Os Maias de Eça de Queirós


Personagens Principais Afonso de Maia – nobre, rico, respeitado e querido por todos – símbolo do velho Portugal Pedro de Maia – filho de Afonso e Maria Eduarda Runa, fraco e melancólico Carlos de Maia – filho de Pedro e Maria Monforte, médico, culto, corajoso e diletante Maria Eduarda Runa – esposa de Afonso, enferma, fraca e religiosa Maria Monforte – esposa de Pedro, bela, leviana e imoral Maria Eduarda – amante de Carlos, alta, loira, sensual e delicada Personagens Secundárias João da Ega – amigo íntimo de Carlos, escritor, romântico, sarcástico e progressista Eusébiozinho – amigo de infância de Carlos, tísico, molengão, tristonho e corrupto Tomás de Alencar – poeta famoso, ultra-romântico, foi amigo de Pedro Conde de Gouvarinho – ministro e par do Reino, inculto, nostálgico e incompetente Condessa de Gouvarinho – bela, entediada, imoral e sem escrúpulos Sousa Neto – político, inculto, defende a adoção dos hábitos e cultura do estrangeiro Palma Cavalão – diretor de um pasquim, imoral e sem carácter Dâmaso Salcede – novo rico, filho de um agiota, sem carácter e pusilânime Steinbroken – diplomata finlandês, parvo e inútil Cohen – judeu, banqueiro, cínico e calculista, a esposa Raquel é amante de Ega Craft – inglês, rico, boêmio, culto, forte, amigo dos Maia Cruges – maestro, íntimo dos Maia, tímido

Interpretação "Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava" – Eça de Quéiroz (1889)

Com mordaz ironia Eça de Queirós apresenta um mural da vida portuguesa, particularmente lisboeta, nos fins do século XIX. É uma visão eminentemente crítica expressada principalmente na decadência da família Maia – do nobre Afonso decai-se ao fraco Pedro e hedonista Carlos, no qual parece encerrar-se a linhagem familiar.

Pode-se fazer um paralelo desta decadência com a perda do sentido religioso. Um catolicismo já desfigurado na carolice de Maria Runa, que é rechaçado por Afonso e ignorado por Carlos e Ega. A desdita do caráter religioso é naturalmente acompanhada pelo desmoronamento moral, descambando para um crescente hedonismo e relativismo – Carlos e Ega vivem a criticar a decadência moral e atraso dos lisboetas mas não atentam as imoralidades de seus amores e vazio de suas existências. Salta-se da casta vaixá estampada em Afonso para os valores dos sudras encarnado em seu neto e no amigo deste.

Os amigos Carlos e Ega representam a Geração de 70 (liderado ideologicamente por Antero de Quental e José Fontana e do qual fizeram parte alguns dos maiores escritores da História da Literatura portuguesa, como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Téofilo Braga e Guerra Junqueiro), que iluminados por ideias inovadoras propunham contrapor os problemas econômicos e sociais da nação. Porém suas propostas eivadas da mentalidade positivista de Comte, do idealismo de Hegel e do socialismo de Proudhon e Saint-Simon em nada apurou a condição de Portugal – esta geração ganhará posteriormente o epiteto de Vencidos da Vida (fase em que Eça de Queirós, Antero de Quental e Oliveira Martins renunciam à ação política e ideológica imediata). De fato, no epílogo do livro, ao reencontrar Carlos após alguns anos, Ega lhe diz “falhamos na vida, menino!” – e nada mais simbólico que vê-los correndo atrás do ônibus após afirmarem estarem convencidos da “inutilidade de todo esforço” e que “não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra”.

Muito dos sinais decadistas evidenciados em Os Maias se fazem notar na sociedade brasileira atual: a predileção pela forma em detrimento do conteúdo, o apego às aparências ao invés do esforço em alcançar o real, e a atitude "romântica" perante a vida, que consiste em desculpar sistematicamente, os próprios erros e falhas, e dizer "tudo culpa da sociedade".



Notas

  • Eça de Queirós (1845-1900) nasceu em Póvoa de Varzim, Portugal.

  • Os Maias é publicado em 1888. A narrativa começa em 1875, há flasbacks e um avanço de dez anos.

  • Também se destacam em sua obra os romances O Crime do Padre Amaro (1876) e O Primo Basílio (1878).

  • Ega usava "um vidro entalado no olho", tinha "nariz adunco, pescoço esganiçado, punhos tísicos, pernas de cegonha". Era o autêntico retrato de Eça.

  • Carlos representa aquilo que Eça em suas idealizações desejou ser, já Ega é a caricatura do que Eça realmente foi.

  • Três conselhos em três frases de Afonso de Maia – aos políticos “menos liberalismo e mais caráter” – aos homens de letras “menos eloquência e mais ideia” – aos cidadãos em geral “menos progresso e mais moral”.

  • Frase de Carlos revelando seu hedonismo: “Delicioso, não é verdade? Ora diga-me se tudo que pudesse ser feito pela civilização valeria este prato de ananás! É para estas coisas que eu vivo! Eu não nasci para fazer civilização...”.

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