Libido Dominandi de E. Michael Jones

“Sexual liberation is a form of control.” – E. Michael Jones, dominar o homem por meio das paixões que já o dominam
A libertação sexual, apresentada pela modernidade como emancipação do indivíduo, converteu-se historicamente num dos instrumentos mais eficientes de controle do indivíduo – a racionalização do vício sexual conduz à sua exploração econômica e, finalmente, à sua mobilização como instrumento de controle político.
Segundo a antropologia agostiniana existe uma relação íntima entre liberdade moral e domínio das paixões: o homem que não governa seus apetites acaba governado por eles. O paradoxo aqui apresentado consiste precisamente nisso: aquele que procura dominar os outros frequentemente está, ele próprio, dominado pelas paixões que utiliza para controlar os demais. Jones recorre à oposição agostiniana entre a Cidade de Deus e a cidade terrena para formular esse princípio pois esta última é marcada simultaneamente pelo desejo de dominar e pela submissão às próprias paixões.
Na tradição cristã representada por São Paulo e Santo Agostinho, liberdade significa, em última análise, não ser escravo das paixões. A modernidade revolucionária progressivamente inverteu essa definição: liberdade passou a significar o direito de satisfazer os desejos. Porém, essa inversão contém uma contradição: quanto mais o homem identifica sua liberdade com a satisfação dos apetites, mais previsível se torna seu comportamento; e quanto mais previsível seu comportamento, mais facilmente pode ser manipulado por quem controla os estímulos capazes de despertar esses apetites. O indivíduo acredita defender sua liberdade quando defende seus desejos, sem perceber, que esses desejos podem ser estimulados e dirigidos externamente.
Uma sociedade tradicional procura formar o indivíduo para que governe racionalmente suas paixões, enquanto uma sociedade que rejeita essa moral não elimina a necessidade de ordem social, mas simplesmente transfere o mecanismo de controle. Se o indivíduo deixa de governar seus desejos por meio de uma disciplina moral interior, alguém terá de administrar as consequências sociais desses desejos exteriormente: libertação das paixões → desordem → necessidade de controle → aperfeiçoamento das técnicas de manipulação. Esta é uma dialética recorrente das revoluções modernas: proclama-se liberdade, dissolve-se uma estrutura moral e, diante das consequências, introduzem-se novos mecanismos de controle.
A concepção mecanicista do universo adotada no Iluminismo foi progressivamente aplicada ao homem. Se o universo podia ser explicado mediante forças físicas, o comportamento humano também poderia ser interpretado mediante forças naturais – sobretudo paixões, interesses e desejos. A consequência política dessa antropologia seria decisiva: se conhecemos as paixões que movem alguém, podemos aprender a governá-lo por meio delas. A história da revolução sexual é também uma história da psicologia moderna e da guerra psicológica.
Um dos primeiros personagens centrais desta história é Adam Weishaupt (1748-1830), fundador dos Illuminati da Baviera, particularmente com relação ao seu método de controle psicológico: a Seelenspionage ou "espionagem da alma". Trata-se de informações sobre caráter, ambições, fraquezas, relações pessoais e paixões dos integrantes sistematicamente recolhidas para permitir aos superiores compreender e dirigir seus subordinados – uma antecipação de formas posteriores de controle psicológico e burocrático.
O conhecimento da interioridade permite o poder sobre a pessoa – conhecer intimamente alguém permite encontrar os mecanismos pelos quais essa pessoa pode ser dirigida. O controle mais eficiente, portanto, não é necessariamente aquele que obriga alguém pela força. É aquele que leva a pessoa a agir espontaneamente da maneira desejada pelo controlador, convencida de que está seguindo sua própria vontade.
O Marquês de Sade (1740-1814) assume importância particular nessa genealogia, não como pornógrafo, mas como pensador que levou às últimas consequências uma antropologia materialista. Se não existe uma ordem moral objetiva inscrita na natureza e se os desejos são simplesmente manifestações naturais, desaparece o fundamento racional para distinguir liberdade de licença. A força passa então a ocupar o lugar anteriormente reservado à lei moral. A libertação absoluta dos desejos pode, paradoxalmente, produzir a dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. Sade atribui a força das paixões um significado moral oposto ao agostiniano.
Sigmund Freud (1856-1939) faz a ponto com o Iluminismo: aquilo que a tradição clássica entendia como paixões ou apetites passa a ser investigado como forças inconscientes capazes de determinar o comportamento. Essa transformação tem uma dimensão política: quem conhece os mecanismos interiores que movem o indivíduo adquire também a possibilidade de influenciá-lo.
Freud também desenvolveu um sistema comercial da relação confessional: o paciente revela sua vida interior ao analista, mas, diferentemente da confissão cristã – cujo objetivo seria libertar o homem do pecado –, a terapia freudiana simula remover a culpa associada à transgressão. O terapeuta não apenas passa a deter conhecimento privilegiado da intimidade do paciente, como garante a continuidade do drama (e das consultas) apenas camuflando o sentimento de culpa que segue latente.
Wilhelm Reich (1897-1957) ocupa posição fundamental na transformação explícita da revolução sexual em estratégia de revolução cultural. Se a moral religiosa depende do autocontrole sexual, argumentava Reich, transformar os hábitos sexuais significa enfraquecer a estrutura psicológica que sustenta aquela moral. Reich percebeu algo politicamente decisivo: mudar primeiro o comportamento pode ser mais eficiente do que convencer intelectualmente. Uma pessoa levada a viver de maneira incompatível com determinada moral tenderia posteriormente a procurar ideias que legitimassem sua conduta. Assim, a revolução dos costumes poderia preceder e preparar a revolução das ideias.
Outra figura decisiva é Alfred Kinsey (1894-1956). Suas falsificadas pesquisas sobre comportamento sexual transformaram determinadas práticas em estatísticas, estas depois utilizadas para redefinir o conceito de normalidade. A questão epistemológica é importante para o argumento geral: aquilo que inicialmente é descrito como comportamento existente pode, quando apresentado como cientificamente normal, tornar-se prescrição cultural. A ciência sexual adquiriria assim capacidade de modificar o próprio comportamento que afirma simplesmente observar.
Edward Bernays (1891-1995), sobrinho de Freud e pioneiro das relações-públicas, deu continuidade ao trabalho do tio fazendo a passagem do conhecimento psicanalítico do indivíduo para as massas. Bernays interessou-se pela ideia de que impulsos inconscientes e símbolos poderiam explicar o comportamento e empregou essas concepções no campo da publicidade e da formação da opinião pública.
Assim a publicidade também teve papel fundamental: paixões podem ser convertidas em consumo. O desejo sexual torna-se uma maneira de vender produtos que nada têm diretamente a ver com sexo – se imagens podem associar desejos a produtos, também podem associar desejos a estilos de vida, valores e posições culturais. A técnica comercial converte-se potencialmente em técnica política. O homem que imagina estar simplesmente escolhendo pode estar reagindo a estímulos deliberadamente construídos para provocar determinada resposta.
Nos séculos XIX e XX ocorre a secularização e o aperfeiçoamento dessas técnicas – psicanálise, psicoterapia, behaviorismo, propaganda, publicidade, educação sexual, pornografia, pesquisas sobre sexualidade e técnicas de dinâmica de grupo são diferentes etapas da descoberta de que o comportamento pode ser alterado pela manipulação de desejos, imagens e estímulos. Aquilo que começa como teoria psicológica pode tornar-se tecnologia de reengenharia social.
Essas teorias passaram a impregnar instituições, universidades, meios de comunicação e decisões jurídicas – mudanças na legislação sobre obscenidade, contracepção e aborto e interpreta decisões judiciais do período são parte dessa transformação cultural. Roth v. United State (1957), Griswold v. Connecticut (1965) e Roe v. Wade (1973) foram a institucionalização jurídica da revolução sexual.
Por isso, a pornografia ocupa posição central neste processo – ela não é apenas um problema moral. A pornografia é uma tecnologia particularmente eficiente de condicionamento porque reúne três características: intensidade do estímulo, possibilidade de repetição e capacidade de produzir comportamento compulsivo. A tecnologia moderna amplia progressivamente seu alcance: fotografia, cinema, vídeo e finalmente Internet tornam os estímulos cada vez mais disponíveis. A pornografia transforma a compulsão primeiro em exploração financeira e depois potencialmente em instrumento de controle.
Quando o autocontrole, a castidade, a modéstia ou a fidelidade são reinterpretados como repressão, remove-se aquilo que ele considera a primeira defesa do indivíduo contra a manipulação: a capacidade racional de dizer não ao próprio desejo. O resultado é o indivíduo que se considera mais livre justamente quando se torna mais dependente dos estímulos externos.
A liberdade clássica pressupõe autogoverno: é livre aquele que consegue governar a si próprio. A liberdade revolucionária seria progressivamente redefinida como ausência de impedimentos à satisfação dos desejos. Mas, se desejo e liberdade se tornam praticamente sinônimos, qualquer agente capaz de produzir ou dirigir desejos passa também a exercer poder sobre as escolhas do indivíduo. A aparente emancipação transforma-se em heteronomia.
A verdade pública ou exotérica afirma que libertação sexual é liberdade; a lógica operacional ou esotérica, em sua interpretação, reconhece que a libertação das paixões facilita o controle, porque pessoas dominadas por compulsões podem ser mais facilmente estimuladas, comercialmente exploradas, constrangidas ou mobilizadas politicamente.
Assim, o livro é uma reflexão sobre a natureza do poder moderno. O antigo poder soberano ordenava: “faça isto”. O poder moderno procura fazer algo muito mais sofisticado: levar o indivíduo a querer fazer aquilo que interessa ao sistema, acreditando simultaneamente que esse desejo constitui a expressão mais autêntica de sua personalidade. Nesse sentido, a manipulação é mais eficiente que a coerção porque elimina a consciência da submissão.
Fenômenos aparentemente tão diferentes – Illuminati, Sade, psicologia, Freud, Reich, Kinsey, propaganda, publicidade, pornografia, educação sexual e cultura de massas – apresentam uma continuidade de princípio: o desenvolvimento progressivo de conhecimentos e técnicas capazes de identificar, estimular e explorar as paixões humanas para produzir determinados comportamentos.
Libido Dominandi apresenta uma grande genealogia da modernidade sexual:

O homem que confunde liberdade com satisfação dos desejos torna-se progressivamente governável por quem consegue governar seus desejos. Logo, a verdadeira oposição não é, simplesmente entre repressão e libertação sexual, mas entre autodomínio e domínio externo. Quando desaparece o primeiro, cresce necessariamente o espaço para o segundo. É por isso que a expressão agostiniana libido dominandi é tão apropriada: a paixão desordenada não apenas domina aquele que a possui, ela também fornece a outros os meios pelos quais ele poderá ser dominado.
A liberdade política começa pelo governo de si, porque aquele que não consegue governar a si próprio acaba oferecendo suas paixões como instrumentos a quem deseja governá-lo.
Os experimentos morais soviéticos constituem um relevante exemplo da tese do autor: uma revolução que pretende substituir a moral tradicional pela liberação das paixões acabaria produzindo desordem social e, em seguida, provocando uma reação de controle estatal muito mais severo.
Depois da Revolução de 1917, os bolcheviques não pretendiam apenas modificar a propriedade e a organização econômica, mas pretendiam também transformar instituições consideradas produtos da sociedade burguesa, especialmente o casamento, a família e a moral sexual. Lenin nomeou a proto-feminista Alexandra Kollontai (1872-1952) como comissária do Bem-Estar Social, e já em dezembro de 1917 o novo regime facilitou e legalizou amplamente o divórcio com Kollontai posicionando-se como uma das principais defensoras de uma nova moralidade sexual.
O objetivo era retirar da moral sexual seu caráter objetivo: monogamia, fidelidade, autoridade familiar e obrigações conjugais passaram a ser interpretadas como produtos históricos da sociedade de classes – estes valores tradicionais, assim como a responsabilidade pela prole, deixariam de possuir autoridade moral.
Quando começaram a aparecer os primeiros resultados – desagregação familiar, abandono de mulheres e crianças, prostituição, doenças venéreas e enormes problemas envolvendo menores desamparados – Kollontai sustentou que se tratava das inevitáveis perturbações de uma fase de transição e que a solução seria avançar ainda mais na construção da nova moral.
Em 1922 já havia centenas de milhares de órfãos, as doenças venéreas haviam alcançado proporções epidêmicas, e a prostituição era maior do que sob o czar. A libertação formal dos vínculos tradicionais não libertou as mulheres, pois relações facilmente dissolúveis permitiram que homens abandonassem mulheres com filhos, transferindo as consequências da liberdade sexual para mães, crianças e, finalmente, para o Estado – a destruição das obrigações familiares privadas aumentou a necessidade de assistência e intervenção públicas.
Durante o debate matrimonial de 1926, Kollontai continuou defendendo a nova moral sexual, mas sua posição estava perdendo influência. Mas os dirigentes soviéticos começaram a perceber determinadas formas de promiscuidade, instabilidade familiar e abandono infantil não como avanços revolucionários, mas como problemas para a organização da sociedade. Não podendo simplesmente restaurar a moral cristã que haviam rejeitado, os comunistas passaram a justificar restrições sexuais em linguagem marxista e produtivista: a energia desperdiçada em excessos sexuais deveria ser empregada na construção socialista.
Na década de 1930, Wilhelm Reich, então em visita a URSS, ficou consternado ao perceber o abandono progresso das políticas que ele admirava. O regime começara a condenar a masturbação juvenil, valorizar publicamente o amor estável e o casamento e proibir o aborto.
O paradoxo é evidente: a ordem que anteriormente dependia em grande medida de autocontrole, costumes, religião e instituições familiares acaba sendo substituída, depois de sua dissolução, por uma ordem imposta pelo Estado – a libertação das paixões em relação à lei moral tradicional acaba exigindo que essas mesmas paixões sejam submetidas a alguma outra forma de controle.
Notas
Eugene Michael Jones (1948- ) nasceu na Filadélfia (PA), USA.
Escritor, ensaísta, jornalista e polemista católico, conhecido sobretudo por seus estudos sobre a relação entre religião, moral sexual, cultura, psicologia e poder político. É fundador e editor da revista Culture Wars.
Dentre seus muitos livros, constam os mais conhecidos Degenerate Moderns: Modernity as Rationalized Sexual Misbehavior (1993), Dionysos Rising: The Birth of Cultural Revolution out of the Spirit of Music (1994) e The Jewish Revolutionary Spirit and Its Impact on World History (2008).
Libido Dominandi: Libertação Sexual e Controle Político foi publicado em 1999.
Libido dominandi é uma expressão latina que significa, literalmente, “desejo de dominar”, ou mais livremente “paixão pelo domínio” ou “ânsia de poder”. Libido aqui não significa especificamente desejo sexual, como no uso moderno popularizado pela psicanálise, mas significa desejo, impulso ou paixão intensa. Dominandi vem de dominari, “dominar”, “senhorear”. O termo é tirado de Cidade de Deus de Santo Agostinho.
Freud escolheu a seguinte epígrafe para seu livro A Interpretação dos Sonhos: "Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo." (“Se não posso dobrar os poderes superiores, moverei o Aqueronte”) – é o id freudiano como uma reformulação moderna daquilo que a tradição clássica chamava de paixões ou apetites – a novidade estava em fazer dessas forças subterrâneas (infernais) não apenas algo a compreender, mas algo que poderia ser mobilizado.
Freud disse a Sándor Ferenczique (1873-1933), proeminente psicanalista húngaro e um dos seus colaboradores mais próximos, que pacientes eram “apenas bons para ganhar dinheiro e para estudar, certamente não podemos ajudá-los.” Em uma carta de 1890 a Wilhelm Fliess (1858-1928), Freud recusou uma visita a Berlim porque sua principal paciente estava atravessando uma crise nervosa e, durante sua ausência, “poderia ficar boa”. Em seus momentos mais sinceros com seu amigo e confidente Wilhelm Fliess, Freud se refere aos pacientes como “peixinho” e "negros", deixando bem claro que a psicanálise era uma forma de controle psíquico para o benefício financeiro do analista. Os episódios citados acima são apenas três de inúmeros documentados casos semelhantes.
Para Santo Agostinho, a concupiscência não é apenas um problema de desordem sexual. Ela é uma desordem do amor e da vontade que repercute sobre a própria inteligência. O pecado não elimina a razão, mas enfraquece sua capacidade de julgar retamente porque a vontade, atraída pelos bens inferiores, passa a pressionar o intelecto para que este justifique aquilo que ela deseja. A inteligência reconhece o verdadeiro e o bem, a vontade adere ao bem conhecido, e as paixões são ordenadas pela vontade racional; com a concupiscência, essa hierarquia tende a inverter-se, ou seja, o homem começa desejando alguma coisa; sua vontade consente com o desejo, e então a inteligência passa a ser utilizada para encontrar razões que legitimem aquilo que já se decidiu desejar.Em termos políticos, se a concupiscência enfraquece o autodomínio e pode colocar a inteligência a serviço da racionalização dos desejos, quem consegue estimular e dirigir esses desejos adquire poder sobre o indivíduo. Além disto o indivíduo concupiscente têm maior dificuldade de apreender a realidade.


