O Som e a Fúria de William Faulkner



Personagens Principais Candance Compson (Caddy) – personagem central, única filha dos Compsons Benjamin (Maury – Benjy) Compson – filho autista dos Compsons, irmão de Caddy Quentin Compson – romântico idealista, irmão de Caddy Jason Compson (filho) – mesquinho e revoltado, irmão de Caddy Dilsey Gibson – empregada da família, figura nobre

Personagens Secundárias Jason Compson (pai) – patriarca da família, cínico e desiludido, incapaz de guiar a família Caroline Bascomb Compson – a esposa, egocêntrica, incapaz de amar e lidar com a vida Maury Bascomb – irmão parasitário de Caroline Quentin – filha de Caddy, 17 anos Luster – neto de Dilsey, cuida de Benjy, malandro e rude Frony – filha de Dilsey e mãe de Luster

Interpretação “(Life is) A tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing” – MacBeth em Ato V – Cena V (MacBeth de Shakespeare)


Em entrevista à revista Paris Review (1956) Faulkner afirma que O Som e a Fúria é “a tragédia de duas mulheres: Caddy e sua filha, Quentin.” Porém a narrativa parece transcender o microcosmo individual, elevar-se acima do drama familiar, suplantar a decadência regional do Sul de então, para alcançar um sentido universal: o drama do homem moderno. Uma nova ordem está se estabelecendo: Caddy perde sua inocência e sucumbe na concupiscência, os Compsons estão em decadência econômica e moral, o mesmo pode-se dizer do Sul no seu embate com o Norte, e, finalmente, da humanidade em seu afastamento da transcendência.


Em uma geração os Compsons passam das grandes festas de 1898 ao negligenciado celeiro de 1928, passando pela charrete em frangalhos de 1912. O cinismo do patriarca Jason quanto aos valores da aristocracia a que pertencia, a impotência de Quentin diante do esfacelamento destes valores em Caddy e nele próprio, e a adoção dos valore nortistas pelo filho Jason, simbolizado pelos investimentos na bolsa de valores de New York, são uma procissão de morte da família, do Sul e seu modelo existencial – “Eu vi o primeiro e o derradeiro”, disse Dilsey.


Este sentimento de fim de um ciclo também está na esterilidade dos filhos dos Compsons: Jason reduz o amor a sua amante em Memphis, tão estéril quanto a castração de Benjy, e Quentin também tem problemas com o amor, fixado na queda da irmã.


Caroline Compson, egocêntrica e mergulhada na autopiedade, é totalmente dissociada do mundo exterior. É a figura materna incapaz de amar, incapaz de sua primordial missão ontológica. O patriarca Jason Compson também renega a essência de sua natureza: desiludido e cínico, o chefe da família Compson é o pai que não estabelece a ordem.

Sem estes dois pilares – amor e ordem – estabelece-se o caos nas relações sociais, com cada personagem atomizado e em choque com os demais - impotente diante dos obstáculos do destino. A concupiscência de Caddy, a inação de Quentin e a irascibilidade de Jason perpassa outros membros da família, impedindo o entendimento da situação em que se encontram e impossibilitando encontrarem uma saída. Os negros da narrativa, principalmente Dilsey, aparentam demonstrarem um melhor entendimento do que acontece na família. Ela inclusive consegue estabelecer um mínimo de ordem doméstica. Mas são impotentes ou incapazes de mudar o rumo dos acontecimentos, vivem passivamente, vegetam.


Dilsey é tocada pelo sermão da vida e ressurreição de Cristo. Seria este sermão ao final do romance uma visão do dia do juízo final da modernidade, do fim dos tempos, ou apresenta uma esperança de redenção? O homem tem o potencial de sobreviver e reerguer-se? Seria a fuga de Quentin uma chance de redenção dos Compsons?



Notas

  • William Faulkner (1897-1962) nasceu em New Albany, Mississippi, e morou praticamente toda sua vida em Oxford, no mesmo estado. Era um tradicional cavalheiro sulista sorvedouro de Bourbon – grande contador de histórias e criador de personagens sempre às voltas com problemas psicológicos e morais em diferentes circunstâncias.

  • William trabalhou como funcionário dos correios e seu pai foi condutor da estrada de ferro construída por seu bisavô, ou seja, sua família sofreu uma decadência financeira como os Compsons de O Som e a Fúria. Só a partir de Sanctuary (1931) os direitos autorais foram suficientes para sustentar a família.

  • Considerado talvez o mais sofisticado estilista americano, Faulkner é comparado a Henry James e James Joyce. Mas só começou a ser seriamente estudado nos EUA a partir do Prêmio Nobel recebido em 1950.

  • Suas principais obras encontram-se na saga Yoknapatawpha (um condado imaginário cujo nome deriva de yocona e petopha, palavras de origem Chicksaw que significariam “terra dividia” – Faulkner disse que a palavra composta expressa "água que corre lentamente através da terra dividida") compreendida pelos romances Sartorsi (1929), The Sound and the Fury (1929), As I Lay Dying (1930), Sanctuary (1931), Light in August (1935), Absalom, Absalom! (1936), The Hamlet (1940), Intruder in the Dust (1948), Requiem for a Nun (1951) e The Receivers (1962 – póstumo), e vários contos.

  • Com diferentes histórias, personagens (algumas aparecem em mais de uma história) e épocas localizadas em Yoknapatawpha o autor traça um panorama do sul americano e sua posição na sociedade contemporânea, enfatizando o declínio econômico da aristocracia local e sua luta, quase sempre inútil, em preservar seus valores e costumes.

  • O Som e a Fúria, publicado em 1929 (a narrativa desenvolve-se 1928), é seu mais famoso e importante romance. Com diferentes personagens com mesmo nome, variações na forma narrativa, ausência de pontuação e letra maiúscula, idas-e-vindas no tempo, e ausência de uma estrutura narrativa linear, este é um romance de difícil leitura, considerado um verdadeiro quebra-cabeça.

  • O romance é dividido em eventos, lembranças e fluxo de consciência ao longo de um dia de três diferentes personagens, concluindo com a narrativa na terceira pessoa sobre uma quarta personagem: (1) Benjy em 07/04/1928, (2) o jovem Quentin em 02/06/1910, (3) Jason em 06/04/1928, e (4) Dilsey em 08/04/1928. As seções vão num crescendo de claridade e esclarecimento dos eventos narrados.

  • Os negros da história demonstram uma inteligência com uma pitada de astúcia capaz de, com seus comentários penetrantes e sagazes, compreender a situação melhor do que os Compsons. A persistência busca de Luster por seu quarter pode simboliza a sobrevivência do negro durante a decadência dos seus antigos senhores.

  • A imagem do negro sobre uma mula relembrada por Quentin é uma metáfora da paciência, imobilidade e atemporalidade dos negros na narrativa. Eles estão além da materialidade do tempo que tanto constrange Quentin, estão além dos problemas enfrentados pelos Compsons.

  • Diferentes símbolos surgem ao longo do romance: O “aroma de árvores” que Benjy sente em Caddy simboliza sua inocência, ele não sentirá mais tal aroma após a perda de virgindade da irmã. “Tempo” tem significado diferente para cada irmão de Caddy: para Benjy é sempre presente, para Quentin é um inimigo, e para Jason á apenas algo mecânico e rotineiro. "Flores” também são recorrentes. O aquebrantado narciso na mão de Benjy ao final do romance poderia representar o estado da família, do Sul ou do homem moderno. “Água” está presente na emblemática cena do galho, no banho de Caddy e na morte de Quentin. Símbolo de transformação: perda de inocência, purificação e morte.

  • Dilsey representa a norma ética, o ponto de ordem no caos.

  • Caddy – Geia ou Hera: é o próprio amor para Benjy, é o amor idealizado para Quentin e um adversário para Jason. Caddy é promiscua, o potencial do amor cai em matéria. Termina totalmente dissociada da família, para qual deveria trazer amor.

  • A cena do galho apresenta cruamente todos os filhos Compsons, demarcando suas características.

  • Faulkner para Paris Review (1956): “... não me canso de repetir: o homem é indestrutível simplesmente por seu desejo de liberdade”. A fuga de Quentin seria expressão deste desejo e renascimento da família Compson?

  • Faulkner sobre o cristianismo: “... símbolo... lembrete do homem acerca do seu dever no seio da raça humana.” (entrevista Paris Review em 1956).