Absalão, Absalão! de William Faulkner


His conscience had bothered him … at first, but he … argued… logically with (it) until it was settled.” – Quentin Compson revela a incapacidade de Sutpen entender seu erro, o desastre da mente ter primazia sobre o espírito.

Personagens Principais Thomas Sutpen – forasteiro, chega em Jefferson em 1833 aos 26 anos de idade Ellen Coldfield – filha do comerciante Goodhue Coldfield, casa-se com Sutpen Henry e Judith Sutpen – filhos de Thomas e Ellen Rosa Coldfield – irmã de Ellen, narra um das versões da história de Sutpen Quentin Compson – narrador, neto do General Compson (único amigo de Thomas Sutpen) Shrevlin (Shreve) McCannon – canadense, colega de Quentin em Harvard Charles Bon – filho de Thomas Sutpen com Eulalia Bon

Personagens Secundárias Mr. Compson – narrador, pai de Quentin Charles Etienne – filho de Charles Bon, pai de Jim Boni Clytemnestra (Clytie) Sutpen – filha de Thomas Sutpen com uma escrava negra Wash Jones – posseiro em Sutpen’s Hundred, pai de Melicent e avô do Milly Pettibone – rico proprietário de plantação

Interpretação Três narradores apresentam a história de Thomas Sutpen em versões nunca iguais, com cada um projetando suas próprias distorções na narrativa e revelando algo de si mesmos:


Rosa Coldfield é uma solteirona frustrada, deformada física e psicologicamente. De forma histérica e desordenada apresenta Thomas como contornos diabólicos, responsável pela desgraça de sua família.


Mr. Compson é um contrapeso a cegueira subjetiva de Rosa. Seu olhar mais distante e desapegado confere-lhe maior credibilidade. Porém suas observações são marcadas por um profundo espírito de resignação – derrotista, sua fala exibe ceticismo e fatalismo.


Quentin transfere sua própria experiência de incesto e defesa da honra da irmã (ver O Som e a Fúria) à história de Henry, Judith e Charles Bon. Sua exposição, auxiliado por Shreve, é eminentemente romântica.


A condição infeliz dos narradores reverbera os eventos passados – todos vivem entre fantasmas. O drama de Thomas reflete a tragédia que abate toda aquela sociedade por duas gerações seguintes.


Como em um caleidoscópio, as diferentes narrações da vida em torno de Thomas ganha nitidez, mas com um acento mitológico. Rosa, Mr. Compson e Quentin lembram três diferentes dramaturgos gregos compondo uma tragédia com sua interpretação sobre um mesmo mito. O suspense provocado pelas diferentes narrativas aparenta a expectativa que o teatro grego provocava quanto as possíveis variações do mito representado.


Assim como fizera em O Som e a Fúria, Falkner parte do microcosmo familiar para simbolizar todo o conflito civil que destruiu o modo de vida sulista. O fratricídio dos Stupens é clara referência ao fratricídio da guerra civil – a húbris sobrepondo-se à irmandade.


O declínio da sociedade sulista estaria ligado à maior infração moral, a húbris. Sutpen quer sanar seu orgulho ferido com a interdição de entrar pela porta da frente na casa de Pettibone, e, cego pela ambição, fica incapaz de entender seus erros mesmo quando seu projeto começa a desmoronar com a ausência de herdeiros. Analogamente, os sulistas aferraram-se a soberba de considerarem-se “senhores” de outros homens.

 

O título faz direta referência ao funesto destino dos filhos do Rei Davi de Jerusalém, e aos temas da falsa ambição, vanglória e conduta familiar desviante. Mas também pode-se traçar um paralelo com Édipo, seus “pés inchados”, o fratricídio entre seus filhos (Etéocles e Polinices) e a irmã (Antígona) enterrando o irmão morto (Polinices).

 

Notas

  • William Faulkner (1897-1962) nasceu em New Albany, Mississippi, e morou praticamente toda sua vida em Oxford, no mesmo estado. Era um tradicional cavalheiro sulista sorvedouro de Bourbon – grande contador de histórias e criador de personagens sempre às voltas com problemas psicológicos e morais em diferentes circunstâncias.

  • Faukner trabalhou como funcionário dos correios e seu pai foi condutor da estrada de ferro construída por seu bisavô, ou seja, sua família sofreu uma decadência financeira como os Compsons de O Som e a Fúria. Só a partir de Sanctuary (1931) os direitos autorais foram suficientes para sustentar a família.

  • Considerado talvez o mais sofisticado estilista americano, Faulkner é comparado a Henry James e James Joyce. Mas só começou a ser seriamente estudado nos EUA a partir do Prêmio Nobel recebido em 1950.

  • Suas principais obras encontram-se na saga Yoknapatawpha (um condado imaginário cujo nome deriva de yocona e petopha, palavras de origem Chicksaw que significariam “terra dividia” – Faulkner disse que a palavra composta expressa "água que corre lentamente através da terra dividida") compreendida pelos romances Sartorsi (1929), O Som e a Fúria (1929), As I Lay Dying (1930), Sanctuary (1931), Luz em Agosto (1935), Absalom, Absalom! (1936), The Hamlet (1940), Intruder in the Dust (1948), Requiem for a Nun (1951) e The Receivers (1962 – póstumo), e vários contos.

  • Com diferentes histórias, personagens (algumas aparecem em mais de uma história) e épocas localizadas em Yoknapatawpha o autor traça um panorama do sul americano e sua posição na sociedade contemporânea, enfatizando o declínio econômico da aristocracia local e sua luta, quase sempre inútil, em preservar seus valores e costumes.

  • Absalão, Absalão!... Meu filho Absalão! Absalão, meu filho, meu filho! (11 Samuel.5) — lamento do rei David, chorando a morte do filho rebelde, no dia em que ele próprio vencia a guerra que foi o culminar de uma tragédia familiar, dinástica e social.

  • A visão final de Shreve (distante e desapegado daquela guerra civil) assemelha-se àquela prestada por Dilsey em O Som e a Fúria e o vendedor de móveis em Luz em Agosto.

  • Stupen perde a inocência ao descer da “montanha” para a “plantação” – alusão bíblica.

  • Thomas Stupen é corajoso, perspicaz e teve o mérito de transformar parte de seu orgulho ferido em ambição e não inveja, mas tais qualidades sem a piedade não bastam para fundar uma família. Ele também demonstrou coragem e valor no campo de batalha, bem como nunca colocou sua propriedade, família e segurança pessoal acima dos seus deveres – virtudes sulistas mas sem a cortesia e distinção encontrada em muitos de seus pares.

  • Toda traição aos princípios humanos é uma traição tanto para a vítima quanto para o agente – ao rejeitar sua primeira esposa e filho, Stupen rejeita a si mesmo como marido e pai.

  • Charles Bon em busca de uma identidade recorda a personagem Joe de Luz em Agosto – ambos white Negro e privados da figura paterna.