O Homem Eterno de G. K. Chesterton

“There are two ways of getting home, and one of them is to stay there.” – G. K. Chesterton, o homem precisa redescobrir o cristianismo
O autor procura reconsiderar toda a história humana a partir de duas singularidades que são frequentemente obscurecidas pelas interpretações materialistas, evolucionistas ou relativistas da história: primeiro, a singularidade do homem em relação aos demais animais; depois, a singularidade de Jesus Cristo em relação aos demais homens e do cristianismo em relação às demais religiões – O Homem Eterno é uma filosofia da história e uma defesa do cristianismo. Seu objetivo é mostrar que, quando se observa a história de certa distância, aquilo que muitas explicações modernas apresentam como etapas naturais de uma evolução contínua revela, na realidade, rupturas extraordinárias. O homem não aparece simplesmente como mais um animal e Cristo não aparece simplesmente como mais um fundador religioso.
Existe uma tendência equivocada de reconstruir o homem primitivo a partir de hipóteses que acabam sendo apresentadas como fatos. Temos fósseis, instrumentos, pinturas rupestres e outros vestígios, mas não possuímos acesso direto à psicologia dos homens pré-históricos. Por isso, é preciso distinguir aquilo que efetivamente sabemos das conjecturas modernas projetadas sobre eles. E aquilo que sabemos aponta para um fenômeno extraordinário: quando encontramos sinais inequivocamente humanos, encontramos arte, simbolismo e consciência. O homem da caverna não é interessante simplesmente porque caça animais; outros animais também caçam. É interessante porque desenha os animais que caça. A pintura rupestre constitui, assim, um dos grandes símbolos da diferença entre homem e animal: um animal pode fazer parte da natureza, mas somente o homem parece capaz de afastar-se mentalmente dela, contemplá-la e representá-la.
Essa diferença nos força a rejeitar a ideia de que o homem possa ser adequadamente compreendido apenas como um animal mais desenvolvido. Pode existir continuidade biológica entre o homem e outras formas de vida, mas a questão decisiva é a descontinuidade espiritual. O aparecimento do homem significa o aparecimento de um ser capaz de produzir arte, religião, moralidade, linguagem simbólica, instituições e reflexão sobre si mesmo. A verdadeira questão não é simplesmente quando determinado organismo adquiriu determinada forma anatômica, mas quando surgiu esse ser extraordinário capaz de perguntar pelo sentido do universo – o homem é uma ruptura na história natural.
A questão torna-se ainda mais evidente com os primeiros registros históricos. As primeiras civilizações conhecidas já aparecem extraordinariamente complexas. Egito, Mesopotâmia e outras sociedades antigas possuem cidades, templos, governos, sacerdócios, artes, mitologias, famílias e sistemas morais. A história não começa mostrando uma lenta progressão perfeitamente documentada desde uma sociedade quase animal até a civilização. Quando a luz documental se acende, o homem já está civilizado. Por isso é preciso ter cuidado com as grandes teorias que pretendem reconstruir com excessiva segurança estágios sociais anteriores dos quais possuímos pouquíssimas evidências.
A interpretação segundo a qual todas as religiões seriam essencialmente variações equivalentes de um mesmo fenômeno também é problemática. A chamada religião comparada frequentemente aproxima coisas profundamente diferentes simplesmente porque todas recebem o nome de religião. É preciso distinguir, sobretudo, três fenômenos: (a) a ideia de um Deus supremo, encontrada sob diferentes formas entre diversos povos, (b) as mitologias politeístas, e (c) as formas obscuras de culto ligadas à magia, ao sacrifício humano e ao demoníaco. Essas realidades podem coexistir historicamente, mas não possuem necessariamente a mesma origem nem o mesmo significado.
Os mitos não são simplesmente explicações científicas primitivas e equivocadas da natureza. São mormente produtos da imaginação poética. O paganismo mitológico exprime o encantamento do homem diante do mundo. Os deuses das mitologias são personagens de uma grande poesia coletiva por meio da qual os povos tentaram dar forma às experiências do amor, da guerra, da fertilidade, do mar, das estações e do destino. Nesse sentido, existe algo genuinamente humano e até mesmo nobre no paganismo. O erro moderno consiste tanto em acreditar literalmente demais nos mitos quanto em desprezá-los como simples superstições. É necessário compreendê-los poeticamente.
Entretanto, o paganismo também possuía um lado sombrio. É necessário distinguir a fantasia relativamente inocente das mitologias de determinadas religiões caracterizadas por práticas cruéis e sacrifícios humanos. Essa oposição aparece de maneira dramática nas guerras entre Roma e Cartago. Cartago, associada ao culto de Moloque e aos sacrifícios humanos, representa uma espécie de perversão religiosa, enquanto Roma, apesar de todos os seus defeitos, representa uma ordem humana ainda capaz de sustentar uma civilização. A vitória romana adquire, assim, significado muito maior do que uma simples disputa econômica ou geopolítica, tendo sido um dos grandes confrontos espirituais da Antiguidade.
Paralelamente à mitologia popular desenvolve-se a filosofia. Os gregos começam a procurar racionalmente a verdade por trás das aparências e das histórias dos deuses. Sócrates, Platão e Aristóteles representam uma elevação extraordinária da razão humana. A filosofia consegue aproximar-se intelectualmente da ideia de uma realidade transcendente e de uma ordem racional do universo. Mas também encontra seus limites. A filosofia pode procurar a verdade, mas não consegue, por si só, transformar a condição humana. Enquanto os filósofos avançam intelectualmente, a religião popular começa a degenerar, e o mundo antigo entra progressivamente em estado de enfraquecimento espiritual.
É nesse contexto que ocorre o esgotamento da civilização pagã. Roma havia reunido grande parte do mundo conhecido, criado instituições, leis e estradas, e absorvido culturas e religiões diversas. Contudo, justamente quando alcança enorme poder material, o mundo mediterrânico parece espiritualmente envelhecido. As antigas mitologias já não possuíam a vitalidade original, a filosofia não conseguiu se tornar uma religião popular, e as religiões orientais e os cultos de mistério multiplicaram-se como sinais de uma procura por algo que a civilização existente já não consegue oferecer. A humanidade parecia ter chegado ao limite de suas próprias possibilidades.
Se a primeira história humana começa simbolicamente com o homem das cavernas, a segunda começa com o nascimento de Cristo numa gruta em Belém. O nascimento de Cristo representa uma nova criação – o Criador entra na própria criação, o infinito torna-se criança, aquele que fez o mundo passa a fazer parte do mundo. O cristianismo começa, portanto, não como uma teoria abstrata, mas com o mais desconcertante dos paradoxos: Deus feito homem.
Para compreender a singularidade de Cristo é preciso ler os Evangelhos como se fossem encontrados pela primeira vez, deixando de lado tanto a familiaridade dos cristãos quanto os preconceitos dos críticos. Quando isso é feito, Jesus dificilmente pode ser reduzido à figura convencional de um mestre moral suave e previsível. O Cristo dos Evangelhos é simultaneamente misericordioso e exigente, próximo e misterioso. Pronuncia palavras de extraordinária ternura e outras de enorme severidade. Fala com uma autoridade que ultrapassa aquela de um simples filósofo. Não aparece apenas ensinando uma doutrina sobre Deus, mas coloca a própria pessoa no centro da questão religiosa.
Essa característica torna inadequada a tentativa de colocar Jesus simplesmente ao lado de Buda, Confúcio, Sócrates ou outros grandes mestres. Estes podem indicar um caminho, ensinar uma filosofia ou transmitir uma sabedoria; Cristo faz afirmações sobre si mesmo que transformam a identidade daquele que fala numa parte inseparável da mensagem. O cristianismo não pode, portanto, ser reduzido simplesmente à coleção dos ensinamentos morais de Jesus. A questão central é quem é Jesus.
A Paixão e a Crucificação enfatizam o paradoxo de uma religião cujo Deus experimenta não apenas sofrimento e morte, mas também, no momento extremo da Paixão, a experiência humana do abandono. O cristianismo contém, assim, uma concepção extraordinariamente dramática da relação entre Deus e o sofrimento humano. A Crucificação parece representar a derrota absoluta; contudo, é justamente dessa derrota que surge a vitória cristã. A Ressurreição converte o túmulo no ponto de partida de uma nova história.
Abordando a Igreja e as heresias, Chesterton não considera as controvérsias doutrinárias dos primeiros séculos discussões inúteis sobre detalhes abstratos. Tratavam da preservação de um equilíbrio extremamente delicado. O cristianismo precisava afirmar simultaneamente verdades que pareciam contraditórias: Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; o mundo criado é bom, mas está ferido pelo pecado; o corpo possui dignidade, mas não deve dominar o espírito; o homem possui liberdade, mas necessita da graça. As heresias geralmente surgem quando uma dessas verdades é exagerada em detrimento das demais. A ortodoxia, portanto, não seria uma simplificação estreita, mas a conservação de um equilíbrio complexo.
Esse argumento conduz ao tema da capacidade do cristianismo de preservar simultaneamente ideias aparentemente opostas. Ele pode ser ascético sem condenar a criação, valorizar o corpo sem cair no materialismo, defender a razão sem reduzir tudo ao racionalismo e exaltar a humildade sem negar a dignidade humana – essa tensão constitui uma das razões da extraordinária vitalidade histórica do cristianismo.
A expansão cristã também representa uma verdadeira fuga do paganismo. O mundo antigo não abandonou simplesmente uma religião jovem para abraçar outra semelhante. Abandonou uma civilização religiosa que havia chegado à exaustão. O cristianismo ofereceu uma renovação da própria percepção do mundo. A natureza, depois de ter sido divinizada pelo paganismo, podia voltar a ser simplesmente natureza – e justamente por isso podia novamente ser contemplada com admiração. O cristianismo teria libertado o homem tanto do medo dos poderes naturais quanto da obrigação de adorá-los.
Uma das características mais extraordinárias da religião cristã seria sua repetida capacidade de sobreviver a momentos nos quais parecia definitivamente derrotada. O cristianismo atravessou perseguições, crises internas, decadências institucionais, transformações culturais e revoluções intelectuais que pareciam anunciar seu desaparecimento. Repetidamente, seus adversários anunciaram sua morte, e repetidamente, ele reapareceu com nova vitalidade. Essa capacidade de ressurreição histórica está relacionada ao próprio centro simbólico da fé cristã: uma religião fundada sobre um Deus que morre e ressuscita parece possuir, também historicamente, uma estranha capacidade de retornar do túmulo.
Duas grandes teses estruturam toda a obra. O primeiro acontecimento extraordinário da história é o aparecimento do homem. Não basta dizer que surgiu um animal mais inteligente: surgiu um ser que pinta, reza, filosofa, cria mitos, estabelece leis e contempla o universo. O segundo acontecimento extraordinário é o aparecimento de Cristo. Não basta dizer que surgiu mais um mestre religioso: apareceu alguém cuja pessoa e mensagem produziram uma ruptura incomparável na história religiosa do mundo.
Chesterton combate principalmente a tendência moderna de apagar essas rupturas mediante explicações que transformam tudo numa evolução gradual e homogênea – olhar verdadeiramente para a história significa recuperar a capacidade de espanto diante daquilo que aconteceu. O homem é surpreendente porque não se comporta simplesmente como um animal, Cristo é surpreendente porque não se comporta simplesmente como um homem, e o cristianismo é surpreendente porque não se comporta simplesmente como mais uma religião histórica.
É necessário afastar-se intelectualmente da própria civilização para conseguir enxergá-la novamente. Estamos tão habituados ao cristianismo e às categorias culturais que dele derivaram que já não percebemos sua estranheza. É como alguém que vive junto de uma enorme figura desenhada numa montanha e, estando perto demais, vê apenas fragmentos dela. É necessário dar a volta ao mundo para finalmente reconhecer a própria casa. O Homem Eterno procura fazer com que o leitor atravesse a pré-história, as primeiras civilizações, as mitologias, a filosofia grega, Roma e o esgotamento do paganismo para retornar ao cristianismo como se o encontrasse pela primeira vez.
A mensagem fundamental da obra é que o cristianismo não deve ser compreendido como o resultado previsível de uma evolução religiosa, mas como uma irrupção inesperada na história. Da mesma forma que o homem introduz algo radicalmente novo no mundo natural, Cristo introduz algo radicalmente novo no mundo humano. Por isso, a história não é simplesmente uma marcha contínua do primitivo ao moderno. Ela é marcada por acontecimentos que rompem as categorias anteriores e obrigam o homem a reconsiderar sua própria condição. O maior deles é o acontecimento cristão: o momento em que Deus, que estava além do universo, entrou na história como homem, morreu dentro dela e, ressuscitando, transformou para sempre o significado da aventura humana.
Notas
G. K. Chesterton (1874-1936) nasceu em Londres, Inglaterra.
Escritor, ensaísta, jornalista, crítico literário e apologista cristão. Dotado de um estilo marcado pelo paradoxo, humor e argumentação dialética, escreveu sobre religião, filosofia, política, história, literatura e questões sociais, além de poesia e ficção.
Escreveu centenas de livros, destacando-se os ensaios Hereges (1905), Ortodoxia (1909), O que Há de Errado com o Mundo (1910), São Francisco de Assis (1923), Santo Tomás de Aquino (1933), Eugenia e Outros Males (1922), A Nova Jerusalém (1920) e Autobiografia (1936); bem como os romances O Homem que Foi Quinta-Feira (1908), A Esfera e a Cruz (1910), O Napoleão de Notting Hill (1904) e a série de contos policiais protagonizada por Padre Brown.
O Homem Eterno foi publicado em 1925.
O homem compartilha cerca de 99% das bases do DNA de um chimpanzé – prova do quão pouco a ciência consegue explicar o fenômeno humano.


