Birdman (2014)


A primeira impressão é que se trata de metalinguagem. Um filme sobre uma peça de teatro durante o qual assistimos a praticamente todos os conflitos reais e emocionais do meio artístico. A relação com a fama e o seu ocaso, a celebridade que quer ser levada a sério, o talentoso que quer ser célebre, a relação com produtores e críticos, as relações familiares e com o público, quase nada deixa de ser acidamente revirado.

Acima disto vê-se um olhar crítico sobre a própria condição atual das artes cênicas (e das outras também) onde o sucesso é medido mais pela forma do que pelo conteúdo, mais pela vida pessoal dos envolvidos do que pela mensagem que transmitem, mais pelo inusitado do que pela qualidade, mais pelo escândalo do que pelo alcance da capacidade de uma obra fazer com que nos conheçamos um pouco melhor.

Mas no fundo mesmo Birdman fala do homem moderno e seu desejo exacerbado de ser reconhecido e amado. Do homem que mede a felicidade pelo número de seguidores na sua rede social, que passa pela vida mais preocupado em postar o que vê do que entender, mais dedicado num compartir egocêntrico do que fez ou viu que efetivamente desfrutá-lo. Do homem que se esqueceu de cultivar a sua alma perante Deus para cuidar da sua imagem mundana. Como se ele pudesse ser criador de si mesmo. Enfim, Birdman fala do homem que ao dar as costas para a transcendência esqueceu seu papel no mundo e quer construir uma existência puramente material. E que quando para e olha para si mesmo encontra apenas um vazio enlouquecedor.

Filme Nota 5 (escala de 1 a 5)

PS: A aparentemente enigmática imagem final da filha apenas demonstra que a loucura não está restrita ao seu pai, mas é sim coletiva, pertence ao nosso tempo. É o Kali Yuga.