As Três Irmãs de Anton Tchekhov


Personagens Principais Olga Serguêievna Prózorov – 28 anos, professora, solteira Maria (Macha) Serguêievna Prózorov – 23 anos, casada Irina Serguêievna Prózorov – 20 anos, solteira Andrei Serguêitch Prózorov – secretário municipal, casado Natália Ivánovna – noiva, depois mulher de Andrei Fiódor Ilitch Kulíguin – professor, marido de Macha

Personagens Secundárias Aleksander Verchínin – 42 anos, tenente-coronel, comandante da bateria Nikolai Tuzenbakh – jovem barão, feio Vassíli Soliôni – capitão, acredita-se um Liérmontov Ivan Tchebutíkin – médico militar, 60 anos Anfissa – babá, velha de 80 anos

InterpretaçãoThe only thing necessary for the triumph of evil is for good men to do nothing.” – Edmund Burke (1729-1797)

A casa dos Prózorov representa o mundo moderno como palco do embate entre o Bem e o Mal. De um lado temos as três irmãs Prózorov, o comandante Verchínin e o jovem barão Tuzenbakh, demonstrando consciência moral, capazes de atos de compaixão (auxiliando as vítimas do incêndio e cuidando de Anfissa) e compreensão do Belo, Bom e Verdadeiro. Opondo-se a eles vemos Natália, Andrei e Soliôni, nos quais imperam egoísmo, autopiedade, inveja, amor-próprio exacerbado e vulgaridade. Os primeiros buscam na razão a justificativa de seus atos, os outros tentam racionalizar suas ações.

A peça é amarga e desoladora dado que o mal triunfa. O grupo que simbolizaria o Bem tem uma atitude passiva diante da vida, como se acreditassem que sua superioridade moral fosse suficiente, que a razão bastasse para evitar o mal: é o inimigo que os maus intencionados mais apreciam. As irmãs não conseguem ir para Moscou sem que haja nenhuma razão para não se mudarem, incapazes de articulares uma reação aos desmandos do irmão e de Natália, e por vezes incapazes de interpretar seus próprios desejos. Preferindo sempre o conhecido e familiar, são incapazes de interpretar os perigos de uma nova realidade e se adaptarem aos desafios que o presente impõe. Moscou, e falar de Moscou, simbolizava para as irmãs o ultimo refúgio da cultura e do bom gosto, onde todos conversariam sobre filosofia, beleza e sacrifício. Mas os prazeres de contemplar a vida não podem suplantar o instinto de autodefesa. Os passivos são menos culpados que os maus intencionados, mas também são culpados das desgraças que seguem quando o mal triunfa.

A primeira solução do autor estaria no trabalho, trabalho voltado para os outros, como por duas vezes realça Irina. Um trabalho direcionado para a melhoria da sociedade, da nação, dando-lhe melhores condições de resistir e repelir o mal – o mal potencial que os vícios provocam dentro de cada um de nós e o mal dos ideólogos.

A segunda solução seria pathos, o sofrimento que permitisse recordar que somos todos iguais, filhos do mesmo Pai e unificados pelo destino de nossas almas, produzindo uma renovação moral e espiritual. Talvez Tchekhov aspirasse que os espectadores experimentassem pathos através do sofrimento das irmãs, para assim reformarem-se e combaterem o mal.

O velho médico Tchebutikín apresentava estes dois caminhos: trabalhava e tinha empatia com os demais como demonstra na sua luta contra a praga no campo. Solitário e cansado abandona tudo, mas não sem antes lembrar-nos de nossa pequenez diante da realidade, dos ciclos do tempo. A natureza humana é imutável, o potencial do mal habita dentro de nós e no nosso meio social, e precisamos estar sempre o combatendo. Afinal, a felicidade não é deste mundo.

Mais que a decadência da aristocracia russa, temos o exemplo de como a sociedade civilizada padece quando é incapaz de se regenerar moral e espiritualmente.

Ah, se pudéssemos saber, se pudéssemos saber!” exclama Olga ao final da peça. Será que se os líderes russos soubessem o que estava por vir em 1917 poderiam ter evitado o desastre (a peça é de 1901)? Com a sistemática destruição do Belo, Bom e Verdadeiro que atualmente testemunhamos já não temos o suficiente para sabermos o que virá?



Notas

  • Anton Tchekhov (1860-1904) nasceu na Rússia.

  • É o principal dramaturgo russo e mestra na arte de escrever contos.

  • Representante do movimento realista fala da vida ordinária e dá ênfase ao indivíduo em detrimento da ação.

  • Dramaturgo da inação, do ser humano de vida monótona da qual não consegue sair.

  • As Três Irmãs é encenada pela primeira vez em 1901.

  • Outras obras destacadas: as peças Tio Vânia (1897), A Gaivota (1896) e Jardim das Cerejeiras (1904), e os contos Uma História Enfadonha (1889), A Dama e o Cachorrinho (1898), Queridinha (1898) e O Predileto (1898).

  • A narrativa desenvolve-se numa localidade interiorana não especificada.

  • Robert Musil em Sobre a Estupidez descreve dois tipos de estupidezes (“sincera” e “inteligente”) que explicariam como as sociedades culturais colapsam diante das ideologias materialistas e totalitárias. As três irmãs e seus associados sofreriam de estupidez “sincera” ao passo que Natália, Andrei e Siliôni representam a estupidez “inteligente”.

  • “Meu caro amigo, estou tão persuadida disto que te acabo de dizer, que em certas épocas da minha vida em que eu me julgava realmente feliz não era sem tremer que eu pensava nisso, porque é certo e provado pela experiência que a felicidade não é deste mundo... Não, a felicidade não é deste mundo, e quando tudo prospera é mau sinal. Deus, na Sua infinita sabedoria, assim o quis, para nos recordar que a terra não é a pátria verdadeira.” – Santa Zélia Martin (1823-1894)