A Tempestade de William Shakespeare


Personagens Principais Próspero – legítimo duque de Milão, feiticeiro (poder espiritual – primeira casta) Miranda – filha de Próspero Ferdinando – filho do Rei de Nápoles Ariel – espírito do ar Antônio – irmão de Próspero, usurpador de Milão (poder temporal – segunda casta) Personagens Secundárias Alonso – Rei de Nápoles Sebastião – irmão de Alonso Gonzalo – um velho e honesto conselheiro (aspecto temporal não corrompido) Calibã – escravo selvagem e disforme

InterpretaçãoWe are such stuff as dreams are made off, and our little life is rounded with a sleep.” – Próspero (Ato IV – Cena I)


A peça começa com o poder temporal, representado por Antônio, usurpando o lugar hierárquico do poder espiritual representado por Próspero. Antônio é o xátria que quer ocupar o lugar do brâmane Próspero. O poder temporal deve estar subordinado ao espiritual – o contrário é antinatural, anormal.


A tempestade destrói a condição presente daquelas pessoas, atirando-as à natureza bruta. É feita tabula rasa de sua condição social, privilégio e poderes. Caem no mistério absoluto, apenas Gonçalo vê naquela situação a potência de semente para algo novo. Próspero produz ações que obrigam as pessoas a perceberem a realidade a sua volta.


O casamento de Miranda e Ferdinando (ambos inocentes com relação ao passado) representa o casamento da terra com o céu (daí a presença de Ceres e Juno). O céu/espírito fora rejeitado e a solução demanda o re-casamento do céu inocente (Miranda) com a terra sublimada (Federico – como Fênix renasceu das águas e fogo / faz o esforço para merecer o céu cortando a lenha). A terra purgada e sublimada agora é capaz de reencontrar o céu. A normalidade é recuperada.


Shakespeare está tentando alquimicamente recuperar a ordem. Alquimia é solver e coagular, desfazer e refazer, destruir o que está estabelecido e refazê-lo melhor. Santo Agostinho dizia que os vícios e as virtudes são feitas da mesma matéria. E esse é o princípio básico da alquimia. Com o mesmo material você faz os dois. Você tem que desfazer o vício e reconstruir a virtude – no sentido alquímico.


A alquimia de Shakespeare é a sua arte literária. Próspero é Shakespeare.



Notas

  • William Shakespeare (1564-1616) em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. Era católico num mundo protestante.

  • Shakespeare escrevia, dirigia, produzia e atuava em suas peças. Deixou-nos a maior obra teatral do mundo moderno.

  • Apesar de serem denominadas como Tragédias, as peças de Shakespeare são Dramas. Pois o que caracteriza a tragédia é a inexistência da malicia humana.

  • Bons livros para entender Shakespeare: Sobre Shakespeare de Northrop Frye e A Arte Sagrada de Shakespeare de Martin Lings.

  • A Tempestade funciona como um testamento de Shakespeare e dá a chave para entender sua obra. Como Próspero que queima seu livro de mágicas, Shakespeare estava se aposentando. No epílogo, Próspero pede ao público “liberte-me” através das palmas! Ele liberta-se daqueles poderes todos para ser uma pessoa normal. Perdoai os pecados é uma declaração de imensa humildade.

  • O autor usa as tempestades como uma purgação – o momento da tempestade gera uma reviravolta na vida de alguém. Trovão e fogo também produzem este efeito de purificação (ver poema Fire and Ice de Robert Frost). A tempestade está para Shakespeare assim como o sofrimento está para Dostoiévski.

  • Bruxaria é a capacidade de mobilizar as forças naturais e elementais por meio de palavras – ação do mundo sutil no mundo material.

  • A espiritualização de Próspero também é demonstrada pelo seu controle dos elementos que devem ser dominados pelo espírito.

  • Calibã é anagrama de canibal e mostra como os europeus interpretavam os nativos das novas terras descobertas. Simbolicamente representa o mal, a decadência.

  • Ceres é a deusa da fartura, daí vem a palavra cereal. A origem da palavra fuck seria arar – fuck the Earth. Sentido de fertilização.

  • Eric Voegelin explica que o que caracteriza o poder espiritual é que ele tem que ser aceito com liberdade. Daí a inviabilidade do rei-filósofo platônico. O xátria tem o poder da força.

  • O samurai leva a espada na mão direita e um crisântemo na esquerda. Esta flor representa a capacidade de perdoar. Significa que o samurai (xátria) está subordinado a outros valores que não apenas ao da força/violência. Diferente de um bárbaro ou terrorista que usa a violência pura e não enxergam valores morais acima disto. Por vezes as religiões e seitas são fundadas por guerreiros (Maomé, Jesus Cristo (da família do Rei Davi), Sidarta Gautama – enfrentar a resistência inicial), mas não são capazes de sustentar a religião pelos seus próprios critérios. Eles podem fundá-la, mas necessariamente transferirão o poder para a casta bramânica, sacerdotal.

  • O objetivo de toda grande literatura é recuperar a normalidade, contar para nós o que é normal (mesmo quando mostra o anormal). Tudo que é tradicional tem a mesma linguagem, pois a condição humana é uma só.

  • Qualquer tentativa para se produzir um conhecimento verdadeiro de alguma coisa, o conhecimento filosófico, por exemplo, depende de você ser primeiro capaz de contar a sua história honestamente para você mesmo. O melhor exercício filosófico que existe é você ser capaz de contar a sua história, com honestidade, para você mesmo. Se você é capaz de fazer isso, você também é capaz de entender o resto.

  • As mulheres como passivas e lunares refletem outra luz. São misteriosas. Os indianos dizem que é mesmo difícil saber a casta de uma mulher e que o método mais prático é ver com quem ela se casa, pois ela tende a se casar com o homem da mesma casta. Mas esconde completamente o jogo o tempo todo, porque tem essa interioridade, essa introversibilidade desde a genitália até a psicologia feminina. A mulher é misteriosamente enigmática, um ser muito complexo, muito sofisticado e muito esperto ao mesmo tempo. Quem quiser conhecer a diferença entre o homem e a mulher deve assistir a um strip-tease dos dois. Os homens assistem as mulheres como quem assiste a uma cerimônia religiosa. É algo paralisante, pois é como se a natureza estivesse se revelando. As mulheres assistem numa gritaria ensurdecedora, numa histeria coletiva (ameaça).

  • Como ocorre em outras peças de Shakespeare temos uma peça (dirigida por Próspero) dentro de A Tempestade.

  • Shakespeare inspirou-se na commedia dell’arte italiana, principalmente na figura de Próspero (Pantaleão) e Calibã (Polichinelo).

  • Caso entendamos a tempestade como o dilúvio, estaríamos vendo o renascer do paraíso, a nova Idade do Ouro com o casamento de Miranda e Ferdinando.

  • Fala de Miranda no Ato V – Cena I: “O, wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world, That has such people in't!

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