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Os Bruzundangas de Lima Barreto

  • há 2 dias
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Bossuet dizia que o verdadeiro fim da política era fazer os povos felizes; o verdadeiro fim da política dos políticos da Bruzundanga é fazer os povos infelizes. – Barreto explicita a eterna guerra do estamento burocrático contra o povo brasileiro

Interpretação Nesta sátira alegórica em forma de crônicas/diário de viagem um narrador brasileiro descreve a República dos Estados Unidos da Bruzundanga, país fictício que espelha o Brasil da República Velha (1889-1930). Seu interesse reside na capacidade de revelar nefastos mecanismos que persistem da cultura política brasileira: a captura do Estado por interesses privados (patrimonialismo), o culto a títulos e aparências, as elites deletérias e a mediocridade institucionalizada – texto fundamental para compreender tanto a República Velha quanto as contínuas mazelas de nossa formação política e cultural.


Algumas coletividades e personalidades brasileiras são facilmente identificáveis por trás das personagens bruzungandenses:


Os Samoiedas são os parnasianos, academicistas e intelectuais como Afrânio Peixoto, Coelho Neto e Olavo Bilac distantes da realidade brasileira, imitadores de modelos consagrados, cultuadores da forma em detrimento do conteúdo, e alpinistas sociais – uma elite cultural baseada em prestígio, imitação e aparência.


Visconde de Pancôme é o Barão do Rio Branco que via prestígio diplomático como medida da grandeza nacional – preocupação em construir uma imagem grandiosa do país no exterior enquanto problemas graves dentro dele permanecem sem solução. Rio Branco teria transformado o Itamaraty em um espaço socialmente fechado, associado às elites e às famílias tradicionais. Isso contrasta com sua visão de uma administração pública baseada no mérito, dando espaço a diplomatas débeis.


A Constituição bruzungandense (espelho da Constituição de 1891) é cheia de garantias e princípios elevados, mas que, na prática, não limita realmente os governantes. A lei fundamental acaba funcionando como uma espécie de fachada jurídica: “há uma Constituição para inglês ver, mas o poder real funciona por outros mecanismos”. E cinco constituições depois os problemas só se agravaram, sendo os supostos guardiões da Constituição (STF) seus maiores transgressores.


Mandachuvas são os presidentes medíocres e oligárquico da República Velha, como Venceslau Brás, cujas trajetórias são construídas através de alianças, favores e relações. A política deixa de ser serviço público e torna-se uma profissão voltada à conquista e manutenção do poder..


O Consolidador da República que “consolidou cousa alguma” é Floriano Peixoto, em torno de quem a República criou um culto de governante forte e depois utilizou esse culto para transformar a violência política em virtude patriótica.


Os falsos heróis são, entre outros, Anita Garibaldi (“uma senhora que nada fez pelo país, antes perturbou-lhe a vida, auxiliando um aventureiro estrangeiro”), Floriano Peixoto e o Barão de Rio Branco.


A província Kaphet é São Paulo e sua oligarquia cafeeira, uma aristocracia baseada no dinheiro, vaidosa, provinciana disfarçada de cosmopolita, inculta e que manobra com os governantes visando enriquecimento mútuo.


Mas o que realmente interessa é constatar os grandes problemas nacionais identificados por Lima Barreto que persistem até hoje na nossa política e sociedade:


Os “doutores” da Bruzundanga não procuram necessariamente o conhecimento; procuram o prestígio social que o diploma proporciona. O culto ao título em lugar da competência reflete a crítica de Hermann von Keyserling em Südamerikanische Meditationen (1932) sobre a tendência brasileira à imitação: enquanto em outros países as pessoas imitavam alguém porque tinham a esperança de tornarem-se iguais a ela de algum modo, os brasileiros se contentavam com a imitação enquanto tal, visando apenas o sucesso da performance e não à aquisição das qualidades pessoais imitadas. A gravidade disto é imensurável: um povo que desistiu de ser e contenta-se com parecer – o fundo depressivo de rendição existencial.


O Brasil é um país onde a aparência vale mais que a substância. Na política temos o discurso em lugar de resultado, na cultura o diletantismo e a ideologia em lugar de conhecimento, na administração títulos e relações em lugar de competência, um patriotismo de Copa do Mundo em lugar de servir o bem comum, na literatura a reputação em lugar do talento, a lista é interminável.


O fascínio do título, do diploma universitário, também acabou gerando um exército de diplomados semi-analfabetos, enquanto carecemos de mão-de-obra capacitada para funções manuais como eletricista, encanador, marceneiro, carpinteiro, servente de obra, operador de empilhadeira, soldador, mecânico, etc.


A política da Bruzundanga funciona através de relações pessoais, favores e proteção. O político que chega ao poder não pensa primeiro na administração do país; pensa em seus aliados, parentes e correligionários – nepotismo, corrupção e exploração aparecem entre as práticas denunciadas em Os Bruzundangas. Lima Barreto antecipava o que Raimundo Faro definiria como patrimonialismo em Os Donos do Poder em 1958 – "O Estado é um instrumento para distribuir benefícios aos meus." continua sendo a maior tentação da política brasileira. O problema não é apenas o político corrupto, mas o sistema de incentivos que permite ao político utilizar o Estado para seus próprios interesses, tendo os soretes togados do STF como garantia de impunidade.


Muitas das mazelas do presente estamento burocrático já estavam presentes na República Velha: acreditar-se melhor que o resto da população (ignorando suas reais necessidades), cabides de emprego, penduricalhos para aumentar os rendimentos, autoconcessão de benefícios, legislar em causa própria, Legislativo decorativo, ministérios incompetentes, Judiciário formado em sua maioria por energúmenos, corrupção em todos os níveis governamentais, capitalismo de compadrio, etc.


Na Bruzundanga a mediocridade chega ao poder: o Mandachuva (Presidente no Brasil) é, sobretudo, medíocre. Ele não possui grande cultura, não demonstra especial interesse por ideias, arte ou conhecimento e ascende através das relações políticas, pois o sistema não seleciona necessariamente os melhores; seleciona aqueles que sabem sobreviver dentro dele. No Brasil os mais altos cargos governamentais são ocupados por aqueles que aceita o jogo do patrimonialismo. O maior exemplo atual deste caso no Brasil são os soretes togados do STF: pinçados da raspa do tacho de nosso corrupto sistema judiciário por aceitar os conchavos com os dejetos dos demais poderes que deveriam julgar; e, uma vez investidos no cargo, logo tratam de se locupletar “julgando” casos defendidos por familiares e comparsas.


Em Bruzundanga as eleições são conspurcadas por todo tipo de fraude. Mas seguramente nunca sonharam com a sofisticação de terem um Tribunal Superior Eleitoral com candidato de preferência, urnas eletrônicas facilmente manipuláveis, com apuração secreta e impossibilidade de auditar o resultado.


Lima Barreto não rejeita o amor ao Brasil, mas sim o patriotismo ornamental: Visconde de Pancôme (caricatura do Barão do Rio Branco) preocupa-se enormemente com o prestígio internacional da Bruzundanga, mas ignora as dificuldades dos brasileiros – símbolos nacionais, grandes discursos e prestígio internacional são utilizados para esconder problemas internos. É o patriotismo transformado em espetáculo que impregnou a sociedade brasileira: do Presidente que clama por soberania enquanto vende a nação a interesses estrangeiros, àqueles que torcem com paixão pela seleção nacional de futebol mas ignoram as injustiças e atrocidades cometidas pelo governo conquanto não sejam contra eles.


Lima Barreto é particularmente ácido com a literatura de Bruzundanga por falhar em sua missão de contribuir “para nós nos conhecermos a nós mesmos, melhor nos compreendermos e mais perfeitamente nos ligarmos em sociedade, em humanidade, afinal”, denotando a persistente falta de alta cultura no nosso meio. Uma prática sintomática deste mal em Bruzundanga, que só tem piorado ao longo dos anos no Brasil, é a indicação de qualquer imbecil a uma cadeira na Acadêmia Brasileira de Letras (e.g. Míriam Leitão, Gilberto Gil, José Sarney, Fernanda Montenegro, Merval Pereira, etc).


Em Bruzundanga taxava-se demais, sempre subindo impostos para cobrir déficits, e a economia do país vivia de solavancos. E o Brasil tem hoje uma carga tributária que não só está entre as mais altas do mundo, como se transforma num acinte quando comparada com a qualidade dos serviços prestados pelo Estado. Ao passo que a economia, por diferentes motivos, ainda não conseguiu se livrar da síndrome do “voo de galinha”. Como o Brasil, Bruzundanga tem “todas as condições de riqueza mas vive na miséria” – o eterno país do futuro.



A mediocridade e o conformismo dos bruzundanguenses ecoam a perda de hierarquia de valores e a incapacidade de construir uma ordem concreta, baseada em princípios e não em ideologias abstratas ou arrivismo. A sátira de Barreto pode ser lida como denúncia de uma sociedade que, sem filosofia própria e sem ordem valorativa sólida, permanece presa a padrões coloniais e oligárquicos, incapaz de autonomia cultural e ética.


Os Bruzundangas é um alerta sobre a necessidade de reconstruir a ordem do saber, dos valores e da ação, mas vivemos precisamente a ausência de condições para essa reconstrução, com uma sociedade que vive de fantasia, nepotismo e exploração, sem projeto civilizatório autêntico.





Notas


  • Lima Barreto (1881-1922), jornalista e escritor, nasceu no Rio de Janeiro.


  • Principais romances: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919) e Os Bruzundangas (1923). Entre seus vários contos se destacam O homem que sabia javanês e Clara dos Anjos (novela inacabada).


  • Para Otto Maria Carpeaux, Lima Barreto deve parte de suas qualidades àquilo que foi a desgraça da sua vida: a boêmia. Ele é precursor do modernismo brasileiro que se revoltará em 1922, no ano da morte do romancista.

  • Os Bruzundangas (publicado postumamente) é uma das obras mais representativas da literatura satírica e militante de Lima Barreto – trata-se de uma coletânea de crônicas escritas originalmente para jornais, reunidas em livro após a morte do autor.

  • A obra apresenta claras influências de Jonathan Swift (As Viagens de Gulliver), Montesquieu (Cartas Persas) e da tradição satírica realista de Eça de Queiroz e Anatole France.

  • Escrita no auge da República Velha (café-com-leite, coronelismo, fraude eleitoral, bacharelismo), a obra antecipa muitas críticas que só se consolidariam décadas depois. Publicada no mesmo ano da Semana de Arte Moderna (1922), ela representa uma via alternativa ao modernismo paulista: enquanto este privilegiava a renovação formal e a antropofagia cultural, Barreto insistia no engajamento social direto e na linguagem acessível.

  • O título já é satírico: “bruzundanga” é um brasileirismo que significa palavreado confuso, mixórdia, trapalhada. A República da Bruzundanga é, portanto, o país das confusões e da mediocridade.

  • Jacques-Bénigne Bossuet (1628-1700) foi um bispo, teólogo, orador e escritor francês, um dos principais teóricos da monarquia por direito divino.

  • A Arte de Furtar citada por Barreto no início de Os Bruzundangas, é um livro satírico escrito no século XVII de autoria controversa, não havendo consenso definitivo sobre quem a escreveu. Versa sobre a corrupção em Portugal durante o domínio filipino (1580–1640). O “furto” do título não se refere apenas ao roubo comum, mas a todas as formas de apropriação ilícita praticadas por pessoas poderosas – condizendo com a ideia de Lima Barreto quanto aos maiores ladrões serem aqueles encarregados de proteger a sociedade contra os ladrões.

  • Hermann Alexander Graf von Keyserling (1880–1946) foi um filósofo, escritor e ensaísta de origem báltico-alemã, conhecido sobretudo por suas reflexões sobre culturas, civilizações e formação espiritual dos povos. Embora hoje seja pouco lido fora de círculos especializados, teve grande prestígio internacional nas primeiras décadas do século XX.

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