Apocalypse Now (1979)



Assim como O Coração das Trevas (fonte do roteiro de Coppola) não versa sobre o colonialismo, Apocalypse Now não é um filme sobre guerra – as duas situações limites (colonialismo belga no Congo e a guerra no Vietnã) servem apenas de cenário onde a natureza humana será estressada.

Nossa existência humana flutua entre o mistério luminoso e o mistério das trevas, mistérios estes que aumentam conforme nos afastamos do mundo sensível: para cima mais luz e para baixo apenas trevas. Vivemos entre estes dois polos e temos a potência de ambos dentro de nós. Quando caminhamos em direção as trevas, ou abismo, temos menos luz, enxergamos menos, tudo parece inexplicável – simbolizado pela incursão rio adentro tanto na novela como no filme. Assim como o Kurtz da novela de Conrad, o Kurtz do filme de Coppola olhou o abismo e foi tragado para dentro dele. “The horror, the horror” expressa o horror potencial que habita nossas almas.

A surreal e alucinógena jornada de Willard não visa eliminar Kurtz, mas sim matar a força obscura que habita sua alma (Kurtz é o doppelgänger de Willard). No início vemos Willard a beira da loucura, mas ele consegue olhar seu próprio abismo (representado por Kurtz, seu duplo) e salvar-se (como Perseu usando o escudo refletor diante da Medusa) – sua recusa em bombardear o acampamento de Kurtz é prova de sua salvação.

Coppola destila ideologia em várias cenas, num aberrante esforço antipatriótico e desrespeitoso aos seus conterrâneos que morreram no Vietnã, e isto poderia desvirtuar o filme. Porém a universalidade da história original de Conrad supera, em muito, o arrombo político juvenil do diretor, e junto com a inegável beleza estética das imagens fazem deste um filme marcante.

Filme Nota 5 (escala de 1 a 5)

PS: As versões Redux e Final Cut apenas adicionam cenas dispensáveis, com ênfase em propaganda política, prejudicado sensivelmente a experiência original.