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Música, Inteligência e Personalidade de Minh Dung Nghiem

há 11 horas
13 min de leitura

“A civilização, assim como o homem, é frágil e exposta a mil perigos de regressão ou de desvio rumo à selvageria primitiva.” – Minh Dung Nghiem, o risco dos estimulosos culturais lesivos


A música constitui uma poderosa força de formação e transformação do cérebro humano, capaz de modificar a sensibilidade, a inteligência, a personalidade e, por consequência, o comportamento dos indivíduos e o destino das civilizações. A crença popular de que a música suaviza os costumes é insuficiente, pois pressupõe que todas as músicas exercem efeitos semelhantes sobre o espírito. Na realidade, diferentes estruturas musicais produzem diferentes estímulos cerebrais, favorecendo determinadas disposições intelectuais, emocionais e comportamentais. A música pode contribuir para o aperfeiçoamento do homem, mas também pode estimular sua regressão, enfraquecendo o autocontrole, a capacidade de reflexão e as disposições necessárias à vida civilizada.


O cérebro humano não nasce completamente estruturado. Seu desenvolvimento resulta de um processo prolongado de maturação, durante o qual a hereditariedade interage continuamente com os estímulos recebidos do ambiente. As experiências sensoriais, os hábitos, a linguagem, os movimentos e as emoções participam da formação das conexões nervosas que determinarão as capacidades futuras do indivíduo. A infância representa, portanto, um período particularmente delicado, no qual os estímulos exteriores podem produzir efeitos profundos e duradouros. A educação não consiste apenas na transmissão consciente de conhecimentos: tudo aquilo que cerca a criança participa da organização de seu cérebro. A música, presente de maneira quase permanente na vida moderna, exerce uma influência especialmente importante porque atua diretamente sobre os mecanismos da percepção, da emoção e do movimento.


A audição não é um processo puramente mecânico pelo qual o ouvido recebe passivamente as vibrações sonoras. O ouvido capta e transforma os estímulos acústicos, mas é o cérebro que os interpreta, seleciona e organiza segundo estruturas previamente adquiridas. Ouvir é, em grande medida, uma atividade aprendida. A percepção depende da experiência, da educação, das expectativas e até das convicções do indivíduo. A própria linguagem é formada pela interação entre audição e emissão vocal, de maneira que o desenvolvimento da capacidade de escutar está intimamente relacionado à formação do pensamento e da personalidade. A educação auditiva deveria, assim, ocupar uma posição central na formação humana, em vez de ser abandonada ao acaso ou aos interesses comerciais dos meios de comunicação.


A organização cerebral apresenta uma diferenciação funcional entre os hemisférios, frequentemente associados, de maneira simplificada, às atividades analíticas e às atividades emocionais. O desenvolvimento harmonioso da inteligência exige a integração dessas funções, permitindo que a sensibilidade seja disciplinada pela razão e que o pensamento abstrato encontre apoio numa vida emocional suficientemente estruturada. A música participa desse processo porque mobiliza simultaneamente a percepção temporal, a memória, a atenção, a emoção e a coordenação motora. Uma composição musical complexa, articulada por relações melódicas, harmônicas e rítmicas, solicita uma atividade cerebral distinta daquela provocada por estímulos sonoros elementares, intensos e repetitivos. O cérebro se desenvolve pelo exercício de suas funções; quando submetido a estímulos pobres e uniformes, corre o risco de consolidar hábitos igualmente limitados.


É necessário distinguir a música propriamente dita dos estímulos sonoros cuja finalidade predominante é produzir excitação física ou emocional. A melodia organiza os sons em relações inteligíveis, a harmonia introduz estruturas simultâneas que exigem percepção e discriminação, enquanto o ritmo estabelece uma ordenação temporal capaz de orientar o movimento. A predominância excessiva de um desses elementos modifica o efeito global da experiência musical. As composições que exigem atenção às relações entre os sons favorecem o exercício de faculdades superiores, ao passo que a repetição insistente de pulsações simples pode reduzir a experiência auditiva a uma reação corporal automática. A diferença fundamental está entre uma música que convida à escuta ativa e uma estimulação sonora que tende a produzir excitação, automatismo e abandono do domínio consciente de si.


A música europeia erudita representa uma realização particularmente elevada dessa capacidade de organizar os sons segundo princípios de proporção, equilíbrio, variedade e unidade. Sua evolução histórica desenvolveu formas de crescente complexidade, nas quais a melodia, a harmonia e o ritmo se combinam para produzir experiências intelectuais e emocionais refinadas. A música predominantemente melódica educa a sensibilidade e a expressão dos sentimentos; a música de maior elaboração harmônica estimula a atenção, a memória e as operações intelectuais, ao passo que a música de forte organização rítmica favorece a coordenação motora e o vigor corporal. A diversidade dessas formas oferece ao cérebro oportunidades complementares de desenvolvimento. A música de Mozart, Bach, Haydn e outros representantes da tradição clássica não constitui apenas um patrimônio estético: ela expressa uma maneira de sentir, organizar e compreender o mundo, relacionada à formação histórica da inteligência europeia.


Os estudos sobre os efeitos da música na atividade cerebral sugerem que determinadas composições clássicas podem favorecer temporariamente o desempenho intelectual, particularmente em tarefas que exigem organização espacial, atenção e raciocínio. A música também pode melhorar o estado de vigilância e facilitar algumas atividades mentais, embora o silêncio permaneça preferível para tarefas de elevada complexidade que exigem concentração exclusiva. Esses efeitos não devem ser confundidos com uma transformação instantânea da inteligência. O problema decisivo é a influência acumulada dos hábitos musicais sobre a maturação cerebral e a formação da sensibilidade. A exposição prolongada a formas musicais complexas educa a percepção, enquanto o contato contínuo com estímulos repetitivos tende a orientar a atividade nervosa para padrões mais elementares de resposta.


As músicas de origem africana e afro-americana são examinadas principalmente a partir da importância atribuída à percussão, à repetição rítmica e à relação direta entre som e movimento corporal. Nessas manifestações, o ritmo pode exercer uma função de mobilização coletiva, produzindo excitação, sincronização dos movimentos e estados próximos do transe. A repetição insistente de pulsações, sobretudo quando acompanhada de intensidade sonora elevada, pode favorecer uma redução da atenção reflexiva e um predomínio das reações emocionais e motoras. O rock e seus derivados modernos representam uma intensificação industrial desse mecanismo, mediante amplificação eletrônica, repetição de fórmulas rítmicas e exploração sistemática da excitação sensorial. A questão não é simplesmente a origem geográfica das músicas, mas a natureza dos estímulos que produzem e os hábitos cerebrais que favorecem. Entretanto, a difusão mundial desses gêneros significa também a substituição de tradições musicais historicamente constituídas por uma cultura sonora uniformizada.


A transformação dos gostos musicais não ocorre isoladamente. A música é inseparável da linguagem corporal, dos costumes, das relações sociais e das representações morais. Uma civilização transmite seus valores não apenas por suas leis, instituições e ensinamentos explícitos, mas também pelos modos de falar, cantar, dançar, vestir e comportar-se. A cultura funciona como uma memória exterior ao cérebro individual, preservando experiências acumuladas durante gerações e transmitindo modelos de conduta. Quando uma tradição musical desaparece, não se perde apenas um repertório de composições: desaparece também uma forma particular de sensibilidade e de organização da experiência humana. A substituição dos hábitos musicais pode, portanto, contribuir para uma transformação mais ampla da personalidade coletiva.


A civilização não é uma condição natural e permanente da humanidade, mas uma conquista histórica frágil, dependente de educação, disciplina, continuidade e transmissão cultural. O homem civilizado distingue-se pela capacidade de dominar seus impulsos, subordinar as paixões à razão, respeitar normas comuns e orientar suas ações por objetivos que ultrapassam a satisfação imediata dos sentidos. A formação dessa personalidade exige um longo aprendizado, no qual as artes desempenham uma função essencial. A música pode favorecer o equilíbrio emocional e a interiorização da ordem, preparando o indivíduo para reconhecer proporções, diferenças e hierarquias. Quando, ao contrário, a educação abandona a formação da sensibilidade e estimula continuamente a espontaneidade instintiva, corre-se o risco de produzir indivíduos tecnicamente instruídos, mas incapazes de exercer verdadeiro domínio sobre si mesmos.


A civilização europeia constitui o resultado singular da combinação entre a herança greco-romana e a tradição judaico-cristã. Da primeira procedem o apreço pela razão, pela ordem, pela medida, pela lógica, pela beleza e pelo exercício crítico do pensamento, e da segunda, uma concepção da pessoa humana, da responsabilidade moral e da transcendência que contribuiu para limitar o poder das paixões e das autoridades políticas. A articulação dessas tradições tornou possível uma organização espiritual e intelectual particularmente favorável ao desenvolvimento das ciências, das técnicas e das instituições livres. A música clássica europeia exprime essa síntese cultural porque combina liberdade criadora com disciplina formal, diversidade com unidade e expressão emocional com elaboração racional. Sua complexidade corresponde a uma civilização que aprendeu a valorizar o esforço, a distinção e o aperfeiçoamento progressivo das capacidades humanas.


A formação das civilizações depende de processos históricos prolongados, nos quais os povos assimilam, transformam e transmitem instituições, conhecimentos e comportamentos. Não se pode criar uma civilização superior por simples decisão política, nem adquirir os resultados materiais de uma tradição sem incorporar os hábitos intelectuais e morais que os tornaram possíveis. A técnica moderna não surgiu independentemente de uma determinada formação cultural: ela pressupõe uma disposição para a observação, o raciocínio, a disciplina e a crítica. A tentativa de obter os benefícios da modernidade científica sem o aprendizado correspondente conduz à imitação superficial e à dependência. A verdadeira elevação cultural exige esforço, seleção, continuidade e respeito pelas realizações superiores do passado.


A expansão do rock e das músicas populares industrializadas deve ser compreendida no contexto do crescimento do mercado cultural norte-americano. A indústria do entretenimento descobriu que produtos musicais simples, repetitivos e facilmente reproduzíveis podiam alcançar públicos imensos com custos relativamente reduzidos. A amplificação eletrônica, os sintetizadores, as técnicas de gravação e os meios de comunicação permitiram substituir parte da elaboração musical por efeitos sonoros de impacto imediato. A formação prolongada de músicos e intérpretes deixou de ser indispensável para a fabricação de sucessos comerciais. A publicidade, o rádio, a televisão e a organização dos espetáculos passaram a desempenhar um papel decisivo na formação dos gostos, transformando a música numa mercadoria submetida às exigências da rentabilidade.


Essa industrialização cultural produziu uma inversão de valores. Em vez de elevar o público mediante o contato com obras exigentes, passou-se a adaptar a produção artística às preferências mais elementares, procurando conquistar o maior número possível de consumidores. A popularidade tornou-se critério de qualidade, e a audiência passou a justificar escolhas que deveriam depender de considerações artísticas, educativas e culturais. A facilidade de consumo substituiu o esforço de compreensão, a novidade tornou-se mais importante que a excelência, e a excitação sensorial passou a ocupar o lugar da formação estética. O resultado é uma cultura de massa que não democratiza verdadeiramente as realizações superiores da civilização, mas tende a eliminar as diferenças qualitativas entre elas e os produtos comerciais mais rudimentares.


O problema se agrava quando o Estado e suas instituições culturais passam a participar desse processo. A promoção oficial das chamadas músicas jovens, a concessão de subsídios, a organização de espetáculos públicos e a ocupação dos espaços educativos pela cultura do entretenimento representam uma transferência da responsabilidade pela formação da sensibilidade coletiva. Aquilo que deveria ser uma escolha pessoal transforma-se numa orientação cultural difundida de maneira quase compulsória. A música de fundo em estabelecimentos comerciais, instalações esportivas, transportes e outros locais públicos reduz a possibilidade de silêncio e de escolha individual. O cidadão é submetido a estímulos que não selecionou, enquanto as tradições musicais nacionais perdem espaço nos meios de comunicação.


A política cultural moderna revela, assim, uma contradição profunda. Em nome da diversidade, promove-se uma crescente uniformização dos gostos; em nome da democratização, reduz-se o acesso efetivo às formas mais elaboradas da cultura; em nome da liberdade, impõem-se padrões de comportamento por meio da publicidade, da pressão social e da repetição incessante. A expressão música jovem serve para conferir legitimidade a produtos comerciais que não possuem necessariamente qualquer relação essencial com a juventude. O qualificativo moderno funciona como argumento de autoridade, tornando suspeita ou reacionária toda crítica à cultura dominante. A discussão estética é então transformada em conflito político, impedindo que se examinem serenamente os efeitos psicológicos, educativos e sociais dos diferentes gêneros musicais.


A degradação da educação participa desse mesmo movimento. A escola deixou progressivamente de assumir a responsabilidade pela formação integral da pessoa, limitando-se à transmissão fragmentária de informações e competências. A formação moral, estética e emocional foi relegada a segundo plano, criando um vazio rapidamente ocupado pela televisão, pelo rádio e pela indústria do entretenimento. Os professores passaram a atuar cada vez mais como instrutores, enquanto artistas populares, publicitários e produtores culturais se tornaram educadores informais da juventude. A criança recebe, assim, mensagens contraditórias: a escola exige disciplina, atenção e esforço, enquanto o ambiente cultural estimula a gratificação imediata, a excitação, a contestação permanente e a espontaneidade sem limites.


Essa contradição contribui para a deterioração dos hábitos de estudo, da linguagem e da convivência social. O aprendizado intelectual exige concentração, capacidade de abstração, paciência e domínio das emoções. Uma formação sensorial orientada continuamente para a excitação e a distração dificulta o desenvolvimento dessas disposições. Os problemas escolares não podem ser explicados exclusivamente por fatores econômicos ou sociais, pois a educação depende também da organização cerebral e da qualidade dos estímulos recebidos. A negligência da música e das demais artes na formação infantil constitui, portanto, um erro pedagógico grave. A verdadeira democratização do ensino deveria proporcionar a todos, especialmente aos mais desfavorecidos, o acesso às obras superiores da cultura, em vez de reduzir as exigências educativas para adaptá-las ao nível mais baixo de desempenho.


O nivelamento cultural integra uma transformação política mais abrangente, caracterizada pela convergência entre a lógica comercial do capitalismo de massa e as tendências igualitárias e coletivistas das ideologias modernas. Apesar de suas diferenças aparentes, ambas podem favorecer a redução do indivíduo a elemento manipulável de uma população administrada. A indústria cultural procura consumidores previsíveis, enquanto a burocracia política tende a preferir cidadãos conformistas e facilmente governáveis. A simplificação dos gostos, a uniformização dos comportamentos e a substituição da formação intelectual pelo condicionamento psicológico servem a esses dois objetivos. A manipulação cerebral não precisa assumir a forma de uma intervenção médica direta: pode realizar-se lentamente pela organização do ambiente, pela repetição de estímulos e pela formação deliberada de hábitos.


O ideal de uma humanidade inteiramente igualada e pacificada por técnicas educativas e psicológicas representa uma ameaça à liberdade e à diversidade real das pessoas e das civilizações. Os indivíduos não possuem capacidades idênticas, não amadurecem da mesma maneira e não respondem uniformemente aos estímulos. A educação deve procurar desenvolver as potencialidades de cada um, sem negar as diferenças nem sacrificar a excelência em nome de uma igualdade artificial. A civilização depende precisamente da possibilidade de cultivar talentos, preservar tradições e transmitir realizações superiores. O nivelamento por baixo não elimina as desigualdades humanas; apenas enfraquece os instrumentos pelos quais os indivíduos podem superar suas limitações.


A história europeia demonstra que a liberdade e o progresso não nasceram de projetos abstratos de reconstrução integral da sociedade, mas de um desenvolvimento complexo, marcado por instituições, costumes e equilíbrios de poder amadurecidos ao longo dos séculos. A separação entre autoridades espirituais e temporais, a autonomia das comunidades, a valorização da responsabilidade individual e a continuidade das tradições contribuíram para limitar a concentração do poder. A pretensão moderna de reorganizar a sociedade segundo uma ideologia única ameaça destruir esses equilíbrios. A centralização administrativa, a intervenção cultural do Estado e a autoridade crescente dos especialistas podem converter a educação em instrumento de engenharia social, subordinando a formação da pessoa aos objetivos políticos de uma elite dirigente.

A

própria noção de progresso precisa ser reconsiderada. O desenvolvimento técnico e o aumento do conforto material não significam necessariamente aperfeiçoamento humano. Uma sociedade pode possuir máquinas sofisticadas, meios de comunicação poderosos e instituições administrativas eficientes, enquanto seus membros perdem a capacidade de apreciar a beleza, exercer o pensamento independente e controlar seus impulsos. A barbárie moderna não precisa apresentar-se como ignorância tecnológica: ela pode coexistir com diplomas universitários, prosperidade econômica e abundância de informações. O perigo consiste em confundir a multiplicação dos meios com a elevação dos fins, esquecendo que a inteligência e a liberdade dependem de uma educação moral e estética que nenhuma tecnologia pode substituir.


A preservação da civilização europeia exige, portanto, uma recuperação consciente de seu patrimônio musical, intelectual e espiritual. Não se trata de impedir o contato com outras culturas, mas de reconhecer que cada tradição possui uma história e uma organização próprias, e que a diversidade cultural não deve servir de pretexto para destruir as heranças nacionais. A verdadeira abertura pressupõe a existência de identidades culturais suficientemente sólidas para dialogar sem se dissolver. A Europa tem o direito e o dever de conservar aquilo que a tornou singular, sobretudo suas tradições de racionalidade, liberdade, beleza e formação humanista. A música clássica ocupa nesse esforço uma posição privilegiada porque permite educar simultaneamente a sensibilidade, a atenção, o gosto e o domínio de si.


A educação musical deveria começar cedo e desenvolver-se progressivamente, respeitando a maturação cerebral e as capacidades da criança. O contato com composições de qualidade, a aprendizagem do canto, a prática instrumental, o reconhecimento das estruturas rítmicas e melódicas e o exercício da escuta atenta podem contribuir para formar indivíduos mais sensíveis, disciplinados e intelectualmente preparados. A música não deve ser utilizada apenas como fundo sonoro ou instrumento de entretenimento, mas como parte essencial da educação. Pais, professores e instituições culturais precisam compreender que a escolha dos estímulos musicais não é indiferente ao futuro das crianças. A liberdade de escolha exige, antes de tudo, a formação da capacidade de distinguir, comparar e julgar.


Em última análise, o destino de uma civilização depende da qualidade humana daqueles que a compõem. Nenhuma organização política, prosperidade econômica ou inovação tecnológica pode compensar indefinidamente a deterioração da inteligência, da sensibilidade e do caráter. A música revela-se um dos instrumentos mais poderosos dessa formação porque atua sobre o homem antes mesmo que ele tenha plena consciência de seus efeitos. Abandoná-la aos interesses comerciais e às ideologias políticas significa permitir que forças exteriores determinem silenciosamente a personalidade das novas gerações. Recuperar a grande tradição musical, restabelecer a disciplina da escuta e devolver às artes sua função educativa constitui, assim, uma condição para resistir ao embrutecimento coletivo e assegurar a continuidade de uma civilização fundada na razão, na liberdade, na beleza e no aperfeiçoamento da pessoa humana.



Minh Dung Nghiem dá o exemplo concreto observado junto a crianças e adolescentes que praticavam patinação artística no gelo, na França, durante a década de 1980.Exercendo a medicina e acompanhando jovens patinadores, percebeu que muitos apresentavam resultados escolares insatisfatórios, dificuldades de concentração e problemas comportamentais, apesar de pertencerem, em grande parte, a famílias economicamente favorecidas. Chamou-lhe particularmente a atenção o fato de essas crianças permanecerem diariamente expostas, durante duas a quatro horas adicionais, às músicas reproduzidas nas pistas de patinação, especialmente rock e gêneros de forte predominância rítmica.


Observou também uma transformação em sua expressão corporal: em lugar dos movimentos elegantes, contínuos e harmoniosos tradicionalmente associados à patinação artística, muitos jovens executavam gestos bruscos, fragmentados e repetitivos, frequentemente sem acompanhar corretamente a estrutura musical.


A partir dessas observações, formulou sua hipótese central: a exposição musical prolongada não modifica apenas os gostos estéticos, mas pode condicionar a organização cerebral, a expressão corporal, a capacidade intelectual e a própria personalidade. Levou-o a investigar a neurofisiologia da audição e a influência dos estímulos sonoros sobre a maturação cerebral, constituindo o ponto de partida de sua crítica à música industrializada e à cultura de massa.





Notas


  • Minh Dung Nghiem (1935-2020) nasceu em Hải Dương, no Vietnã. Radicou-se na França a partir de 1955.

  • Escritor, ensaísta e médico especialista em cardiologia e pediatria.

  • Música, Inteligência e Personalidade: O Comportamento do Homem em Função da Manipulação Cerebral foi lançado em 1995.

  • Destacam-se na obra do autor outros três livros que aprofundam o pensamento aqui desenvolvido: Les Arts et l'équilibre mental (2006) que amplia a investigação da música para as artes em geral, defendendo a importância da experiência estética para o equilíbrio mental e a formação humana; Les Démons de l'archaïsme et le développement humain (2009) aprofundando a crítica aos impulsos primitivos e à regressão comportamental, relacionando-os ao desenvolvimento humano; e Musique, personnalité et difficultés scolaires (2011) que retoma diretamente a problemática da obra anterior, concentrando-se nos efeitos atribuídos ao rock, rap e outras músicas contemporâneas sobre crianças e adolescentes.

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