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Yasujirô Ozu (1903–1963)

"I have formulated my own directing style in my head, proceeding without any unnecessary imitation of others." – Yasujirô Ozu

A característica mais relevante de Ozu é sua forma de ver o mundo. Embora essa atitude seja modesta e pouco assertiva, ela é fonte de grande ternura para com as pessoas. É como se a única admissão pessoal de Ozu fosse a fé de que a base da decência e da simpatia só pode ser sustentada pelo esforço quase religioso de observar o mundo de forma contemplativa – a contemplação acalmaria a atividade ansiosa.

Seus filmes tratam quase invariavelmente da vida e dos problemas domésticos da família japonesa de classe média. Seu estilo é requintado em sua simplicidade. Tecnicamente, é caracterizado por tomadas de câmera estacionária geralmente tiradas de um ângulo baixo – ele raramente variava o ângulo de sua câmera e quase nunca recorria a dispositivos como fades, dissolves, pans ou tracking shots. No entanto, apesar desse uso lacônico da linguagem do cinema, ele produziu filmes de grande beleza e poder magnético – uma poesia do familiar e do doméstico, com rara delicadeza e decoro.

Vemos a família e seus dramas em meio a transformação da sociedade japonesa no pós-guerra: o casamento, a velhice, a solidão dos pais, a rebeldia dos jovens, e o amor entre pais e filhos e entre marido e mulher – Ozu idealiza a família, e produz uma loa a monotonia da vida familiar.

De sua extensa obra (49 longas-metragens), no mínimo os nove filmes seguintes precisam serem assistidos:

I Was Born, But (1932): Dois jovens irmãos fazem birra quando descobrem que seu pai não é o homem mais importante em seu local de trabalho. Comédia satírica sobre o processo de amadurecimento de dois irmãos, e que também funciona como metáfora da transformação da ordem no Japão com a crescente tecnocracia e materialismo. O filme é uma celebração universal da infância, transbordando fronteiras culturais. Mas acima de tudo, uma história sobre os sacrifícios que todo o pai tem o dever de fazer por sua família.

Late Spring (1949): Várias pessoas tentam convencer Noriko, de 27 anos, a se casar, mas tudo o que ela quer é continuar cuidando do pai viúvo. Pai e filha vivem felizes juntos, mas a tradição a impele ao casamento. Ela reluta o matrimônio, não apenas para cuidar do pai, mas ponderando os riscos das alternativas: a possibilidade de um casamento infeliz (mais de uma relação da filha é divorciada) ou a vida emancipada num trabalho alienante (representado por sua amiga Aya). Assim como em I Was Born, But testemunhamos o dever parental para com os filhos (o discurso do pai sobre matrimônio é antológico). Destaque para a cena final onde a pai pende a cabeça e a maré das águas do mar indicam a sucessão de gerações, e a dor que, por vezes, a acompanha.

Early Summer (1951): Família escolhe um par para sua filha Noriko, mas ela, surpreendentemente, tem seus próprios planos. Retorno ao tema do matrimônio (o nome da protagonista – Noriko – é o mesmo de Late Spring). Desta vez ela é um pouco mais velha (28 anos), seguindo o avanço das estações do ano. Num Japão em transformação, uma família enfrenta o ciclo de vida quando os filhos de casam e aquele núcleo familiar se dissolve, deixando uma impressão cáustica na audiência.

Tokyo Story (1953): Casal de idosos visita os filhos e netos na cidade, mas recebe pouca atenção. Famílias separam-se, filhos mudam-se, e atarefados com suas próprias famílias, por vezes, afastam-se dos pais – implacabilidade da vida. Mas talvez não seja o atropelo do devir que dilua a família, mas sim uma autoimposta azáfama para evitar lidar com grandes questões como o amor, a morte, vitória e derrotas, perdidas em truísmos e vulgaridades. A modernização pós-guerra do Japão acelera este processo de escapismo, bem como apressura a perda de valore tradicionais e essenciais.

Floating Weeds (1959): Chefe de uma trupe de teatro japonesa retorna a uma pequena cidade costeira onde deixou um filho, e tenta recuperar o tempo perdido, mas sua atual amante fica com ciúmes. Através de um grupo de teatro itinerante temos uma reflexão sobre o comportamento humano: podemos confiar no comportamento das pessoas ou elas estão interpretando um papel? O clima de tristeza reprimida ao final responde esta questão, e a simplicidade de vida complica-se, enquanto as personagens resignadamente aceitam seu destino.

Good Morning (1959): Dois meninos iniciam uma greve de silêncio para pressionar os pais a comprarem um aparelho de televisão. Em tom de comédia Ozu descortina a transformação que operava na sociedade japonesa: a desintegração da família, a invasão da cultura estrangeira (destaque para a língua inglesa), e a ascensão da televisão com seu poder idiotizador – e o começo da decadência cultural já se manifestava esteticamente (contraste das torres elétricas e linhas de trem com a arquitetura japonesa) e na perda da capacidade de comunicação (falatório no lugar de diálogo, temas fúteis no lugar temas relevantes, desprezo da conversa casual como lubrificante social). Imperdível.

Late Autumn (1960): Viúva tenta casar a filha com a ajuda de três amigos do falecido marido. Retomada do tema do casamento de Late Spring e Early Summer, agora incluindo a possibilidade de matrimônio de uma viúva. Novamente vemos as dores do ciclo da vida e do choque entre tradição e modernização – conflitos que não se resolverão com tramas artificiais. A atmosfera é de desilusão com os estragos provocados pela modernidade – “São as pessoas que tendem a complicar a vida. A vida é muito simples.”

The End of Summer (1961): Família de um homem mais velho que dirige uma pequena empresa produtora de saquê fica preocupada com suas finanças e sua saúde depois de descobri-lo visitando uma antiga amante de sua juventude. Este é um clássico Ozu, um momento de vida, um ponto de viragem crucial na história de uma família que luta contra o inevitável avanço do tempo e consequentes mudanças. E mais, uma meditação sobre um velho Japão moribundo, as raízes das famílias em uma forma de negócios padecem a medida que são ultrapassadas por grandes e altamente capitalizados empresas maiores. O final é triste e inevitável, mas não trágico – a vida continua, e uma nova geração surgirá, mesmo que as velhas tradições sofram transformações.

An Autumn Afternoon (1962): Viúvo idoso arranja um casamento para sua única filha. O último filme de Ozu simboliza a vida ordinária, contemplando a serenidade da vida familiar da classe média japonesa. Através de uma atmosfera não-dramática, testemunhamos relações humanas pacíficas entre pessoas de boa vontade. O filme transmite a sensação de uma silenciosa percepção da solidão na vida humana. Ozu parece querer nos dizer que estamos aqui, tentamos fazer o nosso melhor, estamos contidos em nossos destinos, e a vida continua.

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