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A Selva de Ferreira de Castro

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

A selva é um mundo à parte, que absorve o homem e o domina.”– Castro expressa a ideia da perda da autonomia humana diante do ambiente hostil

 

Personagens Principais Alberto – jovem português politicamente exilado Guerreiro – administrador do seringal Juca Tristão e Firmino – seringueiros


Personagens Principais D. Yayá – esposa de Guerreiro Capitão – coordena os trabalhos no seringal Tiago e Macário – seringueiros



Interpretação O autor apresenta a selva como força ontológica, expondo o abismo entre aquele ambiente e a presença humana – a selva como força telúrica e enigma existencial. Esta recriação estética da paisagem amazônica, com a floresta ganhando vida própria, ainda não foi superada na literatura. O contraste entre selva e homem transforma a personagem Alberto que experimenta diante da hostilidade da natureza a epoché, a isostenia (equilíbrio de forças opostas), diaphonia, e a ataraxia – um processo pirrônico vivencial.


O ceticismo pirrônico (escola pirrônica) é a forma mais radical e prática de ceticismo da Antiguidade, fundada por Pirro de Élis (c. 360–270 a.C.). Diferente do ceticismo acadêmico (que nega a possibilidade de conhecimento), o pirrônico não afirma nem nega nada dogmaticamente. Seu método central é a epoché: a suspensão completa do juízo sobre tudo que não é evidente aos sentidos. Diante de aparências contraditórias ou igualmente convincentes, o cético suspende o assentimento e alcança a ataraxia – a imperturbabilidade, a tranquilidade da alma livre de dogmas, opiniões e angústias.


Alberto chega ao seringal fundado em certezas e juízos dogmáticos, projetando suas certezas intelectuais sobre a realidade. Mas depara-se com a selva amazônica, antes pura ideia abstrata, que lhe impõe aparências contraditórias de forças iguais (e.g. beleza sublime versus putrefação, doenças e perigos; solidariedade dos cearenses versus suas bestialidades).


A selva dissolve as crenças da personagem, cuja racionalidade não mais consegue ordenar, levando-o a diaphonia (discordância total) e crise existencial (pesadelos, desejo proibido, culpa, fascínio e horror simultâneos). Alberto suspende o juízo sobre o certo e o errado em termos absolutos, passando de espectador julgador a participante fenomenológico – integra-se ao “inferno verde” sem mais impor narrativas salvadoras.


Porém sua ataraxia não é passiva, gerando uma vaga solidariedade com os seringueiros e a recusa ao juízo penal: não exercerá o Direito Penal depois de formado, só o Cível ou defesa, pois toda justiça punitiva seria aparência relativa, dogmática e frágil diante da imensidão. O autor insinua que Alberto teria se tornado mais livre e humilde: perdeu as certezas, ganhou a capacidade de ver o homem como “simples viandante no flanco do enigma”.


Porém, o pirronismo, longe de ser neutro ou libertador, é uma filosofia da desistência que dissolve as certezas necessárias para sustentar tradição, moralidade objetiva, autoridade legítima e busca pela verdade transcendente. Corrosivo, relativiza tudo, impedindo resistência ativa ao Mal ou defesa vigorosa do Bem herdado.



O romance também vai de encontro ao romancismo ecológico, destruindo ilusão da selva beatificada.


A selva é temida pelos próprios indígenas. Em relatos de expedições e contatos com as aldeias (e.g. A Marcha para o Oeste e Histórias de Índios e Sertanejos), os irmãos Villas-Bôas descrevem situações em que indígenas demonstravam medo em se aventurar em regiões inóspitas, desconhecidas, densas ou associadas a mitos, espíritos ou inimigos; e registram pânico coletivo em aldeias diante de ameaças externas (como ataques de grupos rivais que vinham da mata), ou hesitação em penetrar em matas fechadas sem rituais ou preparo. O formato circular das aldeias simbolizam unidade, fechamento e proteção contra o que vem da selva.


Na religião islâmica o deserto é simbolicamente integrado ao considerá-lo como representativo da nudez do ser perante o absoluto da unidade divina (e não um ambiente hostil). O simbolismo do vazio, também é representado no “altar” das mesquitas: um vazio escavado na parede designando que em face de Deus tudo é nada – a aceitação da própria nulidade é elemento fundamental da religião islâmica.


Esta integração é impossível no caso brasileiro. Integrar a selva amazônica na sociedade seria como abarcar o Inferno. Deus outorgou ao homem a responsabilidade por cuidar, cultivar e governar a natureza com sabedoria – a selva amazônica precisa ser domada e transformada para o benefício do povo, principalmente daqueles que habitam em seu entorno.


Disse também Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, o qual presida aos peixes do mar, às aves do céu, às bestas, e a todos os répteis, que se movem sobre a terra, e domine em toda a terra.”– Gênesis 1:26





Notas


  • Ferreira de Castro (1898-1974) nasceu na freguesia de Ossela, norte de Portugal.

  • Ferreira de Castro tornou-se um dos escritores portugueses mais lidos do século XX. Suas obras foram traduzidas em diversas línguas e tiveram grande circulação internacional. Indicado várias vezes ao Prêmio Nobel de Literatura, embora nunca tenha vencido.

  • Entre seus outros romances mais conhecidos estão: Emigrantes (1928), e A Lã e a Neve (1947).

  • A Selva foi publicado em 1930, ficcionalmente refletindo sua vida no Brasil entre 1912 e 1919, dos 12 aos 21 anos de idade, particularmente quando trabalhou nos seringais na área do rio da Madeira.

  • O romance pode ser caracterizado como Bildungsroman centrado na evolução psicológica de Alberto perante a natureza hostil.

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