Sócrates e a Fundação da Filosofia Moral



Questão Socrática: Sócrates nada escreveu. Temos apenas testemunhos, por vezes até conflitantes: Aristófanes, Platão, Xenofonte, Aristóteles e os fundadores das escolas socráticas menores. Estes testemunhos não são descrições objetivas, mas interpretações. Remonta-se o Sócrates histórico cruzando as diversas referências sobre as novidades do pensamento filosófico que impactaram a grecidade com os testemunhos acima.


Ética

Por volta dos trinta anos de idade Sócrates estava ligado a Arquelau, um naturalista eclético, mas jamais ficou satisfeito com essas pesquisas e, conseqüentemente, jamais fez delas objeto do seu ensinamento. Em determinado ponto da sua evolução espiritual, Sócrates deixou para trás aquelas experiências num corte nítido, sem qualquer operação de mediação ou superação. Deslocou inteiramente todo o seu interesse da natureza ao homem, e só a partir desse ponto iniciou o seu magistério. Quanto à filosofia da physis destacava a recíproca contrariedade dos seus vários sistemas, os quais chegam a conclusões que se anulam, mostrando assim a própria incapacidade de chegas a alguma conclusão válida. Diria que a ciência do cosmo é inacessível para o homem, e quem se dedica a ela fica de tal forma absorvido que se esquece de si mesmo, i.e. esquece aquilo que mais importa: o homem e os problemas do homem.


Ao determinar a essência do homem, Sócrates conseguiu dar a sua problemática um significado decididamente novo. Mas o que é o homem? O homem é a sua alma, uma vez que é a alma que o distingue de todas as outras coisas. Ninguém antes entendeu a alma desta forma, e o Ocidente vai adotar o entendimento de Sócrates. A alma coincide com a nossa consciência pensante e operante, com a nossa razão e com a sede da nossa atividade pensante e eticamente operante. Com esta identificação da psyché sumamente preciosa com a sede da inteligência comum e do caráter individual a vida do homem adquire o seu justo sentido. Cícero disse que Sócrates “trouxe a filosofia do céu para a terra”. Criou a tradição moral e intelectual da qual a Europa passou a viver a partir de então.


Toda a doutrina socrática pode ser resumida nessas proposições convergentes: “conhecer a si mesmo” e “cuidar de si mesmo”. Ensinar aos homens a se conhecer e cuidar de si mesmos é a tarefa suprema da qual Sócrates considera ter sido investido por Deus.


Sócrates também pode determinar em que se consiste a aretéhumana: ela não pode ser senão o que permite à alma ser boa, isto é, ser aquilo que por sua natureza ela deve ser. Assim, cultivar a areté significará tornar a alma ótima, realizar plenamente o eu espiritual, alcançar o fim próprio do homem interior e, com isso, também a felicidade. Mas que é a virtude? Virtude é o conhecimento e vício é a ignorância. O homem distingue-se pela sua alma, e se alma é o eu consciente e inteligente, então a areté, ou seja, aquilo que atualiza plenamente esta consciência e inteligência, não pode ser outra coisa senão a ciência e o conhecimento.


Sócrates revolucionará assim a tradicional tábua de valores à qual até então se atinha toda a grecidade, e cujos valores fundamentais eram principalmente aqueles ligados ao corpo: a vida, a saúde, o vigor físico, a beleza, ou ligados à exterioridade do homem, como a riqueza, o poder, a fama e semelhantes. O corpo é subordinado e sob o controle e domínio da alma, mas não uma antítese desta.


A tese socrática implicava na unificação das virtudes tradicionais, como a justiça, a sabedoria, a temperança e a fortaleza em uma só e única virtude, justamente porque, sendo virtudes, cada uma e todas se reduzem essencialmente ao conhecimento. Ademais implicava a redução do vício à ignorância. Assim, quem faz o mal o faz só por ignorância e não porque queira o mal sabendo que é mal. Esses dois princípios socráticos: (a) a virtude é ciência e (b) ninguém peca voluntariamente, foram objetos de inúmeras discussões e polêmicas. Sócrates explica-se abaixo:


(a) Sócrates tenta submeter ao domínio da razão a vida humana, assim como aqueles que tinham submetido o mundo externo ao domínio da razão humana. Ela deve ser algo motivado racionalmente, justificado e fundado no plano do conhecimento. Neste sentido é que Sócrates diz que a virtude é conhecimento: a ciência do que é o homem e do que é bom e útil ao homem (supremos valores éticos).


(b) Um homem deve induzir-se, momentâneo sofisma, a considerar o mal como o bem antes de decidir-se a fazê-lo. Se soubesse o que é o bem da alma, nada jamais o tentaria a fazer o mal. Fazer o mal repousa sempre sobre uma falsa avaliação do que são os bens. O homem faz o mal porque espera, erroneamente, tirar dele o bem, obter a riqueza, o poder, o gozo, e não leva em conta o fato de que a culpa contraída pela alma supera incomparavelmente essas pretensas aquisições.


Sócrates diz que não é possível ser virtuoso sem conhecimento, porque não se pode fazer o bem sem conhecê-lo: e até aqui o raciocínio se sustenta; mas ele considera também que não é possível conhecer o bem sem fazê-lo: e é neste ponto que não se sustenta. O conhecimento do bem, para Sócrates, não é só condição necessária, mas também suficiente para ser virtuoso. Mas no exercício da virtude a vontade tem um peso e relevância quase tão importantes quanto o conhecimento do bem (o cristianismo demonstrou que é a vontade, a boa vontade, que determina o caráter e o valor moral do homem, ela nos salva ou condena). Essa ilimitada confiança na razão e na inteligência, e o destaque quase nulo dado à vontade é que mereceu a acusação de intelectualismo à ética socrática. Na realidade Sócrates não distinguiu as várias faculdades do espírito humano e a sua complexidade. Será Platão que descobrirá a complexa estrutura da alma humana, e mostrará que, ao lado da racionalidade, existe em nós a iracúndia e a concupiscência, e que a ação moral consiste num delicado equilíbrio dessas forças, que vê a irascibilidade (o querer) aliar-se e cooperar com a razão.


Toda a ética grega, se comparada com a ética cristã, resulta, no seu conjunto, intelectualista (reduzir o pecado e o mal moral a um erro da razão).


Autodomínio é o bem mais excelente para os homens. A criação do conceito remonta certamente a Sócrates. A enkráteia é o domínio de si nos estados de prazer e dor, nas fadigas, no movimento dos impulsos e das paixões. É o domínio sobre a própria animalidade. Procurar ter enkráteia na alma significa fazer a alma senhora do corpo, a razão senhora dos instintos. A falta deste domínio torna o homem totalmente privado de virtude e semelhante aos animais mais selvagens.


Sócrates identificou expressamente a liberdade com a enkráteia. A liberdade, que antes tinha um conceito eminentemente político / jurídico, assume o significado moral da racionalidade sobre a animalidade. Liberdade interior.


Em conexão com esses conceitos de enkráteia e eleuthería Sócrates deve ter desenvolvido também o conceito de autarquia, ou seja, de autonomia da virtude e do homem virtuoso. Aqui existem duas notas características: (a) a autonomia com relação às necessidades e aos impulsos físicos pelo controle da razão (da psyché) e (b) o fato de bastar só a razão (a psyché) para alcançar a felicidade. Quem se abandona à satisfação dos desejos e impulsos é constrangido a depender das coisas, dos homens e da sociedade, aqueles e estas em diferentes medidas necessárias para alcançar o objeto que satisfaz os desejos: torna-se necessitado de tudo o que é difícil de alcançar e vítima de forças não controláveis por ele, perde a liberdade, a tranqüilidade e a felicidade. A antiga concepção grega de heroísmo (antes focado na força para vencer adversários externos) agora se manifesta quando os desejos e tendências do homem são contidos e limitados ao âmbito do que está em seu poder.


Estes três eixos de sustentação da ética socrática (autodomínio, autarquia e liberdade) também trazem caráter intelectualista: o autodomínio é domínio da razão e não da vontade; a liberdade não é livre-arbítrio, a autarquia é também auto-suficiência do lógos humano.


Sócrates não diz do prazer nem que é um bem em si, nem que é uma mal em si: tudo depende do uso que se faça deles (bens exteriores). Se o prazer é submetido à disciplina da enkráteia e da ciência é algo positivo. É certo, porém, que a felicidade não depende do prazer como tal.


O útil de que fala Sócrates é sempre o útil da alma, e o útil do corpo só lhe interessa em função do útil da alma. O parâmetro de utilidade é dado pela areté da alma, ou seja, da ciência e do conhecimento.


A felicidade não é dada nem pelos bens exteriores nem pelos bens do corpo, mas pelos bens da alma, ou seja, pelo aperfeiçoamento da alma mediante a virtude, que é conhecimento e ciência. Realizar o pleno acordo de si consigo mesmo é que leva a ser feliz. Assim a felicidade é inteiramente interiorizada, desligada daquilo que vem de fora e até do que vem do corpo, e posta na alma do homem, e, portanto, consignada ao pleno domínio do homem. Sócrates era eudaimonista, pois ensinava a alcançar a eudaimonia(felicidade).


A felicidade não carece de nada que venha de fora ou de cima do homem. A virtude é autárquica e não necessita de um prêmio do além, pois já tem em si o próprio prêmio, ou seja, a felicidade. Posto isso, compreende-se que Sócrates não tenha sentido a necessidade de resolver a questão da imortalidade da alma no nível teórico. O que lhe importava era a possibilidade para ser feliz prescindindo da sorte depois da morte, e a total autonomia da vida moral. Ao homem virtuoso não pode acontecer nada de mal, porque a virtude é radical defesa de todo mal. Com esta convicção, ele bebeu serenamente a cicuta que lhe causou a morte, e bebeu-a serenamente porque convencido de que a morte mata o corpo, mas não a virtude do homem: destrói a vida, não o ter bem vivido.


Sócrates contribuiu notavelmente para depurar o conceito de amizade, ligando-o ao valor moral. O amigo verdadeiro é um bem grandíssimo para os homens, e para conquistar amigos o homem não deve economizar sacrifícios. E o verdadeiro amigo é o homem virtuoso, e só quem é bom pode ser amigo de quem é bom.


Sócrates tinha aversão pela políticamilitante, mas seus ensinamentos não eram apolíticos. Ele tendia a formação de homens que do modo melhor pudessem ocupar-se da vida pública. O verdadeiro político, para ele, não podia ser senão o homem perfeito moralmente, ou seja, o político devia ser político na dimensão da alma e capaz de cuidar das almas dos outros.


A arma da revolução não-violenta de Sócrates foi a persuasão. Uma única forma mais elevada de revolução não-violenta conhecerá a história: a do amor.


Teologia

Sócrates rejeitava a religião do estado porque repugnava o antropomorfismo, físico ou moral – negava que aos deuses pudessem ser atribuídos, paixões, sentimentos e costumes humanos. Reagindo contra o exasperado politeísmo, afirmou uma concepção unitária do divino, mesmo que não excluísse a multiplicidade das suas manifestações.


Não podendo dispor das ulteriores categorias metafísicas, era fatal que Sócrates falasse de Deus em nível intuitivo. Reencontra aí o mesmo problema que enfrentou na alma, onde não podendo dizer como ele é ontologicamente, definiu-oa em função das suas operações.


Extraiu de Anaxágora e Diógenes de Apolônia a noção de Deus como inteligência ordenadora, e centrou seu discurso sobre as obras de Deus, substituindo as motivações físico-ontológicas por aquelas de caráter prioritariamente ético ou de origem tipicamente moral.


A demonstração da existência de Deus foi centrada nos seguintes conceitos:

  • O que não é simples obra do acaso, mais constituído com um objetivo e um fim, postula uma inteligência que o tenha produzido intencionalmente.

  • Em particular notamos que cada e todos órgãos do homem são finalizados de modo que não podem ser explicados senão como obra de uma inteligência.

  • E não vale objetar que não se vê esta inteligência, pois a nossa inteligência também não é visível e ninguém duvida da sua existência quando fazemos uma reflexão.

  • Ademais podemos dizer com base no privilégio da constituição humana, principalmente por ser dotado da alma, que o artífice divino cuida do homem de modo particular.


O trabalho de Platão e Aristóteles constituirá em dar fundamentos a estas intuições.


O daimónion (intermediário entre deuses e homens para a grecidade) de Sócrates tratava-se de um sinal de uma voz que ele dizia ser revelação divina. Era entendido por Sócrates como um fato extraordinário e de natureza sobre-humana. E o que revelava o daimónion? Nada da sabedoria humana ou proposições da sua ética, mas sim ligadas às ações e eventos particulares da vida de Sócrates (sair de um lugar, atravessar um rio, acolher no seu grupo determinada pessoa) – espécie de oráculo interior.


Para Sócrates, assim como Deus não intervinha na fundação da ética, também não intervinha com prêmios ou castigos, nem neste, nem no outro mundo. Mas como conciliar isso com a concepção socrática da divindade como inteligência providente? E isso não contradiz a sua convicção de que Deus cuida particularmente da causa dos bons, chegando a enviar-lhes daimónions? A resposta é simples: os valores morais não são criados ou impostos pela divindade, mas são valores supremos, porque os são do espírito, e, assim sendo, são reconhecidos também pela divindade. Assim, Deus, mesmo não sendo criador dos valores morais, é protetor deles: objetiva perfeição recebe de Deus a máxima consideração. O homem não tem necessidade da ajuda da divindade para ser bom. O cuidado especial da divindade pelo homem bom é uma conseqüente (um efeito) e não um antecedente (uma condição) do seu ser bom.


Dialética

O novo conceito de psyché implica em drástica ruptura com os discursos de efeito dos sofistas. Estes estavam voltados para demonstração de bravura e conquista do ouvinte, e não para fornecer à alma autêntico alimento, ou seja, para curá-la e torná-la melhor. Mas, ao contrário, isso podia arruinar a alma de modo irreparável. Não se cuida da alma do homem com arengas dirigidas a massas de ouvintes, nas quais a individualidade é totalmente descuidada e ignorada.


Da alma, alma individual, só se cuida com o dia-logo, ou seja, com o lógos que, procedendo por perguntas e respostas, envolve efetivamente mestre e discípulo numa experiência espiritual única de pesquisa em comum da verdade. O discurso longo (monólogo fechado) é substituído pelo discurso breve (como chamava Sócrates) sempre pronto para dobrar-se às exigências mais profundas daqueles que, juntos, buscam e põem em confronto alma com alma. Nesse diálogo a voz dos poetas não tinha mais lugar por falta de sintonia com a razão da qual o diálogo nasce e do qual se alimenta.


Os diálogos são de natureza ética e educativa e só em segundo lugar, e mediatamente, de natureza lógica e gnosiológica. A dialética socrática tem em vista a purificação da alma provando-a a fundo com perguntas e repostas, para libertá-la dos erros e dispô-la à verdade.


O ponto de partida da dialética socrática é a afirmação de não-saber, pondo-se diante do interlocutor na posição de quem tem tudo a aprender, mais do que na posição de quem tem a ensinar: abrindo a possibilidade de diálogo. O significado da afirmação deste não-saber só se mede em relação com o saber de Deus (Deus é onisciente) – comparado com a estatura deste saber divino o saber humano mostra toda sua fragilidade e pequenez. Mas também quando está em jogo questões particulares, que Sócrates bem conhece, ele finge de ignorante. Mas este fingimento provoca o efeito análogo ao da proclamação do princípio geral: provoca o choque benéfico sobre o ouvinte e o atrito do qual nasce a centelha do diálogo.


Ironia significa, em geral, dissimulação. Mas em Sócrates indicava um jogo múltiplo e variado de disfarces e fingimentos posto em ato para forçar o interlocutor a dar conta de si. Ele finge até mesmo assumir idéias e métodos do interlocutor para engrandecê-lo ao limite da caricatura, ou para invertê-lo com a mesma lógica que lhe é própria e fixá-lo na contradição.

Sócrates levava aquele com quem dialogava a reconhecer a própria presunção de saber e, portanto, a própria ignorância. Ele o forçava a definir o assunto em torno ao qual versava a pesquisa; depois se aprofundava de vários modos na definição, explicava as falhas, as contradições às quais levava; convidava em seguida a tentar uma nova definição e, com o mesmo procedimento, confutava-a (confutação = elenchos), e assim por diante, até o momento em que o interlocutor se reconhecia ignorante. Foi justamente com este momento confutatório do seu método que Sócrates adquiriu as mais vivas aversões e as mais duras inimizades.


Assim ele tentava que o interlocutor desse a luz a uma idéia sobre a verdade do tema em debate. Mas para isso a alma já deveria estar grávida. O discípulo tem a alma grávida da verdade e o mestre opera como um obstetra espiritual. É a maiêutica socrática – a arte de obstetra dirigida à psyché, assim ele define sua arte irônico-maiêutica.


Sócrates não fundou a lógica – foi uma excelente mente lógica, mas não elaborou uma lógica em nível teórico. Sócrates quer saber “o que a coisa é”, quer recuperar o lógos – faz um exame da psyché, quer purificar a alma.


Aporias e Limites Estruturais do Socratismo

Seguem as principais aporias e limites estruturais da filosofia socrática:


(a) Sócrates não soube determinar a natureza da alma, definindo-a de maneira puramente operacional. Chegou a dizer que a alma participa do Divino, mas não soube, nem pôde, determinar o que é o Divino.


(b) Análoga observação deve ser feita sobre a concepção socrática de Deus e do divino.


(c) O mesmo limite estrutural é observável na teleologia socrática. A concepção do finalismo universal não tem mais na sua base uma determinada concepção da physis, mas não se deu nenhuma outra base teórica. Caberá a Platão, com sua teoria das Idéias, e a Aristóteles, com a doutrina metafísica das quatro causas, dar fundamento ontológico à teleologia intuitiva de Sócrates.


(d) Aporias do intelectualismo socrático. Seu discurso deixa a impressão de, em certo ponto, de desviar-se ou, pelo menos, ficar bloqueado na metade do caminho. Além disso, esse discurso só fazia sentido na boca de Sócrates, sustentado pela irrepetível força da sua personalidade.


(e) O lógos socrático não está em condições de fazer todas as almas darem à luz, mas só as que estão grávidas. Mas quem fecunda a alma, quem a torna grávida? Entre conhecer o bem e querê-lo há um salto qualitativo – nesta passagem entra a escolha, a liberdade. Entra aqui um dos mais profundos mistérios do homem, que pode aceitar ou absurdamente rejeitar a verdade. O poder de voltar às costas à verdade não foi considerada por Sócrates.


(f) Nosso filósofo apresentou a sua mensagem como válida em particular aos atenienses, e não para toda a grecidade, ou para a humanidade – não se deu conta de que sua mensagem ia muito além dos muros da cidade de Atenas.


(g) Pode-se chamar Sócrates de Herma bifronte: (1) de um lado o seu não-saber parece a negação da ciência, de outro parece a via de acesso a uma autêntica ciência superior; (2) de um lado sua mensagem pode ser lida como protrética moral, de outro como abertura para a “segunda navegação” platônica; (3) de um lado sua dialética parece sofista e erística, de outro a fundação da lógica científica; (4) de um lado sua mensagem parece circunscrita à Atenas, do outro abre-se ao mundo inteiro.


Socráticos Menores

Nenhum filósofo, antes ou depois de Sócrates, teve a ventura de ter tantos discípulos imediatos e de tal riqueza e variedade de orientações, como foram aqueles que se formaram sob o seu magistério. Ligou-se quase a todas as sucessivas escolas filosóficas, inclusive as da era helenística (i.e. epicurismo, estoicismo e, até mesmo, o pirronismo).


Sócrates foi circundado de homens de inteligência e de têmpera excepcionais. Os mais representativos e ilustres foram: Xenofonte, Ésquines, Antístenes, Aristipo, Euclides, Fédon e, o mais ilustre, Platão – estes últimos cinco fundaram escolas filosóficas, com cada um se sentindo o autêntico (senão o único) herdeiro de Sócrates. Deste grupo excluímos Platão, e os outros quatro são considerados menores – o apólogo do cisne dá a idéia que separa Platão dos demais.


Antístenes (Escola Cínica) é o maior entre os menores – soube apreender, repensar e reviver a total liberdade que via no mestre. Uma das faces da bifronte Herma socrática que será diametralmente oposta a de Platão, levando a inimizade entre ambos. O nominalismo antistênico (“O princípio da instrução é a pesquisa dos nomes” –dizia ele) – a coisa individual é expressa pelo seu nome próprio e não se lhe pode atribuir outro nome além daquele que lhe é próprio (e.g. homem é homem, bom é bom, mas não se pode dizer o homem é bom). Cai por terra a possibilidade de conjugar termos diferentes, ou seja, a possibilidade de formular juízos que não sejam tautológicos, eliminado qualquer possibilidade de construir uma lógica e uma ontologia do tipo platônica.


Para Antístenes a felicidade está inteiramente em nós: está na nossa alma, está na nossa autarquia, está no nosso não depender das coisas dos outros: está em não-ter-necessidade-de-nada. Fala da libertação de homens e coisas, também liberdade total do prazer e do apetite – e aqui ele vai além de Sócrates, radicalizando-o. Assim foi conhecido pelos antigos como fundador do cinismo (vida de cão, vigilância de cão, Cinoarge) e como escolarca dos cínicos. Diferentemente de Sócrates, que queria vivificar a sociedade, Antístenes sublima os aspectos individualistas, anti-sociais.


Aristipo (Escola Cirenaica) foi o mais independente de Sócrates, chegando aos limites da infidelidade. De família rica, teve dificuldade de compreender e aceitar a mensagem de Sócrates. Afirmou que o prazer é sempre um bem – um hedonista em nítido contraste com o discurso socrático. Além disso, chegou a exigir pagamento pelas suas lições. A virtude seria a arte de possuir o prazer sem deixar-se possuir e ser vítima dele. Reduzia o bem ao prazer e este ao “movimento suave”, o que significava que só tem lugar no presente. Propunha a ruptura dos esquemas da polis, mas apenas porque um empenho participativo na vida pública não deixa gozar a vida de modo pleno.


Euclides (Escola Megárica) tentou a primeira síntese entra a ética socrática e a ontologia eleata, buscando dar ao momento axiológico um fundamento ontológico. Polemizará vivamente com Platão e Aristóteles justamente onde estes superam o eleatismo.


Os megáricos, em seu componente eleata, em primeiro lugar reduziram o bem ao Uno com característica eleata da absoluta e imóvel identidade e igualdade de si consigo. Não admitia absolutamente um não-ser. Euclides rejeitava aquele tipo de procedimento baseado em analogias, típico do procedimento dialético socrático, porque rompe a dialético eleata, que concebe o discurso só em termos de absoluta identidade ou absoluta alteridade.


Já os componentes socráticos se viam na identificação do Ser-Uno eleata com aquele Bem que foi o fim último de toda a pesquisa socrática – identificava o Bem como sabedoria, Deus, mente (típicas conotações da teologia socrática). Também a negação euclidiana do contrario do Bem como não-ser corresponde à negação socrática do mal, reduzido a ignorância do bem. De resto, o corte nítido que o megarismo euclidiano opera entre a opinião falaciosa e a verdade, identificada com o Uno-Bem-Deus é em igual medida socrática quando por Verdade se entende exatamente Deus.


Nesta mediação Euclides tenta dar um fundamento ontológico que faltava ao socratismo – para os megáricos o bem humano consistia no conhecimento da Verdade, ou seja, do Bem-Uno-Deus. Uma tentativa rudimentar do que fará Platão ao dar fundamento metafísico ao socratismo.


Fédon (Escola Élida) foi o menos original dos socráticos menores. Desenvolve o conceito de que o logos (o logos socrático) não encontra nenhum obstáculo na natureza do homem, no sentido de que ele é capaz de dominar também os caráteres mais rebeldes, e os temperamentos mais passionais. Aprofunda um ponto da filosofia socrática do qual tinha diretamente experimentado a eficácia (foi resgatado por Sócrates de uma casa de tolerância). Mas era um dos traços mais típicos do intelectualismo de Sócrates, vale dizer, a convicção da onipotência do logos e do conhecimento no âmbito da vida moral.


Os socráticos menores também podem ser caracterizados como meio-socráticos: os cínicos e os cirenaicos são meio sofistas; e os megáricos meio eleatas. Também podemos chamá-los de socráticos unilaterais por filtrarem no seu prisma um único raio da luz difundida por Sócrates, e, portanto, fatalmente deformando-a.


Finalmente podemos dizer que já são helenistas: os cínicos precedem os estóicos; os cirenaicos, os epicuristas; e os megáricos, paradoxalmente, fornecem abundantes armas aos céticos.


(Resumo extraído da História da Filosofia Antiga de Giovanne Reale)

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