Sobre a Música de Santo Agostinho

“Mas de qual fonte a alma pode receber um princípio eterno e imutável senão de Deus, o Ser eterno e imutável?” – Santo Agostinho
A música não é simplesmente a arte de produzir sons agradáveis ao ouvido, mas a ciência que permite compreender e realizar os movimentos segundo uma justa medida. Sua essência reside na ordem, na proporção e na harmonia, princípios que governam não apenas os sons, mas todos os movimentos sujeitos ao tempo. A música é, portanto, a ciência do bem modular, isto é, de ordenar adequadamente os movimentos conforme relações racionais. Essa definição exige distinguir a verdadeira ciência musical da mera habilidade de cantar, tocar instrumentos ou executar movimentos ritmados. Um indivíduo pode produzir sons harmoniosos sem compreender os princípios que os tornam belos, assim como um pássaro pode cantar agradavelmente sem possuir qualquer conhecimento da música. A habilidade adquirida pela imitação, pelo exercício ou pelo hábito não equivale à ciência, pois esta pressupõe o conhecimento racional das causas e das proporções que governam aquilo que se executa. A verdadeira música pertence, assim, ao domínio da razão, e não apenas ao dos sentidos.
A compreensão da música começa pelo estudo do movimento e do tempo, pois todo som musical se realiza mediante uma sucessão de durações que podem ser comparadas e medidas. Existem movimentos mais rápidos e mais lentos, durações maiores e menores, e entre elas podem estabelecer-se relações determinadas. Quando essas relações obedecem a proporções inteligíveis, tornam-se capazes de produzir harmonia. Os números constituem o fundamento dessas relações, pois permitem reconhecer a igualdade, a multiplicidade, a divisão e a correspondência entre diferentes durações. Entre as proporções, as mais simples e próximas da igualdade possuem especial importância, porque a razão reconhece nelas uma ordem mais evidente. A unidade aparece como princípio de toda medida, enquanto os demais números manifestam diferentes maneiras de reproduzi-la, multiplicá-la ou relacioná-la consigo mesma. O estudo da música conduz, por isso, necessariamente ao estudo dos números, uma vez que a harmonia sensível não é senão a manifestação temporal de relações numéricas.
A própria estrutura dos números revela uma ordem que não depende da arbitrariedade humana. A sucessão numérica, embora possa prosseguir indefinidamente, organiza-se segundo princípios determinados, e o sistema decimal permite reconhecer relações fundamentais entre a unidade e a multiplicidade. Os primeiros números desempenham papel privilegiado na constituição das proporções e na compreensão das medidas. A igualdade absoluta, as relações simples entre grandezas e a possibilidade de reduzir uma multiplicidade a uma ordem inteligível demonstram que o número não é apenas um instrumento de cálculo, mas um princípio de organização. A beleza dos movimentos proporcionados nasce precisamente dessa submissão da multiplicidade à unidade, mediante relações que a razão pode reconhecer e julgar.
A aplicação desses princípios à linguagem revela a estreita relação entre música e poesia. As palavras possuem significados que pertencem ao domínio da gramática, mas suas sílabas apresentam durações que pertencem ao domínio da música. A gramática distingue as palavras segundo suas formas, seus usos e a autoridade da tradição, enquanto a música examina as relações temporais que tornam possível sua organização rítmica. Uma sílaba breve corresponde a uma unidade de tempo, e uma sílaba longa equivale ordinariamente a duas unidades. Da combinação dessas durações nascem os pés métricos, elementos fundamentais da construção dos ritmos e dos versos. O pirríquio (díbraco), formado por duas sílabas breves, o espondeu, constituído por duas longas, o jambo, que combina uma breve e uma longa, o troqueu, que inverte essa disposição, assim como o dátilo, o anapesto e os demais pés, exprimem diferentes relações de duração. Cada um possui uma estrutura numérica própria, e sua combinação deve respeitar as exigências da proporção e da regularidade.
Nem todas as combinações de pés produzem uma harmonia legítima. Para que diferentes movimentos possam integrar uma mesma composição, é necessário que suas durações estabeleçam relações compatíveis e que a sucessão conserve uma medida reconhecível. A igualdade dos tempos e a correspondência entre as partes permitem que pés de estruturas distintas sejam associados sem destruir a unidade do conjunto. Entretanto, certas combinações, embora matematicamente concebíveis, contrariam as exigências do ritmo e não produzem uma sucessão satisfatória. O ouvido percebe algumas dessas diferenças, mas cabe à razão explicar por que determinadas disposições são harmoniosas e outras não. A sensação oferece o ponto de partida da investigação, porém somente o entendimento permite alcançar as leis que governam a beleza musical.
É necessário distinguir o ritmo, o metro e o verso. O ritmo consiste numa sucessão ordenada de movimentos ou pés que pode prolongar-se indefinidamente, conservando uma cadência regular. O metro acrescenta a essa sucessão uma extensão determinada, estabelecendo um começo e um fim segundo uma medida definida. O verso, por sua vez, constitui uma forma mais elaborada de organização métrica, na qual as partes se distribuem segundo relações específicas de proporção, divisão e correspondência. Todo verso é um metro, mas nem todo metro constitui um verso. A perfeição do verso depende não apenas da quantidade total de tempos, mas também da maneira como estes se distribuem entre seus membros, produzindo uma unidade que conserva distinções internas. A beleza nasce da concordância entre as partes, e essa concordância exige que a diversidade seja subordinada a uma ordem comum.
As pausas também participam da constituição do ritmo e do metro. O silêncio não representa simplesmente a ausência de som, pois pode possuir uma duração determinada e completar a medida exigida pela composição. Uma pausa pode compensar a falta de determinado tempo, estabelecer a correspondência entre os membros de um metro ou preservar a regularidade de uma sucessão. O ritmo não depende, portanto, exclusivamente daquilo que se ouve, mas da estrutura temporal que governa tanto os sons quanto os silêncios. A percepção musical reconhece uma ordem que ultrapassa cada elemento isolado e se manifesta na totalidade da composição. O tempo musical é inteligível porque seus diferentes momentos se subordinam a relações que permanecem constantes, mesmo quando os sons desaparecem.
Entre as formas métricas, os versos de seis pés ocupam uma posição de particular excelência, especialmente o verso heroico e o jâmbico. Sua estrutura permite uma distribuição particularmente harmoniosa dos membros, conciliando variedade e proporção. A divisão do verso não deve ser arbitrária, pois sua beleza depende de uma relação adequada entre as partes e da maneira como o movimento se encaminha para sua conclusão. A própria diferença entre o começo e o fim contribui para a unidade do conjunto, impedindo que a repetição se transforme em monotonia. A razão pode descobrir as causas dessa superioridade examinando as relações numéricas que sustentam a composição. Assim, a perfeição poética não resulta exclusivamente do costume ou da preferência dos ouvintes, mas de uma ordem racional que se manifesta nas formas mais bem proporcionadas.
Entretanto, o exame das proporções temporais não constitui o fim último da investigação musical. O conhecimento dos ritmos, dos metros e dos versos prepara o espírito para uma questão mais elevada: de onde procede a capacidade humana de reconhecer e apreciar a harmonia? Os sons são acontecimentos corporais e passageiros, que surgem e desaparecem no tempo. A alma, porém, é capaz de percebê-los, conservá-los na memória, reproduzi-los e julgá-los segundo critérios de proporção. É necessário, portanto, investigar as diferentes espécies de números ou harmonias presentes nessa atividade, distinguindo aqueles que pertencem aos sons exteriores, os que se manifestam nos movimentos corporais, os que se conservam na memória, os que participam da percepção e os que permitem julgar a beleza das relações percebidas.
O som exterior possui uma duração objetiva, mas sua existência é transitória. A percepção auditiva acompanha esse movimento, enquanto a memória conserva a sucessão dos sons, permitindo que a alma reconheça relações entre momentos que já não coexistem. A execução musical, por sua vez, exige que a alma ordene os movimentos do corpo segundo determinadas medidas. Acima dessas operações encontra-se a capacidade de julgamento, pela qual se distingue uma cadência harmoniosa de outra desordenada. Essas diferentes espécies de números revelam uma hierarquia, pois nem todas possuem a mesma dignidade. Os movimentos corporais são inferiores às operações da alma, e a capacidade racional de julgar é superior à simples recepção dos sons. A alma não é, portanto, um instrumento passivo submetido às impressões materiais, mas um princípio ativo que governa o corpo e exerce suas operações de acordo com sua própria natureza.
A percepção sensível não deve ser compreendida como uma ação pela qual o corpo, sendo inferior, produziria diretamente uma transformação na alma, que lhe é superior. A alma anima e governa o corpo, mantendo-se atenta às alterações que nele ocorrem e realizando, nessa atenção, suas próprias operações. Quando ouvimos um som, não é o corpo que comunica à alma uma ciência da harmonia; é a alma que, exercendo sua atividade sobre o organismo, toma consciência das modificações corporais e as reconhece segundo determinadas relações. A memória e o julgamento demonstram que a experiência musical não se reduz à impressão sensível. A alma possui uma capacidade de organização que não pode ser explicada apenas pela sucessão material dos sons.
Todavia, mesmo os números pelos quais julgamos os movimentos sensíveis não constituem necessariamente a realidade suprema. A alma humana está sujeita à mudança, à distração, ao esquecimento e ao erro. Aquilo que hoje lhe agrada pode amanhã desagradá-la, e sua capacidade de apreciar a harmonia encontra-se limitada pelas condições de sua existência temporal. Se os julgamentos humanos fossem a medida última da beleza, não seria possível explicar a superioridade das relações imutáveis que a própria razão reconhece. A igualdade perfeita, a unidade e as proporções eternas não dependem da duração dos sons nem das alterações da consciência. A alma pode reconhecê-las precisamente porque existe uma verdade superior à sua própria mutabilidade. É necessário, assim, ultrapassar os números sensíveis e os números presentes nas operações temporais da alma para alcançar os números espirituais e eternos, nos quais se encontra o fundamento de toda harmonia.
A razão descobre que a beleza das coisas proporcionadas nasce de sua aproximação à igualdade e à unidade. A multiplicidade só se torna harmoniosa quando suas partes estabelecem relações ordenadas, e a ordem só pode existir quando há um princípio capaz de reunir a diversidade numa totalidade inteligível. Nenhum objeto material realiza perfeitamente essa unidade, pois tudo aquilo que pertence ao mundo sensível está sujeito à divisão, à transformação e à corrupção. Mesmo as obras mais belas possuem uma harmonia limitada e imperfeita. Sua beleza consiste em participar, segundo sua natureza, de uma ordem que as transcende. A igualdade absoluta e a unidade perfeita não podem ser encontradas nas coisas mutáveis, mas constituem o princípio pelo qual reconhecemos nelas qualquer vestígio de beleza.
O conhecimento da música converte-se, desse modo, numa ascensão da alma desde os movimentos corporais até a contemplação das realidades eternas. O prazer produzido pelos sons harmoniosos é legítimo enquanto revela a presença da ordem, mas torna-se um obstáculo quando a alma se prende a ele como se fosse seu bem supremo. O erro não consiste em reconhecer a beleza sensível, mas em amá-la de maneira desordenada, esquecendo a fonte de que procede. A alma que se deixa dominar pelos prazeres corporais subordina sua natureza superior àquilo que deveria governar. Em vez de utilizar as criaturas como sinais da perfeição divina, transforma-as no objeto último de seu amor. Assim nasce a desordem moral, que é, em sua essência, uma inversão da hierarquia dos bens.
O amor desordenado pelas coisas temporais prende a alma ao mundo da mudança e da corrupção. Ela procura nos corpos uma estabilidade que eles não possuem e exige dos prazeres passageiros uma felicidade que não podem proporcionar. A beleza sensível, precisamente porque depende do movimento, está condenada a desaparecer. Aquilo que agrada aos sentidos perde sua forma, sua intensidade ou sua existência, e a alma que deposita nele sua esperança fica inevitavelmente sujeita à inquietação e ao sofrimento. Não é a beleza das criaturas que constitui o mal, pois toda beleza procede de Deus, mas o apego que impede a alma de reconhecer sua origem. Quanto mais a alma se afasta das realidades eternas, mais se dispersa entre objetos inferiores, submetendo-se a uma multiplicidade que enfraquece sua unidade interior.
A imaginação participa desse processo quando a alma se deixa aprisionar pelas imagens das coisas sensíveis. Mesmo na ausência dos objetos, ela conserva suas representações e pode entregar-se a elas como se constituíssem a realidade última. A memória, que deveria servir à elevação do espírito, transforma-se então em instrumento de dispersão. A alma passa a viver entre fantasmas de coisas passageiras, incapaz de distinguir plenamente a verdade imutável das imagens produzidas por sua experiência temporal. A razão deve libertá-la dessa confusão, ensinando-a a reconhecer que nenhuma imagem corporal pode representar adequadamente aquilo que é eterno, indivisível e imutável. A verdade superior não se encontra entre as figuras que ocupam o espaço nem entre os movimentos que se sucedem no tempo.
Essa ascensão intelectual exige uma conversão moral. Não basta compreender racionalmente que as harmonias sensíveis dependem de uma ordem superior; é necessário orientar o amor para essa ordem. A alma não alcança a felicidade apenas pelo conhecimento abstrato das proporções, mas pela restauração de sua relação com Deus. A purificação consiste em abandonar o amor desordenado pelos bens inferiores e dirigir todas as faculdades ao bem supremo. O mandamento de amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o espírito, e de amar o próximo como a si mesmo, exprime a finalidade para a qual devem convergir os movimentos da existência humana. Quando os números e as harmonias de nossas ações são subordinados a esse fim, a vida inteira começa a recuperar sua ordem verdadeira.
A beleza do mundo deve, portanto, despertar a alma para uma beleza incomparavelmente superior. Se uma construção harmoniosa, um canto agradável ou uma sucessão proporcionada de movimentos podem produzir tanto prazer, quanto maior não será a felicidade de contemplar a fonte eterna de toda proporção? As obras humanas são belas porque nelas se manifesta alguma medida; as criaturas são admiráveis porque participam de uma ordem que não produziram por si mesmas. Mas todas essas harmonias são apenas vestígios de uma perfeição que não sofre alteração, não ocupa lugar e não conhece sucessão temporal. O espírito que reconhece essa diferença deixa de procurar o infinito no finito e começa a orientar seu desejo para aquilo que verdadeiramente pode satisfazê-lo.
A restauração da ordem na alma realiza-se mediante as virtudes. A temperança permite romper o domínio dos prazeres inferiores e converter o amor para Deus. A fortaleza sustenta a alma diante das adversidades, das perdas e da morte, impedindo que o temor dos males temporais a afaste do bem eterno. A justiça estabelece a relação adequada entre a alma, os demais seres e o Criador, dando a cada realidade o lugar que lhe corresponde na ordem universal. A prudência permite reconhecer essa ordem e discernir o caminho pelo qual a alma deve elevar-se. Essas virtudes não são disposições isoladas, mas manifestações de uma mesma restauração interior, pela qual a multiplicidade dos desejos e das ações passa a subordinar-se à unidade do amor divino.
A perfeição definitiva dessa ordem somente será alcançada quando a alma, plenamente purificada, participar da vida eterna. Na ressurreição, o corpo já não constituirá um peso sujeito à corrupção, mas será vivificado e governado em perfeita harmonia. Os movimentos corporais obedecerão sem dificuldade à alma, e esta, inteiramente orientada para Deus, não experimentará o conflito que caracteriza a existência presente. As virtudes alcançarão então sua consumação: a prudência já não precisará procurar entre as incertezas, a temperança não terá paixões desordenadas a combater, a fortaleza não enfrentará sofrimentos e a justiça não precisará restaurar relações perturbadas. Contudo, suas perfeições não desaparecerão; serão elevadas a uma condição na qual a alma possuirá plenamente aquilo que antes buscava mediante o esforço e a luta. A felicidade eterna consistirá na fruição da verdade e da bondade divinas, numa alegria que supera todos os prazeres sensíveis.
A própria existência do mal não destrói a ordem universal. A alma pecadora, embora se afaste da harmonia superior, não pode escapar inteiramente às leis que governam a criação. Mesmo sua condição de miséria e rebaixamento permanece submetida a uma ordem justa, pois nenhum ser pode subsistir sem alguma participação na unidade, na proporção e na beleza. A corrupção diminui a perfeição das criaturas, mas não elimina completamente os vestígios do bem que lhes deu existência. Deus, soberanamente bom e justo, governa tanto as criaturas que permanecem ordenadas quanto aquelas que se desviam de sua finalidade. A harmonia universal compreende diferentes graus de perfeição, e até os seres inferiores manifestam, segundo sua medida, a sabedoria que preside à criação.
Toda realidade existente aspira, de algum modo, à unidade. Os corpos conservam sua organização mediante a proporção entre suas partes; os seres vivos mantêm sua existência por uma ordem interna; os movimentos obedecem a relações temporais; e a alma procura uma estabilidade que somente pode encontrar plenamente na verdade eterna. A unidade é o princípio da harmonia, a proporção constitui sua beleza e a ordem assegura sua coerência. Essas características revelam que o universo não é um agregado casual de coisas, mas uma criação inteligível, na qual cada ser participa de uma estrutura que remete ao seu princípio. A multiplicidade das criaturas manifesta uma unidade originária, e a perfeição de suas relações testemunha a bondade daquele que lhes concedeu a existência.
A criação não pode ser explicada como simples transformação de uma matéria independente de Deus. Assim como o artesão produz formas harmoniosas mediante os números que conhece e aplica aos materiais, a natureza realiza suas operações segundo uma ordem que recebeu de seu Criador. Mas Deus não depende de matéria anterior nem de princípios exteriores à sua vontade. Ele é a origem de todos os seres e de todas as leis pelas quais eles subsistem. A capacidade humana de produzir obras proporcionadas não é senão uma participação limitada na sabedoria que governa a totalidade do universo. A harmonia das coisas artificiais pressupõe a harmonia da natureza, e esta, por sua vez, pressupõe o princípio eterno que a estabeleceu.
A música revela, assim, uma verdade que ultrapassa infinitamente o domínio dos sons. O estudo das durações conduz ao conhecimento dos números; os números revelam as proporções; as proporções manifestam a ordem; e a ordem remete à unidade suprema, fundamento de toda beleza e de toda existência. Aquilo que inicialmente parecia uma investigação sobre sílabas, pés métricos, ritmos e versos transforma-se num caminho de purificação intelectual e espiritual. A razão aprende a reconhecer, através das harmonias passageiras, a presença de princípios que não passam; e a alma descobre que seu verdadeiro destino não consiste em permanecer fascinada pelas belezas inferiores, mas em elevar-se até a fonte de onde todas procedem.
A finalidade última da música não é, portanto, o deleite dos ouvidos, mas a educação da alma para a contemplação da verdade. Os sons harmoniosos são sinais sensíveis de uma ordem eterna, e seu valor mais elevado consiste em conduzir o espírito para além deles mesmos. A beleza não é uma propriedade arbitrária atribuída às coisas pelo prazer humano, mas a manifestação de relações fundadas na unidade, na proporção e na ordem. Conhecer essas relações é começar a compreender a estrutura racional da criação; amá-las em sua fonte é iniciar o retorno da alma a Deus. Toda harmonia verdadeira aponta para a unidade, toda unidade criada remete à unidade incriada, e toda beleza temporal encontra sua razão última na beleza eterna. A música, quando compreendida em sua profundidade, torna-se uma via de ascensão do sensível ao inteligível, da multiplicidade à unidade, do movimento ao repouso e da beleza passageira à contemplação de Deus, princípio imutável de toda ordem, de toda verdade e de toda harmonia.
A argumentação de Santo Agostinho possui uma profunda inspiração platônica, particularmente na concepção de que o mundo sensível é uma manifestação imperfeita de uma ordem inteligível, eterna e imutável, à qual a alma pode ascender mediante o exercício da razão.
Agostinho transforma o estudo da música numa investigação metafísica: partindo dos sons, dos ritmos e das proporções numéricas, conduz a inteligência à descoberta de princípios universais que não dependem dos sentidos e, finalmente, ao reconhecimento de Deus como fundamento de toda beleza e harmonia.
Esse percurso reproduz, em sua estrutura fundamental, o movimento ascendente da filosofia platônica, mas introduz uma transformação decisiva: a ordem inteligível de Platão é reinterpretada à luz da criação divina e da doutrina cristã da salvação.
Se Platão descobriu na beleza sensível os vestígios de uma ordem inteligível e eterna, Santo Agostinho reconheceu nessa mesma ordem a assinatura de Deus, transformando a música de ciência das proporções em caminho de ascensão da alma ao Criador.
Notas
Aurelius Augustinus (354-430) nasceu em Tagaste (hoje Souk-Ahrás na Argélia). Filho de romano pagão casado com uma berbere cristã (Mônica, mais tarde Santa Mônica).
Professor de retórica interessou-se por filosofia, maniqueísmo e neoplatonismo antes de se converter ao cristianismo em 386.
Testemunhou o desmoronamento do Império Romano simultaneamente com a construção da Igreja. Talvez o principal doutrinador entre os Doutores da Igreja.
Em sua extensa obra destacam-se: A Cidade de Deus (primeira obra de filosofia da história), Da Trindade, Sobre o Sermão da Montanha, Da Doutrina Cristã e De Libero Arbítrio.


