Ponerologia de Andrew Lobaczewski


I am in politics because of the conflict between good and evil, and I believe that in the end good will triumph.” – Margaret Thatcher (1925-2013)


Ignoti nulla est curatio morbi!” – Maximiano (Elegia III)

Como é possível que tantas pessoas amem e aplaudam os governos mais perversos e genocidas do mundo e se recusem a enxergar a liberdade e o respeito de que elas próprias desfrutam nas democracias ocidentais, ao mesmo tempo que continuam acreditando, contra todas as evidências, que são moral e intelectualmente superiores aos que não seguem o seu exemplo?


Esta pergunta, sempre atual, também cruzou a mente de estudantes poloneses, húngaros e checos há setenta e tantos anos. Sob o jugo comunista, aqueles estudantes observavam uma profunda devastação psicológica em curso, e decidiram empreender um estudo psiquiátrico da elite dirigente comunista e da sua influência psíquica sobre a população.


Coube a Andrew Lobaczewski, então o último sobrevivente entre aqueles estudiosos, reunir as notas de seus colegas e publicar o presente estudo sobre o processo da gênesis do mal, i.e. ponerologIa. Poneros, em grego, significa “o mal”, e este era o traço dominante do carácter dos dirigentes comunistas, que davam o modelo de conduta para a sociedade – uma psicopatia. O psicopata é incapaz de sentimentos morais, principalmente a compaixão e a culpa – conhece tais sentimentos intelectualmente mas não participa dos mesmos. Tal distanciamento municia o psicopata a despertá-los nos outros, manipulando-os com destreza (o discurso esquerdista se funda na exploração da compaixão e da culpa alheia).


O autor observa que apenas uma classe de psicopatas tem a agressividade mental suficiente para se impor a toda uma sociedade através da manipulação dos sentimentos morais. Quando instalados no poder, a insensitividade moral se espalha por toda a sociedade, roendo o tecido das relações humanas, pois as mentes menos ativas confusamente adaptam-se as novas regras e valores, presas de uma sintomatologia histérica. O histérico não diz o que sente, mas passa a sentir aquilo que disse – e, na medida em que aquilo que disse é a cópia de fórmulas prontas espalhadas na atmosfera como gases onipresentes, qualquer empenho de chamá-lo de volta às suas percepções reais abala de tal modo a sua segurança psicológica emprestada, que acaba sendo recebido como uma ameaça, uma agressão, um insulto. É assim que um grupo relativamente pequeno de líderes psicopáticos destrói a alma de uma nação.


Ao afirmar sua própria personalidade, o homem tem a tendência a reprimir do campo de sua consciência quaisquer associações que indiquem um condicionante causal externo da sua visão de mundo e comportamento. As pessoas mais jovens, em particular, querem acreditar que escolhem livremente suas intenções e decisões.


A visão de mundo – cotidiana, habitual, psicológica, social e moral – é um produto do processo de desenvolvimento do homem dentro da sociedade, sob a influência constante de traços inatos. Entre estes traços inatos estão a fundação instintiva e filogeneticamente determinada da espécie humana, e são afetados pela educação dada pela família e pelo ambiente. Nenhuma pessoa pode se desenvolver sem ser influenciada por outras pessoas e por suas personalidades, ou sem a influência dos valores imbuídos provenientes de sua civilização e de suas tradições morais e religiosas.


Mesmo que a visão de mundo natural tenha sido refinada, ela espelha a realidade com confiabilidade suficiente? Ou ela somente espelha as percepções da nossa espécie? Em que extensão nós podemos depender dela como uma base para a tomada de decisões nas esferas individual, social e política? Devemos fazer-nos estas perguntas continuamente para não perdermos contato com a realidade.


As principais tendências para a distorção da realidade e outras insuficiências da visão natural de mundo de um indivíduo são:

  • Emoção: a melhor tradição de pensamento religioso e filosófico sempre aconselhou que se tenha domínio sobre as emoções, com o objetivo de se atingir uma visão mais precisa da realidade – medenagan.

  • Falta de Universalidade: em toda sociedade, um certo percentual depessoas desenvolveu uma visão de mundo um tanto diferente daquela usada pela maioria. As causas de aberrações são, em qualquer meio, qualitativamente monolíticas.

  • Limitada Aplicabilidade: sempre que algum fator psicopatológico não identificado entra em cena, a visão natural de mundo do homem deixa de ser aplicável.

  • Egotismo: pessoas sensíveis dotadas de uma visão de mundo natural bem desenvolvida têm a tendência pronunciada de superestimar os valores da sua visão de mundo, comportando-se como se tais valores fossem uma base objetiva para julgar os outros.

O Indivíduo O homem é a unidade básica da sociedade. Se queremos entender as leis que governam a vida social, nós devemos, de forma similar, primeiro entender o ser humano individual – devemos ganhar um entendimento primário do substrato instintivo da espécie humana e reconhecer seu papel considerável na vida dos indivíduos e nas sociedades.


Nosso instinto é nosso primeiro tutor. A educação apropriada das crianças não está, portanto, limitada a ensinar o jovem a controlar as reações excessivamente violentas de seu emocionalismo instintivo; deve também ensiná-las a apreciar a sabedoria natural que está contida em seus dons instintivos, e que fala através deles.


O homem viveu em grupos ao longo da sua pré-história, de forma que o substrato instintivo da nossa espécie foi moldado nesta relação, condicionando assim nossas emoções no tocante à busca da existência.


Uma estrutura de efeito mais sutil é construída sobre nosso substrato instintivo, graças à constante cooperação deste, bem como às práticas de educação infantil na família e na sociedade. Com o tempo, essa estrutura se torna o componente mais facilmente observável de nossa personalidade, dentro da qual ele representa um papel integrativo. Este efeito mais alto é fundamental para a nossa ligação à sociedade e é por isso que o seu desenvolvimento correto não pode ficar nas mãos de pedagogos incompetentes e inescrupulosos.


Graças à memória o homem guarda as experiências de vida e os conhecimentos propositadamente adquiridos. Há uma ampla variação individual em relação a essa capacidade, sua qualidade e seus conteúdos. As pessoas com boa memória e com um bom conhecimento tem uma tendência maior a acessar os dados escritos da memória coletiva, com o objetivo de complementar a sua própria. Este material coletado constitui a matéria subjetiva do segundo processo psicológico, depois da intuição, chamado de associação.


As habilidades de julgamento apurado não surgem até que nossos cabelos comecem a ficar grisalhos e o impulso do instinto, emoção e hábito comece a se acalmar. Trata-se de um produto coletivo derivado de uma interação entre o homem e o seu ambiente, do valor da criação e da transmissão de muitas gerações. O ambiente também pode ter uma influência destrutiva sobre o desenvolvimento de nossas faculdades racionais. Neste ambiente em particular, a mente humana é contaminada pelo pensamento conversivo, que é a anomalia mais comum nesse processo. É por essa razão que o desenvolvimento apropriado da mente requer períodos de reflexão solitária de vez em quando.


Somente o homem pode apreender uma certa quantidade de material ou de imaginações abstratas dentro de seu campo de atenção, inspecionando-os internamente com o objetivo de realizar operações posteriores da mente sobre este material. Isso nos habilita a confrontar fatos, efetuar operações técnicas e construtivas, e predizer resultados futuros. O homem realiza um ato de introspecção essencial para monitorar o estado da personalidade humana e o significado de seu próprio comportamento. Este ato de projeção e exame internos complementa nossa consciência – característica exclusiva da ser humano. Contudo, há uma divergência excepcionalmente ampla entre os indivíduos, sobre a capacidade para tais atos mentais. A eficiência desta função mental mostra, de certa forma, uma baixa correlação estatística com a inteligência geral.


O substrato da nossa inteligência, afinal de contas, contém uma herança instintiva natural de sabedoria e erro, dando origem à inteligência básica da experiência de vida. Sobreposta a esta construção, graças à memória e à capacidade associativa, temos a habilidade de efetuar operações complexas de pensamento, coroadas pelo ato de projeção interna, e de melhorar constantemente sua exatidão. Nós somos, por diversas maneiras, dotados com estas capacidades que compõem um mosaico de talentos individualmente diversificados.


A inteligência básica desenvolve-se a partir deste substrato instintivo sob a influência de um ambiente amigável e de um compêndio da experiência humana prontamente acessível; ela se entrelaça com um maior efeito, nos habilitando a compreender os outros e a intuir os seus estados psicológicos por meio de algum realismo ingênuo. Isso condiciona o desenvolvimento da razão moral.


As pessoas altamente talentosas constituem uma pequena porcentagem de cada população, e aquelas com o mais alto quociente de inteligência correspondem a algumas poucas por mil. Apesar disso, contudo, essas últimas desempenham um papel tão significativo na vida coletiva que qualquer sociedade que tente impedi-los de cumprir sua responsabilidade o faz por sua própria conta e risco.


É uma lei universal da natureza: quanto mais alta a organização psicológica de uma dada espécie, maiores são as diferenças psicológicas entre as unidades individuais. Esta aparente injustiça da natureza é, de fato, o grande dom da humanidade, que possibilita que as sociedades humanas desenvolvam suas estruturas complexas e que sejam altamente criativas tanto no nível individual como no coletivo. Graças à variedade psicológica, o potencial criativo de qualquer sociedade é muitas vezes maior do que aquele que seria possível se nossa espécie fosse psicologicamente mais homogênea – a igualdade forçada por lei é uma desigualdade sob a lei da natureza.


Uma sociedade onde os talentos individuais não encontram seu espaço proporcional para o devido desenvolvimento é terreno fértil para a insatisfação e, consequentemente, para as ideologias revolucionárias. Seguem dois exemplos de situações onde esta insatisfação pode ocorrer:


(1) O homem adulto será otimizado quando o nível e a qualidade de sua educação e as demandas de sua prática profissional corresponderem aos seus talentos individuais. Obter tal posição concede a ele vantagens pessoais, materiais e morais; ao mesmo tempo, a sociedade como um todo também colhe os benefícios. Tal pessoa, então, perceberia isso como justiça social em relação a si mesma. Porém, pode acontecer em dada sociedade que os indivíduos sejam forçados a exercer funções em que não fazem uso total dos seus talentos, causando sentimento de traição e gerando duvidas quanto a sua autorrealização, podendo produzir um mundo de fantasia em sua mente. Taís indivíduos sempre sabem se o seu ajustamento social ou profissional tomou uma direção descendente; ao mesmo tempo, contudo, se eles falham em desenvolver uma capacidade crítica saudável em relação aos limites superiores de seus próprios talentos, seus devaneios podem “entender” uma visão de mundo injusto onde “tudo o que você necessita é poder”. As ideias revolucionárias e radicais encontram um solo fértil entre tais pessoas em adaptações sociais descendentes. É do melhor interesse da sociedade corrigir tais condições, não somente para melhorar a produtividade, mas para evitar tragédias.


(2) Indivíduos de um outro tipo, por outro lado, podem atingir um posto importante por pertencerem a grupos ou organizações sociais privilegiadas que estão no poder, mesmo que seus talentos e habilidades não sejam suficientes para as suas obrigações. Assim, tais pessoas evitam a problemática e dedicam-se a assuntos menores de forma quase ostentosa. Um componente histriônico aparece em sua conduta e os testes indicam que sua correção de raciocínio se deteriora progressivamente após alguns poucos anos dignos de tais atividades. Frente a pressões crescentes para executar as atividades em um nível inatingível para elas, e com medo de serem descobertas como incompetentes, começam a direcionar ataques contra qualquer um com talentos e habilidades melhores, removendo estas pessoas dos cargos devidos e desempenhando um papel ativo na degradação de seus ajustamentos profissionais e sociais. Isso, é claro, gera um sentimento de injustiça e pode levar a problemas do indivíduo que teve uma adaptação descendente, como descrito acima. Pessoas com um ajustamento ascendente favorecem, assim, os chicoteadores e os governos totalitários que protegem suas posições.


Também existe uma maioria de pessoas medianas adequadas a sua função, e que aceita e respeita o papel social das pessoas cujos talentos e educação são superiores, contanto que eles ocupem posições apropriadas dentro da estrutura social. As mesmas pessoas, contudo, reagirão com críticas, desrespeito, e até desprezo, sempre que alguém, tão mediano quanto eles, compense as suas deficiências exibindo sua posição de ajustamento acima da que merece.


Ajustamentos sociais para cima e para baixo, assim como os qualitativamente inadequados, resultam em desperdício do capital básico de qualquer sociedade, formado pelo conjunto de talentos de seus membros. O desenvolvimento ou a involução em todas as áreas da vida cultural, econômica e política dependem da extensão na qual o seu conjunto de talentos é apropriadamente utilizado. Em última análise, isso também determina se haverá evolução ou revolução.


Mais além, devemos admitir que notamos alguma coisa dentro de nós que é um resultado de uma causa metafísica – sem esta consciência é impossível entender a humanidade. Abrir nossa mente, verdadeiramente, para a percepção desta realidade é indispensável para entender as outras pessoas e a si mesmo. Assim, nossa mente se torna livre de tensões internas e de estresses, e pode ser liberada de sua tendência a selecionar e substituir informações, incluindo aquelas áreas que são mais facilmente acessíveis à compreensão naturalista. Por outro lado, o esforço subconsciente constante de negação de conceitos sobre coisas existentes produz um zelo para eliminá-los nas outras pessoas.


A personalidade humana é instável pela sua própria natureza, e um processo evolutivo ao longo da vida é o estado normal das coisas. Se a evolução de uma personalidade humana ou de uma visão de mundo se congela de forma suficientemente profunda e por muito tempo, esta condição acaba por nos conduzir ao domínio da psicopatologia.


Nossas personalidades também passam por períodos destrutivos temporários, como resultado de vários eventos da vida, especialmente se experimentarmos sofrimento ou nos encontrarmos em situações ou circunstâncias que estão em desacordo com nossas experiências e imaginações anteriores. Estes chamados transtornos desintegrativos são frequentemente, mas não necessariamente, desagradáveis.


Um transtorno desintegrativo faz com que nos esforcemos mentalmente na tentativa de superá-lo, a fim de recuperarmos a homeostase ativa. Superar tais estados, corrigindo nossos erros e enriquecendo nossas personalidades, é, na realidade, um processo apropriado e criativo de reintegração, que leva a um estado mais alto de entendimento e aceitação das leis da vida, a uma melhor compreensão de si mesmo e dos outros e a uma sensibilidade altamente desenvolvida nas relações interpessoais.


Se, contudo, nós nos revelamos incapazes de gerenciar os problemas que ocorreram porque os nossos reflexos foram muito rápidos para reprimir e substituir o material desagradável da nossa consciência, ou por alguma razão similar, nossa personalidade experimenta uma egotização retroativa, mas não se livra da sensação de fracasso. Os resultados são de retrocesso; a pessoa se torna de convivência mais difícil. Se não podemos vencer tal estágio desintegrativo porque as circunstâncias que o causaram eram dominantes ou porque nos faltou a informação essencial para o uso construtivo do mesmo, nosso organismo reage com uma condição neurótica – o galopante vitimismo contemporâneo incentivado pela sede de poder dos revolucionários destrói a chance de integração do objeto de suas ações.


A natureza humana é complexa em sua estrutura, suas mudanças e suas vidas mentais e espirituais. Qualquer ideologia social que tente simplificar demais a realidade psicológica, seja ela utilizada por um sistema totalitário ou por um sistema democrático, será desastrosa. As pessoas são diferentes. Quaisquer coisas que sejam qualitativamente diferentes e que permaneçam em estado de permanente evolução não podem ser iguais.


Os enunciados acima mencionados sobre a natureza humana se aplicam às pessoas normais, com pequenas exceções. Contudo, cada sociedade no mundo contém um certo percentual de indivíduos, um número relativamente baixo, mas que são uma minoria ativa, que não pode ser considerada normal. Pessoas excepcionalmente inteligentes são estatisticamente anormais, mas elas podem ser membros perfeitamente normais de uma sociedade, do ponto de vista qualitativo. A ponerologia quer estudar indivíduos que compõem um número estatisticamente pequeno, mas cuja qualidade desta diferença é tal que pode afetar, de forma negativa, centenas, milhares e até mesmo milhões de outros seres humanos. Os indivíduos que desejamos considerar são pessoas que revelam um fenômeno mórbido, e nas quais podem ser observados desvios mentais e anomalias de vários tipos e intensidades.


A Sociedade O homem é um ser social – zoon politikon. Nossa existência somente assume significado como uma função dos laços sociais; o isolamento hedonista faz com que fiquemos perdidos.


É o destino do homem cooperar ativamente para dar forma ao destino da sociedade, através de dois meios principais: formando, dentro dela, sua vida individual e familiar, e tornando-se ativo no somatório total dos assuntos sociais baseado em sua – tomara que suficiente – compreensão do que é necessário ser feito, do que deve ser feito e se ele consegue ou não fazê-lo – sua vida depende da qualidade do seu desenvolvimento, assim como sua nação e a humanidade como um todo. O destino de um indivíduo é significativamente dependente da circunstância.


A aceitação das leis da vida social em toda a sua complexidade, mesmo se encontramos dificuldades iniciais em compreendê-las, nos ajuda a obter, finalmente, um certo nível de entendimento que adquirimos de certa forma como por osmose. Graças a essa compreensão, ou mesmo somente a uma intuição instintiva de tais leis, um indivíduo é capaz de atingir seus objetivos e desenvolver sua personalidade em ação. Graças à intuição e à compreensão suficiente destas condições, a sociedade é capaz de progredir culturalmente e economicamente para atingir uma maturidade política.


A qualidade e a riqueza dos conceitos e da terminologia de domínio do indivíduo e da sociedade, assim como o grau com que se aproximam de uma visão de mundo objetiva, condicionam o desenvolvimento de nossas atitudes morais e sociais. Daí a importância dos criadores de tais conceitos e terminologia (função dos brâmanes – contemporaneamente deteriorada).


Contudo, sempre existiram “pedagogos da sociedade”, menos talentosos, mas muito mais numerosos, que se tornaram fascinados pelas suas próprias ideias grandiosas, que podem, muitas vezes, até serem verdadeiras, mas que são amiúde limitadas ou contêm uma mácula derivada de alguns processos de pensamento patológicos encobertos. Tais pessoas têm sempre se esforçado para impor métodos pedagógicos que empobrecem e deformam o desenvolvimento da visão de mundo psicológica de indivíduos e sociedades; elas impõem um perigo permanente sobre as sociedades, privando-as de valores universalmente úteis. Dizendo que agem em nome de uma ideia mais valiosa, tais pedagogos atualmente solapam os valores que dizem defender e abrem a porta para ideologias destrutivas.


A habilidade dos indivíduos e da coletividade em compreender a realidade é crítica em sua capacidade de autogoverno e de progresso. Porém, toda sociedade contém uma pequena, mas ativa, minoria de pessoas com várias visões depravadas de mundo que exercem uma influência perniciosa sobre o processo formativo da visão psicológica de mundo na sociedade, seja pela atividade direta ou por meio da transmissão escrita ou em qualquer outra forma, especialmente quando estão engajados, a serviço de uma ou de outra ideologia que, para ter sucesso, luta pela destruição da capacidade dos indivíduos de percepção da realidade.


A criação de uma estrutura social justa, onde diferentes talentos encontram proporcional oportunidade de desenvolvimento, continua a ser uma precondição básica para a ordem social e para a liberação dos valores criativos. Isso também explica porque a propriedade e a produtividade do processo de “criação de estrutura” constituem um critério para um bom sistema político. Uma estrutura social justa, composta por pessoas adaptadas individualmente, isto é, criativa e dinâmica como um todo, somente pode ser formada se esse processo estiver sujeito às suas leis naturais e não a doutrinas conceituais.


Um obstáculo ao desenvolvimento da visão de mundo psicológica de uma sociedade, à construção de uma estrutura social saudável e à instituição de formas apropriadas de governar a nação, parece ser as populações enormes e as longas distâncias dos países gigantes. São precisamente estas nações que dão origem às maiores diferenças étnicas e culturais – a estrutura da sociedade se perde em espaços muito amplos. As autoridades principais estão muito distantes de quaisquer assuntos individuais ou locais. O sintoma principal é a proliferação de regulamentos requeridos para a administração; eles podem parecer apropriados na capital, mas frequentemente não fazem o menor sentido nos distritos afastados ou quando aplicados a assuntos individuais. Países muito grandes devem fragmentar o poder, aproximando-o dos indivíduos (ver Democracia na América de Tocqueville).


A sociedade não é um organismo que subordina cada célula ao bem do todo; nem é uma colônia de insetos, na qual o instinto coletivo age como um ditador. Contudo, também deveria ser evitado que fosse um compêndio de indivíduos egocêntricos ligados puramente pelos interesses econômicos e pela organização legal e formal – tensão ontológica entre o indivíduo e a sociedade.


Interesses individuais versus coletivos, ou aqueles de vários grupos sociais e subestruturas, podem ser reconciliados se nós pudermos ser guiados por um entendimento suficientemente profundo sobre o bem do homem e da sociedade, e se pudermos superar a operação das emoções, bem como algumas doutrinas mais ou menos primitivas – papel crucial da religião, da educação e da cultura.


Se as sociedades e seus indivíduos sábios são capazes de aceitar um entendimento objetivo dos fenômenos sociais e sociopatológicos, superando o emocionalismo e o egotismo da visão de mundo natural para esse propósito, eles encontrarão os meios de ação baseados no entendimento da essência dos fenômenos. Então, ficará evidente que uma vacina ou um tratamento adequado podem ser encontrados as doenças que atacam a Terra na forma de epidemias sociais maiores ou menores. Porém, cada vez mais as nações estão dominadas por condições que destruíram as formas estruturais que funcionaram historicamente, e as substituíram com sistemas inimigos do funcionamento criativo, sistemas que podem sobreviver somente por meio da força.


Ciclo de Histeria A visão hedonista de felicidade dá origem ao uso da força sobre o outro, embotando a mente de quem a utiliza, contendo a semente da miséria e alimentando o ciclo eterno de sucessivas épocas boas e más.


Durante épocas boas, as pessoas perdem progressivamente de vista a necessidade da reflexão profunda, da introspecção, do conhecimento dos outros e de um entendimento das leis complicadas da vida. A percepção da verdade sobre o ambiente real, especialmente um entendimento da personalidade humana e seus valores, deixa de ser uma virtude durante os chamados tempos “felizes”. O culto ao poder, então, suplanta aqueles valores mentais tão essenciais à manutenção da lei e da ordem por meios pacíficos – há um estrangulamento da capacidade de consciência individual e da sociedade; fatores subconscientes acabam assumindo um papel decisivo na vida. Quando as comunidades perdem sua capacidade psicológica da razão e de análise moral, os processos de geração do mal são intensificados em todas as escalas sociais, sejam elas individuais ou macrossociais, até que tudo se converta em épocas “ruins”.


Toda sociedade contém um certo percentual de pessoas que carregam desvios psicológicos causados por vários fatores, herdados ou adquiridos, que produzem anomalias na percepção, no pensamento e no caráter. Muitas destas pessoas tentam dar um significado às suas vidas irregulares através da hiperatividade social. Elas criam os seus próprios mitos e ideologias de sobrecompensação e têm uma tendência a insinuar egoisticamente para os outros que os seus desvios de percepção são superiores, bem como os objetivos e ideias resultantes dos mesmos.


Quando umas poucas gerações gozam das despreocupações de “tempos bons”, o resultado para a sociedade é um deficit em relação às habilidades psicológicas e de análise moral, que pavimenta o caminho para os conspiradores patológicos, os magos e outros impostores mais primitivos ainda agirem e se unirem nos processos originadores do mal.


Na germinação da crise futura cresce o pensamento conversivo: seleção subconsciente e substituição de dados levando a um caso crônico de rejeição do cerne da questão. Da mesma forma, o reflexo de supor que todo interlocutor está mentindo é uma indicação da anticultura histérica da mendacidade, na qual dizer a verdade torna-se “imoral”. O sentimentalismo dominante nas esferas individual, coletiva e política, assim como a seleção subconsciente e a substituição das informações no raciocínio, empobrecem o desenvolvimento de uma visão de mundo psicológica e direcionam para um egoísmo individual e da nação como um todo. A mania de ficar ofendido por qualquer coisa provoca retaliações constantes, aproveitando-se da hiperirritabilidade e da hipocriticidade por parte dos outros. Pessoas afortunadas o suficiente para alcançar uma posição mais elevada que as demais tornam-se orgulhosas em relação às pessoas que supostamente lhe são inferiores.


A recessão psicológica arrasta na sua esteira uma adaptação socioprofissional deficiente das pessoas, o que leva a um desperdício de talento humano e a uma involução da estrutura da sociedade. As universidades, os políticos e as empresas mostram-se, cada vez mais, como uma frente unida de pessoas relativamente incapazes e até incompetentes.


Os tempos difíceis têm um objetivo histórico a cumprir, assim como acontece com o indivíduo que pode crescer em tempos de crise, é na época decadente que a sociedade recupera o entendimento que propiciará uma retomada – é preciso descer ao inferno para subir ao céu.


O sofrimento, o esforço e a atividade mental durante tempos de iminente amargura leva a uma regeneração progressiva, e geralmente mais elevada, dos valores perdidos, o que resulta no progresso humano. Quando chegam os tempos ruins e as pessoas ficam impressionadas pelo excesso de mal, elas precisam reunir todas as suas forças físicas e mentais para lutar pela existência e proteger a razão humana – Sócrates e Confúcio descreveram um método para vencer o mal que testemunhavam, a começar por ouvir a voz interior que nos orienta nas questões morais (daemon socrático).


O ciclo de tempos felizes e pacíficos favorece um estreitamento da visão de mundo e um aumento no egotismo. As sociedades tornam-se sujeitas a uma histeria progressiva e, no estágio final, conhecido descritivamente pelos historiadores, produz finalmente tempos de desânimo e confusão, o que ocorreu durante milênios e continua a ocorrer. Um maior entendimento deste processo poderia mitigar suas consequências nefastas.


Ponerologia Desde a antiguidade filósofos e religiosos têm procurado a verdade em relação aos valores morais, tentando encontrar um critério para o que é certo e o que constitui um bom conselho. Eles descreveram extensivamente as virtudes do caráter humano e sugeriram que estas virtudes deveriam ser adquiridas. Porém, relativamente pouco se diz sobre o lado oposto: a natureza, as causas e a gênese do mal. E a literatura, apesar de lidar com o assunto, nunca atinge a origem primária dos fenômenos.


A experiência ensinou ao autor que o mal é similar a uma doença em sua natureza, embora possivelmente mais complexo e fugidio ao nosso entendimento. Sua gênese revela muitos fatores de caráter patológico, especialmente os psicopatológicos, cujo entendimento demanda investigação adicional nesses campos.


Os dados coletados por aquele grupo de pesquisadores poloneses se perdeu, e o presente estudo foi produzido de memória – base para futuros estudos aprofundando-se no tema da gênese do mal (“ponerogênese”).


Os estudos demonstram que fatores patológicos geralmente participam nos processos ponerogênicos, coincidindo com muitos estudiosos da ética de que o mal neste mundo representa um tipo de teia ou sequência contínua de condicionamentos mútuos. Dentro desta estrutura integrada, um tipo de mal alimenta e abre portas para outros, independentemente de qualquer motivação individual ou doutrinal. O entendimento apenas moralista das causas do mal inibe seu maior entendimento – a ponerologia preocupa-se primariamente com o papel dos fatores patológicos da origem do mal.


No processo da origem do mal, os fatores patológicos podem agir a partir do interior do indivíduo que cometeu um ato prejudicial; tal atividade é reconhecida de forma relativamente fácil pela opinião pública e pelas cortes. Muito menos frequente é a consideração para com o modo com que as influências externas emitidas por seus portadores agem sobre indivíduos ou grupos. Tais influências, no entanto, têm um papel importante na gênese geral do mal.


O comportamento por parte das pessoas que possuem transtornos de caráter (caracteropatia – deformação do carácter em função de lesões no tecido cerebral) traumatiza a mente e os sentimentos das pessoas normais, diminuindo gradualmente a habilidade destas de usar seu senso comum. Apesar da sua resistência, as vítimas da caracteropatia acabam se acostumando aos hábitos rígidos dos pensamentos e da experiência patológica. Se as vítimas são pessoas jovens, o resultado é que a personalidade sofre um desenvolvimento anormal, levando à sua malformação. As caracteropatias e suas vítimas representam fatores ponerogênicos patológicos que, por sua atividade encoberta, produzem facilmente novas fases na eterna gênese do mal, abrindo a porta para uma ativação posterior de outros fatores que, por conta disso, assumem o papel principal.


O imperador Guilherme II apresentava caracteropatia oriunda de um trauma cerebral no nascimento e seu comportamento patológico teria influenciado a seleção negativa de seus subordinados (indivíduos com tendências psicopáticas similares ao líder) e a atitude de toda a nação, explicando a loucura coletiva que levou a Prússia a declarar a I GG, bem como, posteriormente, a ascensão de um tipo como Hitler e as atrocidades do II Reich.


Seguem descrições concisas de fatores patológicos que provaram serem os mais efetivos nos processos ponerológicos, divididos em (1) anormalidades adquiridas e (2) anormalidades herdadas:


Anormalidades Adquiridas


Caracteropatia Paranoica É característico do comportamento paranoico que as pessoas sejam capazes de um raciocínio relativamente correto e de discussões, desde que a conversa envolva pequenas diferenças de opinião. Isso é interrompido de forma abrupta quando os argumentos do interlocutor começam a minar suas ideias supervalorizadas, quando destroem seus estereótipos de raciocínio mantidos por muito tempo ou quando os força a aceitar uma conclusão que eles já haviam rejeitado subconscientemente. Tal estímulo libera sobre o interlocutor uma torrente de discursos pseudológicos, amplamente paramoralísticos, quase sempre ofensivos e que sempre contêm algum grau de sugestionamento. Discursos como esses inspiram a aversão entre pessoas lógicas e cultas, que tendem então a evitar os tipos paranoicos. Contudo, o poder dos paranoicos reside no fato de que eles escravizam facilmente as mentes menos críticas, como por exemplo as pessoas com outros tipos de deficiências psicológicas, que têm sido vítimas da influência egotística de indivíduos com distúrbios de caráter e, em particular, um grande segmento de pessoas jovens.


A resposta de aceitação de uma argumentação paranoica é qualitativamente mais frequente na proporção inversa ao nível de civilização da comunidade em questão.


O fenômeno da paranoia é duplo: um deles é causado por um dano do tecido cerebral e o outro é funcional ou comportamental. (1) Qualquer lesão de tecido cerebral causa um certo enfraquecimento do pensamento preciso e, como consequência, da estrutura da personalidade. (2) Em pessoas que não possuem lesões do tecido cerebral, tais fenômenos ocorrem com maior frequência como resultado de uma educação feita por pessoas com caracteropatia paranoica, em conjunto com o terror psicológico de sua infância. Tal material psicológico é então assimilado, criando os estereótipos rígidos da experiência anormal. Isso dificulta o desenvolvimento normal do pensamento e da visão de mundo, e os conteúdos bloqueados de terror acabam se transformando em centros congestivos permanentes e funcionais.


Lênin é exemplificado como característico da personalidade paranoica, provavelmente causada por dano cerebral no diencéfalo.


Caracteropatia Frontal Danos nas áreas frontais do córtex, de ocorrência mais frequente no nascimento ou na primeira infância (especialmente em crianças prematuras), causam dificuldade de entender elementos imaginativos e sujeitá-los a contemplação interna, desenvolvendo-se a histeria. Porém a memória, a capacidade associativa ou, em particular, as funções e sentimentos baseados no instinto, como por exemplo a habilidade de intuir uma situação psicológica, não são afetados.


O caráter patológico de tais pessoas, geralmente contendo um componente de histeria, desenvolve-se através dos anos. As funções psicológicas não afetadas são superdesenvolvidas como uma forma de compensação, o que significa que as reações instintivas e afetivas predominam. Pessoas relativamente vitais tornam-se beligerantes, simpáticas ao risco e brutais tanto na palavra quanto na ação.


Pessoas com um talento inato para intuir situações psicológicas tendem a levar vantagem desse dom de uma forma egoísta e implacável. No processo de pensamento de tais pessoas, um atalho se desenvolve para contornar a função deficiente, levando então das associações diretamente para as palavras, ações e decisões que não estão sujeitas a qualquer dissuasão. Tais indivíduos interpretam seu talento para intuir situações e tomar decisões simplificadas rapidamente como um sinal de sua superioridade em relação às pessoas normais, que necessitam pensar por um longo período de tempo, experimentando a dúvida e as motivações conflitantes.


Stálin, deveria ser incluído na lista dessa caracteropatia ponerogênica particular, que foi desenvolvida contra um pano de fundo de um dano perinatal aos campos pré-frontais do seu cérebro. A literatura e as notícias sobre ele estão cheias de indicações: carismático, encantador, tomador de decisões irrevogáveis, brutalidade desumana, vingança patológica dirigida a qualquer um que cruzasse o seu caminho, crença egotística em sua própria genialidade, da parte de uma pessoa cuja mente era, de fato, somente mediana.


Caracteropatia Induzida por Drogas Durante as últimas décadas, a medicina começou a utilizar uma série de drogas (e.g. estreptomicina e drogas citostáticas), com efeitos colaterais graves: elas atacam o sistema nervoso, deixando para trás danos permanentes. Essas deformidades, geralmente discretas, algumas vezes dão origem a alterações na personalidade, que são, muitas vezes, prejudiciais socialmente.


As pessoas tratadas com tais drogas tendem a perder progressivamente sua cor emocional e sua habilidade de intuir uma situação psicológica. Elas retêm suas funções intelectuais mas tornam-se pessoas egocêntricas ansiosas por elogios, facilmente conduzidas por aqueles que sabem como tirar vantagem disso. Elas se tornam indiferentes aos sentimentos das outras pessoas e aos danos que estão impondo sobre estas; qualquer crítica à sua própria pessoa ou ao seu comportamento é paga com vingança. Tal alteração de caráter em uma pessoa que até recentemente apreciava o respeito da parte de seu ambiente ou comunidade, o qual persevera nas mentes humanas, torna-se um fenômeno patológico causador de resultados trágicos.


Este poderia ter sido um fator no caso do Xá do Irã, pois a gênese da tragédia daquele país possui fatores patológicos que teriam tido papéis ponerologicamente ativos.


Anormalidades Herdadas

Algo similar ao estudo de patologias hereditárias como a hemofilia e o daltonismo poderia ser aplicada à maioria das anomalias psicológicas com características hereditárias.


Esquizoidia (Psicopatia Esquizoide)

Pode ser atribuída tanto a alterações no fator genético, como a diferenças em outras características individuais de natureza não patológica.


Os portadores dessa anomalia são hipersensíveis e desconfiados, enquanto, ao mesmo tempo, prestam pouca atenção aos sentimentos dos outros. Eles tendem a assumir posições extremas e são ávidos por retaliar ofensas menores. Algumas vezes eles são excêntricos e estranhos. Seu senso pobre da situação psicológica e da realidade os leva a sobrepor interpretações errôneas e pejorativas sobre as intenções das outras pessoas. Eles se tornam facilmente envolvidos em atividades que são ostensivamente morais, mas que na verdade infligem danos a eles mesmos e aos outros. Sua visão psicológica de mundo, empobrecida, faz com que eles sejam tipicamente pessimistas em relação à natureza humana, por exemplo, acreditando que a ordem social só poderia ser mantida por um poder forte criado por indivíduos especiais em nome de uma ideia elevada.


A atividade ponerológica do esquizoide deve ser avaliada em dois aspectos. Na escala menor, tais pessoas causam problemas para suas famílias, e se tornam facilmente motivos de intriga nas mãos de indivíduos espertos e inescrupulosos, e geralmente fazem um trabalho ruim na educação de crianças. Sua tendência a ver a realidade humana de forma doutrinária e simplista que eles consideram “apropriada” – “preto ou branco” – transforma suas intenções, frequentemente boas, em resultados ruins. Contudo, seu papel ponerogênico pode ter implicações macrossociais se sua atitude em relação à realidade humana e sua tendência a inventar grandes doutrinas forem colocadas no papel e reproduzidas em grandes edições.


Ignorantes da verdadeira condição do autor, os leitores tendem a interpretar tais trabalhos de (1) um modo que corresponda à sua própria natureza, (2) ou atingem uma interpretação correta devido à posse de uma visão própria de mundo psicológica mas rica, ouainda (3) rejeitam criticamente tais trabalhos com repugnância moral, mas sem estarem ao par da causa específica. Uma análise do papel desempenhado pelos escritos de Karl Marx revela facilmente todos os tipos de percepção e de reações sociais acima mencionados, que criaram animosidade entre vários grupos de pessoas.


Psicopatia Essencial Anomalia transmitida por hereditariedade, cujo papel no processo ponerogênico em qualquer escala social parece ser excepcionalmente grande. Ocorre com baixa frequência (ligeiramente acima de 0,5%), com grau variado de intensidade, desde um nível quase imperceptível para um observador experiente até uma deficiência patológica óbvia.


Seus portadores apresentam deficiência de conhecimento psicológico e moral – um deficit na transformação do estímulo no nível instintivo, e não no nível sensorial. Foram observadas em testes especiais as deficiências da “sabedoria de vida” e da “imaginação sócio-moral”.


Caracterizam-se pela ausência de um senso de culpa pelas ações antissociais, a inabilidade de amar verdadeiramente e a tendência para ser tagarela, de modo que se desvia facilmente da realidade. São a antípoda dos neuróticos, que são geralmente taciturnos, sujeitos a culpa excessiva e capazes de amor duradouro, apesar da dificuldade de se expressar.


Os psiquiatras da velha escola costumavam chamar tais indivíduos de daltônicos de sentimentos humanos e valores sócio-morais. Eles pensam que os costumes e os princípios de decência são uma convenção externa inventada e imposta.


Conforme vão obtendo suas experiências de vida, descobrem que possuem um mundo com leis e costumes próprios, diferente do mundo das pessoas normais, que são cheias de ideias e costumes arrogantes pelos quais eles são condenados moralmente. Seu senso de honra os permite trapacear e insultar aquele outro mundo humano e seus valores a cada oportunidade. Em contradição aos costumes das pessoas normais, eles sentem que quebrar as suas promessas é um comportamento apropriado. Aprendem muito cedo como suas personalidades podem ter efeitos traumatizantes sobre as personalidades das pessoas normais, e como levar vantagem desse terror com o propósito de atingir os seus objetivos.


Procuram o poder porque sonham com um mundo no qual seu modo simples e radical de experimentar e perceber a realidade fosse o modo dominante. São preparados para lutar e para sofrer pelo bem desse novo mundo corajoso e, também, é claro, para infringir o sofrimento sobre os outros. Essa visão justifica matar as pessoas, cujo sofrimento não lhes causa compaixão.


Eles aprendem a reconhecer um ao outro em uma multidão, mesmo quando crianças, e tornam-se conscientes de serem diferentes. São especialistas nas fraquezas das pessoas normais e executam experiências cruéis, permanecendo insensíveis e sem culpa. O mundo das pessoas normais, que eles machucam, é incompreensível e hostil para eles, e a vida para o psicopata essencial é a busca de suas atrações imediatas, momentos de prazer e sentimentos temporários de poder.


Quanto ao processo ponerológico, o psicopata essencial tem papel inspirador perante indivíduos com outras anomalias. É a mais ativa psicopatia em termos ponerogênicos.


Psicopatia Astênica Hereditária ou por fatores nocivos no estágio fetal, ainda necessitando de estudos aprofundados. Apresenta anomalia da percepção psicológica, propenso ao idealismo e possue certo sentimento de culpa. Difere dos psicopatas essenciais por apresentara algum grau de sentimento moral. Manifesta-se em diferentes graus.

Parece que alguns dos tipos astênicos tiveram certamente um papel ativo na gênese do mal, mas outros parecem estar mais aptos a se ajustarem às demandas da vida social. Eles gostam de reformar o mundo, para que ficasse conforme o seu gosto, mais são incapazes de visualizar as implicações e os resultados de mais longo prazo. Nos casos mais graves, os astênicos são brutalmente mais antipsicológicos e altivos em relação às pessoas normais.


Receptividade à aceitação do celibato, motivo pelo qual muitos monges e padres católicos representam casos amenos ou menores dessa anomalia, e podem ter inspirado a atitude antipsicológica tradicional no pensamento da Igreja.


Esquirtoides (Skirtoides) Fenômeno biodinâmico causado pelo cruzamento de dois grupos étnicos amplamente separados, herdado, mas não ligado ao cromossomo sexual, por isso aparecem em ambos os sexos. Estas pessoas são emocionalmente dinâmicas, grosseiras, carentes da compreensão das questões sutis da moralidade, abusam de suas esposas e crianças, mas são suficientemente preocupados com o seu próprio bem-estar a ponto de não cruzar a linha da lei.


São indivíduos vitais, egotistas e caras de pau, que dão bons soldados por causa de sua persistência e resistência psicológica. Em tempo de paz, contudo, são incapazes de entender os assuntos sutis da vida.


Segue quadro dos fenômenos patológicos representados na proporção aproximada de sua ocorrência:


O fato de que indivíduos com desvios serem uma minoria deveria ser enfatizado, cada vez mais, em face da existência de teorias a respeito do papel excepcionalmente criativo de indivíduos anormais, e mesmo de uma identificação da genialidade humana com a psicologia da anormalidade. Contudo, a parcialidade dessas teorias parece ser derivada de pessoas que estão à procura da afirmação de suas próprias personalidades por meio de tal visão de mundo. Pensadores renomados, descobridores e artistas têm sido também espécimes de normalidade psicológica, qualitativamente falando. Afinal de contas, as pessoas psicologicamente normais constituem tanto a grande maioria estatística, como também a base real da vida em sociedade, em cada comunidade. De acordo com a lei natural, elas deveriam então ser aquelas que determinam o passo; a lei moral é derivada de sua natureza. O poder deve estar nas mãos das pessoas normais.


A composição quantitativa e qualitativa dessa fração da população biopsicologicamente deficiente certamente varia no tempo e no espaço em nosso planeta. Isso pode ser representado por um percentual de um dígito em algumas nações, e em outras fica entre 10 e 20 por cento. Essa estrutura quantitativa e qualitativa influencia todo o clima psicológico e moral do país em questão. E é por isso que esse problema deve ser uma preocupação consciente e constante.


Para indivíduos com várias anomalias psicológicas, a estrutura social dominada pelas pessoas normais e seu mundo conceitual parece ser um “sistema de força e opressão”. Os psicopatas chegam a tal conclusão como uma regra. Se, ao mesmo tempo, um pouco de injustiça de fato existir em uma dada sociedade, os sentimentos patológicos de falsidade e as declarações sugestivas que emanam dos portadores de desvios podem ressoar entre aqueles que estão verdadeiramente sendo tratados injustamente. As doutrinas revolucionárias podem, então, ser facilmente propagadas entre ambos os grupos, embora cada grupo tenha razões completamente diferentes para favorecer tais ideias.


A presença de bactérias patogênicas no nosso ambiente é um fenômeno comum. Contudo, não é um único fator decisivo que determina se um indivíduo ou uma sociedade ficaram doentes, uma vez que a imunidade natural ou artificial, assim como a assistência médica, também têm um papel no cenário. Da mesma forma, os fatores psicopatológicos sozinhos – por si mesmos – não decidem sobre a propagação do mal. Outros fatores têm importância paralela: condições socioeconômicas e deficiências morais e intelectuais. Os indivíduos e as nações que estão capacitados para suportar a injustiça em nome de valores morais, podem encontrar mais facilmente uma saída para tais dificuldades, sem o uso de métodos violentos. Nesse sentido, uma tradição moral rica, contendo experiências e reflexões de séculos, deve ser construída e mantida.


Fenômenos e Conceitos Ponerogênicos


Egotismo É a atitude condicionada como regra pela qual atribuímos valor excessivo aos nossos reflexos instintivos, às nossas imaginações e hábitos adquiridos desde muito cedo, e à nossa visão de mundo individual. Um egotista mede as demais pessoas pelos seus próprios parâmetros, tratando seus conceitos e modos de experiência como critério objetivo. Uma certa medida de egotismo é útil como um fator estabilizador da personalidade.


O aumento do egotismo das nações deve ser atribuído, antes de mais nada, ao ciclo de histeria. A principal razão para o desenvolvimento de uma personalidade exageradamente egotista em uma pessoa normal é a contaminação, através da indução psicológica, por pessoas excessivamente egotistas ou histéricas.


Pessoas com anomalias que desenvolvem egotismo patológico, sentem a necessidade de forçar pessoas, grupos sociais e, se possível, nações inteiras a sentir e pensar como elas mesmas.


A educação apropriada e a autoeducação sempre ajudam a “de-egotizar” uma pessoa jovem ou adulta e, com isso, abrem a porta para que a mente e o caráter se desenvolvam.

Interpretação Moralizante

Os homens normalmente falham na diferenciação entre o mal moral e o mal biológico. A origem do mal de indivíduos com anormalidade biopsicológica não pode ser vista como defeitos morais. Os comportamentos que ferem seriamente alguma pessoa contém a influência de algum fator patológico, esses indivíduos com propensão para o mal devem ser visto como um portador de patologia, e não como pessoas normais com certas falhas e erros morais.


Corre-se riscos em avaliar que indivíduos do nosso convívio com patologias sentem culpa, piedade, compaixão etc, os quais em grande parte não sentem. Considerar que esses indivíduos cometem erros morais da mesma forma que as pessoas normais facilita seu trabalho de dominação.


Paramoralismo Utiliza sugestões ativas, isto é, insinuações estruturadas em slogans pseudo-morais, para se esquivar com perspicácia do controle do senso moral, levando algumas vezes à aceitação ou à aprovação de comportamentos que são abertamente patológicos.


Inventar critérios morais novos, de acordo com a conveniência de alguém, tornou-se um fenômeno frequente para indivíduos, grupos de opressão, ou sistemas políticos patológicos. Tais sugestões, com frequência, privam parcialmente pessoas do seu raciocínio moral e deformam o desenvolvimento destes nos mais jovens.


A tendência ao uso de paramoralismos se intensificam em egotistas e histéricos e é psicologicamente contagioso.


Bloqueio Reversivo A verdade é bloqueada com a insistência enfática de algo oposto. A pessoa busca raciocinar entre os extremos, isto é, entre a verdade e o seu oposto, até chegarà falsificação satisfatória pretendida. Raramente esse método é usado por pessoas normais, mas por psicopatas para atingir as fraquezas da natureza humana e levar ao erro.


Seleção e Substituição de Informações Troca-se premissas para se chegar as conclusões desejadas, ou simplesmente bloqueiam conclusões indesejadas. Uma vez rejeitada uma conclusão verdadeira, fará parte de uma premissa errada e chegará a outra conclusão falsa, escravizando a pessoa nesse ciclo. Essa forma de “pensamento conversivo” é altamente contagioso e pode se espalhar por uma sociedade inteira. Nos “tempos felizes”, especialmente, a tendência para o pensamento conversivo geralmente se intensifica. Ela aparece acompanhada por uma onda de aumento de histeria.


Aqueles que tentam manter o senso comum e o raciocínio apropriado finalmente terminam como minoria, sentindo-se injustiçados por ter seu direito humano de manter a higiene psicológica violado por pressões vindas de todos os lados. Isso significa que “tempos infelizes” não estão distantes.


Propagandista Para compreender os caminhos ponerogênicos de contágio, especialmente aqueles agindo em um contexto social mais amplo, vamos observar os papéis e as personalidades de indivíduos chamados de propagandistas, os quais são muito ativos nessa área, apesar de que, estatisticamente, seu número seja insignificante.


O propagandista é caracterizado por um egotismo patológico. Tal pessoa é forçada por algumas causas internas a fazer uma escolha prematura entre duas possibilidades: a primeira é forçar as outras pessoas a pensar e experimentar as coisas do mesmo modo que ela mesma; a segunda é um sentimento de ser sozinha e diferente, um desencaixe patológico na vida social.


A repressão triunfante da autocrítica ou de conceitos desagradáveis do campo da consciência dá origem, gradualmente, aos fenômenos de pensamento conversivo, ou paralógicos, de paramoralismos e de bloqueios reversivos. Eles saem com tanta profusão da mente e da boca do propagandista que inundam a mente da pessoa mediana.


O propagandista coloca num plano moral elevado qualquer pessoa que tenha sucumbido à sua influência e incorporado os métodos experimentais impostos por ele. Aos críticos ficam reservados apenas insultos “morais”. Pode até proclamar que a minoria complacente é, de fato, a maioria moral, uma vez que ela professa a melhor ideologia e honra um líder cujas qualidades estão acima da média.


Em uma sociedade saudável, as atividades dos propagandistas encontram crítica efetiva o suficiente para contê-los rapidamente. Contudo, quando eles são precedidos de condições que operam destrutivamente sobre o senso comum e a ordem social, tais como injustiça social, atraso na cultura ou governantes intelectualmente limitados que manifestam algumas vezes características patológicas, as atividades dos propagandistas têm levado sociedades inteiras à tragédia humana em larga escala.


Associações Ponerogênicas Qualquer grupo de pessoas caracterizado pelos processos ponerogênicos de intensidade social acima da média, onde os portadores de vários fatores patológicos funcionam como inspiradores, propagandistas e líderes, e onde é gerada uma estrutura social patológica apropriada. Associações menores, menos permanentes, devem ser chamadas de “grupos” ou “uniões”. Tal associação dá origem ao mal que fere outras pessoas, assim como fere seus próprios membros. Pode-se listar vários nomes relacionados a tais organizações pela tradição linguística: gangues, máfias criminosas, máfias, facções e seitas.


Todos os grupos e associações ponerogênicas têm em comum um fenômeno, que é o fato de que seus membros perdem (ou já perderam) a capacidade de perceber indivíduos patológicos como tais, interpretando seus comportamentos de um modo fascinante, heroico ou melodramático.


A atrofia das faculdades críticas naturais com respeito a indivíduos patológicos torna-se uma abertura para as suas atividades e, ao mesmo tempo, um critério pare reconhecer a associação em questão como ponerogênica – primeiro critério da ponerogênese.


Dois tipos básicos das uniões acima mencionadas devem ser diferenciados: as ponerogênicas primárias e as ponerogênicas secundárias. Considera-se como ponerogênica primária a união cujos membros anormais são ativos desde o início, tendo um papel de catalisadores da cristalização, tão logo o processo de criação do grupo tenha ocorrido. Denomina-se ponerogênica secundária a união que foi fundada em nome de alguma ideia com um significado social independente, geralmente compreensível dentro das categorias da visão de mundo natural, mas que posteriormente sucumbiu a uma certa degeneração moral.


Para ter uma chance de se desenvolver em uma associação ponerogênica grande basta que uma organização humana qualquer, caracterizada por objetivos sociais ou políticos e por uma ideologia com algum valor criativo, seja aceita por um grande número de pessoas normais antes de sucumbir ao processo de malignidade ponerogênica. Os valores primários do grupo original irão alimentar e proteger tal união, apesar do fato de que tais valores primários tenham sucumbido à degeneração característica e a função prática tenha se tornado completamente diferente da inicial, porque os nomes e os símbolos são mantidos.


Mesmo uma pessoa que aprecia a verdade e o respeito em seus círculos começa a se comportar com uma arrogância absurda e a ferir os outros, alegadamente em nome de suas convicções já conhecidas, decentes e aceitas, que – nesse meio tempo – se deterioraram devido a algum processo ponerogênico que as tornam primitivas, mas emocionalmente dinâmicas. Contudo, as pessoas de suas antigas relações – que a conheciam por muito tempo como a pessoa que ela era – não acreditam nas pessoas ofendidas, as quais reclamam sobre o seu comportamento novo, ou até mesmo encoberto, e estão preparadas para denegri-las e considerá-las como mentirosas. Esse processo aumenta a injúria e fornece encorajamento e licença ao indivíduo cuja personalidade está no processo de deterioração para cometer outros atos prejudiciais.


Ideologias As associações ou grupos ponerogênicos mantêm uma ideologia para justificar e fornecer propaganda motivacional, envolvida por uma mística compensatória para silenciar as consciências e ludibriar as faculdades críticas e conscientes. Se tais uniões ponerogênicas pudessem ser despidas de sua ideologia, nada permaneceria além da patologia psicológica e moral, nua e não atrativa, provocando indignação moral dentro e fora da união.


A camada da ideologia utilizada pela elite é hermética e sem problema de compensação. A ideologia é composta de significado diferente dependendo da camada em questão, podendo os líderes camuflar as suas intenções com o jogo duplo de linguagem.


Processo de Ponerização As uniões ponerogênicas aspiram ao poder político, mas ainda não são organizações voltadas a tomada do poder na forma de partidos políticos ou organizações com fins políticos de tomada do poder.


1ª fase: os caracteropatas paranoicos iniciam a formação das associações, juntando-se indivíduos de diferentes características, isto é, com desvios brandos, principalmente jovens com má formação da personalidade, e indivíduos com anomalias patológicas de diferentes graus. Os propagandistas, com diferentes patologias, exercem o papel de inspiradores e são inicialmente os que dominam a associação.


2ª fase: o papel dos psicopatas essenciais crescem, enquanto os indivíduos mais normais são colocados à margem e os propagandistas são afastados das posições de domínio. Os novos dominadores psicopatas inserem novos conteúdos sob velhos títulos, atribuindo aos propagandistas o trabalho de convencimento e divulgação. Há disputas e ressentimentos entre os novos dominadores, os psicopatas, e os antigos dominadores, os propagandistas.


3ª fase: são escolhidos para representar os papéis de líderes os caracteropatas frontais ou pessoas cuja personalidade foi malformada, isto é, pessoas mais próximas da população em geral. Os líderes escolhidos representam seus papéis, contudo os psicopatas dominam a associação. Além do trabalho de convencimento e divulgação ideológico, agora cabe aos propagandistas manter a mística do líder como possuidor de capacidades especiais.


4ª fase: a noção de realidade é afetada, ao se tomar como real as capacidades especiais do líder que foram propagadas. Os indivíduos com anomalias podem tirar a máscara de sanidade de forma cada vez mais frequente.


5ª fase: crescimento da histeria macrossocial torna-se ambiente propício para a proliferação do mal e da atrofia das faculdades críticas naturais, que é o limiar entre a normalidade e a patologia, levando a uma tragédia sangrenta ou a uma patocracia.


Fenômenos Macrossociais A interpretação tradicional dessas grandes doenças históricas já ensinou aos historiadores a distinguir duas fases. A primeira é representada por um período de crise espiritual na sociedade, que a historiografia associa ao esgotamento dos valores morais, religiosos e ideativos, que até então alimentavam a sociedade em questão. O egoísmo aumenta entre os indivíduos e os grupos sociais, e as ligações entre a obrigação moral e as conexões sociais parecem se afrouxar. Assuntos sem importância, em seguida, dominam as mentes humanas em tal extensão que não há espaço sobrando para pensar sobre assuntos públicos ou para um sentimento de comprometimento com o futuro. Uma atrofia da hierarquia de valores no pensamento dos indivíduos e das sociedades é também uma indicação disso; algo que tem sido descrito tanto em monografias historiográficas como em artigos de psiquiatria. O governo do país é finalmente paralisado, impotente frente aos problemas que poderiam ser resolvidos sem grande dificuldade sob outras circunstâncias. Associa-se tais períodos de crise com a fase familiar da histerização social. A próxima fase é marcada por tragédias sangrentas, revoluções, guerras e quedas de impérios. As deliberações dos historiadores ou dos moralistas sobre essas ocorrências sempre deixam atrás de si um certo sentimento de deficiência em relação à possibilidade de perceber certos fatores psicológicos discerníveis dentro da natureza dos fenômenos; a essência desses fatores permanece fora do escopo de suas experiências científicas


Histerização Social O movimento de histeria tem sua origem na juventude das classes privilegiadas, sendo que uma resistência maior à histerização caracteriza aqueles grupos sociais que ganham o pão de cada dia pelo esforço diário, e nos quais os aspectos práticos da vida cotidiana forçam a mente a pensar com bom senso e a refletir sobre generalidades. Por exemplo: os camponeses continuam a ver os costumes histéricos das classes mais prósperas através da sua própria percepção simples da realidade psicológica e do seu senso de humor.


A natureza do estado de histeria é contagiante por meio de ressonância, identificação e imitação psicológica. Cada ser humano tem uma predisposição para essa mal formação da personalidade, embora em vários graus. Todavia, ela é normalmente superada pela educação e pela autoeducação, que são responsáveis pelo pensamento correto e pela autodisciplina emocional. Caso uma geração crie hábitos de seleção e substituição de informações, que leve a uma economia histérico-conversiva de raciocínio, transmitem sua histeria para a próxima geração em um grau maior.


Quando a histeria cresce a ponto de atrofiar as faculdades críticas naturais, o ambiente social tende a desenvolver o desprezo pela crítica factual e a humilhar qualquer um que soe o alarme. O ambiente social de desprezo por qualquer crítica ao estado histérico promove censura da imprensa, teatro ou televisão, uma vez que o censor patologicamente hipersensível vive dentro dos cidadãos mesmos.


Quando três “egos” governam – egoísmo, egotismo e egocentrismo – o sentimento de conexão social e de responsabilidade em relação aos outros desaparece, e a sociedade em questão divide-se em grupos ainda mais hostis uns com os outros.


Nesse estado crescente de histeria, os indivíduos com patologias encontram as oportunidades sociais, podendo resultar em uma tragédia sangrenta ou uma patocracia.


Patocracia A ponerogênese do fenômeno macrossocial(“patocracia”) – o mal em larga escala – que constitui o objeto mais importante do livro, aparece sujeita às mesmas leis naturais que operam sobre as questões humanas no nível individual ou em pequenos grupos.


Patocracia é um fenômeno psicopatológico macrossocial, um sistema de governo assim criado, onde uma minoria patológica assume o controle sobre uma sociedade de pessoas normais. Tal nome indica suficientemente a qualidade básica do fenômeno e também enfatiza que a capa ideológica não constitui sua essência.


A patocracia pode emergir da fase de intensificação máxima da histeria. Tal consequência não parece resultar de quaisquer leis relativamente constantes da história; muito pelo contrário, algumas circunstâncias e fatores adicionais devem participar em tal período de crise espiritual generalizada da sociedade e fazer com que sua razão e sua estrutura social degenerem de tal modo que acabem provocando a geração espontânea desta terrível doença da sociedade.


Como líderes fanáticos ou propagandistas, os esquizoides desempenham o primeiro papel no processo de origem da patocracia pela sua natureza persistente e relativamente controlada em impor o seu próprio mundo conceitual as outras pessoas ou grupos sociais. Eles exercem papel fundamental como um dos fatores de gênese do mal e abrem as portas para os indivíduos psicopatas e para a visão de mundo própria que eles querem impor.


Os escritos dos esquizoides tem um padrão simplificado de ideias, desprovidos de tom psicológico e baseado em dados que podem ser encontrados facilmente, e que são atrativos para uma sociedade histerizada. Como exemplo mais claro, os escritos de Karl Marx aumentaram muito a sua influência e encobriram os seus caracteres esquizoides. Peter Jacob Frostig (1896-1959), um psiquiatra da velha escola, incluiu Engels e outros em uma categoria que ele chamou de “fanáticos esquizoides barbudos”.


Graças às suas habilidades propagandistas, os indivíduos caracteropatas adotam ideologias, que são frequentemente de esquizoides, remodelam-na na forma de propaganda ativa e as disseminam de forma a ampliar em muito a abrangência.


Enquanto os indivíduos caracteropatas possuírem um papel dominante, a ideologia mantém seu conteúdo original, permanecendo como uma motivação justificadora essencial para muitos. Nessa fase, por conseguinte, tal união não se move em direção a atos criminosos em grande escala.


Com o engajamento dos portadores de patologias hereditárias, principalmente o psicopata essencial, promove-se transformações da ideologia original até torná-la uma caricatura patológica. Eventualmente, essa situação gera um confronto generalizado: os adeptos da ideologia original são colocados de lado ou eliminados (esse grupo inclui muitos caracteropatas, especialmente das variedades mais brandas ou das paranoicas). As motivações ideológicas e a linguagem dupla que eles criam são utilizadas para esconder os novos conteúdos reais do fenômeno. A partir desse momento, o uso do nome ideológico do movimento para entender sua essência se torna uma pedra fundamental de erros.


Os indivíduos psicopatas geralmente ficam longe das organizações sociais caracterizadas pela razão e pela disciplina, porque eles sentem desprezo por várias ideologias sociais. Contudo, uma vez que a ideologia da organização se altera em direção a uma caricatura, os psicopatas podem encontrar seus próprios modus vivendi, e talvez até realizar seu sonho utópico de juventude, de um mundo onde eles estão no poder e todos aquelas outras “pessoas normais” são forçadas à servidão. Eles começam então a se infiltrar nos postos e fileiras de tal movimento. Fingir serem adeptos sinceros não é uma dificuldade para os psicopatas, uma vez que representar um papel e se esconder atrás de uma máscara de pessoas normais é uma segunda natureza para eles.


A ideologia principal sucumbe à deformação sintomática, os nomes e conteúdos oficiais são mantidos, mas outro conteúdo, completamente diferente, é inoculado por debaixo, dando origem ao fenômeno bem conhecido da linguagem dupla, dentro do qual os mesmos nomes possuem os mesmos significados: um para os iniciados e outro para o resto das pessoas.


Além da linguagem dupla, produzem novos nomes que tenham efeitos sugestivos e sejam aceitos praticamente sem críticas. O caráter paramoralista e as qualidades paranoicas estão frequentemente contidos nesses nomes, e qualquer coisa que ameace o governo patocrático se torna profundamente imoral, e de forma inversa a benevolência é extrema para se perdoar os próprios patocratas.


Uma rede cada vez mais forte, formada por psicopatas e indivíduos relacionados, começa gradualmente a ter domínio, ofuscando os demais. Uma seleção negativa violenta do grupo original então se sucede. O papel inspirador da psicopatia essencial é agora também consolidado.


Ele permanece característico por todo o futuro desse fenômeno macrossocial patológico. Na patocracia do psicopata, o homem comum é culpado por não ter nascido um psicopata e não é considerado bom para nada, exceto para o trabalho pesado, para a luta e para morrer.


A patocracia não pode ser permanente, já que grandes setores da sociedade se tornam insatisfeitos. Isso faz parte do ciclo histórico, facilmente discernido, quando a história é lida do ponto de vista ponerológico. Tal governo não tem para onde ir senão para baixo.


Em uma patocracia, todas as posições de liderança devem ser preenchidas por indivíduos com anomalias psicológicas correspondentes. Pelo fato de tais pessoas corresponderem a uma pequena parcela da população, seu nível intelectual ou habilidades profissionais não podem ser levadas em consideração. A patocracia progressivamente paralisa tudo.


Na patocracia, um sistema de doutrinação extensiva e ativa é construída, como uma ideologia remodelada adequadamente que constitui o veículo para o cavalo de Troia, com o objetivo de patologizar os processos de pensamento dos indivíduos e da sociedade. Contudo, o tempo e a experiência confirmam o que um psicólogo poderia ter visto logo: o esforço todo produz resultados limitados, resulta somente na produção de uma opressão generalizada do desenvolvimento intelectual e de protestos bem arraigados contra a hipocrisia.


Os patocratas mais liberais não possuem aversão a conceder à sociedade uma certa prosperidade econômica mínima, de forma a reduzir o nível de irritação, mas sua própria corrupção e incapacidade de administrar a economia os impede de fazer isso.


Diante das manifestações da maioria das pessoas e do processo de imunização psicológica, entra na fase dissimulativa da patocracia, quando procura esconder a sua realidade patológica, removendo os indivíduos com características patológicas óbvias de algumas áreas de atividade, a saber, postos políticos com exposição internacional e outras áreas.


Com a fase da dissimilação, um padrão de erro é pensar que a patocracia poderia, sob certas circunstâncias, modificar suas convicções e renunciar aos seus sonhos de conquistar o mundo, porque eles não desistem de manter o poder.


As ações desse fenômeno afetam uma sociedade inteira, começando com os líderes e se infiltrando em cada cidade pequena, vila, fábrica, negócio ou fazenda. A estrutura patológica social cobre gradualmente o país inteiro, criando uma “nova classe” dentro da nação. Essa classe privilegiada de anômalos se sentem permanentemente ameaçados pelos “outros”, isto é, pela maioria das pessoas normais. A ameaça de retorno para o sistema das pessoas normais deve ser combatida por meio de toda e qualquer esperteza política e psicológica, implementadas sem escrúpulos em relação àquelas outras pessoas “de qualidade inferior”.


O expansionismo deriva da natureza mesma da patocracia, não da ideologia, mas esse fato deve ser mascarado pela ideologia. Todas as vezes que esse fenômeno foi testemunhado na história, o imperialismo sempre foi sua qualidade mais demonstrativa. Sempre que a história registrou o aparecimento do fenômeno da patocracia medidas específicas de influência também se tornaram aparentes: alguma coisa como inteligência específica a serviço da intriga internacional, facilitando a conquista.


Quando a patocracia é imposta pela força, o sistema sempre é visto pela sociedade que foi tomada como algo de fora, associado com outro país.


A avaliação inicial de aproximadamente 6% de indivíduos receptivos mostra-se realista. Esse valor vária de país para país em torno de um ponto percentual para cima ou para baixo. Psicopatas essenciais são 0,6%, ou seja, um décimo dos 6%, contudo, essa anomalia tem um papel desproporcional.


Outros psicopatas, conhecidos como astênicos, esquizoidais, anancásticos, histéricos etc., vêm definitivamente na segunda colocação, embora na soma sejam muito mais numerosos. Indivíduos skirtóides primitivos tornam-se companheiros de viagem, movidos por sua luxúria pela vida.


Somando-se aos 6% que constituem a estrutura ativa, o dobro constituem um segundo grupo de pessoas que tiveram que gerenciar a deformação de suas personalidades para atender às demandas da nova realidade. A frequência de doentes mentais conhecidos nesse grupo é o dobro da média nacional. Nós podemos então assumir que a gênese dessa atitude submissa em direção ao regime, sua maior susceptibilidade aos efeitos patológicos e seu oportunismo leviano incluem várias anomalias relativamente não palpáveis.


Pessoas Normais Sob Domínio Patocrático O mundo patocrático, o mundo do egotismo e do terror patológico, é tão difícil de ser entendido pelas pessoas educadas longe da abrangência desse fenômeno que elas frequentemente se manifestam como crianças ingênuas. Por outro lado, no seu mundo conceitual, os patocratas consideram praticamente autoevidente que os “outros” devem aceitar seu modo óbvio, realista e simples de apreender a realidade.


As autoridades patológicas estão convencidas de que os meios pedagógicos apropriados, as doutrinações, a propaganda e o terrorismo podem ensinar uma pessoa que possui um substrato instintivo normal, uma cadeia de sentimentos e uma inteligência básica, a pensar e sentir de acordo com o seu próprio costume diferente, isto é, acreditam que podem torná-las dependentes através dos efeitos da sua personalidade, dos meios pedagógicos pérfidos, dos meios de desinformação da massa e do terror psicológico.


Essas tentativas estão fadadas ao fracasso, contudo trazem uma série de resultados psicológicos inapropriados, principalmente para aquelas gerações que desconhecem outra condição de vida. O desenvolvimento da personalidade é empobrecido, principalmente em relação aos valores mais sutis, pela brutalização de sentimentos e hábitos, que é explicado pela desculpa da injustiça.


A forma mais direta de afetação ocorre pela exposição ao egotismo patológico, encontrada mais frequentemente nos caracteropatas frontais, os quais são conhecidos como os tipos que sempre causam alguma alteração psicologia nos seus filhos. Uma pessoa, que tenha sido objeto do comportamento egotista de indivíduos patológicos por longo período, fica saturada com seu material psicológico. Para as pessoas afetadas, estar ciente de que foram saturados com material egotista anormal faz com que seja mais fácil para eles livrarem-se desse fardo e reestabelecerem contato com o mundo humano normal.


A neurose é uma resposta natural da natureza humana se uma pessoa normal é subordinada à dominação por pessoas patológicas. O mesmo se aplica à subordinação de uma sociedade e de seus membros a um sistema patológico de autoridade.


Uma das diferenças observadas entre uma pessoa normalmente resistente e alguém que se submeteu à transpersonalização é que aquela está mais capacitada para sobreviver ao vácuo cognitivo desintegrativo, enquanto esta preenche o vazio com material de propaganda patológica sem controles suficientes.


Quando uma pessoa tem contato com os representantes psicopatas do novo regime, a mente de tal pessoa sucumbe para um estado catatônico de curto prazo. Suas técnicas arrogantes e humilhantes, paramoralizações brutais e assim por diante, anestesiam os processos de pensamento e as capacidades de autodefesa da pessoa, e seu método de experiência divergente se ancora na mente da pessoa. Na presença desse tipo de fenômeno, qualquer avaliação moralizante do comportamento de uma pessoa em tal situação torna-se assim imprecisa, na melhor das hipóteses.


Os valores morais e religiosos, assim como a herança cultural de séculos das nações, fornece à maioria das sociedades o suporte para o longo caminho, tanto individual como coletivo. Quando o homem consegue olhar diretamente para o sofrimento ou mesmo para a morte com a calma necessária, uma arma perigosa cai das mãos do governante.


Nós temos que entender que esse processo de imunização não é meramente um resultado do aumento do conhecimento prático do fenômeno macrossocial descrito acima. Ele é efeito de um processo gradual, multicamadas, de crescimento do conhecimento, familiarização como fenômeno, criação de um hábito reativo apropriado, e autocontrole, com uma concepção abrangente e princípios morais sendo trabalhados no ínterim. Depois de vários anos, o mesmo estímulo que no passado causou impotência espiritual insensível ou paralisia mental, agora provoca o desejo de fazer gargarejo com algo forte, para se livrar dessa sujeira.


O gênio humano não nasce da prosperidade preguiçosa e no meio de uma camaradagem gentil, mas ao contrário, está em confronto contínuo com a realidade recalcitrante que é diferente da imaginação humana comum.


Psicologia e Psiquiatria Sob Domínio Patocrático Se uma pessoa com algum desvio se considera normal, o que é de fato significativamente mais fácil se ela possuir autoridade, estão ela considerará uma pessoa normal como diferente e portanto anormal. Isso explica porque o governo dessas pessoas sempre terá a tendência de tratar qualquer dissidente como “mentalmente anormal”.


O abuso da psiquiatria para objetivos que já conhecemos deriva assim da natureza mesma da patocracia, como um fenômeno psicopatológico macrossocial. Afinal de contas, essa mesma área do conhecimento e tratamento deve ser degradada com o objetivo de prevenir que ela coloque em risco o próprio sistema pelo anúncio de um diagnóstico dramático, para depois ser experimentado como uma ferramenta expediente nas mãos das autoridades.


Patocrático e Religião Nenhuma grande religião indica a natureza do fenômeno patológico macrossocial; portanto não podemos considerar as doutrinas religiosas como base específica para a superação dessa grande doença histórica. A religião não é nem um soro específico, nem um antídoto etiotropicamente ativo em relação ao fenômeno da patocracia. Embora ela constitua um fator regenerativo da força espiritual dos indivíduos e das sociedades, as verdades religiosas não contêm o conhecimento naturalista específico que é essencial para entender a patologia do fenômeno, e que é simultaneamente um fator curativo e de geração de resistência para as personalidades humanas. Ao contrário, a fé religiosa e o fenômeno da patocracia estão, de fato, em diferentes níveis de realidade.


A luz dos dados históricos, parece óbvio que os sistemas religiosos também sucumbiram aos processos ponerogênicos e manifestaram sintomas de uma doença similar.


Terapia para o Mundo A evolução contemporânea dos conceitos legais e da moralidade social-democrática está orientada para desmantelar as tradições antigas de manutenção da ordem e da lei por meio da repressão punitiva. Contudo, a prática só confirma essa possibilidade parcialmente.


A razão é que a mitigação da lei não foi balanceada com os métodos correspondentes de repressão dos processos da gênese do mal, com base em sua compreensão. Sob tais condições, muitas pessoas sentem que o retorno à tradição de maior rigor legal é o único meio de proteger a sociedade de um excesso do mal. Outros acreditam que esse comportamento tradicional nos enfraquecem moralmente e abre a porta para abusos irrevogáveis. Eles então subordinam a vida e a saúde dos outros aos valores humanistas.


A base da saída da crise está na compreensão objetiva da gênese do mal. Os códigos penais preveem que crime cometido por pessoas com limitações de discernimento, em função de doenças mentais ou deficiências psicológicas, receba uma sentença de grau apropriado, aplicando dessa forma a lei para os casos de patocracia.


Os sonhos de vingança distraem a atenção da sociedade da compreensão da essência biopsicológica do fenômeno e estimulam as interpretações moralistas cujos resultados nós já conhecemos. A retribuição legal seria uma repetição do erro de Nuremberg. Assim, o perdão leva nossa razão para um estado de disciplina e ordem intelectual, e com isso nos permite discernir a realidade da vida e suas ligações mais claramente. Não que isto represente a não aplicação das penalidades cabíveis proporcionais ao crime cometido.


Ao mesmo tempo, e em concordância com os preceitos das grandes religiões, o perdão nos ajuda a apreciar a ordem sobrenatural e com isso ganhar o direito do perdão a si mesmo.


Desnudar a realidade naturalista até agora protegida por uma máscara ideológica é uma assistência efetiva e necessária para indivíduos e sociedades.


Uma Visão do Futuro Toda atividade humana deve criar raízes no solo em duas janelas de tempo: no passado e no futuro. O passado nos fornece o conhecimento e a experiência que nos ensina a resolver problemas, e nos avisa quando estamos próximos de cometer os erros reminiscentes de enganos do passado. Uma percepção realista do passado e às vezes uma compreensão dolorosa de seus erros e maldades tornam-se assim precondições necessárias para a construção de um futuro mais feliz.


Uma visão realista parecida do futuro, complementada por dados detalhados bem planejados, favorece nossas atividades contemporâneas com direção e torna seus objetivos mais concretos. O esforço mental direcionado para formar tal visão nos capacita a superar as barreiras psicológicas para libertar a razão e a imaginação, barreiras causadas pelo egotismo e pela sobrevivência de hábitos do passado.


Existem muitas vantagens a serem obtidas no planejamento construtivo do futuro, incluindo a perspectiva de longo prazo, se pudermos prever sua forma e facilitar as soluções apontadas. Isso requer que analisemos a realidade adequadamente e façamos predições corretas, o que significa utilizar uma disciplina de pensamento que exclua qualquer manipulação subconsciente de dados e qualquer influência excessiva das nossas emoções e preferências.


As nações que sofrem sob governos patocráticos também participariam em tal esforço construtivo, que representaria uma excelente entrada de dados para a tarefa geral acima descrita de tratar o nosso mundo doente. Implacáveis em nossa esperança de que logo virá um tempo onde essas nações serão revertidas para os sistemas humanos normais, nós devemos construir um sistema social com uma visão do que acontecerá depois da patocracia.


Esse sistema social será diferente e melhor que qualquer coisa que existiu antes. Uma visão realista de um futuro melhor e a participação na sua criação curará as almas humanas abatidas e trará ordem aos processos de pensamento. Esse trabalho construtivo treina as pessoas a governarem a si mesmas sob essas condições diferentes, e tira a arma das mãos de qualquer um que sirva o mal, aumentando o sentimento de frustração deste último e a consciência de que o seu trabalho patológico está perto do fim.


Notas

  • Andrew Lobaczewski (1921-2007) nasceu na Polônia e estudou psicologia na Universidade Jagiellonian em Cracóvia.

  • Trabalhando em hospitais gerais e psiquiátricos, o autor desenvolveu suas habilidades em diagnóstico clínico e em psicoterapia. Sistematizou toda a pesquisa de um grupo de cientistas do Leste Europeu – do qual fez parte – que dedicava-se ao estudo de desordens de personalidade em líderes políticos de regimes totalitários. Todos os seus pares foram presos ou exterminados, restando a ele recuperar e apresentar ao mundo as conclusões alcançadas nessa corajosa investigação.

  • Em 1977, quando as autoridades suspeitaram que ele tinha muito conhecimento sobre a natureza patológica do sistema, ele foi forçado a emigrar. Ponerologia foi escrita em Nova York, em 1984, mas só foi publicado em 1998.

  • Em sociedades hedonistas, as pessoas tendem a se afastarem da temática do mal. Daquilo que causa horror, buscando refúgio na ignorância ou em doutrinas ingênuas.

  • Homeostase: processo de regulação pelo qual um organismo mantém constante o seu equilíbrio.

  • Egotismo é a atitude, subconscientemente condicionada como uma regra, pela qual atribuímos valor excessivo aos nossos reflexos instintivos, às nossas imaginações e hábitos adquiridos desde muito cedo, e à nossa visão de mundo individual.

  • Histeria é um termo de diagnóstico aplicado a um estado mental de medo incontrolável ou de excesso emocional. Neste livro, o uso refere-se ao medo da verdade ou medo de pensar sobre coisas desagradáveis, para não estragar a festa de contentamento presente.

  • Teleologia é o estudo filosófico das causas finais, isto é, dos propósitos da sociedade, da humanidade, da natureza.

  • Paralogismo: discurso falso, mas que tem a aparência de verdade.

  • O estudo polonês envolveu 5.000 pacientes psicóticos, neuróticos e saudáveis, dos quais 384 foram selecionados pelo autor por se comportarem de maneira seriamente danoso as outras pessoas.

  • O autor sobreviveu a muitas situações perigosas e ficou desapontado com muitas pessoas e instituições. Contudo, a Divina Providência nunca o desapontou, mesmo sob as circunstâncias mais difíceis. Essa condição basta para permiti-lo prometer que a elaboração de um rascunho mais detalhado para um sistema social melhor e necessário também será possível.