Utopia de Thomas More

“Haud tamen facile confiteor permulta esse in Utopiensium republica, quae in nostris civitatibus optarim verius, quam sperarim.” – Thomas More, utopia e distinção entre o desejável e o realizável
Utopia é simultaneamente uma crítica a sociedade europeia de seu tempo e um exercício filosófico sobre a possibilidade de uma ordem política mais justa. Dividida em dois livros, a obra começa acidamente discutindo os problemas da Europa, particularmente da Inglaterra, e depois apresenta, pela voz do viajante Rafael Hitlodeu, uma ilha imaginária organizada segundo princípios radicalmente diferentes. O autor, porém, não apresenta essa sociedade como modelo a ser reproduzido: a ironia, o diálogo e as reservas manifestadas no final tornam Utopia uma investigação sobre a sociedade ideal tanto quanto uma reflexão sobre os limites dessa própria ideia.
No Livro I, Thomas More, convertido em personagem, encontra em Antuérpia Peter Giles, que lhe apresenta Rafael Hitlodeu, português culto e viajado que teria acompanhado algumas das expedições de Américo Vespúcio. Diante de sua experiência, More e Giles sugerem que Rafael poderia servir como conselheiro de algum príncipe. Ele rejeita a proposta, argumentando que as cortes estão dominadas pela ambição, pela adulação e pela busca do poder. Os reis preocupam-se mais em conquistar territórios do que em governar bem seus súditos, e os conselheiros preferem agradar aos governantes a dizer-lhes a verdade. Surge assim uma questão fundamental: o homem sábio deve participar de uma ordem política imperfeita tentando melhorá-la, ou afastar-se dela por considerar impossível realizar o bem em seu interior? Rafael inclina-se para a segunda posição; More defende uma atitude mais prudencial, procurando melhorar aquilo que for possível.
A discussão conduz a uma vigorosa crítica das condições sociais inglesas. Rafael condena a execução de ladrões, argumentando que a sociedade pune severamente os criminosos sem investigar as causas que produzem a criminalidade. Critica a aristocracia ociosa, as guerras que lançam antigos soldados na miséria e, sobretudo, a concentração das terras e os cercamentos associados à expansão da criação de carneiros. Camponeses expulsos de suas propriedades perdem seus meios de subsistência e acabam obrigados a mendigar ou roubar, sendo posteriormente punidos pela mesma sociedade que contribuiu para produzir sua miséria. É nesse contexto que aparece a famosa imagem das ovelhas que, de tão vorazes, parecem “devorar” os homens.
Rafael conclui que a propriedade privada e o dinheiro estão entre as principais causas das desigualdades sociais. Enquanto alguns puderem acumular muito mais do que necessitam, outros permanecerão privados do essencial. Essa conclusão prepara o Livro II, no qual Utopia aparece como uma experiência social organizada sobre princípios opostos aos europeus.
A ilha possui cinquenta e quatro cidades de organização semelhante. A agricultura é conhecida por todos, e cada cidadão aprende também algum ofício. Praticamente todos trabalham, mas a jornada é de apenas seis horas diárias. Rafael explica que isso é possível porque Utopia não sustenta grandes contingentes de pessoas ociosas e procura concentrar o trabalho na produção daquilo que é efetivamente necessário. O tempo restante pode ser dedicado à educação, à leitura e ao aperfeiçoamento intelectual. A economia, portanto, deve servir à vida humana, em vez de transformar a própria existência em instrumento da produção.
Não existe propriedade privada. Os produtos são armazenados em depósitos comuns e distribuídos de acordo com as necessidades. Como ninguém teme passar necessidade, desapareceria grande parte do desejo de acumulação. O dinheiro não circula internamente, e ouro e prata são deliberadamente desprezados. Objetos feitos desses metais são associados a funções degradantes, numa inversão satírica dos valores europeus. More procura mostrar que grande parte do valor atribuído às riquezas não decorre de sua natureza, mas de convenções sociais.
Apesar da igualdade econômica, Utopia não é uma sociedade de liberdade individual irrestrita. A vida é fortemente regulamentada: trabalho, viagens, famílias, refeições e costumes estão submetidos a normas públicas. O casamento é rigorosamente disciplinado, o adultério é severamente punido e existem escravos, principalmente criminosos condenados e determinados estrangeiros. Assim, a eliminação da propriedade privada convive com hierarquia, disciplina e coerção. Essa tensão é uma das grandes ambiguidades da obra: os utopianos possuem extraordinária segurança material, mas pagam por ela com considerável limitação da autonomia individual.
A filosofia moral dos utopianos procura conciliar virtude e prazer. Eles distinguem os prazeres naturais e verdadeiros – saúde, conhecimento, amizade e satisfações corporais moderadas – dos falsos prazeres produzidos pela vaidade, pela riqueza, pelo luxo e pelo desejo de superioridade. A vida boa deve ser governada pela razão.
Essa filosofia não é materialista. Os utopianos acreditam na providência divina e na imortalidade da alma. Existe diversidade religiosa e considerável tolerância: diferentes cultos convivem, e ninguém deve ser convertido pela força. Muitos habitantes mostram interesse pelo cristianismo quando Rafael lhes apresenta seus ensinamentos. A tolerância, entretanto, não é absoluta, pois certas crenças consideradas perigosas para a ordem moral da comunidade sofrem restrições.
Os utopianos também desprezam a glória militar. A guerra é considerada um mal e deve ser evitada sempre que possível. Quando precisam combater, procuram alcançar seus objetivos com o mínimo de derramamento de sangue, utilizando diplomacia, estratégia e até mercenários antes de expor seus próprios cidadãos. More satiriza assim a cultura aristocrática europeia que transformava conquistas e guerras dinásticas em fonte de prestígio.
Ao final, Rafael volta a atacar a sociedade europeia. Na sua interpretação, muitas comunidades políticas que afirmam defender o bem comum funcionam, na realidade, para proteger os interesses dos ricos. As leis preservam propriedades e privilégios enquanto grande parte da população vive precariamente. A eliminação do dinheiro em Utopia teria removido muitas das causas da fraude, do roubo, da ansiedade e da competição social.
Entretanto, a crítica de Rafael chega a uma questão ainda mais profunda: a soberba (húbris). O homem não deseja riqueza apenas para satisfazer necessidades, mas também porque deseja se sentir superior aos outros. Dessa forma, o problema social possui uma dimensão moral e antropológica que não pode ser reduzida às instituições econômicas.
Depois de ouvir toda a descrição de Rafael, o personagem More não aceita integralmente suas conclusões. Considera várias instituições utopianas problemáticas ou absurdas (sobretudo a comunidade dos bens, a ausência de dinheiro e a igualdade radical), embora reconheça que gostaria de ver muitas de suas características introduzidas nas sociedades europeias. O livro termina, portanto, sem declarar Utopia como modelo definitivo ou viável.
Essa ambiguidade parece deliberada. More utiliza a ilha imaginária como um espelho invertido da Europa. Ao apresentar uma sociedade sem dinheiro, sem propriedade privada, sem aristocracia ociosa e com reduzida jornada de trabalho, obriga o leitor a perguntar se aquilo que considera natural em sua própria sociedade é realmente necessário ou apenas resultado do costume. Mas, ao apresentar simultaneamente uma Utopia extremamente regulamentada, com restrições à liberdade e até escravidão, obriga-o também a julgar criticamente a alternativa proposta.
Por isso, Utopia não deve ser entendida simplesmente como um projeto político que More desejava implantar. Sua estrutura dialógica e irônica mantém uma distância entre o autor e Rafael Hitlodeu. A sociedade imaginária funciona sobretudo como instrumento filosófico: permite contemplar a sociedade existente a partir de um ponto exterior e questionar suas instituições.
A mensagem central da obra pode ser condensada numa tensão: as instituições humanas não são imutáveis e podem ser reformadas segundo critérios de justiça; contudo, nenhuma reorganização institucional elimina facilmente as imperfeições da própria natureza humana. More critica profundamente a sociedade existente sem afirmar inequivocamente que possua uma fórmula capaz de produzir uma sociedade perfeita.
Utopia contém simultaneamente o nascimento do pensamento utópico e uma advertência contra sua absolutização. A ilha de Rafael mostra aquilo que poderia existir se muitas convenções sociais fossem radicalmente modificadas; a ironia de More recorda que uma construção racional não deve ser confundida automaticamente com uma ordem política perfeita. O verdadeiro valor de Utopia está, portanto, menos em fornecer uma planta da sociedade futura do que em oferecer um ponto imaginário a partir do qual podemos julgar criticamente a sociedade presente.
Thomas More imagina uma ordem racional sem conceder ao leitor o direito de identificá-la com uma ordem perfeita.
Em The Open Society and Its Enemies, Karl Popper (1902-1904) critica aquilo que denomina “utopian social engineering”. O procedimento que considera perigoso consiste, simplificadamente, em três movimentos: determinar previamente o estado perfeito da sociedade, reorganizar globalmente as instituições para realizá-lo, e concentrar os meios políticos necessários para vencer os obstáculos que surgirem.
Contra isso, Popper propõe a “piecemeal social engineering”: em vez de reconstruir integralmente a sociedade segundo um modelo final, corrigir problemas específicos, observar consequências, permitir crítica e rever políticas quando fracassam. Essa posição está intimamente relacionada ao seu falibilismo: como nosso conhecimento é imperfeito, instituições políticas devem permitir correção de erros.
Esta distinção é útil para interpretar More. Se Utopia for lida como planta arquitetônica de uma sociedade futura, ela se aproxima exatamente daquilo que Popper teme. Mas, se for entendida como experimento mental, a crítica popperiana perde parte de sua força – imaginar a sociedade perfeita não é necessariamente pretender construí-la. A ironia de
More deixa claro que sua Utopia se trata de um exercício filosófico, eliminando a leitura simplista de “sociedade perfeita imaginada versus sociedade real imperfeita”.
O utopismo revolucionário tende a raciocinar: instituições injustas → transformação das instituições → transformação do homem → sociedade reconciliada. A antropologia cristã de More introduz um obstáculo: homem imperfeito → instituições imperfeitas → possibilidade de reforma → permanência da imperfeição humana.
Isso não significa imobilismo. More denuncia vigorosamente injustiças concretas – pobreza forçada, punições desproporcionais, guerras dinásticas, parasitismo social. Mas denunciar uma ordem imperfeita não implica acreditar que outra ordem possa abolir definitivamente a imperfeição.
O problema não é desejar justiça; é transformar uma justiça teórica em estado final da história produzido pela ação política. A utopia torna-se perigosa somente quando deixa de ser medida crítica e passa a ser destino histórico obrigatório.
As pessoas diferem entre si, agindo livremente em circunstâncias diferentes, necessariamente produzem resultados diferentes. Assim, igualdade perante regras gerais é compatível com liberdade. Já a igualdade de resultados exige tratar desigualmente as pessoas e dirigir suas atividades. O problema da utopia igualitária é estrutural: quanto mais determinado for o resultado social desejado, maior terá de ser o controle necessário para produzi-lo. As ideologias igualitárias são desumanas.
Notas
Thomas More (1478–1535), nasceu em Londres, Inglaterra.
Humanista, jurista, escritor, estadista e pensador cristão inglês, uma das figuras centrais do humanismo renascentista.
More foi simultaneamente capaz de imaginar instituições radicalmente diferentes das existentes e ser profundamente consciente de que a política não constitui a autoridade suprema sobre o homem. A vida de Thomas More é, por si só, esta lição. Ele foi moldado pelos grandes livros clássicos. Assim como Platão, Sêneca e Boécio, entrou na política acreditando que poderia mudar as coisas para melhor. Acabou no cadafalso, preferindo a morte a violar seus princípios.
Utopia foi publicada em latim em 1516.
A palavra “utopia” foi criada por Thomas More para o título deste livro. É um neologismo construído a partir do grego e contém um jogo de palavras deliberado.Utopia deriva principalmente de: οὐ (ou) = “não” + τόπος (tópos) = “lugar” – οὐ-τόπος (ou-topos) = “não-lugar”, “lugar que não existe”.Mas More construiu o termo para que evocasse também outra palavra grega: εὖ (eu) = “bem”, “bom” + τόπος (tópos) = “lugar” – εὖ-τόπος (eu-topos) = “bom lugar”, “lugar feliz”.Daí o duplo significado: ou-topos → lugar nenhum e eu-topos → lugar bomEssa origem etimológica reforça a intenção do autor: imaginar uma ordem ideal (eu-topos) não significa necessariamente acreditar que ela possa ou deva ser transformada em um lugar histórico real (ou-topos).


