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As Origens do Mal de Fabio Blanco

  • há 14 horas
  • 31 min de leitura

Uma alma vale mais que o mundo” – Evangelho de Lucas 15, 7.



Para entender o mundo contemporâneo e os comportamentos culturais dominantes, é essencial reconhecer as origens das ideias que o moldam. O marxismo não é uma doutrina morta ou restrita a regimes do século XX: ele sobrevive como uma seita que penetrou profundamente nas instituições, na educação, na mídia e na mentalidade das pessoas, muitas vezes sem que elas percebam.


O marxismo resiste a críticas e fracassos práticos (guerras, fome, autoritarismo) exatamente por seu caráter quase religioso: ele oferece uma visão de mundo completa, com dogmas, profetas (Marx, Engels, Lênin), textos sagrados (O Capital, Manifesto Comunista), hierarquia interpretativa e uma escatologia (promessa de um paraíso terrestre após a revolução).


Diferente de uma filosofia aberta ao debate, o marxismo exige adesão quase dogmática, interpreta o mundo através de lentes fixas (materialismo dialético, luta de classes) e trata dissidentes como hereges (rotulados de “fascistas”, “reacionários”, “burgueses”). Sua força está na capacidade de se adaptar (camaleônica): muda de forma conforme o contexto (de proletariado industrial para minorias identitárias, por exemplo), mas mantém o núcleo intacto.


Poucas pessoas têm noção real da extensão de sua influência. O marxismo moldou a forma de pensar contemporânea, criando novas categorias de percepção (ex.: tudo é político, opressão estrutural, progresso como destruição do antigo). Mesmo instituições que parecem tradicionais foram tomadas internamente (e.g. Igreja Católica no Brasil). Resquícios da cultura cristã ocidental criam a ilusão de que o marxismo é marginal, quando na verdade é dominante no mundo acadêmico, cultural e midiático.


Para o marxismo o mal não está no coração humano (como no cristianismo), mas em estruturas sociais e classes opressoras. A solução não é conversão espiritual, mas transformação revolucionária da sociedade.


O entendimento do marxismo como seita desmistifica sua pretensão científica e o expõe como uma ideologia fechada e proselitista. O combate é cultural: não basta criticar regimes comunistas históricos, é preciso confrontar sua permanência como visão de mundo que transforma valores (justiça, liberdade, igualdade) em armas contra a tradição ocidental e cristã.


A filosofia que mudou o mundo

O marxismo se constitui de uma visão de mundo completa que transformou radicalmente a cultura, as instituições e o modo de pensar contemporâneo – sua ambição não é interpretar o mundo, mas modificá-lo. Para os marxistas, sua doutrina não é uma filosofia entre outras, mas a filosofia propriamente dita – o ponto culminante e definitivo do pensamento humano.


O marxismo rompe com a tradição filosófica clássica (grega, contemplativa, voltada à busca da verdade e das causas últimas) ao subordinar o pensamento à ação transformadora (práxis) – a obra de Marx, Teses sobre Feuerbach, resume o espírito: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é transformá-lo.”


A filosofia clássica, e.g. Aristóteles, busca causas, essências, verdade através da razão e contemplação. O marxismo abdica da especulação livre em favor de uma visão de mundo que justifique e impulsione a mudança social. É mais pedagógico e doutrinário (como um manual) do que um tratado aberto de investigação. Torna-se antifilosofia: partidária, interpretativa dentro de cânones fixos (Marx/Engels), com pouca liberdade para caminhos novos que contrariem o dogma.


Diferente da filosofia especulativa (que investiga para entender), o marxismo é instrumental: serve à militância e à revolução. Sua estabilidade dogmática é estratégica – admitir incerteza enfraqueceria a ação revolucionária.


O marxismo não só influenciou regimes (URSS, China, Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, Nicarágua, África do Sul, etc.), mas permeou a cultura ocidental mesmo onde o comunismo não chegou a ser implementado. Via Escola de Frankfurt, Gramsci, Paulo Freire e outros, transformou-se em marxismo cultural: invadiu universidades, artes, educação e linguagem cotidiana (e.g. conceitos de opressão, alienação, luta de classes ampliados para identidades).


Criou novas categorias de pensamento: materialismo como explicação total (nada seria transcendente), dialética como motor permanente de conflito, e a ideia de que a história é progressiva rumo a um paraíso terreno (escatologia secular).


É uma visão de mundo unificada: explica economia, história, religião, arte, psicologia e moral a partir do materialismo, que sobrevive aos inevitáveis fracassos práticos redefinindo alvos (do proletariado clássico para minorias, oprimidos culturais, etc.). E a discordância não é debate, mas sinal de alienação, inconsciência ou reação burguesa-fascista.


A influência da filosofia marxista

Poucas pessoas dimensionam a extensão da influência marxista porque ela não se apresenta como doutrinação explícita, mas como categorias naturais de pensamento. O marxismo age como as religiões históricas: oferece uma visão de mundo completa, novas formas de explicar o mal, a justiça e o progresso, e penetra em todas as esferas da vida. O resultado é um mal-estar ao percebermos o quanto estamos imersos nessa mentalidade, mesmo sem nos declararmos marxistas.


Resquícios da cultura cristã ocidental criam a ilusão de que instituições (escolas, universidades, mídia, família, direito) permanecem tradicionais. Na realidade, ao analisá-las de perto, vê-se que foram tomadas pelo pensamento marxista.


O marxismo não age como uma ideologia paralela, mas como o ar que se respira: molda o que consideramos óbvio, progressista ou justo. Exemplos incluem visões automáticas de opressão estrutural, luta de classes ampliada, e suspeita constante contra tradições.

Após os fracassos do marxismo econômico, a estratégia deslocou-se para a cultura (a “marcha pelas instituições” gramsciana): crítica cultural, desconstrução de valores tradicionais/cristãos e ocupação de espaços acadêmicos, midiáticos e artísticos. Gerações inteiras (incluindo no Brasil desde os anos 1980) foram formadas sob princípios socialistas, muitas vezes sem perceber. livros didáticos, currículos e pedagogia (influência de Paulo Freire) enfatizam desigualdade estrutural, coletivismo e crítica ao sistema. Mídia, artes e linguagem redefinem os termos (progresso como destruição do antigo; conservador como retrógrado) e impõem uma narrativa constante de vítimas e opressores.


O materialismo pretende explicar toda a realidade a partir da matéria e relações econômicas (a base que determina a superestrutura) – ideias, moral e religião são superestruturas derivadas. A dialética garante o conflito permanente onde tudo está em transformação. A síntese gera novo conflito, justificando a luta contínua e rejeição ao status quo.


O conceito de que o pensamento deve servir à ação revolucionária (práxis), e não à contemplação da verdade, traz como consequências o relativismo moral (valores são históricos), ataque ao individualismo (prioridade ao coletivo), e escatologia secular (paraíso futuro após superação do capitalismo).


Com o proletariado integrado ao capitalismo de consumo, o marxismo substituiu o foco por minorias, identidades e oprimidos culturais (neo-marxismo, teoria crítica da raça, gênero etc.). Assim se beneficia de crises reais ou fabricadas para propor soluções cada vez mais radicais. Rotulando opositores para silenciá-los, mantendo o autoritarismo sob máscara de tolerância e inclusão, cria-se uma sensação difusa de culpa (por privilégios estruturais) e ressentimento como motor social, levando ao enfraquecimento das instituições intermediárias (família, religião, nação) em favor do Estado e/ou de movimentos coletivos.


A filosofia de Marx e Engels

Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) não inventaram ideias do nada: sintetizaram influências do século XIX (Hegel, Feuerbach, economia clássica, socialismo utópico). No entanto, criaram algo original e revolucionário: uma filosofia prática, voltada à transformação do mundo. Marx era doutor em Filosofia e via sua obra como filosófica; Engels complementou com escritos mais acessíveis e aplicações científicas. Compreender essa filosofia é essencial porque ela não propõe apenas reformas, mas redefine a realidade, a história e o papel do homem.


Seus principais conceitos são:


Materialismo (inversão de Hegel): influenciados por Hegel, mas invertendo-o: não é o Espírito/Ideia que determina a matéria, mas o inverso (materialismo). Tudo é matéria em movimento. Não há Deus, alma imortal ou essências transcendentais. Pensamentos, moral, religião e cultura são “superestruturas” determinadas pela “base” material (relações de produção). Engels desenvolveu o materialismo dialético aplicando-o à natureza (e.g. Anti-Dühring, Dialética da Natureza). O universo seria eterno, em constante transformação, sem criador externo.


Dialética materialista: Adaptação da dialética hegeliana (tese-antítese-síntese) para o mundo material. A realidade é contraditória por natureza: conflitos (luta de classes) geram movimento e progresso. A síntese não é estática: torna-se nova tese, gerando conflito permanente. Diferente da dialética idealista (Hegel), virada “de cabeça para baixo”: ancorada na matéria concreta, não em ideias abstratas. Serve como ferramenta para explicar (e justificar) a revolução.


Materialismo histórico: Aplicação do materialismo à história humana. A história não é feita por grandes homens, ideias ou destino divino, mas pelas condições materiais de produção. Modos de produção (escravismo, feudalismo, capitalismo) determinam as relações sociais, classes e ideologia. O capitalismo cria as condições para sua própria superação pelo socialismo/comunismo. Seria a lei do progresso: sociedades evoluem por contradições internas até o comunismo sem classes (fim da pré-história da humanidade).


Práxis (união de teoria e prática): A filosofia não deve apenas interpretar o mundo (como os filósofos anteriores), mas transformá-lo (11ª tese sobre Feuerbach). O pensamento marxista é militante: serve à ação revolucionária. Teoria sem prática seria vazia; prática sem teoria seria cega.


Alienação: No capitalismo, o trabalhador seria alienado de seu trabalho, produto e essência humana.


Luta de classes: Motor da história (“A história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes” – Manifesto Comunista).


Crítica à religião: “Ópio do povo” – ilusão que mantém o status quo, a ser superada pela consciência materialista.


Marx (pretenso filósofo) e o papel complementar de Engels (divulgador e sistematizador), produziram uma doutrina que se pretende científica, mas funciona como ideologia fechada. A doutrina marxista tem coerência interna, capacidade explicativa total e poder mobilizador, é uma quase-religião secular com profetas, textos sagrados e promessa escatológica (comunismo como paraíso terreno). Seus problemas estruturais são vários, e.g. dogmatismo (erros são reinterpretados), redução do homem à matéria (negação do espiritual e individual), e visão determinista que justifica violência revolucionária – uma doutrina camaleônica que se adapta, mas mantém o núcleo materialista e conflituoso.


Aspectos religiosos do marxismo

Apesar de se declarar ateu e científico, possui profundas semelhanças estruturais e funcionais com uma religião (ou seita pseudo-religiosa). Essa dimensão religiosa explica sua resiliência diante de fracassos práticos, sua capacidade de mobilização e sua penetração cultural duradoura.


O marxismo não é apenas uma teoria econômica ou política: é uma visão de mundo totalizante que oferece explicação para o mal, promessa de salvação, profetas, textos sagrados, dogmas, hierarquia e uma escatologia (fim dos tempos). Funciona como uma religião secular, substituindo Deus pelo Materialismo Histórico e a salvação eterna pelo comunismo futuro. Sua força vem exatamente desse caráter religioso, que o torna imune a evidências contrárias – progride como fé, não como ciência.


Nas religiões tradicionais, o mal tem origem no pecado pessoal ou em forças espirituais. No marxismo, o mal é estrutural (capitalismo, relações de produção, burguesia). Não se trata de converter o coração, mas de destruir o sistema opressor. A revolução proletária e a ditadura do proletariado levam ao comunismo sem classes – um paraíso terreno de igualdade e abundância. É uma escatologia secular (fim da “pré-história da humanidade”, como Marx dizia).


Seus profetas são Marx (o principal), Engels, Lênin, Mao etc. São venerados como iluminados que revelaram as leis da história. e os textos sagrados incluem O Capital (quase uma bíblia), Manifesto Comunista, obras de Engels e Lênin. Erros ou contradições são reinterpretados ou justificados, com exegeses pseudo-teológicas. Os cultos incluem homenagens, datas comemorativas, santos revolucionários e martirologia (heróis mortos pela causa).


Apesar de se dizer científico, o marxismo é dogmático: fatos que o contradizem (fomes, gulags, genocídios, colapsos econômicos) são negados, relativizados ou atribuídos a desvios (“não era o verdadeiro socialismo”). Exige  na inevitabilidade da revolução e no triunfo final, mesmo contra evidências. Funciona como “ópio” inverso: critica a religião enquanto oferece consolação milenarista.


O Partido (vanguarda do proletariado) é a sua igreja, atuando como instituição guardiã da ortodoxia. Cismas geram seitas (trotskistas, maoistas, eurocomunistas etc.).


Forma militância através da conversão (tomar consciência de classe), proselitismo e intolerância a hereges (rotulados de fascistas, reacionários). E exige sacrifício: dedicação total à causa, inclusive violência revolucionária justificada como “parteira da história”.


Apresenta uma moral dualista: oprimidos (bem) vs. opressores (mal). A liturgia constitui-se de manifestações, hinos, e rituais revolucionários.


O caráter religioso explica a permanência do marxismo após o colapso da URSS e de outros regimes: ele migrou para a cultura e continua convertendo mentes. Muitos progressistas não leram Marx, mas absorveram sua mentalidade como fé cultural.


Enquanto o Cristianismo enfatiza redenção pessoal e transcendência, o marxismo promete redenção coletiva pela violência e imanência (tudo material). Essa pseudo-religião é particularmente perigosa porque nega sua natureza religiosa, apresentando-se como ciência neutra.


O socialismo científico

Antes de Marx e Engels, o socialismo era predominantemente utópico (e.g. Saint-Simon, Fourier, Owen). Esses pensadores criticavam o capitalismo nascente (meios de produção dissociado do operário – Revolução Industrial)) e propunham sociedades ideais baseadas em cooperação, comunidades harmoniosas e distribuição racional da riqueza. Suas visões eram morais, apelavam à boa vontade das elites e imaginavam modelos detalhados de sociedade perfeita (e.g. falanstérios fourieristas).


Marx e Engels respeitam esses precursores por denunciarem os supostos males do capitalismo, mas os criticam duramente por serem idealistas e voluntaristas (dependiam de boa vontade ou exemplos isolados), a-históricos (não compreendiam as leis do desenvolvimento social), e reformistas ingênuos (não viam a necessidade da luta de classes e revolução).


Ambos apresentam sua teoria como ciência (baseada em leis objetivas da história), não em desejos subjetivos. Fundamentam suas ideias no materialismo histórico, onde a história obedece à leis objetivas, como a natureza (dialética materialista). O desenvolvimento das forças produtivas determina as relações de produção e as classes sociais. O capitalismo cria suas próprias contradições (exploração, crises cíclicas, pauperização), que inevitavelmente levam à sua superação pelo socialismo. Diferente do utopismo, o socialismo científico não inventa sociedades ideais, mas identifica o caminho necessário e natural da história.


A história seria a história da luta de classes. O proletariado, criado pelo próprio capitalismo, é a classe revolucionária que derrubará a burguesia. A revolução não é um ato de vontade moral, mas resultado necessário das contradições materiais.


Análise dita científica da realidade concreta (estudo da economia política em O Capital) apresenta uma união indissociável entre teoria e prática: o conhecimento serve à ação revolucionária. Engels popularizou o termo em obras como Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico (compilação de partes de Anti-Dühring).


A auto-determinação como científico é mera pretensão de superioridade, reputando-se baseado em evidências materiais, previsões testáveis (embora flexíveis) e alinhado ao progresso da ciência do século XIX (evolucionismo, positivismo). Isso dava ao marxismo uma aura de inevitabilidade e neutralidade, superior aos sonhos utópico.


A pretensão científica deu ao marxismo enorme poder de atração intelectual, especialmente entre intelectuais e trabalhadores organizados. Transformou o socialismo de sonho moral em “lei histórica”.


Apesar desta pretensão, seus prognósticos (e.g. empobrecimento absoluto do proletariado, colapso inevitável do capitalismo) não se realizaram como previsto, precisando ser reinterpretados. O marxismo só funciona como doutrina: fatos contrários são ajustados à teoria. Ele herda do utopismo o ideal de sociedade perfeita, mas justifica meios violentos para alcançá-lo, sob máscara de necessidade histórica.


Vanguardismo marxista

O vanguardismo resolve (ou pretende resolver) uma das muitas contradições práticas do marxismo: a discrepância entre a teoria (o proletariado como sujeito revolucionário) e a realidade (o proletariado muitas vezes não demonstra consciência revolucionária espontânea).


Marx e Engels falavam da luta de classes e do papel histórico do proletariado, mas não desenvolveram uma teoria detalhada de organização partidária. O vanguardismo ganha contornos definitivos com Lênin, especialmente em Que Fazer? (1902), como resposta às condições específicas da Rússia (autocracia czarista, proletariado incipiente e disperso).


O proletariado, por si só, tende ao “trade-unionismo” (reivindicações econômicas imediatas) e não desenvolve espontaneamente consciência revolucionária plena. A vanguarda é formada por revolucionários profissionais, teoricamente preparados (intelectuais e militantes de vanguarda), que trazem a consciência de fora para as massas (“introduzir a teoria na classe”). Sua função é organizar, educar, dirigir e liderar o proletariado rumo à revolução, evitando desvios reformistas ou espontaneístas – é a vanguarda como elite revolucionária.


O Partido representa esta vanguarda (centralismo democrático): disciplinado, hierárquico e centralizado, com debate interno (“democrático”) mas unidade de ação (“centralismo”). Lênin contrapõe isso ao “democratismo” frouxo dos mencheviques ou social-democratas ocidentais. O Partido é a “vanguarda do proletariado” – não mero representante, mas seu guia consciente.


Naturalmente este processo cria uma elite que se sobrepõe ao proletariado (“ditadura do partido sobre o proletariado”); e justifica o centralismo extremo, que facilmente degenera em totalitarismo (Stalinismo como desdobramento lógico).


Em vez de emancipação das massas por si mesmas, surge uma nova classe dominante (burocracia partidária). No Ocidente, o vanguardismo cultural (Escola de Frankfurt, Gramsci) adapta a ideia: intelectuais de vanguarda conduzem a “revolução cultural” nas instituições.


Tradição filosófica marxista

O marxismo desenvolveu uma tradição diversificada, com divisões, revisões e inovações que garantiram sua sobrevivência e influência duradoura.


Principais etapas e figuras que moldaram a tradição filosófica marxista:


Fundação: Marx e Engels: Síntese de Hegel (dialética), Feuerbach (materialismo) e economia política clássica. Criação do materialismo histórico e dialético como filosofia totalizante. Ênfase na práxis: a filosofia deve transformar o mundo.


Desenvolvimento inicial e Segunda Internacional: Engels populariza e sistematiza as ideias (materialismo dialético aplicado à natureza). Figuras como Kautsky, Bernstein e Plekhánov: debates entre ortodoxia e revisionismo (Bernstein propõe evolução reformista dentro do capitalismo). Tensão entre determinismo econômico e necessidade de ação política.


Lênin e o bolchevismo: Adaptação do marxismo à Rússia “atrasada”: teoria do imperialismo, vanguarda partidária e imperialismo como “fase superior” do capitalismo. Fortalecimento do aspecto voluntarista e organizacional (vanguardismo). Radicalização prática que permitiu a tomada do poder em 1917, plantando sementes autoritárias.


Escola de Frankfurt e marxismo ocidental: Após o fracasso das revoluções na Europa Ocidental e do stalinismo, surge o marxismo cultural em figuras-chave como Lukács, Gramsci, Adorno, Horkheimer e Marcuse. Mudança de foco: da economia para a cultura, consciência e “indústria cultural”. Gramsci: hegemonia cultural e “marcha pelas instituições”. Crítica à sociedade de consumo e desenvolvimento da Teoria Crítica.


Outras ramificações: Maoísmo (ênfase no campesinato e revolução cultural), existencialismo marxista (Sartre) e estruturalismo (Althusser), e neo-marxismo contemporâneo (aplicação a questões de raça, gênero, colonialismo e identidade (pós-colonialismo, teoria queer etc.).


Apesar das divisões (ortodoxos vs. revisionistas, economicistas vs. culturalistas), persiste o espírito materialista, dialético e transformador. Tudo é reinterpretado dentro do quadro marxista. Quando a previsão de revolução proletária falha no Ocidente, o marxismo migra para a superestrutura (cultura, educação, linguagem). Isso explica sua vitalidade atual.

Isto acirra o dogmatismo e excomunhão de hereges, sendo criadas novas elites intelectuais que substituem o proletariado real. Tudo se reduz a poder e opressão, empobrecendo a compreensão da realidade humana – a tradição filosófica marxista carrega um impulso revolucionário permanente que visa dissolver tradições anteriores (cristã, liberal, conservadora) para impor sua visão.


Marxismo e conhecimento

O marxismo não busca conhecimento neutro ou contemplativo, mas subordinado à práxis revolucionária, transformando a própria noção de Verdade. No marxismo, o conhecimento não é busca desinteressada da verdade (como na tradição clássica), mas produto das condições materiais e instrumento de luta de classes. Todo conhecimento é ideológico (exceto o próprio marxismo, que se pretende científico), e a verdadeira consciência surgiria da classe proletária (ou de sua vanguarda). Isso gera um relativismo historicista com pretensões absolutas.


É o conhecimento como produto social e material. A base material (modo de produção) determina a superestrutura ideológica, incluindo formas de pensamento e conhecimento. Não existe “verdade pura” ou razão universal independente da história e da classe. O conhecimento reflete interesses de classe. Exemplo clássico: a economia política burguesa é ciência para a burguesia, mas seria de fato ideologia que mascara a exploração.


Ideologia é entendida como um conjunto de ideias que legitima a dominação de uma classe, apresentando-se como universal e natural. As classes dominadas sofrem “falsa consciência”: internalizam valores da classe opressora, impedindo a percepção de seus verdadeiros interesses – elas estariam alienadas. A função da filosofia marxista é desmascarar ideologias e elevar a consciência de classe do proletariado.


A verdade não é correspondência com uma realidade estática, mas verificada pela prática transformadora (práxis). O conhecimento válido é aquele que serve à emancipação revolucionária. O critério último é a eficácia na luta de classes. Isso inverte a tradição: em vez de adequação à realidade, o conhecimento deve adequar a realidade à teoria (transformá-la).


Verdades seriam históricas: válidas para determinada época e classe, superadas no estágio seguinte. O marxismo se apresenta como exceção: a ciência que supera o relativismo anterior ao revelar as leis objetivas da história. O papel da vanguarda e do Partido é dominar o método dialético-materialista, vendo a realidade de forma superior.

Isto apresenta problemas profundos: relativismo seletivo (tudo é ideologia, menos o marxismo – o que torna a teoria autorreferente e imune a refutação), reducionismo (ignora formas de conhecimento não redutíveis à classe, e.g. ciência pura, arte, experiência religiosa, intuição), justifica censura ou desqualificação de ideias “burguesas”, criação de “ciências proletárias” (e.g. lysenkoismo na URSS), e, em última instância, justificativa para violência extrema.


Método da filosofia marxista

O método marxista é a dialética materialista: inversão e materialização da dialética hegeliana. Ele permite compreender a realidade como processo contraditório em constante movimento, servindo tanto para interpretar o mundo quanto para transformá-lo. Esse método é o que torna o marxismo uma filosofia “científica” aos olhos de seus adeptos, e o que garante sua adaptabilidade e permanência.


Marx e Engels invertem a dialética idealista de Hegel (o Espírito (Ideia) se desenvolve por contradições (tese-antítese-síntese) rumo à realização plena), não é o Espírito que move a história, mas as contradições materiais (forças produtivas vs. relações de produção).


A dialética materialista sustenta que as mudanças da natureza e da sociedade decorrem de contradições internas dos processos materiais, sendo que, na história humana, a principal dessas contradições é a luta entre classes sociais gerada pelos diferentes modos de produção.


Observa-se a pretensão de transformar a história em um processo supostamente necessário, orientado para um fim predeterminado. Proposital redução da complexidade da experiência histórica para favorecer o projeto político que se julga legitimados por uma “necessidade histórica”.


Fato é que não há leis históricas, os indivíduos, e não as classes, são os agentes fundamentais da ação – a história não segue um roteiro inevitável. As mudanças sociais decorrem de escolhas humanas, conhecimento disperso e instituições, não há uma lógica dialética intrínseca.


O partidarismo da filosofia marxista

A filosofia marxista é partidária por princípio: não aspira à imparcialidade ou à verdade abstrata, mas assume abertamente sua posição ao lado do proletariado e contra a burguesia. Esse partidarismo lhe confere coerência interna, poder mobilizador e uma vantagem estratégica, mas também revela seu caráter doutrinário e autoritário. Para o marxismo, objetividade burguesa é ilusão ou ideologia disfarçada; a verdadeira ciência é aquela comprometida com a emancipação da classe trabalhadora.


Para os marxistas todo conhecimento é classista. Não existe ponto de vista neutro: o pensador sempre reflete (consciente ou inconscientemente) os interesses de sua classe ou posição social. O marxismo assume explicitamente o ponto de vista do proletariado. Isso não é visto como vício, mas como virtude — só da posição do proletariado (classe universal) seria possível alcançar conhecimento verdadeiro da totalidade social.


As filosofias liberais, conservadoras ou científicas pretensamente neutras seriam, na realidade, partidárias da burguesia (defendem propriedade privada, mercado, etc., sob máscara de universalidade). O marxismo desmascararia essa pretensão: toda filosofia é ideologia de classe, sendo o marxismo a primeira a reconhecer isso honestamente.


Assim o filósofo marxista não é um espectador imparcial, ele é um militante. Seu trabalho deve servir à luta de classes. O partidarismo exige compromisso: crítica implacável ao inimigo de classe e defesa intransigente da linha proletária. Isso explica o tom combativo e a linguagem de denúncia comum nos textos marxistas. Hoje vemos o partidarismo mais voltado para a crítica cultural e transformação de mentalidades – identitarismo, cancel culture e polarização (ideias julgadas pelo lado que defendem).


O materialismo

O materialismo é o núcleo duro da filosofia marxista – uma visão de mundo completa que determina como se compreende a história, o homem, o conhecimento e a ação política. Para Marx e Engels, a matéria é a única realidade; o espírito, as ideias e a consciência são derivados ou reflexos materiais. Esse primado da matéria sobre o espírito (ou da base sobre a superestrutura) é o que torna o marxismo uma filosofia “científica” aos olhos de seus defensores e uma visão redutora perante a realidade.


No marxismo a matéria é primária e determinante. A consciência é um produto da matéria organizada (o cérebro) e das condições materiais de existência. A história não é movida por grandes ideias ou indivíduos, mas pelo desenvolvimento material e pelas contradições de classe. O homem é um ser material, produto da evolução natural e das condições sociais.

Consciência e pensamento são reflexos da realidade material (não criadores independentes dela) – “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência” (Marx).


Isto implica que moral e valores são relativos às condições de classe, não havendo moral universal ou transcendente. E todo conhecimento seria socialmente condicionado, com a “verdadeira” ciência surgindo da perspectiva do proletariado.


Engels desenvolve a aplicação à natureza: a matéria está em constante movimento dialético (contradições, transformação quantitativa-qualitativa). E esta dialética materialista, por mais absurda que seja, é apresentada como método científico superior.


Porém ela reduz fenômenos espirituais, artísticos e morais a epifenômenos materiais, empobrecendo a compreensão do ser humano; ignora a autonomia relativa da consciência ou ações individuais que fogem à base econômica; elimina qualquer dimensão espiritual, criando um universo fechado e sem sentido último, substituído pela promessa escatológica do comunismo; e justifica ataques à religião, à família tradicional e a instituições não-econômicas em nome da transformação da base material – gerando o niilismo relativista e a desconstrução permanente de tradições e da realidade que vemos hoje.


O perpétuo fluir

No marxismo, a realidade é um processo dialético perpétuo. Não existem essências eternas, verdades imutáveis ou estruturas estáveis — tudo está em fluxo constante gerado por contradições internas. Essa visão do “perpétuo fluir” diferencia o marxismo de filosofias que buscam ordem, permanência ou harmonia, tornando-o uma filosofia inerentemente revolucionária e dissolutiva.


As raízes deste pensamento tem influência de Heráclito (“tudo flui, nada permanece”) e Hegel (dialética como movimento do Espírito). Marx e Engels materializam essa ideia: o fluir é material, não ideal. A matéria está em eterno movimento por contradições internas.


Este movimento tem suas leis: todo fenômeno contém opostos que se atraem e se repelem (ex.: burguesia e proletariado), a transformação quantitativa em qualitativa (mudanças graduais acumulam-se até um salto, e.g. revolução), e negação da negação (cada estágio nega o anterior, gerando um novo que será, por sua vez, negado – avanço em espiral, não linear. Resultado: nada é estável: toda síntese é provisória.


Partindo deste conceito a história é vista como sucessão de modos de produção em conflito (escravismo → feudalismo → capitalismo → socialismo). Instituições, valores e culturas não são consideradas eternas, sendo vistas como produtos históricos destinados a desaparecer quando suas contradições internas amadurecerem: o capitalismo, por exemplo, criaria as condições de sua própria negação.


O “fluir” justifica a luta contínua, qualquer ordem estabelecida é transitória e deve ser superada. Não considera a existência de uma natureza humana fixa, moral universal ou instituições perenes. No marxismo ocidental, aplica-se à desconstrução de valores “burgueses” (família, religião, nação, sexo, tradição).


Mas se tudo flui, não há ponto de apoio para verdade, justiça ou estabilidade (relativismo). Tudo pode (e deve) ser dissolvido. Naturaliza e eterniza a luta, tornando a conciliação ou harmonia suspeitas ou reacionárias. Justifica a violência, pois o fluir dialético apresenta a destruição do antigo como lei da história. Isto alimenta o niilismo pós-moderno e o ativismo perpétuo de desconstrução (identitarismo, teoria de gênero, vitimismo, etc.). As filosofias da permanência (Aristóteles, Tomás de Aquino, conservadorismo) buscam essências e ordem, enquanto o marxismo celebra o fluxo como motor do progresso, gerando instabilidade social, perda de raízes e um ativismo sem fim, característico da esquerda contemporânea.


Conexão universal

A filosofia marxista compreende a realidade como uma totalidade interconectada em movimento dialético. Nada existe isoladamente: cada parte (economia, política, cultura, consciência) está organicamente ligada às demais, determinada em última instância pela base material. Essa “conexão universal” permite ao marxismo oferecer uma explicação unificada do mundo e orientar uma práxis que visa transformar o todo, não apenas partes.


Partindo de Hegel, para quem a realidade é um processo orgânico onde o todo é mais que a soma das partes, Max teoriza que a totalidade social é determinada pelas relações de produção (materialização), mas cada elemento retroage sobre os outros (determinação em última instância, não mecânica). Assim, nada é autônomo: arte, direito, religião e filosofia refletem e, por sua vez, influenciam a base econômica.


Os marxistas analisam qualquer fenômeno (uma lei, uma obra de arte, um costume) em sua conexão com o todo social e histórico, e.g. a ideologia não é mera “opinião”,mas funcional ao sistema de exploração dominante. Criticam o pensamento dito “burguês” como fragmentado, isolado, incapaz de ver as conexões estruturais.


Com base nesta visão, consideram que a revolução deve ser total: não basta mudar a economia, é preciso transformar cultura, educação, família, valores e consciência – justificativa de intervenção em todas as esferas da vida (o que explica o marxismo cultural), e facilidade em tudo criticar (qualquer instituição pode ser deslegitimada mostrando sua conexão com o sistema opressor).


Tamanho reducionismo holístico acaba reduzido tudo à luta de classes ou à base econômica, minimizando autonomia relativa de esferas como religião, arte ou ética. A necessidade de transformar o todo justifica controle abrangente da sociedade – o totalitarismo é inerente ao marxismo


A dialética materialista e redução do ser humano

A dialética marxista não tem nada a ver com a praticada por Platão e sistematizada por Aristóteles que tem por objetivo a busca da verdade, onde os elementos não estão obrigatoriamente em conflito, mas em cooperação, ainda que possa haver oposições eventuais.


Já em Hegel a dialética aparece como um caminho para a revelação da verdade – processo que nasce do Espírito e materializa-se progressivamente, não sendo intrínseco a todos os seres, mas ao Absoluto que o desenrola.


Marx elimina o Espírito e Absoluto hegelianos inserindo o processo em cada ser material, como uma característica imanente neles. Para que tal dialética funcione é preciso que todas as coisas estejam conectadas – o mundo como uma grande rede da qual nada escapa (conexão universal).


Neste mundo o ser humano não passas de uma peça em uma grande engrenagem, tendo como único propósito colaborar com seu bom funcionamento, contribuindo para realizar o seu desígnio (o comunismo).


Coletivismo

O marxismo é essencialmente coletivista. O indivíduo não possui dignidade ou valor autônomo independente da coletividade; ele é um ser social definido por suas relações de classe e pela posição no todo histórico. A emancipação não é individual, mas coletiva – a libertação da classe explorada. Esse coletivismo explica tanto o apelo moral do marxismo quanto seu ineludível autoritarismo.


Na antropologia coletivista o homem é um “ser genérico” (espécie), definido por suas relações sociais e pelo trabalho coletivo – “A essência humana não é algo abstrato inerente a cada indivíduo. Em sua realidade ela é o conjunto das relações sociais” (Marx).


O indivíduo isolado seria uma abstração burguesa; na realidade, ele seria produto e parte do todo social. O individualismo liberal (direitos individuais, propriedade privada, liberdade pessoal) é considerado ideologia burguesa que mascara a exploração de classe. O marxismo denuncia o “homem egoísta” do capitalismo como produto histórico, não natural. A verdadeira liberdade só surgiria com a superação das classes.


O marxismo prega a primazia do coletivo – a classe social tem prioridade sobre o indivíduo. A consciência de classe deve sobrepor-se aos interesses pessoais. A revolução e a construção do socialismo são projetos coletivos. Sacrifícios individuais são justificados em nome do bem comum futuro. O comunismo seria o fim da alienação individual através da realização plena no coletivo sem classes. É o delírio da formação do “novo homem”, o homem coletivo que superaria o egoísmo individualista.


No presente marxismo cultural testemunha-se o coletivismo identitário (raça, gênero, orientação sexual) onde o indivíduo deve submeter-se à narrativa do grupo oprimido.

A proposta marxista esmaga as liberdades pessoais, direitos e consciência individual. Alimenta o autoritarismo, justificando sacrifícios, vigilância e repressão em nome de um abstrato bem coletivo.


A negação da dignidade inerente contrasta com o personalismo cristão (pessoa criada à imagem de Deus) ou liberal (direitos naturais do indivíduo). Os regimes comunistas sempre priorizaram o coletivo com resultados catastróficos para milhões de indivíduos (gulags, fome, genocídios).


A antimetafísica

O marxismo representa uma ruptura deliberada com a metafísica ocidental. Em vez de perguntar “o que é o ser?”, “qual a essência das coisas?” ou “existe Deus?”, ele reduz tudo à matéria em movimento histórico. A antimetafísica marxista declara a metafísica como ideologia burguesa/superstição e a substitui pelo materialismo dialético-histórico. Isso não é mera omissão, mas uma escolha estratégica que torna o marxismo uma filosofia imanente, relativista e revolucionária.


A metafísica tradicional (Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino) busca essências eternas, causas primeiras e realidades imutáveis. Marx e Engels veem isso como especulação idealista inútil ou ideologia que legitima o status quo.


No marxismo as essências eternas são substituídas pelo perpétuo fluir dialético, as causas transcendentais dão lugar a matéria e as relações de produção na explicação da realidade – consciência e valores não são eternos, mas produtos das condições materiais de cada época.


Ao negar essências e transcendência, o marxismo deixa um vácuo de sentido preenchido apenas pela luta política – ao dissolver fundamentos, o homem fica à mercê da história e da política. A antimetafísica marxista é empobrecedora e perigosa.


O antagonista do marxismo

O marxismo não se opõe primordialmente ao capitalismo como sistema econômico (que ele vê como etapa histórica necessária), mas ao idealismo – qualquer visão que atribua primazia às ideias, ao espírito, a essências eternas ou a uma realidade transcendente à matéria. O antagonista é a tradição metafísica ocidental (Platão, Aristóteles, Cristianismo, liberalismo clássico) que afirma a prioridade do espiritual, do individual ou do moral universal sobre o material e coletivo.


Por isso, o marxismo ataca não só o capitalismo, mas toda cosmovisão que afirme valores absolutos, i.e. alma imortal, direitos naturais individuais ou ordem divina. Daí antagonizar tudo: religião (vista como alienação suprema, “ópio do povo” que desvia da luta material), metafísica (rejeitada como especulação vazia que legitima o status quo), liberalismo e individualismo (entendidos como ideologias burguesas que prioriza o indivíduo e direitos abstratos em vez da coletividade de classe), e conservadorismo (a defesa de tradições, família e valores permanentes são consideradas obstáculos ao “perpetuo fluir” dialético).


O antagonismo é inevitável porque as cosmovisões são inconciliáveis: uma afirma primazia da matéria e do coletivo; a outra, do espírito e da pessoa. O marxismo vence culturalmente ao secularizar a sociedade e reduzir tudo a matéria, mas paga o preço de um niilismo latente (sem transcendência, o sentido fica preso à luta política).


O antídoto ao marxismo não é apenas criticar o comunismo econômico, mas recuperar a tradição idealista/metafísica ocidental (especialmente cristã), que oferece fundamentos mais sólidos para dignidade humana, moral e liberdade.


Crítica histórica marxista

A crítica histórica marxista não é neutra ou descritiva: é uma interpretação partidária e teleológica da história, que serve para legitimar a revolução e deslegitimar o passado “burguês”. Tudo é reduzido a contradições econômicas e luta de classes. O materialismo histórico transforma a história em ciência “objetiva” que aponta para um fim predeterminado: a vitória do proletariado e a sociedade sem classes – “A história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes.” (Manifesto Comunista)


No marxismo toda instituição, ideia ou valor do passado é analisado como ideologia que serve aos interesses da classe dominante da época, e.g. a democracia ateniense era liberdade para os cidadãos livres, mas sustentada pelo trabalho escravo; a religião medieval legitimava a ordem feudal.


Para os marxistas a história tem direção: do primitivo ao comunismo (fim da pré-história da humanidade). O capitalismo é a última etapa antagônica, suas crises preparam o socialismo. Atualmente estende-se a crítica a gênero, raça e colonialismo como formas de opressão estrutural.


Esta “ciência” histórica é seletiva e serve à agenda revolucionária: fatos inconvenientes são minimizados, ignorados ou reinterpretados.


Futurismo

O marxismo projeta um futuro perfeito (sociedade sem classes, fim da alienação, fim do egoísmo, realização plena do homem) que funciona como promessa escatológica. Esse futurismo dá sentido aos sofrimentos presentes, justifica a revolução e mantém a militância mesmo diante de fracassos. É o elemento que transforma uma análise econômica em uma visão de mundo totalizante e mobilizadora.


O futurismo tem função motivacional (mantendo a esperança em meio a derrotas, e.g. fracassos do “socialismo real” são vistos como etapas transitórias), mobilizante (o militante se sacrifica pelo coletivo futuro), e justifica as atrocidades revolucionárias.


Apesar da pretensão científica, o futurismo é especulativo e utópico. Marx criticava os utopistas, mas propõe uma utopia própria onde “o fim justifica os meios” no presente. E quando o futuro não chega, surge cinismo ou revisionismo (“ainda não era o verdadeiro socialismo”).


Gerações vêm sendo formadas através do ensino e da indústria do entretenimento vendo o passado como opressivo e o novo como libertador, transformando o debate político em uma narrativa moral: progressistas (bem, futuro) versus conservadores (mal, passado).


O futurismo é o motivo da arrogância das novas gerações, que acabarão sacrificadas em nome de um futuro abstrato que nunca virá.


Progressismo

O progressismo marxista redefine “progresso” não como aperfeiçoamento ou conservação do que é bom, mas como movimento dialético de negação e transformação radical. Tudo que é antigo, tradicional ou conservador é, por definição, retrógrado. Essa concepção justifica a destruição permanente de instituições, valores e identidades em nome de um futuro supostamente melhor, tornando o progressismo uma força dissolutiva e autoritária disfarçada de modernidade.


No conceito marxista de progresso não há linearidade ou acumulação, pois cada etapa nega a anterior (avanço dialético através de contradições e negações), e.g. o capitalismo é “progressista” por destruir o feudalismo, mas deve ser superado pelo socialismo.


O progressismo marxista nunca cria algo verdadeiramente novo, apenas destrói o antigo e promete um futuro que nunca chegará. Gera instabilidade permanente: nenhuma conquista é definitiva; sempre há novas fronteiras a superar (e.g. identitarismo, gênero, transumanismo).


O progressismo marxista corrompe o conceito genuíno de progresso, transformando-o em ideologia de poder e dissolução. Hipócritas, defendem tolerância enquanto cancelam o dissidente, e ciência enquanto ignoram evidências que contrariam sua narrativa.


Antiindividualismo

As instituições ocidentais foram criadas para com o objetivo, antes de tudo, de preservar a individualidade humana e permitir que o homem trilhasse o seu próprio caminho em busca da felicidade. Mas o marxismo rejeita esta tradição retirando da alma humana a dignidade própria de sua eternidade e a autonomia que ela sempre carregou – sem perenidade, resta pouco de identidade a se preservar.


O marxismo pretende que o indivíduo busque no destino coletivo uma razão para a sua existência – diluição da individualidade na coletividade. Para o esquerdista o ser humano não passa átomo neste fluxo contínua da história, e entende como um dever desprezar, oprimir, cercear os direitos, aprisionar, tortura e matar aqueles que atrapalhem o alcance do paraíso terrestre, i.e. o comunismo – como constatado em todas as experiências marxistas.


Pacifismo

O marxismo rejeita o pacifismo absoluto (burguês ou cristão) como ilusão ou instrumento de dominação. A paz verdadeira só virá após a vitória final da revolução. Enquanto isso, a violência de classe é legítima, necessária e “parteira da história”. O discurso pacifista é usado seletivamente contra o adversário, mas abandonado quando serve à causa revolucionária.


Para Marx e Engels a violência é inerente à história (luta de classes) e dialeticamente necessária para o progresso. Mas faz uso tático do pacifismo: quando em minoria ou enfraquecido apela à “paz”, “diálogo” e “democracia” para desarmar o adversário. Mas quando alcança o poder justifica repressão como “defesa da democracia” (externamente) ou “defesa da revolução” (internamente). Uma duplicidade moral que condena a violência do inimigo, mas santifica a própria, gerando ciclos de violência justificada em nome da “paz futura”, e.g. atos racistas contra brancos seriam justificáveis (padrão duplo que instrumentaliza a moral).


Luta de classes

A divisão da sociedade em estratos é constante na história das civilizações – a diversidade de qualificações do homem é uma realidade ontológica (ver O Sentido das Castas de Frithjof Schuon). Estes estratos eram mais estanque até a Idade Moderna, e Marx arbitrariamente as resumiu e solidificou em classe dominante e classe dominada, antagônicas e sem possibilidade de conciliação.


Porém, em meados do século XIX, qualquer pessoa que tivesse acesso a uma quantia de dinheiro que lhe permitisse investir em maquinário para produzir artigos que pudessem ser vendidos em massa poderia enriquecer. A partir do momento que o “capitalismo” encontrou sua vocação na satisfação dos desejos da massa, o número de pessoas que enriqueceram se multiplicou exponencialmente – o “capitalismo” encontrava a sua essência.


Com o aumento da riqueza geral, os salários aumentaram e o poder de compra também – a vida de todos melhorou materialmente, pois a economia não é um jogo de soma zero, não é um bolo de tamanho fixo, onde o ganho de um indivíduo significa necessariamente a perda de outro. A produção de bens e serviços cria nova riqueza ao transformar recursos naturais e conhecimento em produtos que satisfazem necessidades humanas, expandindo o total de valor disponível.


Mas o pensamento marxista estacionou na dicotomia opressor e oprimidos, e apenas substituiu os proletariados pela expressão genérica “minorias”, mantendo o espírito de segregação. O marxismo precisa dividir a sociedade para sobreviver, precisa despertar ressentimento no meio social Ele estimula que os menos prósperos olhem para aqueles com uma condição melhor como o inimigo que o está impedindo de subir na vida. Mas uma sociedade que trata os ricos como criminosos está condenada à pobreza.


O sistema econômico dito capitalista não é perfeito, nem se propõe a isso, mas historicamente é o que trouxe maior prosperidade material para a humanidade.


Anticapitalismo

Por volta de 1850 o socialista Louis Blanc cunhou o termo capitalista para designar criticamente um sistema econômico onde o capital estaria concentrado nas mãos de poucos. O comunismo ataca o capitalismo explorando a inveja social com o falso apelo de igualdade. Outro atrativo comunista é o fascínio do planejamento centralizado – a tendência humana de acreditar que uma inteligência central poderia organizar o mundo melhor do que milhões de decisões descentralizadas (percepção que ignora que o conhecimento relevante está disperso entre milhões de indivíduos e não pode ser concentrado em uma autoridade central).


O sistema dito capitalista não é perfeito nem garante prosperidade automática, mas é, entre os sistemas econômicos conhecidos, o que melhor concilia liberdade individual, coordenação eficiente dos recursos e aumento do bem-estar material. Mercados competitivos, propriedade privada e preços livres tornam possível o cálculo econômico, orientam investimentos para usos mais valorizados pelos consumidores e criam incentivos à inovação e à acumulação de capital, fatores que explicam o crescimento sustentado da produtividade e da renda ao longo do tempo.


Contradições marxistas

Enquanto pregam a paz, promovem guerras, falam de igualdade e geram miséria e elitismo, anunciam irmandade mas perseguem e assassinam adversários e até os seus próprios membros – nunca houve coerência no marxismo, apenas ações e discursos que variam conforme o interesse do movimento e de seus líderes.


Para o comunismo a contradição é uma necessidade, um pressuposto do progresso, fruto de todas as coisas terem dentro de si elementos contraditórios. Este pensamento tortuoso permite ao esquerdista, por exemplo, usufruir das benesses do presente sistema econômico enquanto tenta destruí-lo. A discurso comunista junta-se ao relativismo na geração de um mundo cada vez mais incoerente, onde as novas gerações não mais se preocupam com verdade, razão e lógica, trocando-as pelo exercício da persuasão.


Revolução

Apesar de todas as contradições do comunismo o ânimo revolucionário da militância não arrefece, pois o movimento mantêm a promessa do paraíso terrestre para justificar sua reivindicação de poder ilimitado.


Promete-se uma sociedade perfeita, sem exploração, injustiça ou conflitos, mas como essa sociedade ainda não existe, afirma-se que há “inimigos do povo”, “burgueses”, “reacionários” ou “fascistas” impedindo sua realização. Para eliminar esses obstáculos, torna-se necessário ampliar continuamente o poder do partido ou do Estado quando ele está no poder. E como o paraíso nunca chega, sempre aparecem novos inimigos, justificando novas concentrações de poder.


Evolução

Revolução, na perspectiva marxista, é apenas o ápice de um processo ininterrupto que ocorre na sociedade, que ocorrerá quando as condições se mostrem ideias para isso (i.e.. crise geral agitação social, nível de “consciência de classe” e capacidade material revolucionária).


O marxismo se afasta com conceito de evolução dos metafísicos (potência e ato) por acreditar que ele não leva a nenhuma mudança qualitativa, pois o objeto segue o mesmo.


O fluir em eterna mudança (eterna até o comunismo – fim da história) num processo de negação e superação exige a ideia de crítica constante – é o tal “pensamento crítico” que enfiam na cabeça dos estudantes. Pensar criticamente vira a investigação de se o mundo caminha para a revolução ou sofre algum entrave.


Crises

O marxismo preconiza que o dito sistema capitalista desabará sob seu próprio peso numa crise irremediável. A expectativa pelo idealizado fim do capitalismo faz com todas as crises sejam um prenúncio da revolução – toda vez quer a sociedade parece desequilibra-se o socialista se assanha. As crises não são vistas como negativas pela esquerda, ao contrário, o esquerdista é um agente da crise. Políticos e a imprensa, em sua maioria essencialmente esquerdista, empreendem uma constante retórica do apocalipse, fomentam crise após crise, gerando um estado constante de apreensão e expectativa – quando tudo parece bem, inventam um problema.


Boa parte das crises são provocadas: começam nas artes alimentando o imaginário com fabricados conflitos (e.g. atrito entre gerações, sexos e classes econômicas) e distopias (e.g. aquecimento global), passa pelo noticiário cotidiano selecionando abordagens e enfatizando desgraças, e não exclui os grupos de poder capazes de provocar crises financeiras, terrores sanitários e embates armados – uma cultura da crise que afeta o próprio estado de espírito do homem, gerando uma sociedade em agitação constante.


O marxismo quer as pessoas permanentemente insatisfeitas e reclamando por mudanças. Anseia pela destruição que produzira o novo mundo e o fim da história (comunismo pleno). O fracasso econômico, a crise de segurança, a falência das instituições num regime esquerdista não representa seu fracasso, mas sim sucesso na busca do paraíso na terra.


Ateísmo marxista

Para Marx “a supressão da religião como felicidade ilusória do povo é exigência de sua felicidade real.” Porém seus seguidores não se furtam de fazer aparentes alianças com a religião para não destoarem em demasia da fé das pessoas, um ardil para atrair incautos enquanto rebaixam a religião a sua própria perspectiva materialista.


Este rebaixamento da religião é estampado não somente na atuação de maltas como a Teologia da Liberdade e exegeses esdrúxulas da Bíblia, mas também na promoção de práticas espiritualistas que apenas emulam uma espiritualidade, mas não passam de exercícios corporais e mentais que acabam, no máximo, apenas estreitando o relacionamento do homem com o mundo visível (material).


Outro truque utilizado é fazer um pastiche de religiões despindo-as de suas obrigações morais, e fomentando a decadência ética e espiritual dos tolos incautos.


A ditadura do proletariado

Os marxistas defendem que enquanto o comunismo não chega é preciso trabalhar em seu favor – daí a crítica aos religiosos considerados passivos, pois consideram que todos devem ser um instrumento contra a “opressão”. Para mudar a consciência religiosa os comunistas ocupam espaço em suas instituições pregando um evangelho diferente (e.g. CEB (Comunidades Eclesiais de Base), Teologia da Libertação, CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)).


O papel do cristão, assim como de qualquer outra pessoa “explorada”, seria de instrumento do aprofundamento das contradições existentes levando até o colapso da civilização atual (considerada como burguesa) – o último instrumento para conduzir a sociedade até o fim chama-se ditadura do proletariado.


A ditadura do proletariado é a imposição de novas normas de produção em linha com os princípios marxistas, i.e. os meios de produção conduzidos pelos próprios proletários – a nova classe dirigente por ser a única que teria consciência de sua condição histórica.

Porém o dito capitalismo apenas favoreceu a condição econômica do proletariado, forçando os intelectuais marxistas a buscar um substituto para dar andamento no processo revolucionário. Os novos eleitos foram os grupos chamados minoritários (reais ou fabricados) vestindo-os das mesmas características de opressão que eram vistos os trabalhadores do século anterior – são os lumpemproletários, que não pertenceriam a nenhuma classe social (marginalizados). Estava aberta a porta a qualquer tipo de pessoa que a intelligentsia socialista considere potencialmente útil ao processo revolucionário.


Pessoas que se sintam desprestigiadas, ressentidos sociais e revoltados metafísicos são facilmente convencidas a participar de grupos que querem se impor como responsáveis por mudar a sociedade. O ressentimento e a revolta são transfigurados em arrogância e prepotência, justificando até a violência para impor suas ideias sobre os demais. Corjas como Black Lives Matter, MST, WWF, Antifas, MTST e militantes LGTB assediam a sociedade sob a guarita da mídia e instituições tomadas por esquerdistas (e.g. STF) que estão ali justamente para proteger estas maltas.


A intolerância socialista

Em Crítica da Tolerância Pura o marxista Hebert Marcuse da Escola de Frankfurt define dois tipos de tolerância: abstrata e concreta. A tolerância abstrata é a burguesa que seria complacente com a injustiça, o preconceito e a opressão. Já a concreta não daria margem para erros: tolera-se o tolerável e rechaça-se o intolerável (incluindo meras opiniões).


A partir desta separação Marcuse (e demais marxistas) auto-proclamam-se os únicos autorizados a definir o que tolerável ou não – o senso comum da sociedade deixa de existir, sendo subsistido pela intelligentsia socialista.


Ser tolerante é permitir que a esquerda fale e faça o que bem entender, e proibir a oposição, se possível, até mesmo de existir. A tolerância socialista não passa de uma arma política, tendo como exemplo mais corriqueiro o histérico xingo de “fascista” diante de qualquer argumentação contrária as ações ou planos da esquerda.


Base e superestrutura

Materialistas integrais, os adeptos do ideário comunista invertem a realidade e colocam a matéria antes da razão: pensamento como reflexo do mundo material. Isso é o mesmo que dizer que as relações de produção determinam a consciência dos homens – teoria da base (meios e relações de produção) e superestrutura (ideologia estabelecida pela base).


Nem mesmo a linguagem escapa da convicção de que todas as coisas são reflexos do ambiente material. No pensamento socialista não há autonomia de consciência: aquele que vive num ambiente burguês terá pensamentos burgueses, usara a linguagem burguesa e terá uma consciência burguesa. É desta asneira que nascem conceitos absurdos como o de que todo o branco é automaticamente racista e o de “racismo estrutural”.


A esquerda infiltra-se nas escolas, igrejas, associações comunitárias, mídia e indústria de entretenimento para fazer seu trabalho de “base”, i.e transformar as relações entre os homens, mudar a forma como eles estabelecem contato, para assim moldar suas consciências.





Notas


  • Fabio Blanco (1975- ) nasceu em Santos (SP), Brasil.

  • Formado em Ciências Jurídicas, com pós-graduação em Retórica e Oratória. Ele se interessou por filosofia ainda jovem (estudou com Olavo de Carvalho) e escreve sobre temas clássicos, conservadores e cristãos.

  • As Origens do Mal: A Filosofia Marxista e como Ela Transformou o Mundo foi publicado em 2022. O livro surge da percepção de um mal-estar causado pela influência marxista difusa, que o autor busca expor para que as pessoas reconheçam como suas mentes foram formatadas por essa ideologia.

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