Coriolano parece entende-se um zoon politikón (Aristóteles), entender não ser um deus e estar comportando-se como um animal – encerrando aquela situação crítica e sua própria trajetória.

A peça também traz reflexões sobre a passagem do regime aristocrático (já com sinais de plutocracia) para a democracia, quando outros valores predominam. A república se desfaz à medida que o povo ganha controle pelo voto da maioria? Teria o povo sabedoria e critério em função da honra da prerrogativa de decidir?



Notas

  • William Shakespeare (1564-1616) nasceu em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. Era católico num mundo protestante.

  • Shakespeare escrevia, dirigia, produzia e atuava em suas peças. Deixou-nos a maior obra teatral do mundo moderno.

  • Apesar de serem denominadas como Tragédias, as peças de Shakespeare são Dramas. Pois o que caracteriza a tragédia é a inexistência da malicia humana. Os franceses Pierre Corneille (1606-1684), jansenista que acreditava na ira divina, e Jean Racine (1639-1699) tentaram reviver a tragédia grega, assim como o alemão Friedrich Hebbel (1813-1863).

  • Para Northrop Frye o teatro deve ser lido como você estivesse dirigindo os atores numa peça de teatro.

  • Shakespeare foi buscar em Vidas Paralelas de Plutarco a história de Coriolano. A narrativa desenvolve-se 450 anos antes das ações em Antônio e Cleópatra.

  • Segundo Plutarco, Coriolano viveu aproximadamente do ano 228 ao ano 266 de Roma (século V a.C.).

  • O regime republicano ainda está no seu início, o senado dominado pelos nobres, mas há espaço para os tribunos (representantes do povo).

  • Caio Márcio ganha o epíteto Coriolano após seus feitos heroicos na batalha para conquista da cidade de Coriolo.

  • Cidadão diz sobre não reconhecer os méritos de Coriolano: “A ingratidão é coisa monstruosa; deixar que a multidão se torne ingrata é transformá-la em monstro; ora, sendo nós membros da multidão, passaremos a ser membros monstruosos.

  • Diz Plutarco em Vidas Paralelas: “Aquele que primeiro ofereceu banquetes e distribuiu dinheiro à plebe, foi quem, ao mesmo tempo, lhe tirou a autoridade e arruinou a república.