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Carl Theodor Dreyer (1889-1968)


"Nothing in the world can be compared to the human face. It is a land one can never tire of exploring. There is no greater experience in a studio than to witness the expression of a sensitive face under the mysterious power of inspiration. To see it animated from inside, and turning into poetry." – Carl Theodor Dreyer


A obra de Dreyer é sempre pautada na beleza da imagem, que por sua vez é um registro da luminosa convicção e independência do ser humano. Seus filmes são dedicados principalmente às emoções humanas, mesmo que estas possam aparentar de forma moderada. Mas a simplicidade e a pureza de estilo não se opõem à intensidade, a grandeza de Dreyer está na maneira como ele faz uma imagem tranquila de sentimentos avassaladores. Sua arte e sua inteligência ordenam a paixão sem nunca disfarçá-la.


Dreyer busca penetrar no mais profundo pensamento das personagens, representando-as pelas mais sutis expressões – pois seriam essas expressões que revelariam o caráter da pessoa, seus sentimentos inconscientes, os segredos que vivem no fundo de sua alma.


Os seguintes filmes destacam-se em sua obra:


The Passion of Joan of Arc (1928): A melhor definição do filme é do próprio diretor: “hymn to the triumph of the soul over life”. Sofrimento e derrota não são nada diante da salvação da alma. A atuação de Renée Falconetti é imbatível, com o poder de fazer um ateu repensar sobre a vida.


Vampyr (1932): É um daqueles filmes que só podem ser aceitos em seus próprios termos, redefinindo o público, até mesmo a expectativa formalista. Os limites entre câmera subjetiva e objetiva, o vínculo cronológico inerente à montagem, como cortes transversais, suposições feitas em relação ao ponto de vista ou mesmo a um único plano, a lógica da narrativa direta – tudo fica borrado. Dreyer criou um reino onírico onde o natural e o sobrenatural, o físico e o metafísico podem respirar o mesmo ar iluminado.


Day of Wrath (1943): Batalha interior entre o Bem e o Mal em uma atmosfera de superstição e intolerância do Protestantismo. Temos o livre-arbítrio de decidir nosso curso de ação e por ele seremos julgados. Todas as personagens estão em erro: a concupiscência do reverendo Absalon e seu filho Martin, a crueldade da mãe do pastor, e, naturalmente, o malefício da bruxa Herlofs Marte e de Anne, mulher do reverendo.


A velha bruxa colhe ervas debaixo da forca acreditando que “existe o poder no mal”, e já presa declara não “ter medo do inferno ou do céu, apenas da morte” – nada poderia ser mais explícito sobre sua impiedade. E Anne até fisicamente apresenta sua decaída espiritual, num belo trabalho da atriz Lisbeth Movin.


O filme se presta a muitas interpretações alegóricas, desde uma crítica ao totalitarismo nazista (a Dinamarca estava ocupada quando o filme foi produzido) até o efeito da opressão social na decadência de Anne. Mas a leitura de versos selecionados de Dies Irae (composto por Tommaso de Celano no século XIII) no prólogo não deixa dúvidas sobre o tema do filme:


Day of wrath! O day of mourning!

See fulfilled the prophets' warning,

Heaven and earth in ashes burning!


Oh what fear man's bosom rendeth,

when from heaven the Judge descendeth,

on whose sentence all dependeth.


Wondrous sound the trumpet flingeth;

through earth's sepulchers it ringeth;

all before the throne it bringeth.


Death is struck, and nature quaking,

all creation is awaking,

to its Judge an answer making.


Lo! the book, exactly worded,

wherein all hath been recorded:

thence shall judgment be awarded.


While the wicked are confounded,

doomed to flames of woe unbounded

call me with thy saints surrounded.


Low I kneel, with heart submission,

see, like ashes, my contrition;

help me in my last condition.


Ordet (1955): Conflito espiritual do mundo moderno no microcosmo de uma família, com a vitória da recuperação da fé frente a prepotência cientificista, o ateísmo, o individualismo exacerbado e o progressismo clerical – a fé pode transformar a realidade em nosso entorno. O filme mostra a importância dos laços com o mundo encarnado – Johannes (de roupas comum – encarnado) é veículo do milagre –, pois pouco significa a palavra escrita se nós não temos o contato real com Cristo, uma vivência espiritual que tenha realidade nas nossas vidas. A personagem Inger apresenta o paradigma do papel da mulher no mundo: aproximar o homem de Deus.


Gertrud (1964): A afirmação de que tudo que importa é o amor. Mas o amor de Getrud é desvirtuado: egoísta, sem transcendência e com ênfase no carnal. Gertrud estava destinada à solidão. Último filme e última controvérsia do diretor.

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