Os Sonâmbulos de Hermann Broch


Sonhar, para alguém, quer esteja dormindo, quer esteja acordado, não consiste me tomar a imagem de alguma coisa, não pelo que ela é como imagem, mas pela própria coisa com a qual ela se parece?” – Sócrates em A República (476c) fala daquelas que através da mera opinião colocam imagens no lugar da realidade (os filódoxos)

Personagens Principais Joachim Pasenow – Pasenow e Huguenau, oficial do exército Bernard – Pasenow e Esch, homem de negócios, patrão de August August Esch – Esch e Huguenau, contador e editor de jornal Huguenau – Huguenau, desertor

Personagens Secundárias Velho Pasenow – Pasenow, pai de Joachim Elizabeth – Pasenow, prometida de Joachim Ruzena – Pasenow, prostituta e amante de Joachim Marguerite – Huguenau, órfã próxima a August Esch Gödicke – Huguenau, soldado ferido Jaretzki – Huguenau, tenente do exército Bertrand Müller – Huguenau, escritor Hanna Wendling – Huguenau, esposa de oficial ausente

Interpretação Contexto histórico (com base em Rites of Spring de Modris Eksteins): No final do século XIX e início do século XX a jovem nação alemã (unificada em 1871) transformou-se no mais dinâmico estado da Europa. Um extraordinário crescimento econômico juntara-se a já admirada qualidade de sua educação e eficiência administrativa. A Alemanha estava destinada a ser a maior potência mundial. Mas não era somente esta força econômica e intelectual que seus cidadãos queriam impor aos demais.


Mais que qualquer outro povo, o alemão representava a avant-garde artística questionando os valores tradicionais vigentes que acreditavam de origem predominantemente francesa e inglesa, considerados inimigos políticos, econômicos e culturais. Na cultura alemã a vida deveria seguir a arte: uma visão, um espetáculo na busca de uma existência titânica superior aos códigos de conduta e a moralidade - übermensch nietzchiano. A salvação estaria no simbolismo de vida e morte onde o importante é a ação - Fausto de Goethe e dialética hegeliana. As formas não deveriam ser entendidas dos objetos da natureza, mas sim formadas no interior do homem em busca de uma beleza que transcende a mera aparência – esteticismo e kantismo. Buscavam uma vivência dionisíaca dentro de uma tranquilidade apolínea - Morte em Veneza (1912) de Thomas Mann e psicanálise de Freud.


Na conquista de sua posição de liderança mundial a Alemanha queria também impor uma nova cultura, estabelecer um novo homem. Nesta concepção de vida a guerra era entendida como o teste supremo do espírito, teste de vitalidade, cultura e vida. A Grande Guerra era vista, e desejada, como o inevitável passo para um futuro melhor onde o espirito germânico substituiria a estéril existência burguesa vigente. O assassinato do arquiduque austríaco Franz Ferdinand em Sarajevo em 1914 levou o povo alemão às ruas exigindo uma resposta rápida e decidida, clamando por guerra. Acreditavam que a contenda seria rápida, menos de um ano, e vitoriosa. Mas a guerra durou mais de quatro anos, disputada principalmente nas sangrentas trincheiras em território francês e belga (10 milhões mortos, 8 milhões desaparecidos e 21 milhões feridos). No final a inesperada derrota militar alemã aconteceu. Mas nos escombros da guerra, aquele espírito revolucionário não apenas seguia vivo e seria canalizado por Hitler, como também contaminou os povos "vencedores".


Artífices do pensamento alemão-austríaco: Kant (1724-1804) Goethe (1749-1832) Hegel (1770-1831) Nietzsche (1844-1900) Freud (1856-1939)


Talvez Eric Voeglin dissesse que os personagens de Os Sonâmbulos sofressem de allostriosis, que na psicopatologia estoica, é o estado de retirada do próprio Eu constituído da tensão entre o homem e o plano divino. Uma vez que o plano divino é o próprio Logos, fonte de ordem deste mundo, a retirada do Eu é um recuo da razão na existência. É a rejeição da razão divina na revolta ególatra. Neste estado de alienação o homem fará uso da razão que lhe resta para buscar sentido na sua existência, caindo vítima dos sistemas ideológicos. Todos os personagens da trilogia de Broch sofrem de solidão, pois se afastaram do Logos, afastaram-se de Deus.


A história se desenvolve no período de 1888 a 1918 (30 anos) num crescendo de degeneração. Começa com o Romântico debatendo-se na decadência mundana que ele ainda não consegue enxergar, passa pelo Anarquista capturado na confusão de valores do pré-guerra, e, finalmente, acaba no Realista/Objetivo como senhor supremo de uma sociedade niilista. Na Montanha Mágica de Thomas Mann vimos como todas as tendências ideológicas do século XIX levaram a falência da Europa simbolizada concretamente na I Grande Guerra. As várias linhas materialistas e coletivistas (socialismo, comunismo, anarquismo), paganismo, ocultismo, cientificismo, psicologismo, esteticismo (visão de que o homem seria salvo pela arte), parapsicologismo foram e são buscas de justificativa da presença humana no mundo sem o Logos. E na terra devastada da Alemanha derrotada na guerra vai predominar a ideologia nacional socialista do Führer com a mesma verve revolucionária do período pré-I Grande Guerra, sendo o nazismo e a II Grande Guerra apenas mais um produto deste processo de perda da Ordem, afastamento do Logos, assim como foram a I Grande Guerra e a revolução bolchevista.


Por que sonâmbulos? Parece que estão desperto, mas na verdade estão inconscientes, incapazes de reconhecer a realidade, pois perderam a noção de sua real condição como seres humanos. Ideologia, no sentido atribuído por Voegelin, é a distorção da realidade através de símbolos que expressam uma alienação desta, resultando na criação de uma segunda realidade. Os sonâmbulos de Broch estão num estado de transe que transcende o mundo empírico e os aproxime da uma falsa verdade, seguindo o típico pensamento esteticista de que a verdade não corresponde ao que realmente acontece, mas sim ao que o indivíduo sente ou imagina.


Seria a literatura pós II Grande Guerra uma tentativa de parte da intelectualidade alemão-austríaca de reavaliar sua posição e redimir-se de sua cumplicidade com a guerra? Ou estariam eles reciclando a mesma visão esteticista e revolucionária ainda presente? Thomas Mann dizia em 1914 que aquela guerra e sua arte eram sinônimas, era uma guerra para libertar o espírito da decadência europeia. Dez anos depois, em 1924, ele publica A Montanha Mágica. A primeira edição de O Homem Sem Qualidades de Robert Musil sai em 1930, e o primeiro livro da trilogia de Broch foi publicado um ano depois. Em 1933 Hitler assume a chancelaria alemã com o apoio majoritário da intelectualidade alemã.


Mas Hermann Broch, judeu convertido ao cristianismo, era contrário ao nazismo, sendo preso em 1938 quando a Áustria foi anexada pela Alemanha. Apesar de indicar que Huguenau era o único capacitado para suceder em sua época, aparentemente Broch não simpatizava com a personagem.


Notas de Pasenow ou o romantismo (1888)

  • As personagens são do tipo “irônico”, impotentes diante da vida. Joachim e o velho Pasenow não sabem o que fazer, o mesmo acontece com Elizabeth. Todos pedem conselhos a Bernard que aparece como o único em controle de si mesmo e da situação.

  • Transmite decadência de valores através dos conflitos entre pensamentos, discursos e ações. Conflitos na mente de Joachim: Militar x Civil Campo x Cidade Elizabeth x Ruzena

  • Parece que ele busca valores superiores para proteger-se da queda, porém aquilo que valoriza está confuso e vazio, não é um polo superior, mas apenas variantes materiais.

  • Bertrand parece ser o próprio Diabo, paralisando a capacidade de ação das pessoas, colocando-lhes dúvidas e não dando respostas. Seu suicídio no próximo livro parece indicar que seu trabalho já estava feito. A morte é revigoradora – é o sacrifício da Sagração da Primavera de Stravinsky apresentada pelo Balé Russo de Diaghilev. Estaria Bertrand de volta no terceiro livro como Bertrand Müller? Sendo ele assim o representante do pensamento de Broch?

  • A classe aristocrática perdeu o contato com a transcendência. O velho Pasenow troca o padre por Bertrand.

  • O Romantismo do título parece ser comentado em Huguenau – quando o homem "ainda que seja cheio de romantismo e sentimentalismo e sinta nostalgia de retornar ao refúgio da crença, ficará desnorteado na engrenagem dos valores que se tornaram autônomos, e nada lhe restará a não ser se submeter ao valor individual (...)." Seria então o Romantismo aqui alinhado ao do movimento artístico como oposição a Era da Razão e desejoso de uma nova Era da Fé? Mais parece o romantismo da primazia das paixões sobre a razão tão escancarada em Bernard e conflituosa em Pasenow. A primazia do individuo como determinante da realidade.

Notas de Esch ou a anarquia (1903)

  • Uma grande confusão reina na cabeça de August Esch, incapaz de ver a realidade. Ele sonha em ir para a América e deixar tudo para trás. Fala em nostalgia do futuro e abandono do passado. Vê defeitos em todos mas tem dificuldade de enxergar seus próprios. Como um ressentido social se vê perseguido e vingativo. O humilhado-ofendido apoia aquele que parece que não humilha e não ofende: quer salvar Ilona das facas, Martin da cadeia. E nutre ódio pelos "poderosos": os patrões Nentwig e Bernard.

  • Indica um avanço na degeneração observada no primeiro livro. Parece que a perda de consciência que desestruturou a primeira e segunda casta atinge as castas abaixo levando a anarquia à alma dos homens. Talvez o anarquismo refira-se a total falta de compreensão, confusão mental e anímica, do homem sobre sua condição humana.

  • A estranha visita que Esch faz a Bernard, que mais parece um devaneio, reforça a suspeita sobre a singularidade deste último.

  • Esch reaparece em Huguenau como dono do Mensageiro do Eleitorado de Trier e parece ter assumido o papel de revolucionário descrito em Almas Mortas de Gógol(Huguenau - p. 51).

Notas de Huguenau ou a objetividade (1918)

  • Entre a objetividade de Huguenau, ou seja, foco do homem absolutamente egoísta em suas necessidades básicas e os horrores da guerra, representada pelo reservista Gödicke e o tenente Jaretzki, aquele mundo parece estar destinado a queda final (coletivismo e II Grande Guerra). Ou Huguenau é o exemplo do “super-homem” que faz sua realidade, e Gödicke ressurge dos mortos como fruto da necessária vitalidade do Mal?

  • Huguenau destrói os “heróis” dos livros anteriores e vence na vida. Vitória de sua Objetividade sobre o Romantismo e Anarquismo como forma de vida viável neste mundo.

  • Marguerite é o produto acabado do processo. Órfã, desprovida da ordem do pai e amor da mãe (Pasenow também tinha problemas com os pais e Esch também é órfão), parece um protótipo piorado de Huguenau. A imagem dela a frente dos revoltosos depois da liberação dos prisioneiros é emblemática.

  • Hanna Wendling parece mostrar a falência da família, reverberando com a orfandade generalizada. Soa como crítica aos costumes e a moralidade vigentes.

  • Os horrores da guerra parecem conflitar com a imagem cultural prévia na Alemanha do valor da guerra como a expressão de uma superioridade cultural e de um princípio regenerador. Mas também pode ser vista, dentro da patologia revolucionária de então, como a destruição necessária para forjar o novo mundo, o novo homem.

  • Bertrand destila esteticismo na Decadência dos Valores. É denúncia do estofo filosófico do diabólico Bernard ou reflete as crenças do autor?



Notas

  • Hermann Broch (1866-1951) nasceu em Viena, Áustria. Considerado por Carpeaux o mais profundo dos “romancistas de ideias”.

  • Broch, matemático e cientista de profissão, rejeita o irracionalismo que pode exercer influencia demoníaca, mas também rejeita o racionalismo que destrói as fontes da vida. É esse equilíbrio que sustenta sua obra.

  • A trilogia Os Sonâmbulos é formada por Pasenow ou o romantismo – 1888 (publicado em 1930), Esch ou a anarquia – 1903 (1934) e Huguenau ou a objetividade – 1918 (1932).

  • Sua maior obra é o romance A Morte de Virgílio (1945).