Protágoras de Platão
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“O conhecimento é o alimento da alma.”
– Sócrates (313c)
Personagens
Sócrates – filósofo
Protágoras – famoso sofista, defensor do relativismo
Hípias de Élis e Pródico de Ceos – sofistas presentes
Hipócrates, Cálias e Alcibiades – jovens e aristocratas atenienses
Crítias – parente de Platão
Paralo e Xantipo – filhos do estadista Péricles.
O tema explícito do diálogo – se a virtude (areté) pode ser ensinada – opõe os sofistas, que tratam a virtude como técnica transmissível, a ideia defendida por Sócrates de que a virtude depende de uma transformação interior da alma. É o embate entre o conceito de conhecimento técnico (sofístico) e conhecimento existencial (filosófico).
A sofística é um saber operativo, voltado ao sucesso, portanto desligado da estrutura ontológica da realidade. É a substituição da verdade por eficácia discursiva – a dissolução do ser na linguagem, uma hipertrofia do discurso sem fundamento no ser. É uma forma de ceticismo prático que conduz ao subjetivismo radical, implicando a perda de critérios universais de verdade, e impossibilitando de uma ética sólida (desagregação axiológica).
Sócrates reage como defensor de que o conhecimento não é mera opinião – um agente de uma ascese intelectual que quer recolocar o homem em relação com o logos objetivo, rejeitando a redução da virtude a técnica ensinável. A virtude não seria apreendida como se apreende uma habilidade, pois ela é como a participação na ordem do ser – o saber autêntico fundado no ser.
No embate com Sócrates, Protágoras afirma a capacidade de ensinar a areté a seus alunos listando virtudes (justiça, temperança, piedade, coragem, sabedoria) como partes de um todo ou sinônimos, e se propõe a torná-los nobres e bons. Sócrates duvida, citando estadistas atenienses que não transmitem virtude aos filhos, e insiste no método dialético de perguntas curtas e precisas, em oposição aos longos discursos sofísticos (que ele compara a livros: não respondem a objeções).
Sócrates expõe as contradições de Protágoras: a retórica sofística impede descobrir o que é a virtude que se pretende ensinar. O diálogo culmina na ideia socrática de que a virtude é una: a metretiké téchne (arte da medição), ou seja, a sabedoria (sophía) fundada no conhecimento (epistéme) que mede corretamente prazeres e bens, superando aparências temporais.
Para Sócrates nenhum homem pratica o mal intencionalmente, mas quando o desejo ou a paixão sobrepõe a razão ele perde a capacidade de ver corretamente (fica ignorante). O desejo distorce a coisa desejada, deixando-a mais importante do que realmente é. O cerne da arte do comportamento é a medida correta, onde a medição na perspectiva mais ampla supera a medição imediata – esta perspectiva mais ampla é o bem-estar do aluno na eternidade. A arte desta medição pode ser ensinada – ignorância é ignorar o destino eterno.
O diálogo revela um momento decisivo da civilização grega: a desagregação da ordem tradicional (mito, costumes aristocráticos, religião cívica) evidenciada na ascensão dos sofistas, como Protágoras, que oferecem formação política baseada em técnica e persuasão – mostra uma Atenas onde a verdade é substituída pela opinião eficaz (sintoma de crise espiritual). É o momento em que a alma grega começava a oscilar entre a abertura ao ser e o fechamento na opinião humana.
A ideia protagórica de que “o homem é a medida de todas as coisas” (ver Teeteto) implica que a verdade deixa de ser transcendental e passa a depender do sujeito humano, sendo um passo em direção da redução imanentista da realidade, i.e. a perda da abertura da alma ao transcendente (logos).
Sócrates representa a resistência à redução sofística da verdade a convenção social, uma busca da reorientação da alma para o ser. A consciência filosófica emergente que busca por uma ordem da alma orientada por algo mais alto que a opinião – a ordem baseada na verdade transcendente, e não na eficácia humana, pois Deus é a medida de todas as coisas.
O espírito sofístico – relativismo imanente, uso retórico da razão para manipular aparências, negação ou fechamento à transcendência divina e criação de “segundas realidades” (ver O Homem Sem Qualidades) – persiste na modernidade sob a forma de ideologias políticas e filosóficas que prometem salvação intramundana.
Os iluministas e os ideólogos atuais são almas gêmeas dos sofistas antigos. Todos empregam uma razão instrumental truncada (apenas analítica e calculista, sem o nous noético de Platão e Aristóteles) para obscurecer a realidade do ser, decapitar o fundamento divino e construir sistemas fechados que proíbem o questionamento existencial. Os sofistas antigos fragmentavam o complexo meditativo para negar a realidade divina; os modernos fazem o mesmo ao imanentizar a escatologia (trazer o paraíso para a história por meio da ação humana).
Marxismo, nazismo, positivismo, progressismo utópico etc. são variantes modernas dessa tentativa. Elas fecham a alma à transcendência divina e projetam o “fim dos tempos” para o futuro histórico, exigindo revolução, planejamento total ou engenharia social para acelerar o paraíso.
Assim como Protágoras e os sofistas antigos reduziam a ordem à convenção humana e à retórica imanente, os sofistas modernos (os ideólogos) usam a razão instrumental para criar aparências de salvação, ignorando a tensão entre o homem e o divino.
A hipótese imanentista da escatologia é uma falácia teórica que confunde o sagrado com o profano: o homem assume o papel de Deus, promete uma “segunda realidade” perfeita (uma sociedade sem males, sem tensão existencial) e usa a política como instrumento de salvação secular.
Todas as tentativas de materializar tal hipótese resultaram em totalitarismo, violência e desordem espiritual, porque o “fim dos tempos” não pode ser forçado. Estas ideologias são uma metástase (doença) da alma: o homem gnóstico quer “salvar-se a si mesmo” sem Deus.
A ideologia é o gnosticismo moderno em suas diversas variantes, operando com a mesma deformação espiritual que Platão combatia nos diálogos.
Notas
Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.
Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.
Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).
Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”
Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.
Protágoras, os sofistas é diálogo legítimo (gênero demonstrativo), do período mediano (fase de ascensão, primeira florescência filosófica).
Protágoras tem um tom quase teatral: a cena na casa de Cálias é descrita com vivacidade quase cômica, os sofistas aparecem como figuras públicas, rodeadas de admiradores – Platão está mostrando a sofística como um fenômeno cultural, não apenas doutrinário.
Protágoras aparece como uma personagem imponente, digno e articulado, representante de uma tradição educacional real e poderosa. Mas preso à superfície do discurso, sendo incapaz de sustentar rigor filosófico diante de Sócrates – Protágoras representa um limite histórico do pensamento grego.
O mito de Prometeu narrado por Protágoras fala da distribuição de diké (justiça) e aidós (pudor) a todos os homens, implicando que a virtude política pertence a todos e pode ser desenvolvida em todos.
Protágoras também pode ser visto como um retrato da luta pela formação do homem grego, em que a sofística e Sócrates representam dois estágios da evolução da paideía. A disputa por quem tem autoridade para educar a elite ateniense, onde Protágoras representa a nova educação, e Sócrates representa uma transformação crítica dessa educação.
A frase “Don’t immanentize the eschaton!” cunhada pelo intelectual conservador William F. Buckley Jr. (1925-2008) após ler A Nova Ciência da Política de Eric Voegelin, tornou-se slogan contra as utopias políticas.


