24 (2001-2010)


A série 24 Horas, que alcançou em 2010 sua oitava e última temporada, foi a melhor produção seriada da televisão que já tive oportunidade de assistir. Mas o que torna as aventuras do agente Jack Bauer no seu combate contra ameaças terroristas em solo americano tão atraentes? Podemos argumentar sobre o roteiro dinâmico, as boas atuações e a excelente direção das cenas de ação. Mas os roteiros por vezes demandam demais do nosso suspension of disbelieve e há algumas atuações hilárias de tão ruins, principalmente do elenco de cotas de minorias raciais. Também podemos alegar que a atualidade dos temas abordados após o ataque ao World Trade Center justifique sua audiência. Mas ainda não explicaria a penetração alcançada ao redor do mundo junto a um público mais emocionalmente distante do ocorrido em New York. E certamente não são as intrigas nos escritórios da CTU (Counter Terrorist Unit), nem as tolices feitas pela desmiolada filha de Jack Bauer, e muito menos as distorções introduzidas ao longo da série para agradar ao gosto do público mais liberal que explicam o seu sucesso. Outras qualidades mais sutis e profundas justificam os superlativos dedicados a 24 Horas.

Para começar, o sucesso da série vem do seu eixo principal: a dúvida moral. A dúvida do que fazer naquelas situações ambíguas, para as quais não temos conhecimento claro de suas consequências no momento de decidir o que fazer. Atravessar ou não o farol vermelho, colocar ou não o filho no colégio interno, ou ainda denunciar ou não seu amigo pelo desfalque na empresa são exemplos de dúvidas morais que podemos enfrentar. Elas podem ser mais dramáticas como, por exemplo, devo sacrificar a vida de um para salvar a de muitos? ou ainda, coloco a segurança da minha família acima da nação? Este é o quilate das dúvidas que Jack Bauer e outros personagens chave do programa enfrentam todo o tempo. A dúvida moral é uma das principais características humanas, daquelas que nos caracteriza como espécie dentro do gênero animal. Daí nos tocar tão fundo. O tempo real no qual as histórias se desenrolam não só acrescenta dramaticidade ao processo decisório, mas também nos relembra o imperativo do Tempo na nossa existência.

Outro aspecto fundamental em 24 Horas é o conflito entre as Leis Dos Homens e as Leis dos Céus, aquela que Antígona clama como superior diante dos ditames de Creontes. Jack Bauer, como uma versão moderna da heroína de Sófocles, vive em conflito com os protocolos, regras e leis dos homens, sobre as quais aplica uma lei não-escrita, superior e transcendente que experimentamos no âmago da nossa existência. Jack Bauer em vários momentos fica isolado e combate contra tudo e todos, representando a grandeza do indivíduo contra as mazelas do coletivo. No mundo atual, onde vivemos acachapados por governos cada vez mais totalitários, a recordação desta tensão fundamental e ontológica constitui-se noutro grande atrativo da série.

O terceiro elemento crítico de 24 Horas é sua posição contrária e salutar diante do imperativo politicamente correto de não-violência. Este imperativo visa emascular a sociedade, tornando-a refém do Estado como único autorizado em defendê-la. Assim as forças policiais substituem o próprio pai de família na defesa dos seus próprios entes. E mesmo a polícia se vê inibida no uso da força, pois toda a violência é vista como errada. Mas a violência não é má em si mesma. Atos violentos podem sim ser maus, mas também podem ser bons. Qual pode ser a maldade ou erro em um pai matar um invasor em sua casa que queria estuprar e matar sua filha? Atos violentos são plenamente justificados e altamente desejáveis quando empregados para combater o mal. Violência se combate com violência. Sabemos disto deste a Teogonia de Hesíodo onde Zeus emprega os monstruosos Hecatônquiros contra os Titãs. E Jesus esclareceu a questão ainda mais ao afirmar não ter vindo “trazer a paz, mas a espada” (Mt. X, 34-36). Tentam esvaziar as palavras do Senhor com um abjeto pacifismo, a paz dos maus fundada na injustiça. A justiça só se estabelece, muitas vezes, com o uso da espada. Os métodos violentos de Jack Bauer restabelecem a ordem das coisas, e vão de encontro às táticas de guerra assimétrica onde o inimigo está liberado para fazer o que quiser ao passo que você, como defensor da verdade, fica impedido de reagir empregando proporcional violência.

E finalmente, Jack Bauer é um herói cada vez mais raro de encontrar na televisão, cinema ou literatura dos nossos dias. Ele representa um herói do tipo Imitativo Alto conforme o esquema desenvolvido pelo crítico literário canadense Northrop Frye, daqueles que apresentam características virtuosas acima do normal e que nos servem de exemplo. Jack Bauer coloca os interesses daqueles que ele jurou defender acima dos seus próprios, não hesitando em dar sua vida por eles. É absolutamente leal ao seu apurado senso de justiça, que defende com extrema coragem. Eis um conjunto de virtudes difíceis de encontrar na realidade e que quase desapareceu na ficção moderna dos últimos anos. Cada vez mais os heróis, para ficar na classificação de Frye, são do tipo Imitativo Baixo, de pessoas normais sem nada de especial, quando não do tipo Irônico, daqueles que estão abaixo e impotentes diante da situação que a vida lhes apresenta.

Decisões morais, tensão entre as leis dos homens e as divinas, recuperação da violência e um herói imitativo alto, eis as razões para o sucesso de 24 Horas.

Série Nota 5 (escala de 1 a 5)

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