Clitofonte de Platão
- há 2 dias
- 2 min de leitura

“Pois mantenho, Sócrates, que vales tudo para um ser humano que não recebeu exortação, mas para aquele que já recebeu exortação, és antes um obstáculo no caminho da excelência e da felicidade.” – Clitofonte, admira Sócrates exortativo e rejeita-o por não ensinar o domínio da justiça.
Personagens
Sócrates – filósofo
Clitofonte – jovem ateniense, depois político
O diálogo relaciona-se diretamente ao Livro I da República: Clitofonte estava presente na cena inicial com Lísias e Trasímaco, e participa brevemente na intervenção de Trasímaco. Clitofonte queixa-se que Sócrates só domina o discurso exortativo, mas não teria “nada de positivo a ensinar” – acusação incompatível com os livros posteriores da República.
Clitofonte começa elogiando os discursos exortativos de Sócrates: a crítica aos pais que só acumulam riqueza sem ensinar justiça, o ataque à educação tradicional incompleta. e a comparação de quem só cuida do corpo (negligenciando a alma) a quem afia instrumentos sem saber usá-los – a justiça como téchne (arte) política que governa as almas.
Mas, logo após o elogio, surge a crítica: depois de despertar as pessoas para a virtude, Sócrates não avança. Não explica o que é a justiça nem como praticá-la (como um médico que só diz “cuida da saúde” sem ensinar a curar).
Clitofonte admira o Sócrates que desperta as almas, mas rejeita o Sócrates que não entrega a téchne (arte) da justiça.
É uma peça metafilosófica deliberada de Platão, distinguindo dois Sócrates: o refutativo/aporético (negativo, exortativo, próximo do Sócrates histórico e dos primeiros diálogos) e o produtivo/construtivo (dos diálogos maduros como nos Livros II-X da República).
Clitofonte mostra precisamente por que Platão precisou superar o método puramente exortativo do Livro I e avançar para a doutrina positiva da justiça. O silêncio final de Sócrates é intencional: convida o leitor a discernir o que manter e o que superar, marcando a evolução do próprio Platão.
É uma ponte entre o Livro I da República e o Platão maduro – ilumina a transição do socratismo aporético para a filosofia construtiva.
Notas
Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.
Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.
Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).
Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”
Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.
Clitofonte, da exortação é diálogo duvidoso (gênero ético), do período socrático (forma dramática platônica com conteúdo socrático).
É o diálogo mais curto da obra platônica.


