Terra Devassada de T. S. Eliot

“Crês tu que eu, que te falo, vi com meus próprios olhos a Sibila de Cumes, suspensa em uma garrafa? Quando os garotos lhe perguntavam: “Sibila, que queres?”, ela respondia: “Quero morrer”. – epígrafe de The Waste Land (passagem de Satiricon por Petrônio)


“April is the cruellest month,” – o renascimento primaveril é impossível pois a terra está gasta e é infértil. Ao longo dos quatro primeiros cantos do poema (de um total de cinco) vemos uma sucessão de imagens de devastação e incapacidade de reação, intercaladas com reminiscências de uma época melhor mas que não tem como renascer. Para isto Eliot abusa de referências eruditas como os mitos greco-romanos, Baudelaire, Dante, Shakespeare, Richard Wagner, Bíblia e o mito do Graal entre outros.


Toda a cultura, toda civilização tem origem religiosa. E a formação da Europa tem base no Graal (e seus similares) – junção dos mitos antigos (célticos no caso do Graal) com o cristianismo. Mas esta base não tem mais poder de recuperação, o Rei Pescador já não tem mais a presença do Espírito (ferido no pé – na alma), é incapaz de agir e os velhos valores perderam-se para sempre.


No quinto e último canto o autor especula que será preciso gerar novos valores para voltar a fertilizar a terra. Ele vê uma esperança vindo do Oriente, a tempestade que trará as águas fertilizadoras que recuperarão o terra devassada são anunciadas pelo trovão – DA (expressão indiana que indica o som do trovão). E nos dá três conselhos tirados do Upanishads: datta (dar) são para os homens (dar para controlar a ambição), dayadhvam (simpatizar) para os demônios (ter compaixão) e damyata (controlar) para os deuses (não deixar as emoções saírem de controle) – a fórmula da regeneração da fertilidade: caridade, compaixão e temperança.


A leitura da situação do mundo moderno é legítima. Mas e sua fórmula, terá chance de sucesso? Curiosamente Eliot não vê possibilidade de reação no Cristianismo, mas apela para os valores cristãos em sua receita – lembrando a personagem Bernard Rieux de A Peste de Albert Camus que almejava um Cristianismo sem Cristo.


O problema é que os valores cristãos só funcionam dentro do contexto doutrinal correto – assim mostram as experiências messiânicas e desvios doutrinais como a Teologia da Libertação que tanta destruição e morte trouxeram. Não se cria uma filosofia, uma cosmovisão com base no ceticismo, no niilismo. Tem que ter conteúdo real, conteúdo doutrinal. As ideologias modernas são destrutivas, foi o pensamento moderno que desgastou a terra plantada nas tradições, e a nova mentalidade proposta é oca, vazia, e dela nada prosperará. É necessário recuperar as bases da verdadeira religiosidade e não será preservando os valores cristãos em outro contexto que conseguiremos este intento.


Será que encontraremos o nosso Percival wagneriano?


O poema é dividido em cinco cantos e várias stanzas (grupo de linhas separadas por uma linha em branco) onde falam diferentes vozes.


Canto I – o enterro dos mortos Começa o poeta deprimido e demonstrando desesperança com a primavera. Em cunha entra Maria recordando de um tempo melhor que o de agora. Volta o poeta falando de morte e destruição, mais que da guerra, parece falar do mundo. Entra o verso de Tristão e Isolda (Richard Wagner) remetendo ao desejo do poeta de retornar a uma terra e um momento melhor – recuperar as origens. Começa uma moça que recebeu jacintos Maria e depois segue a voz de um soldado que as deu. Citação de Tristão e Isolda. Recordações de coisas boas. Segue o contraste entre um passado bom e um futuro ruim. O poeta introduz Madame Sosostris que fala a consulente (possivelmente a moça acima que recebeu os jacintos) sobre o retorno do marido (o soldado) da guerra. Cita Shakespeare (A Tempestade). “Vejo multidões que em círculo perambulam.” – previsão de mais problemas adiante, sem perspectiva de melhoria. O poeta começa a falar de Londres (cidade irreal), inspirado em Baudelaire (Flores do Mal). Os soldados voltam da guerra como zumbis (mais um problema dentro da decadência geral). Eles olham para o chão (perda da transcendência). Conversa com um soldado de uma batalha de antiga – as guerras são todas iguais, apenas geram defuntos enterrados.


O poeta está horrorizado com o presente/futuro e remete a um passado melhor.


Canto II – uma partida de xadrez Uma reminiscência com a descrição de um ambiente de luxo e conforto inspirada no drama Antônio e Cleópatra de Shakespeare (paráfrase do encontro de ambos). Muda o tom quando descreve um peixe empalhado (“carcaça submarina”) – ideia de mobilidade e morte. Transita para a história de Filomena (Metamorfose de Ovídio) – estuprada pelo cunhado (Tereu) e, por ter a língua cortada borda a narrativa do crime, a irmã (Procne) mata e serve o filho a marido e quanto Tereu ia mata-las os deuses as transformam em um rouxinol e uma andorinha. Entra dificuldade de conversa entre esposa e marido – destruição da viabilidade da vida pela falta de comunicação, conectando com a língua cortada de Filomena. Poeta descreve o mundo (“Penso que estamos no beco dos ratos, onde os mortos seus ossos deixaram.”). Nada se fala (“que rumor é este?”), nada acontece (“Nada?”). Deriva para a fala das mulheres esperando seus maridos retornarem da guerra – a espera para que algo volte a acontecer, para que a vida torne-se novamente viável. Baixa expectativa desta volta – materialização das relações (apenas sexo). Volta o tema de morte e esterilidade – mundo perdeu capacidade de fertilização. Insistência com “noite” – mergulhar no abismo de trevas (fala da Ofélia (Hamlet de Shakespear) – agora virá a noite/morte e veremos como sairemos disto, ela se mata) .


Tensão entre um passado de reminiscências positivas e um presente desesperançado.


Canto IIIo sermão do fogo (Buda sobre deixarmos de buscar as coisas terrenas e materiais) As ninfas, as almas daquelas águas, já partiram – o espírito se foi, o rio morre. Às margens do Léman remete aos judeus que, sentados à margem do rio Tigres, choravam. Em cunha entra a fala do rei Pescador (mito do Graal) que machucou o pé (símbolo da alma) e tornou-se incapaz e apenas pesca – incapacitação humana de defender uma causa, o Graal (a formatação da nossa existência, a cosmovisão do nosso modelo de vida). Ambiente de morte e desolação, apenas os astros brilham, associada a própria destruição dos valores do Graal cujo último representante perdeu a capacidade de ação (enfermo da alma). Entra outra cunha de reminiscências do poeta sobre a morte da filha da senhora Porter e a esperança que a primavera trazia. “Et O ces voix d'enfants chantant dans la coupole!” – Baudelaire, morte de criança. Volta Filomena. Volta Maria preparando a entrada de Tirésias com referência a relações carnais desprovidas de valor. Tirésias, famoso vidente grego, considerado nas notas de Eliot como o mais importante personagem do poema. Referência ao episódio de como ele ficou cego e vidente. Por ter uma ambiguidade existencial, Tirésias é o único que consegue entender o antes e depois ao mesmo tempo. Descreve uma mulher desinteressada após uma relação fútil – incapacidade de fertilidade. "Esta música ondula junto a mim por sobre as águas" – A Tempestade de Shakespeare, numa reminiscência positiva. Volta à realidade, com citação ao Anel dos Nibelungos de Wagner, com cenário de desolação. Entra o suposto romance de Elizabeth e Leicester. Fecha com Santo Agostinho falando em Catargo e o Sermão do Fogo de Buda – duas asceses (Ocidente e Oriente).


Todos os quadros são símbolos da impotência e fracasso. O poeta W. H. Auden via no poema “o reconhecimento de que a existência moderna é murcha e embotada.”


Segundo o poeta e cronista Paulo Mendes Campos “essas mulheres são todas obcecadas de preocupações sexuais, pois é a consumação do ato sexual que quebra a maldição da impotência. Mas em nossa civilização incompleta, vulgar, poluída de sordidez e miséria, a união de homem e mulher não rompe o sortilégio.”


Canto IVmorte por água Volta à previsão de morte de Madame Sosostris. Morte.

Canto V – o que disse o trovão Começa um resumo do quadro sombrio. Não há mais água, não há mais vida nem possibilidade de regeneração. Clima de destruição. “Quem é o outro que sempre anda ao teu lado?” – entra a morte de forma onipresente. Libelo contra os grandes centros urbanos. Descrição de um cemitério. Trovão remete àquilo que vem do Oriente. Entram conselhos tirados do Upanishads: datta (dar) são para os homens (dar para controlar a ambição), dayadhvam (simpatizar) para os demônios (ter compaixão) e damyata (controlar) para os deuses (não deixar as emoções saírem de controle). Aceno para a recuperação. A fórmula da regeneração da fertilidade: caridade, compaixão e temperança. Volta o rei Pescador que deixou os problemas para trás e só pensa em suas próprias questões. O problema segue. Fala da Divina Comédia do purgatório. Prícipe d’Aquitaine é o rei Pescador (perdeu sua torre). Eliot traduz “shantih” (forma de fechamento de um Upanishad – significa paz), três vezes repetido ao final, como “The Peace with passeth understanding” – “Paz que ultrapassa o entendimento”.


Notas

  • Thomas Stearns Eliot (1888-1965), em St. Louis, Missouri, EUA. Poeta, dramaturgo e crítico de literatura. Um dos maiores intelectuais do século XX.

  • Outras principais obras: Murder in the Cathedral (drama – 1935), Four Quartes (poema – 1943), Notas para uma definição de cultura (1948) e The Criterion (editor – 1922-1939).

  • The Waste Land é publicada em 1922. Considerada a obra poética mais influente do século XX. O poema seria mais bem traduzido como Terra Gasta, a melhor tradução para o português é de Ivan Junqueira (Terra Devastada). Um poema erudito, para a alma racional, para o homem spoudaios.

  • Logo na primeira nota explicativa de Waste Land, Eliot cita o livro de From Ritual to Romance de Jessi L. Weston como capaz de explicar o poema melhor do que suas próprias notas. Também afirma ter utilizado o livro The Golden Bough escrito por James. G. Frazer, particularmente os capítulos sobre Adonis, Attis e Osiris.

  • Roger Scruton elege Baudelaire e Richard Wagner como as principais inspirações de T. S. Eliot. Baudelaire elogiou a obra de Wagner (considerada modernista na época – mas ele estava criando o mito fundador do povo germano) como uma volta as fontes, um antídoto a modernidade.

  • Sibila era uma sacerdotisa de Apolo (mitologia latina) a quem pediu viver tantos anos quanto grãos de areia existissem, mas esqueceu de pedir a juventude eterna.

  • O poema é dividido em cinco cantos e várias stanzas (grupo de linhas separadas por uma linha em branco) onde falam diferentes vozes.

  • “April is the cruellest month,” (início da primavera) é a linha mais famosa do poema.

  • Richard Wagner inspirou-se sobre o Graal no poema épico Parzival de Wolfram von Eschenbach.

  • Passagem sobre Tirésias em Metamorfoses de Ovídio: “Enquanto isso se passava nas terras pela lei do destino, e o berço de Baco (Dionísio), duas vezes nascido, estava em segurança, sucedeu que, um dia, Júpiter (Zeus) diz-se, relaxado pelo néctar, pusera de lado os seus graves cuidados, e brincando, brejeiro, com Juno (Hera), também ele ociosa: ‘O prazer sexual é para vós, sem duvida, muito superior ao que cabe aos homens’, dissera. Ela recusa tal idéia. Acordam então averiguar qual a opinião do douto Tirésias. É que este conhecia os dois lados do amor. De facto, em certa ocasião sovara duas enormes serpentes, que acasalavam na erva verdejante, a golpes do seu bastão. De homem convertera-se em mulher (espantoso!), e passara sete Outonos assim. Ao oitavo, viu de novo aquelas serpentes. ‘Se tão grande é o poder da pancada com que vos feri’, disse ‘a ponto de mudar no contrário o sexo de quem vos golpeou, bater-vos-ei também agora.’ Golpeando as mesmas serpentes, retornou à forma primitiva e a figura com que nascera voltou. Ele é, pois, o mediador nomeado para este litígio brincalhão. Dá razão às palavras de Júpiter. A filha de Saturno (Cronos), diz-se, ficou magoada, mais do que seria justo e o assunto merecia, e condenou os olhos do seu juiz à noite eterna. Mas o pai omnipotente (pois não é lícito a um deus anular actos de outro deus), em compensação pela perda da visão, outorgou saber o futuro, e com tal privilégio aliviou a pena.”

  • Wallala = o Hades nórdico, casa dos mortos.

  • Elizabeth (a rainha virgem) e Leicester (suposto amante de Elizabeth).

  • DA = som do trovão (expressão indiana).

  • Coriolano – vencedor general romano que é recusado pela sociedade para a posição de cônsul e associa-se ao inimigo. Cerca Roma mas volta atrás e os antigos inimigos o matam.

  • Jerônimo é personagem da peça The Spanish Tragedy de Thomas Kyd.

  • Mario Ferreira dos Santos explicando sua tese de unificação das grandes religiões quanto ao Deus Um, fonte de todas as coisas, descreve os Upanishads como caminho do conhecimento interior ou aquele que busca a última verdade e nela se instala.

  • Oriente (nasce o Sol – terra da manhã) é fonte e o Ocidente (pôr do sol – terra da noite, retirada da luz) é o final. Rene Guénon também acreditava que o Oriente nos tiraria da decadência. Mas cada vez o Oriente se ocidentaliza mais.

  • A proposta de Eliot seria compreensível se ele fala-se apenas de si mesmo, e não como caminho para a sociedade.

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