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Krzysztof Kieslowski (1941-1996)


To tell you the truth, in my work, love is always in opposition to the elements. It creates dilemmas. It brings in suffering. We can’t live with it, and we can’t live without it. You’ll rarely find a happy ending in my work. – Krzysztof Kieslowski


Politicamente ativo na luta por uma Polônia mais democrática, Kieslowski expressou muitas de suas ideias obliquamente em seus filmes. Na sequência ele desenvolveu um estilo expressionista mais ornamentado, direcionando a atenção para a realidade física imediata da vida de seus personagens, a fim de iluminar um mundo interior de emoção, pensamento e premonição – suas personagens são constantemente confrontadas com a tomada de decisões morais e muitas vezes encontram o final certo para suas vidas.


Seus últimos trabalhos (de 1988 em diante) são enriquecidos pela parceria com Krzysztof Piesiewicz (1945- ) no roteiro e pela música de Zbigniew Preisner (1955- ).


Nove filmes se destacam em sua obra:


Camera Buff (1979): Primeiro sucesso internacional de Kieslowski. Num cenário de crítica à censura na Polônia sob o jugo soviético, o filme nos faz refletir sobre o poder do cinema (para o bem e para o mal), os males que a vaidade provoca, e os riscos da obsessão artística (expressado na cena do falcão matando uma galinha que assombrou a esposa do protagonista – referência ao filme Kes (1969) de Ken Loach que o protagonista estuda). Ao final o protagonista entende seus erros e reconecta-se com a realidade (ao filmar-se abandona o papel de mero observador da verdade).


Blind Chance (1987): Produzido em 1981, foi censurado por seis anos dado seu teor político. Partindo de um mesmo momento no tempo, vemos três alternativas de destino de um jovem. Em cada uma das alternativas há um diferente envolvimento dele com a política: nas duas primeiras ele interage com o governo (ora mais como governista, ora mais como antagonista) e na última assume uma posição de indiferença com o que acontece no país – diferentes posturas frente aos dilemas morais daqueles tempos. As cenas das duas primeiras alternativas terminam com ele perdendo um voo para Paris que ele embarca apenas na última versão de indiferença com a política, e o avião explode. A mensagem não poderia ser mais clara.


Ao menos três outros filmes inspiraram-se em Blind Chace: Run Lola Run (1998), Sliding Doors (1998) e Mr. Nobody (2009). Mas nenhum alcançou a profundidade do original.


A Short Film About Killing (1988): O filme é uma expansão e variação de um episódio de Dekalog. O enredo é simples: jovem comete assassinato, é preso, condenado e executado. Provoca a discussão sobre a pena de morte, com o diretor aparentemente posicionando-se contrário a pena capital – o governo polonês decretou uma moratória de cinco anos da pena de morte após o impacto do filme. Porém a defesa da abolição da pena capital é fraca, incluindo citação biltre de Karl Marx (“desde Caim o mundo não foi intimidado nem melhorado pelo castigo”). A leniência penal só provoca violência e injustiça.


A Short Film About Love(1988): Outra versão estendida e modificada de um episódio de Dekalog. Jovem (19 anos) solitário, romântico e inexperiente se apaixona por vizinha mais velha (pouco mais de 30 anos), cínica e promíscua. Ele eleva o amor a proporções quase platônicas, enquanto ela não acredita no amor, reduzindo-o ao sexo. Ocorre que sua promiscuidade era apenas uma forma de fugir da mesma solidão que acomete o rapaz que mesmo indiretamente era o único ao seu lado.


Dekalog (1989): A obra-prima do diretor. Em dez episódios, vagamente relacionados aos Dez Mandamentos, Kieslowski torna visível o transcendente – os misteriosos laços que nos unem, os sinais e presságios que nos são enviados, a perdição materializada em coisas e máquinas. As histórias referem-se aos habitantes de um complexo residencial que aparentam saber o que querem fazer, mas não sabem como fazê-lo. Com uma graça incomparável nossas questões morais são expostas, e o anjo disfarçado de mendigo testemunhará nossa dor e culpa. Rara oportunidade de assistir a um filme, meditar, e aprender um pouco mais sobre nós mesmos. Todos os episódios são excelentes, sendo o primeiro é sublime.


The Double Life of Véronique (1991): Em atmosfera onírica Kieslowski evoca o conceito de interligação de todos os seres. O conteúdo tíbio é compensado pela cinematografia de Slawomir Idziak, a beleza e atuação de Irène Jacob, e a música de Zbigniew Preisner.


Three Colors Trilogy (1993-94): Cada filme faz referência a uma das cores da bandeira francesa e um dos princípios cardinais da sua revolução. A trilogia funciona como uma bem construída crítica à Revolução Francesa, um câncer na história da humanidade da qual decorrem os piores movimentos de massa: (a) Liberal (Liberté) – com o objetivo de consolidar direitos civis e políticos descamba para o liberalismo desenfreado dos costumes; (b) Socialista (Égalité) – querendo estender a igualdade em direitos ao campo econômico; e (c) Nacionalista (Fraternité) – transferindo a lealdade do súdito ao rei para a nação (povo com irmão, não perante Deus (e seu representante) mas diante do Estado).


Em Blue (Liberdade) a protagonista quer se libertar do mundo para vingar sua dor, mas é trazida de volta por seu senso de responsabilidade – recordando-nos que ser livre não é fazer o que quisermos, mas ter condição de cumprir nosso dever para com Deus (todos nós temos uma responsabilidade para com este mundo).


Na comédia de humor negro White (Igualdade) temos a igualdade reduzida a “ficar quite”, igualdade como desforra – demarcando que o desejo de igualdade em tudo nos faz perder a igualdade perante as leis, e face perante Deus (o protagonista, desejoso de vingança, só vê a si mesmo e sua vaidade diante do quadro de Maria e Jesus).


Finalmente, em Red (Fraternidade) enxergamos a saída, não na fraternidade revolucionária, mas na cristã. A bondade fraternal, a caridade para agradar a Deus, é redentora. Aqui a protagonista ajuda a velha senhora a reciclar uma garrafa, algo rejeitado pelas protagonistas de Blue (pela indiferença) e White (pela autopiedade). E todas as personagens principais dos filmes anteriores são resgatadas do naufrágio no Canal da Mancha (i.e. são todas redimidas).

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