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O Poder: história natural de seu crescimento de Bertrand de Jouvenel

  • 10 de abr. de 2020
  • 17 min de leitura

Atualizado: 15 de jun.

O Poder tem uma tendência natural e inexorável ao crescimento. Ele se alimenta de guerras, de revoluções, de demandas por segurança e bem-estar, e transforma até as promessas de libertação em instrumentos de sua própria expansão. – Bertrand de Jouvenel


Síntese do Livro O Poder vem crescendo ao longo dos anos em detrimento da liberdade do indivíduo. Isso acontece independente da forma de governo. Desde os regimes totalitários comunistas e socialistas até a democracia americana apresentam este fenômeno.

É natural para o homem viver em sociedade e isso demanda um grupo dirigente. A este grupo damos aqui o nome de Poder. E a natureza do Poder é expandir-se, a casta guerreira, de onde saem os dirigentes, ambiciona o poder. Ao longo da história outras autoridades, transcendentes e sociais, serviam de anteparo e limitavam a autoridade do Poder. Nos primórdios eram os chefes dos clãs que cerceavam a autoridade do rei. Na Idade Média haviam as assembleias formadas pelos barões, representantes da igreja e do povo pela qual o rei tinha que passar para impor alguma ordem aos seus súditos. Havia ainda uma lei maior, a lei divina que devia ser respeitada por todos. Além desta havia os costumes do local que permeavam a sociedade, ditando normas aos dirigentes. Ir contra a lei divina ou os costumes desqualificava qualquer governante. Os reis medievais aproveitam a crise da Igreja para romper com a mesma e, assim, afastar um importante obstáculo para suas ambições. Depois, como já ocorrera no embate dos primeiros reis contra os chefes dos clãs, os reis modernos vão unir-se aos plebeus para enfraquecer a aristocracia.

As filosofias modernas vão favorecer o crescimento do poder colocando o homem no centro de tudo (enfraquecendo a lei divina), relativizando a moral (desfibrando os costumes) e desenvolvendo o falso conceito da "vontade popular" regida pelas leis cuja confecção recai nas mãos do Poder. As revoluções que visavam a liberdade do povo provocaram o resultado inverso. O novo poder vai encontrar as autoridades sociais enfraquecidas, e usará a desculpa da "vontade popular" para fortalecer-se. Afinal o que é esta "vontade popular" se a sociedade não passa de um grande número de grupos com interesses heterogêneos? Ela seria expressa nas eleições, mas este é o único momento em que o indivíduo experimenta a democracia, tão logo o eleito toma posse os eleitores passam a viver numa autocracia. É verdade que o dirigente balanceará suas ambições pessoais com os projetos sociais, pois teme a revolta nas próximas eleições, mas fará uso de todo tipo de meio, como a imprensa, sistema de ensino e a indústria de entretenimento, para influenciar aquela vontade em prol dos seus interesses. Não pode mais haver democracia como a ateniense onde todos os cidadãos participavam na confecção das leis. Isso cabe aos legisladores encastelados no Poder, e as leis visarão primordialmente seus interesses pessoais e privados. Como falar em "vontade popular" se qualquer tentativa separatista é combatida violentamente e o uso de referendos é quase inexistente? Ao Poder só interessa mais poder. Sem a lei divina, o Poder vai outorgar-se o dever de criar as condições de felicidade do indivíduo, tornando-se o poder temporal e espiritual.

As grandes crises favorecem o Poder, aquela ocorrida entre as duas grandes guerras, foi um choque cultural para empregadores (a nova aristocracia) e empregados, enfraquecidos ambos buscaram proteção, a qual o Poder respondeu em troca de maior autoridade sobre eles. Esta maior autoridade se revela através de mais impostos, mais servidores e mais leis. A população se divide em libertários e securitários, tempos de crise aumentam o número destes últimos favorecendo o aumento da autoridade do Poder.

Sem mais valores espirituais, com uma moral distorcida e confusa, e em tempos de grandes transformações tecnológicas, e seus impactos nas relações de trabalho, o indivíduo se enfraquece e tem medo. E cansado de assistir a inócua luta pelo poder entre facções de iguais, receberá de braços abertos o advento do César que promete tudo por em ordem. As três regras de César são: (1) desacreditar moralmente todo aquele que tenha visão sobre a liberdade e possa trazer embaraço para o Poder; (2) criar uma nova classe capitalista sem autoridade moral, mas extremamente rica e muito acima do resto da sociedade; e (3) criar uma forte aliança política com uma grande classe de dependentes.

O livro não é um tratado normativo sobre o melhor regime, mas uma história natural descritiva e realista. Jouvenel demonstra melancolia diante do Leviatã moderno, mas reconhece a necessidade de autoridade legítima. Ele alerta que, sem freios fortes (corpos intermediários, tradição, limites morais/institucionais), o Minotauro tende ao totalitarismo.



Nota resumo de cada capítulo:

O livro divide-se em seis partes além da introdução:


  1. Metafísicas do Poder: Examina a obediência civil (por que milhões obedecem a poucos?), teorias da soberania (divina e popular) e teorias orgânicas (Hegel, etc.). A soberania popular, em particular, pode justificar arbitrariedades maiores que a divina, pois a "vontade geral" é mutável.

  2. Origens do Poder: Remete a raízes mágicas/rituais (gerontocracia primitiva) e ao advento do guerreiro/conquistador. O Estado surge frequentemente da conquista; o rei usa o povo contra os nobres e centraliza o poder.

  3. Natureza do Poder: Dialética do comando, o Poder se socializa para durar (oferece ordem, justiça, segurança), mas mantém interesses próprios. Tem caráter expansionista inerente.

  4. O Estado como revolução permanente: Revoluções e mudanças de regime não destroem o Poder; ao contrário, o fortalecem ao remover freios intermediários (como aristocracias ou corpos intermediários).

  5. O Poder muda de aspecto, mas não de natureza: Da monarquia absolutista (com burocracias permanentes) à democracia, o Poder se torna anônimo e mais invasivo.

  6. Poder limitado ou ilimitado: Analisa os mecanismos de crescimento (impostos, conscrição, guerra) e alerta para os riscos da ausência de limites efetivos.

Introdução O autor parte do poder demonstrado pelos governos de diferentes nações na GG II, de como eles conseguiram envolver toda a população no conflito, seja lutando, trabalhando e até mesmo como alvo para o inimigo. Esta foi uma novidade nunca vista na história. Nem os reis absolutistas tiveram tanto poder espiritual e material sobre seus súditos. O recrutamento compulsório e a imposição de taxas não eram nem sonhadas pelos monarcas. Os governantes de hoje são mais poderosos do que os reis de antes, e em nome de um fictício "bem comum" exercem um poder absoluto sobre a sociedade que não mais reage como outrora.


Todas as grandes promessas de libertação (Revolução Francesa, Revolução Russa, etc.) resultaram em concentração maior de Poder. O rebelde de ontem torna-se o tirano de amanhã. As ideologias de igualdade e soberania popular, em vez de limitarem o Estado, fornecem-lhe justificativas mais poderosas para intervir em todas as esferas da vida.


Jouvenel apresenta o Poder como um ser vivo, quase orgânico, com apetite próprio:


  • Minotauro mascarado: Nas democracias e regimes suaves, o Poder se disfarça de benfeitor, provedor de segurança, justiça social e bem-estar. Apresenta-se como servidor do povo.

  • Minotauro de rosto descoberto: Nos totalitarismos (nazismo, stalinismo, castrismo), mostra sua verdadeira face devoradora, exigindo sacrifícios totais (vidas, liberdades, bens) para sua própria glória e sobrevivência.


O Minotauro não é um governante específico ou um regime isolado. É o Poder enquanto tal – a autoridade central que tende a crescer, consumir recursos e subordinar a sociedade a si mesma.

Livro 1: Metafísicas do Poder

Capítulo I: Da Obediência Civil É extraordinário que milhares ou milhões de pessoas se submetam voluntariamente (ou habitualmente) às ordens e regras emanadas de um pequeno número de indivíduos. Essa obediência não se explica apenas pela força (coerção pura), pois o Poder se mantém mesmo quando a força visível diminui. Tampouco se reduz à mera participação ou contrato voluntário, pois existe em sociedades onde o povo não participa efetivamente do Poder. Medo e senso de nacionalidade também não explicam este fenômeno.


Como seres criados para viver em sociedade temos a tendência ontológica para a obediência dada por nosso senso de hierarquia. Esta obediência ainda tem duas causas: eficiente e final. A causa eficiente refere-se a legitimidade propiciada pelo processo de definição dos dirigentes (e.g. eleição), garantindo-lhes soberania. A causa final é o teórico "bem comum" que o Poder visaria. Soma-se a estas, aí sim, o poder da lei e a força para impô-lo.

Capítulo II: As Teorias da Soberania O conceito de governo soberano surge apenas no século XVII quando os monarcas, aproveitando os conflitos internos da Igreja, excluem seu papel no equilíbrio do poder. Com o tempo o Poder Divino será transladado ao Poder do Povo. Hobbes, Espinoza e Rousseau falam da total entrega do povo aos seus governantes, seja ele o rei (Hobbes), seja a aristocracia (Espinoza) ou o coletivo (Rousseau). Mas como fazer com que o Poder não usurpe a soberania da sociedade? Os elementos de controle fracassaram, seja a Igreja ou o Parlamento. E hoje estamos nas mãos do Poder e da lei do populacho (democracia definida por Aristóteles).

Capítulo III: As Teorias Orgânicas do Poder Os filósofos modernos fizeram um péssimo trabalho criando a metafísica do Poder. Acabou-se o principio de que o homem é a realidade e a sociedade apenas uma convenção. A nação passa a representar a sociedade como uma pessoa, a nação substitui o rei. A partir daí o interesse da sociedade é sobreposto ao dos homens e o Poder emerge como a consciência que vai definir a direção da sociedade. Logo depois a sociedade será vista como um organismo que cresce e se multiplica, com as partes cumprindo, cada uma, a sua tarefa para o todo. A sociedade já paira inconteste sobre os homens. E junto com o crescimento da sociedade deve crescer o Poder para assegurar seu funcionamento e alcançar o propalado "bem comum".

Livro 2: Origens do Poder

Capítulo IV: As Origens Mágicas do Poder Etimologistas apontam que a forma mais primitiva de Poder partiu das sociedades secretas que controlavam as forças ocultas (da natureza). O Poder primitivo mágico não é expansivo ou revolucionário: ele preserva a tradição, os costumes e o status quo. Sua legitimidade vem da continuidade com os ancestrais e com o sagrado. Diferentemente do Poder guerreiro (Capítulo V), que será dinâmico e conquistador, o Poder mágico é estático e protetor da ordem estabelecida.

Capítulo V: O Advento do Guerreiro O desejo de conquista (externa ou dentro do grupo) mostrou que o mais forte e não o mais "encantado" obtinha sucesso. O patriarcado nasce da guerra. Os chefes dos clãs formam uma espécie de senado que cimenta a sociedade, ao passo que o rei representa o poder militar. Ele é responsável pelas campanhas de conquista e pelas cerimônias de coesão da nação. O sucesso militar gera desigualdade: os guerreiros vitoriosos acumulam bens (terras, gado, escravos, tesouros). A aristocracia não é apenas de sangue ou coragem, mas também de riqueza (plutocracia). Essa dupla natureza (prestígio militar + econômico) consolida seu domínio. Os nobres guerreiros formam uma elite que se distingue do resto da tribo/povo.

O rei irá sobrepor-se ao senado atraindo a plebe, e ele se torna o monarca. O aparato estatal é construído para fortalecer o seu poder. Assim terminaram as repúblicas romana e grega. Quando os chefes dos clãs venciam a batalha tínhamos a república. E quando vencia o rei víamos os súditos, tal qual somos nós perante o Poder hoje.

Mesmo com o advento do guerreiro, muitos aspectos da vida social continuam regidos por costumes tradicionais (mores, folkways). O Poder ainda não é onipresente; ele se sobrepõe a uma sociedade auto-organizada por hábitos e normas não escritas.

Livro 3: Natureza do Poder

Capítulo VI: A Dialética do Comando O Poder nasce da conquista. Com o tempo o conquistador torna-se monarca olhando pelos interesses dos conquistados como forma de alcançar e manter o poder. Gradativamente a figura do rei (que unificou a imagem da nação) transforma-se na própria nação que ganha identidade própria. Os ocupantes do Poder trafegam entre seus interesses próprios e os da sociedade, pois precisam da sociedade para alcançar e manter o poder de onde vão satisfazer suas vontades próprias.

A dialética do comando revela que o Poder não é neutro nem puramente benévolo. Ele tem uma lógica interna de tensão entre egoísmo e função social. Para durar, o Poder deve oferecer algo à sociedade, mas isso não o impede de crescer e concentrar-se. Essa dialética explica a evolução histórica: de chefes guerreiros a monarquias absolutistas, e depois aos Estados modernos.


Capítulo VII: O Caráter Expansionista do Poder Este egoísmo e bem social são uma tensão própria dos governos. É da natureza da casta guerreira adorar o poder. Tudo conspira para o crescimento do Poder. O governante vê na sua vontade um reflexo da vontade popular. E o povo espera as bondades sociais do governante (Ortega y Gasset também se refere a isso). Os intelectuais sonham utopias que darão desculpas para que o Poder se fortaleça através de mais impostos, mais servidores e mais leis. O Poder tem uma tendência natural de crescimento. A alternância no poder pode inibir o fator egoísmo e suas mazelas.

Capítulo VIII: Da Rivalidade Política A guerra alimenta o Poder, e este por sua vez, na ânsia de crescer, alimenta a guerra. Poder busca expansão. Podemos viver hoje uma aparente paz, mas a guerra virá. A corrida armamentista é uma corrida para o totalitarismo (na Idade Média os aristocratas guerreavam, depois os reis contratavam mercenário e na França pós-Revolução é que surge a conscrição universal).

O crescimento do Poder não é apenas interno (egoísmo governamental, dialética do comando) ou ideológico, mas também estrutural e sistêmico, impulsionado pela anarquia internacional. A rivalidade política atua como um acelerador implacável.

Livro 4: O Estado como revolução permanente

Capítulo IX: O Poder, Agressor da Ordem Social O Poder não é um conservador da ordem social existente, mas um revolucionário permanente que ataca e dissolve os corpos e estruturas sociais intermediários para se fortalecer. Ele se aproxima da terceira (vaixás) e quarta (sudras) castas: dá segurança a terceira e promessas a quarta. Com o tempo vai deslocando as energias da quarta casta para o seu proveito, em detrimento da terceira casta. Isso sempre ocorreu ao longo da história. Quando o Poder enriquece em detrimento da terceira casta, seus membros mais ricos (enriquecidos) saem do Poder e formam uma nova terceira casta, empobrecendo o Poder. Mas este retomará o processo e recuperará o terreno perdido.

O Estado moderno é uma revolução permanente. Revoluções não destroem o Poder, elas o purificam e fortalecem ao remover os últimos obstáculos intermediários (aristocracia, Igreja, corporações, famílias fortes). Democracias aceleram esse processo ao invocar a vontade popular contra qualquer limitação.

Capítulo X: O Poder e a Plebe Se o Poder cresce às custas dos poderosos, a plebe deve ser sua eterna aliada. O Poder central (rei, Estado) e as massas populares compartilham um interesse convergente: o nivelamento e a redução dos intermediários fortes (nobreza, senhores feudais, grandes proprietários, corporações). A plebe ganha proteção contra opressões locais, mobilidade social, justiça mais imparcial (ou percebida como tal) e oportunidades de ascensão através do serviço ao Estado. E o Poder ganha instrumentos (soldados, funcionários, conselheiros, apoio popular) para quebrar resistências aristocráticas e concentrar autoridade.

Essa aliança não é ocasional: é estrutural. A paixão pelo absolutismo (concentração de Poder) conspira necessariamente com a paixão pela igualdade (contra privilégios). Jouvenel vê nisso uma constante histórica.

Na França o rei nomeou plebeus para varias funções no Poder como forma de debilitar a aristocracia fiscalizadora – na época da Revolução todo o Poder estava aparelhado pela plebe.

Capítulo XI: O Poder e as Crenças O Poder não se sustenta apenas por força ou interesse; ele depende profundamente da fé, das convicções morais e religiosas da sociedade. Quando essas crenças o limitam, o Poder é contido; quando as dissolve ou manipula, ele se expande livremente.

Não eram lideres que geriam a nação mas sim os princípios morais desta. Um país com fortes princípios automaticamente limita o raio de ação do Poder. Por isso o Poder tentará destruir estes princípios morais, e assim reinar mais livremente. No Ocidente as leis divinas foram canonizadas e as peculiaridades mundanas começaram a ser regidas e legisladas pelos homens sem estar necessariamente subjugadas às leis divinas. A lei divina pertencia a sociedade, ao povo. O Poder finge estar representando este povo para usurpar-lhe o comando e começar ele, o Poder, a legislar sobre tudo. O racionalismo, provocado pelo conhecimento de outras sociedades e leis, ataca a lei divina e abre campo para a entrada deste Poder legislador. Mais uma vez os filósofos modernos conspiram contra os homens.

As crenças fortes (religiosas, morais, costumeiras) são um dos principais diques contra a hipertrofia do Minotauro. Ao dissolvê-las, o racionalismo e o voluntarismo moderno pavimentam o caminho para o Estado moderno ilimitado seja absolutista, revolucionário ou democrático.

Livro 5: O Poder muda de aspecto, mas não de natureza

Capítulo XII: Das Revoluções As revoluções liquidam a fraqueza e produzem força: elas destroem obstáculos intermediários ao Poder central, purificam e reforçam o Minotauro, que muda de forma (de monárquica para democrática ou totalitária) mas conserva sua essência expansionista.. Ao destruir todos os comandos da sociedade, o novo Poder se livra dos seus oponentes. e a mentira do "bem comum popular" dá ao Poder a força necessária para impor a sua autoridade.

Jouvenel analisa especialmente a Revolução Francesa (1789), com paralelos à Revolução Inglesa (Cromwell) e à Revolução Russa (1917). A Revolução Francesa destrói o Antigo Regime, mas constrói um Estado mais forte: centralização jacobina, conscrição em massa, impostos mais eficazes e burocracia moderna. Ela também liberta os camponeses de certos tributos feudais, mas os obriga ao serviço militar obrigatório e ao recrutamento para guerras. Suprime as(prisões arbitrárias do rei, mas ergue a guilhotina e o Terror. Na Rússia de 1917, o bolchevismo herda e expande o aparato tzarista, criando um Poder infinitamente mais intrusivo e assassino.

Capítulo XIII: Imperium e Democracia Os ideais de justiça e liberdade da democracia não se realizaram. O legislador não faz leis para o "bem comum", mas sim visando interesses próprios ou privados. A confecção das leis não é mais dividida entre o rei e assembleia. O legislador assume a posição do rei sem oposição e fortalecido pela mentira da "vontade popular". Na Idade Média havia uma hierarquia e equilíbrio entre os poderes: Deus – primeira casta (junto com a Igreja) Rei – segunda casta Assembleia (nobres, igreja e representantes do povo) – terceira e quarta castas

Capítulo XVI: O Poder e o Direito O desmantelamento da oposição passada (hierarquia e equilíbrio) diante da dita "vontade popular" vai levar ao totalitarismo. A democracia ateniense não pode ser imitada, nela os próprios cidadãos faziam as leis. E os estados democráticos não fazem uso de referendos, pois não interessa ao Poder. Assim como são contrários aos movimentos separatistas (como fica a vontade popular?). O único caminho é a eleição. Mas como os eleitos vão saber qual a vontade geral se a sociedade nada mais é do que um amontoado de grupos com interesses conflitantes? Daí vem os lobbies, a ditadura da minoria, a manipulação das massas e da imprensa. O povo , estupidificado, pede cada vez mais do Estado e o infla em tamanho, custo e confusão. Há leis para tudo. E elas não saem do debate, mas sim das emoções do momento, dos interesses dos partidos. A sensação é de confusão e medo diante daquilo que se vê como disputa do poder. Neste instante surge o César totalitário para, sob a aceitação do povo, por ordem na casa... e instalar a tirania.

Livro 6: Poder Limitado ou Ilimitado

Capítulo XV: O Poder Limitado Poder é uma necessidade social (sem autoridade não há ordem, paz nem civilização), mas também um perigo permanente porque possui dinamismo próprio de crescimento. O Poder é um organismo vivo que tende a expandir-se. O problema não é eliminá-lo (impossível e indesejável), mas contê-lo. O equilíbrio dos poderes não é possível quando todas as forças sociais não estão representadas, e isso não é possível quando todos são recrutados da mesma fonte de "vontade popular". Jouvenel defende um Poder limitado por pluralismo social, não apenas por regras formais. Sua visão é próxima de um liberalismo aristocrático ou conservador (Tocqueville, Montesquieu, tradição medieval), que valoriza corpos intermediários como diques contra o Leviatã.

Capítulo XVI: O Poder e o Direito O pensamento moderno acabou com a lei divina que subordinava as leis feitas pelos homens. Ideias como as de Hobbes, Kant, Rousseau, dos hedonistas e utilitários transferiram totalmente a confecção das leis, sem subordinação, para o Estado ou "vontade popular". Para complica as coisas ainda mais criou-se o conceito de que a moral é algo móvel que deve adaptar-se aos tempos atuais. Com isso as leis ficaram ao sabor dos tempos, dos inquilinos do poder e das paixões. A "vontade popular" é facilmente manipulada pela mídia e as "artes" e assim o inquilinos do Poder facilmente transforma a sua vontade em lei. Cada vez mais o indivíduo perde seus direitos diante do agente do Poder. No máximo quem paga pelo abuso dos agentes é o Estado, ou seja, todos os indivíduos – impunidade que apenas incita ainda mais o abuso.

Capítulo XVII: As Raízes Aristocráticas da Liberdade Nossa liberdade ou a democracia está restrita ao ato de votar, uma vez que o eleito toma posse passamos a viver numa autocracia. Liberdade é ter a minha vontade dobrada a de ninguém, que ela guie os meus atos e seja restrita apenas pelas mais elementares e básicas regras de convívio social. É a condição que consagra a minha personalidade. A liberdade é um conceito antigo, não foi criado pelo estado moderno (muito pelo contrário). As bases da liberdade em Roma eram: responsabilidade, ritos e costumes. E esta ultima era cultivada pela honra aos ancestrais, uma educação rígida e uniforme, e uma conduta exemplar aos mais jovens. Conforme a plebe ascende em Roma as leis se multiplicam e o sistema rui. As diferenças econômicas se ampliam e os interesses não são mais os mesmos. O Poder se fortalece como a salvaguarda do pobre diante do rico. Advém o César, e ele tem três regras: (1) desacreditar moralmente todo aquele que tenha visão sobre a libertada e possa trazer embaraço para o Poder; (2) criar uma nova classe capitalista sem autoridade moral mas extremamente rica e muito acima do resto da sociedade; e (3) criar uma forte aliança política com uma grande classe de dependentes.

Capítulo XVIII: Liberdade ou Segurança O contrato social moderno é uma submissão voluntária em troca de segurança: o indivíduo entrega liberdades ao Estado em troca de proteção, previdência e bem-estar. Diferentemente do contrato liberal clássico (que limitava o Estado), este novo pacto expande-o indefinidamente.. Isso aconteceu no feudalismo com os servos se protegendo junto aos barões, e com os intelectuais se refugiando na Igreja depois da queda de Roma. Podemos dividir a população entre libertários e securitários. Um povo desfibrado tende a estes últimos. A decadência da aristocracia desfibrou-a. A crise pós-GG I, a transformação da aristocracia em capitalistas, tudo levou a formação de um grande contingente de securitários. Em troca da desejada (e falsa) segurança o Poder vai demandar uma autoridade nunca antes vista. Sem a existência de uma vida espiritual, o Poder vai outorgar- se o dever de trazer a felicidade ao povo, unindo em sua "pessoa" o poder espiritual e temporal.

Capítulo XIX: Ordem ou Protetorado Social As transformações sociais trazidas pelas inovações tecnológicas (impacto nas relações de trabalho) tornou nebuloso o senso de conduta. As autoridades sociais não estavam fortalecidas para orientar sobre as necessárias mudanças. Sem a lei divina, as novas normas orientadas pelo Poder, sob o signo das idéias cientificistas, serão pálidas / deturpadas e favorecerão a tirania




O que vemos hoje (nota pessoal – escrita em 2007)

  1. As religiões judaico-cristãs são ferozmente combatidas. Acreditar em Deus e nos seus mandamentos é classificado quase como coisa de fanáticos.

  2. Os conceitos de moral seguem sendo esfacelados. A partir dos anos 60 o ataque aos costumes se intensificou: sexo livre (estimulado pela popularização dos métodos anticoncepcionais), aborto, feminismo, derrocada do casamento, homossexualismo, ridicularizarão dos tipos sanguíneos, valorização das efeminadas normas "politicamente corretas", valorização descabida dos jovens e descrédito dos velhos, pais querendo ser amigo dos filhos, adultos que querem parecer jovens, etc.

  3. Livros, filmes e músicas se fartam de nos empurrar códigos morais flácidos, quando não diabólicos.

  4. A imprensa também nos tenta empurrar os novos códigos de conduta. E distorcem a verdade em favor de interesses privados. A verdade relativiza-se num jogo que favorece ao Poder.

  5. Países já vivendo sob o estado totalitário, como China, Cuba, Coréia do Norte e, cada vez mais, a Venezuela, e outros onde o Estado assume proporções inviáveis como demonstra agora o amargo despertar do sonho socialista na Europa (Portugal, Itália, Espanha, Grécia).

No Brasil não há nenhum equilíbrio entre os poderes. Judiciário faz o jogo do Executivo que nomeia seus integrantes e o Legislativo segue as ordens daquele em troca de verbas e cargos. A Igreja está esfacelada: multiplicam-se as igrejas evangélicas e a Teologia da Libertação ataca o cristianismo por dentro. Os empresários tornam-se cúmplices do governo em busca de benesses diante de um cruel sistema fiscal. Os intelectuais destroem tudo o que tocam: transformaram as escolas e universidades em centros de doutrinação ideológica; nos meios de entretenimento vomitam os piores hábitos e condutas possíveis e na imprensa colocam a ideologia ou os interesses financeiros em detrimento da verdade. O PT segue a receita dos Césares: desqualifica violentamente os defensores das tradições, constrói os novos capitalistas (Oi, Eike Batista, JBS, etc) e cria seus eleitores cativos com o Bolsa Família e os movimentos ditos sociais (e se estes falharem, manipulam a urna eletrônica).

Qual a solução? (nota pessoal – escrita em 2007) Nenhuma. Esta civilização irá ao fundo do poço, com o Brasil puxando a fila. Os cenários pintados nas distopias 1984 e, principalmente, Admirável Mundo Novo parecem cada vez mais próximos. E das cinzas renascerá a lei divina. Sob o manto dos valores espirituais será resgatada a hierarquia de valores morais e funções ontológicas do homem. Haverá equilíbrio entre as castas e a sociedade refletirá este equilíbrio nas suas relações de poder. Até tudo deteriorar-se novamente – ciclos cósmicos.





Notas


  • Bertrand de Jouvenel (1903–1987) nasceu em Paris, França.

  • Filósofo político, economista, ensaísta e pensador francês, considerado um dos mais importantes teóricos do poder do século XX.

  • Na juventude, Jouvenel posicionou-se à esquerda, depois flertou brevemente com a direita radical nos anos 1930, desencantado com a decadência da democracia francesa. Durante a Segunda Guerra Mundial, participou da Resistência Francesa e, para escapar da ocupação nazista, refugiou-se na Suíça, onde escreveu sua obra-prima O Poder: História Natural de seu Crescimento (Du Pouvoir, 1945)

  • Outras obras importantes: De la Souveraineté (1955), L’Éthique de la Redistribution (1951), L’Art de la Conjecture (1964) – nesta última, considerada um dos fundadores da futurologia moderna.

  • O Minotauro é uma metáfora daquilo que o homem gera de monstruoso quando viola limites (morais, naturais ou divinos). Representa a bestialidade latente na civilização, o poder opressor que devora os seus, e a necessidade de confrontar o monstro interior para alcançar a liberdade (como faz Teseu). No contexto moderno, especialmente após Jouvenel, tornou-se um símbolo clássico do Estado devorador – um poder que promete proteção mas exige cada vez mais sacrifícios de liberdade, recursos e autonomia.

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