Luz em Agosto de William Faulkner


Acho que uma família deve estar junta quando vem um bebê. Especialmente o primeiro. Acho que o Senhor cuidará disto.” – Lena, obstinada, diante da dificuldade em encontrar Brown

Personagens Principais Joe Christmas – personagem central, um whiteNegro Joanna Burden – advogava pelos negros, amante de Joe, alienada na cidade Lena Grove – jovem grávida, vem do Alabama em busca do pai da criança Byron Bunch – empregado da serraria, procura ajudar Lena Gail Hightower – reverendo, vive no passado Personagens Secundárias Joe Brown (Lucas Burch) – jovem inconsequente, engravida e abandona Lena Bobbie Allen – prostituta, amante de Joe quando jovem Simon McEachern – pai adotivo de Joe, abusivo Euphues Hines (Tio Doc) – avô materno de Joe, abandona-o num orfanato Percy Grimm – cidadão violento de Jefferson Gavin Stevens – procurador, tenta explicar o comportamento de Joe Senhorita Atkins – dietista, afeta a percepção de Joe sobre as mulheres

Interpretação A elevada coluna de fumaça amarela da casa incendiada de Joanna marca a chegada de Lena na cidade e a partida em fuga de Joe, personagens que demarcam dois polos opostos da relação do indivíduo com a sociedade em Luz em Agosto. Com exceção de Lena, as demais personagens principais – Joe, Hightower, Byron e Joanna – demonstram, cada um a seu modo, incapacidade de integrarem a vida social.


O próprio estilo narrativo apresentando as personagens ora como sujeito e ora como objeto, ou como observador e observado, recorda a multidimensionalidade de nossa existência – como realmente somos, como pensamos ser e como parecemos ser para os outros. Ressaltando a constante tensão em integrar estas diferentes dimensões o mais próximo possível da realidade, alcançando, assim, um equilibrado convívio do indivíduo na coletividade.


A indevida divisão entre as vidas social e privada dilacera o homem, principalmente quando interage com seus semelhantes – são nos momentos de confrontação que a auto-alienação mais faz estragos, mas também carregam a potência de resgatar o homem para a vida (ajudando em seu autoconhecimento). E o romance descortina uma série de confrontos: Lena-Burch, Lena-Bunch, Bunch-Hightower, Joe-Hightower Grimm-Joe, dramatizando a potencial de erosão ou recuperação nas relações humanas.


Joe, Hightower e Joanna são prisioneiros de seus respectivos passados, perdidos em seus pensamentos, e passivos em suas vidas, prisioneiros de um sentimento de culpa que emerge de suas próprias histórias e que não é devidamente processado. Já a simplória e ingênua Lena assume as consequências de seus erros (“abrir a janela”) e busca fazer a coisa certa (encontrar o pai de seu filho ainda inato) – a precariedade de sua condição nesta busca é compensada por sua inabalável fé em Deus (“o Senhor cuidará disto”).


O conflito interno, o não compreender a si mesmo, alenta a perda de contato com a realidade e inibi o salutar convívio humano. Joe é o antípoda da integrada Lena (descalça na areia, pés fundados na terra), sua condição física (white Negro) enfatiza seu profundo desconhecimento sobre si mesmo – Joe (nem sobrenome tem) é um nômade urbano em busca de sua identidade, ele quer ser alguém com integridade, alguém como Lena. Joe é uma abstração, uma personagem apresentada essencialmente através das outras, ele não sabe quem ele é, e, portanto, é incapaz de compreender a fonte de sua miséria. A fertilidade de Lena contrapõe-se à esterilidade (destruição, anonimato e morte) de Joe – contraste de vida e anti-vida.


Quando Lena chega à cidade, a perdição de Joe e Joanna, já está decretada. Mas ela vai tocar profundamente outros dois desajustados: Byron e Hightower.


Byron Bunch é um coitado, raiando a idiotice, um introvertido enfiando no trabalho que apenas convive com o também isolado Hightower. A chegada de Lena desperta o amor em Byron, que então sai de sua passividade social (procura ajuda Lena e os avós de Joe, e tira Hightower de sua letargia), sendo no fim premiado com a realização do seu sonho.


Hightower, é reconduzido à vida ao fazer o parto do filho de Lena, percebe ao final que o homem precisa participar da sociedade, assumindo responsabilidades não apenas por seus atos, mas também com relação aos seus semelhantes (atos de caridade para agradar a Deus).


A história começa e termina com Lena. E o toque de humor final, quando Lena finalmente aceita o amor de Byron, funciona como a sátira apresentada depois da catarse provocada pela sequência de três tragédias no teatro grego. A vida continua com Lena, Bryon e o recém-nascido – a gravidez e o bebê representam a força inabalável da vida no meio das mortes e desvarios que a cercam.



Notas

  • William Faulkner (1897-1962) nasceu em New Albany, Mississippi, e morou praticamente toda sua vida em Oxford, no mesmo estado. Era um tradicional cavalheiro sulista sorvedouro de Bourbon – grande contador de histórias e criador de personagens sempre às voltas com problemas psicológicos e morais em diferentes circunstâncias.

  • Faukner trabalhou como funcionário dos correios e seu pai foi condutor da estrada de ferro construída por seu bisavô, ou seja, sua família sofreu uma decadência financeira como os Compsons de O Som e a Fúria. Só a partir de Sanctuary (1931) os direitos autorais foram suficientes para sustentar a família.

  • Considerado talvez o mais sofisticado estilista americano, Faulkner é comparado a Henry James e James Joyce. Mas só começou a ser seriamente estudado nos EUA a partir do Prêmio Nobel recebido em 1950.

  • Suas principais obras encontram-se na saga Yoknapatawpha (um condado imaginário cujo nome deriva de yocona e petopha, palavras de origem Chicksaw que significariam “terra dividia” – Faulkner disse que a palavra composta expressa "água que corre lentamente através da terra dividida") compreendida pelos romances Sartorsi (1929), O Som e a Fúria (1929), As I Lay Dying (1930), Sanctuary (1931), Luz em Agosto (1935), Absalom, Absalom! (1936), The Hamlet (1940), Intruder in the Dust (1948), Requiem for a Nun (1951) e The Receivers (1962 – póstumo), e vários contos.

  • Com diferentes histórias, personagens (algumas aparecem em mais de uma história) e épocas localizadas em Yoknapatawpha o autor traça um panorama do sul americano e sua posição na sociedade contemporânea, enfatizando o declínio econômico da aristocracia local e sua luta, quase sempre inútil, em preservar seus valores e costumes.

  • A pregação do avô de Joe, a rigidez excessiva de seu pai adotivo, a perdição de Joanna, e a deserção de Hightower são sinais de uma igreja protestante que perdeu sua função espiritual. Não conseguindo mais ajudar ao homem superar o salutar sentimento de culpa, nem navegar dentro da sociedade.

  • Tio Doc e Hightower também representam duas perversões opostas do sentimento religioso: o moralismo cruel e o amolecimento sentimental que, levado por um arrependimento confuso, se dispõe, após muito relutar, a mentir para salvar da pena de morte um assassino.