René Guénon & Les Sept Tours du Diable de Jean-Marc Allemand
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“Ce qui est peut-être le plus digne d’intérêt, à l’insu de l’auteur qui, malgré ce qu’il a vu, se refuse à y croire, c’est ce qui concerne les sept tours du diable.” – René Guénon, resenha do livro de W. B. Seabrook (Adventures in Arabia)
As Torres não são necessariamente edifícios físicos, mas áreas tangíveis agindo como centros da contra-iniciação, presididos pelos Awliyâ es-Shaytân (santos de Satanás). Elas projetam influências sutis maléficas, acelerando a desintegração espiritual no Kali Yuga – contribuem para a pseudo-tradição, o materialismo e a subversão espiritual
Elas pretenderiam opor-se aos sete Aqtâb (Polos) terrestres subordinados ao Polo supremo, embora esta oposição seja ilusória no plano espiritual. As Torres estariam ligadas a resíduos psíquicos de civilizações antigas extintas (ciclos pré-adâmicos ou atlante), gigantes e forças telúricas antigas. Não se trata de satanismo popular ou folclórico, mas de uma contra-iniciação organizada e com eficácia negativa real.
Guénon sugere que as torres formam uma espécie de arco ou linha com o lado côncavo virado para o Ocidente, cercando espiritualmente a Europa/Ocidente. Elas estão assim localizadas:

Região do Níger (África Ocidental, mais ao centro da África) Torre era já, no tempo do Egito antigo, o local de origem dos feiticeiros e magos mais poderosos, incluindo aqueles que se opuseram a Moisés (referência à tradição bíblica dos magos do Faraó).
Sudão (região montanhosa) Torre associada a uma população de cerca de 20.000 indivíduos com características licantropas (capacidade de se transformar em animais selvagens, especialmente à noite), confirmada por testemunhas oculares conhecidas de Guénon no Cairo. Não se trata de folclore comum, mas de uma manifestação concreta de influência infra-humana (passagem ao estado animalesco). Guénon e Allemand veem isto como sinal de uma contra-iniciação que inverte a hierarquia humana → divina, fazendo o homem regredir ao sub-humano – remete ao simbolismo tradicional de lobisomens, serpentes ou forças tifônicas (destrutivas e caóticas).
Estas regiões africanas representam continuações ou resíduos das forças mágicas que operavam na civilização faraônica, especialmente na sua fase de declínio. O Egito antigo é visto como um grande centro tradicional que, no final do seu ciclo, sofreu infiltrações contra-iniciáticas, com magos negros provenientes destas zonas do interior africano. Ambas torres não são fenômenos recentes, mas suportes que ativam resíduos de civilizações ou ciclos anteriores (possivelmente atlantes ou pré-adâmicos). Ligam-se ao tema dos gigantes (forças telúricas brutas) e a práticas mágicas baseadas no domínio das forças inferiores da natureza.
O Egito faraônico possuía uma iniciação autêntica (herméticas, sacerdotal), mas também uma contraparte degenerada de feitiçaria. Os magos do Niger representam esta corrente selvagem e telúrica, oposta à via espiritual pura.
Síria Associada aos ismaelitas e outras seitas consideradas suspeitas. A Síria (e região do Levante) é vista como um antigo centro de convergência de tradições, mas também de desvios e infiltrações contra-iniciáticas. Há a herança dos Hashashin (ordem dos assassinos) do Velho da Montanha (Hassan-i Sabbah, século XI-XII), cuja fortaleza de Alamut (no Irão) simboliza uma forma de poder iniciático invertido ou paródico, com técnicas de influência psicológica e política. Os ismaelitas nizaritas modernos (seguidores do Aga Khan – sacerdote) são analisados com reserva: embora tenham uma estrutura esotérica, Guénon e Allemand veem neles riscos de heterodoxia e possível instrumentalização por forças subtis maléficas.
A torre síria é situada em zona estratégica, possivelmente ligada a antiga cidade ou montanha sagradas(e.g. áreas como Kafr Kila (Líbano) ou regiões do norte da Síria/Líbano, perto de antigas fortalezas ismaelitas ou da planície de Shinéar). A Torre faz parte do arco das Torres, posicionada de modo a irradiar influências para o Ocidente (Europa) e para o Mediterrâneo, contribuindo para a subversão espiritual no mundo moderno. Funciona como suporte localizado para os Awliyâ es-Shaytân (santos de Satanás), projetando influências que favorecem seitas heterodoxas, ocultismo e formas de pseudo-iniciação no Médio Oriente – estas influências se manifestam através de conflitos, sincretismos religiosos e perda de ortodoxia.
Mesopotâmia / Iraque É a torre mais documentada e conhecida das sete: a associada aos iazidis, na região de Sinjar, no norte do Iraque mencionada por Guénon na resenha do livro de W. B. Seabrook, e na carta a Vasile Lovinescu de 19 de maio de 1936. A torre é descrita como um santuário (Sheikh Adi) num vale montanhoso constituído de uma torre branca isolada, erguida sobre uma abóbada, com uma esfera de cobre polido no topo que refletia intensamente a luz (“parecida com a ponta de um lápis bem afiado”), emitindo raios de luz visíveis. Os sacerdotes regulares iazidis evitavam realizar ritos nela. Apenas magos errantes ou certos personagens suspeitos passavam vários dias ali.
O facto de estar em território iazidi não significa que os iazidis sejam coletivamente satanistas. Como muitas seitas heterodoxas, eles podem ter sido instrumentalizados por forças que ignoram. Os magos errantes representam provavelmente agentes de influência sutil maléfica.
Turquestão (Ásia Central, região de Bukhara/Samarcanda) Considerada uma zona mista por apresentar simultaneamente elementos bons (influências espirituais autênticas, tradições islâmicas, sufismo) e maus (influências contra-iniciáticas, resíduos mágicos ou heterodoxos).
Zona histórica de cruzamento de civilizações (persa, turca, árabe, mongol), rica em tradições mas também vulnerável a infiltrações subtis devido à sua posição de passagem (Rota da Seda). A torre não se situa num ambiente puramente maléfico (como as africanas), mas num contexto onde o bem e o mal coexistem e se entrelaçam. Isso a torna particularmente perigosa, pois a contra-iniciação pode parasitar elementos tradicionais autênticos.
A torre do Turquestão liga-se às duas torres setentrionais (Urais/Sibéria), onde o xamanismo degenerado serve de suporte a práticas contra-iniciáticas (evocação de forças inferiores, possessões, magia negra). Allemand identifica o xamanismo turco-mongol como forma de magia telúrica facilmente instrumentalizável.
Duas torres mais a norte – confins da Sibéria e do Urais Localizadas próximas do Polo Norte simbólico (hiperbóreo), estas torres representam uma inversão particularmente perigosa, pois parodiam o centro primordial da Tradição. Estão ligadas diretamente ao xamanismo como forma degenerada ou instrumentalizada pela contra-iniciação. O xamanismo siberiano (e das populações turco-mongóis ou fino-úgricas da Rússia) é visto não como uma tradição primordial pura, mas como uma forma selvagem de magia, baseada no domínio de forças sutis inferiores, espíritos da natureza e viagens astrais.
O xamanismo siberiano (e das populações turco-mongóis ou fino-úgricas da URSS) é visto não como uma tradição primordial pura, mas como uma forma degenerada ou selvagem de magia, baseada no domínio de forças sutis inferiores, espíritos da natureza e viagens astrais – trata-se frequentemente de feitiçaria ou manipulação de resíduos psíquicos, facilmente instrumentalizável por forças contra-iniciáticas. Allemand enfatiza que o xamanismo, com seus tambores, êxtases, possessões e ligações com animais (totemismo), representa uma via horizontal e telúrica, oposta à via axial vertical do Axis Mundi.
Na Rússia comunista – regime materialista e ateu por excelência (pretende erradicar toda religião) – o xamanismo encontrou liberdade para subsistir, sendo tolerado em certas regiões. Allemand explora a ironia: o comunismo, como força de subversão moderna, pode ter sido inconscientemente alimentado ou utilizado por influências contra-iniciáticas antigas presentes nestas regiões. O materialismo dialético seria uma manifestação exteriorizada destas forças telúricas e infra-humanas.
As Sete Torres não são fenômenos distantes ou exóticos, elas irradiam influências sutis que se concretizam em formas adaptadas ao contexto ocidental – existe uma contra-iniciação organizada, com centros principais (as Torres) e múltiplos centros secundários ou agentes no Ocidente.
A contra-iniciação esconde-se sob múltiplos aspectos e as máscaras mais diversas, sem hesitar em adotar uma aparência espiritual, filantrópica, científica ou mesmo tradicional. Ela inverte os símbolos e parodia as formas legítimas. Não se trata apenas de pseudo-iniciação (imitação vazia, como muitos grupos ocultistas do século XIX-XX), mas de uma ação com eficácia real negativa, sustentada por influências infra-humanas ou satânicas.
Além das sete torres principais (suportes exteriores), existem centros secundários localizados no próprio Ocidente. Allemand menciona ou analisa exemplos como o de certas cidades históricas (Lyon, Florença, Veneza, etc.), e regiões ou grupos ligados ao ocultismo moderno, teosofia, maçonaria irregular, espiritismo, etc. Estes centros atuam como retransmissores das influências vindas das Torres.
Algumas manifestações históricas desta influência nefasta são citadas:
Século XIX e início do XX: papel de figuras e movimentos ocultistas (Eliphas Lévi, Papus, Stanislas de Guaita, a Ordem Hermética da Aurora Dourada, a Teosofia de Madame Blavatsky, etc.) como veículos de infiltração.
Psicanálise e psicologia moderna: Guénon via na psicanálise (Freud e sobretudo Jung em certos aspectos) uma forma de contra-iniciação disfarçada de ciência.
Movimentos pseudo-tradicionais: sincretismos, neo-espiritualismos, tradições inventadas, e formas de ocultismo que misturam elementos autênticos com inversões.
Materialismo e cientismo: negação da espiritualidade como preparação para uma contrafação espiritual (sincretismo humanista, o progressismo, o ecologismo exacerbado, etc.).
Formas mais subtis: infiltração em meios tradicionais (maçonaria, igrejas (e.g. Teologia da Libertação), ordens iniciáticas) para as desviar internamente.
No fim dos tempos, a contra-iniciação tende a organizar-se mais abertamente, preparando o terreno para formas de reino antitradicional ou paródia do Reino Espiritual.
As Sete Torres são uma paródia do Axis Mundi e dos verdadeiros centros espirituais. O conceito de Axis Mundi (Eixo do Mundo) é um dos símbolos centrais da geografia sagrada e da ciência simbólica tradicional. Representa o ponto de conexão entre os diferentes planos da realidade: Céu (mundo superior/princípios celestes), Terra (mundo intermediário) e, por vezes, o submundo ou Inferno (planos inferiores). É o eixo vertical em torno do qual gira o cosmos, o centro imóvel que estabiliza a manifestação e permite a comunicação entre os níveis ontológicos.
O eixo simboliza a Tradição Primordial e o Polo espiritual supremo – o centro metafísico imutável, identificado com o Rei do Mundo (Preste João, Melquisedeque, etc.). Corresponde ao Polo Norte hiperbóreo, sede da Tradição Primordial na Idade de Ouro. Sem o Axis Mundi, o cosmos desintegrar-se-ia – os centros tradicionais (igrejas, mesquitas, montanhas sagradas) atuam como âncoras espirituais.
Com o desenrolar dos ciclos cósmicos (descida para o Kali Yuga), este centro se desloca ou se oculta, surgem paródias ou contrafações (centros contra-iniciáticos, como as Sete Torres do Diabo, que tentam se opor aos verdadeiros polos ou Aqtâb). Mas o eixo permanece acessível internamente (no coração do ser humano), o verdadeiro Axis Mundi é também o eixo do ser humano (coluna vertebral, coração, sopro vital) – a iniciação e o trabalho espiritual reconstituem este eixo no homem, permitindo-lhe subir ao Céu ainda em vida.
É o símbolo por excelência da via axial ou realização espiritual direta: ascensão vertical que transcende os ciclos e os planos manifestados. Liga-se à Cruz (eixo vertical + horizontal) e à Grande Tríade (Céu – Terra – Homem). O eixo vertical representa o Princípio Supremo (Céu), enquanto o plano horizontal é a manifestação.
O Axis Mundi não é apenas um símbolo mitológico: é uma chave metafísica para compreender a ordem cósmica, a geografia sagrada e o caminho de realização espiritual. Para Guénon, ele remete ao ponto fixo em torno do qual tudo gira – o Princípio único, imutável e transcendente.
A geografia sagrada tradicionalista é um conceito central no perenialismo, desenvolvida sobretudo por René Guénon, com contribuições de autores como Ananda Coomaraswamy, Frithjof Schuon, Titus Burckhardt e, em contextos geopolíticos, Julius Evola ou outros intérpretes. Não se trata de geografia física ou profana (científica), mas de uma ciência simbólica e qualitativa que lê o espaço terrestre em correspondência com realidades espirituais, cosmológicas e metafísicas.
A Terra reflete a ordem celestial. Lugares, montanhas, rios, cidades e eixos geográficos são suportes de influências espirituais. A geografia não é neutra: certos locais concentram energias sutis (benéficas ou maléficas). Não é primariamente geográfico, mas simbólico, e.g. “Oriente” designa o espírito tradicional (contemplativo, hierárquico, ligado à Tradição Primordial), e “Ocidente” moderno é o da inversão, materialismo e Kali Yuga. A Europa medieval era “oriental” nesse sentido
Guénon distingue claramente geografia sagrada (qualitativa, simbólica, ligada à ciência tradicional) da geografia profana quantitativa e cartesiana. No Kali Yuga, a primeira é quase esquecida, e o espaço torna-se homogêneo e dessacralizado.
O autor direciona o tema para uma dimensão histórica e escatológica mais ampla, mostrando como forças tradicionais legítimas atuaram historicamente para conter as influências contra–iniciáticas ligadas às Torres, aos gigantes e aos povos do fim dos tempos. Partindo de indicações de René Guénon, aborda a lenda tradicional segundo a qual Alexandre, o Grande recebeu uma missão divina para conter as hordas de Gog e Magog (Yajuj e Majuj). Esta missão não é vista como mera conquista militar profana, mas como uma intervenção providencial para proteger o mundo sedentário e tradicional contra forças caóticas, telúricas e infra-humanas (associadas aos gigantes, Titãs, Asuras ou resíduos de ciclos anteriores).
Alexandre é apresentado como o bicorne (dois chifres ou dois reinos: Ocidente e Oriente), um conquistador guiado pela Providência. Ele constrói uma grande muralha (de ferro e cobre, segundo a tradição) para encerrar Gog e Magog – povos selvagens, gigantescos ou anões segundo as descrições, que simbolizam forças de invasão e subversão. Esta muralha é uma imagem da Grande Muralha simbólica que separa o nosso mundo das influências caóticas exteriores.
A missão de Alexandre teria sido uma tentativa de retardar a desintegração, restaurando temporariamente uma ordem tradicional. No fim dos tempos (Kali Yuga avançado), a muralha se romperá, e Gog e Magog invadirão o mundo, simbolizando o triunfo temporário da contra-iniciação e da subversão total.
Notas
Jean-Marc Allemand é um autor de nicho, especializado em temas esotéricos e tradicionais guenonianos, cuja contribuição principal permanece a análise séria e minuciosa das indicações de Guénon sobre as forças contra-iniciáticas no mundo contemporâneo.
René Guénon & Les Sept Tours du Diable foi publicado em 1990.
Guénon refere-se às sete torres principalmente numa resenha do livro de W. B. Seabrook (Avdentures in Arabia publicado em 1927), e em correspondência privada (anos 1930).
Existe ainda referência a uma oitava torre (secreta ou móvel), que parodiaria o Polo supremo.
Preste João foi um lendário soberano cristão do Oriente que detinha funções de patriarca e rei, tendo sido relacionado ao Imperador da Etiópia. A primeira menção conhecida da lenda surgiu em 1145 na crônica de Otto de Freising (bispo alemão). Ele relata um rei-sacerdote cristão poderoso no Oriente, descendente dos Reis Magos, que teria derrotado os muçulmanos na Ásia.
Melquisedeque é um personagem bíblico do livro de Gênesis e antigo rei de Salém (Oriente Médio) A história atribui-lhe características sobre-humanas e divinas, demonstrado ser pessoa de enorme valor, que instruiu os povos e lhes deu a civilização.
Gog e Magog são assimilados aos Titãs, Asuras ou gigantes que se rebelaram ou caíram, representando a revolta das forças telúricas contra a ordem celeste.
Asura é uma categoria de personagem da mitologia hindu – a palavra significa antideuses.
Guénon via no Islã uma das grandes tradições ortodoxas, com um esoterismo vivo (o Tasawwuf ou Sufismo) e uma estrutura exotérico-esotérica intacta (Shari‘ah – Tariqah – Haqiqah). Entendia que o Islã autêntico (como tradição ortodoxa e via de realização espiritual) teria a função de preservar elementos da Tradição Primordial e servir de barreira contra certas forças de dissolução. Mas o Islã também teria sido alvo da subversão, decaindo em formas exotéricas endurecidas, politizadas ou fundamentalistas que a reduziram a uma ideologia, perdendo o seu núcleo esotérico e metafísico.


