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A Última Superstição de Edward Feser

há 12 minutos
15 min de leitura

“Transcendendo a si mesmo, o mundo material aponta para Deus, mas o secularista só vê o mundo material.” – Edward Feser



O livro é uma crítica ao materialismo e ao secularismo contemporâneos, tomando como alvo imediato os chamados neo-ateus, sobretudo Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens. O conflito fundamental não ocorre propriamente entre ciência e religião, mas entre duas concepções filosóficas da realidade: de um lado, a tradição metafísica clássica, especialmente a de Aristóteles e Tomás de Aquino, e de outro, a concepção mecanicista e materialista da natureza que se consolidou com a filosofia moderna, sendo que aquilo que a cultura secular moderna considera uma superação racional da religião repousa sobre pressupostos filosóficos discutíveis e, em alguns casos, auto-contraditórios. Neste sentido o secularismo materialista é “a última superstição”: uma visão de mundo que pretende ter eliminado todas as superstições, mas que, se sustenta sobre uma compreensão mutilada da natureza, da razão e do homem.


Os neo-ateus frequentemente tratam a crença em Deus como se fosse simplesmente uma hipótese científica destinada a explicar determinados fenômenos naturais. Deus seria uma espécie de entidade muito poderosa situada dentro do universo, concorrendo com explicações físicas, químicas ou biológicas. Se a ciência explica determinado fenômeno, Deus se tornaria progressivamente desnecessário. Essa maneira de formular o problema demonstra desconhecimento da teologia filosófica clássica. O Deus de Aristóteles e Tomás de Aquino não é um objeto existente entre outros objetos nem uma hipótese destinada a preencher lacunas provisórias do conhecimento científico. A questão da existência de Deus nasce de problemas metafísicos mais fundamentais: Por que há mudança? Como uma potência se atualiza? Por que existem relações causais? Como explicar a existência de coisas contingentes? Por que as coisas possuem determinadas naturezas e tendem a determinados efeitos? A investigação sobre Deus seria, portanto, metafísica antes de ser científica.


Para reconstruir essa perspectiva é preciso retorna aos gregos, examinar os pré-socráticos, Sócrates e Platão, dedicando especial atenção ao problema dos universais e à Teoria das Formas (ver notas). A questão é aparentemente abstrata, mas decisiva: quando dizemos que dois objetos são triangulares, humanos ou vermelhos, existe algo objetivamente comum entre eles ou essas categorias são apenas nomes inventados pela mente? O autor contrapõe realismo, nominalismo e conceptualismo e sustenta que a inteligibilidade do mundo exige alguma forma de realismo. As coisas possuem naturezas objetivas que não dependem simplesmente de nossas convenções linguísticas. Platão percebe essa dimensão objetiva, mas teria separado excessivamente as Formas das coisas particulares. Aristóteles ofereceria uma solução que situa as formas nas próprias substâncias concretas.


O núcleo metafísico do livro apresenta as distinções aristotélicas entre ato e potência, forma e matéria, essência e existência, bem como a doutrina das quatro causas: material, formal, eficiente e final. A mudança é compreendida como atualização de uma potência: uma coisa pode tornar-se aquilo que já possui potencialidade para ser. Uma semente pode transformar-se em árvore, mas não em cachorro, a própria possibilidade da mudança pressupõe uma estrutura objetiva na realidade. Do mesmo modo, uma substância material não é simplesmente um agregado de partículas, mas uma unidade composta de matéria e forma. A causalidade também não se reduz à causa eficiente – aquilo que produz determinado efeito –, pois as causas formal e final são necessárias para compreender por que uma coisa é aquilo que é e porque suas operações se dirigem regularmente a certos resultados.


A causalidade final ou teleologia ocupa lugar central na argumentação. Para Aristóteles e Tomás de Aquino, os processos naturais estão orientados para determinados efeitos em virtude da natureza das coisas. O coração tende a bombear sangue, os olhos são ordenados à visão, as raízes absorvem nutrientes e determinadas causas produzem regularmente determinados efeitos. Essa finalidade não significa necessariamente intenção consciente. Uma pedra não “pensa” no lugar para onde cai, nem uma planta decide crescer em direção à luz. Teleologia significa que as coisas possuem tendências objetivas decorrentes de suas próprias naturezas. Porém, a filosofia moderna eliminou deliberadamente essa concepção da descrição da natureza, e depois passou a tratar essa exclusão metodológica como se fosse uma descoberta científica de que não existe finalidade alguma na realidade. Esse movimento é filosoficamente ilegítimo.


A partir dessas premissas que Feser reconstrói a concepção de Deus de Tomás de Aquino. As famosas Cinco Vias (ver notas) são frequentemente caricaturadas pelos críticos modernos. O argumento do movimento, por exemplo, não afirma simplesmente que “tudo tem uma causa” e, portanto, deve haver uma primeira causa ocorrida temporalmente no início do universo. A questão é explicar aqui e agora a atualização das potências existentes. Uma série de causas essencialmente ordenadas exige, segundo a metafísica aristotélico-tomista, uma realidade que não receba sua atualidade de outra coisa: um ser que seja ato puro, sem potencialidades a serem atualizadas. Os atributos tradicionalmente associados a Deus – imaterialidade, eternidade, unidade, inteligência, poder e perfeição – decorrem metafisicamente desse conceito de ato puro. Assim, Deus não é introduzido como uma explicação arbitrária para aquilo que a ciência ainda desconhece, mas como fundamento último da própria existência e causalidade das coisas.


A argumentação conduz à antropologia filosófica de Aristóteles e Tomás. O homem não seria uma alma aprisionada em um corpo, como certas interpretações simplificadas poderiam sugerir, nem apenas uma máquina biológica extremamente complexa. A alma é a “forma do corpo”: o princípio pelo qual determinado corpo é um organismo vivo de certa espécie. Plantas e animais também possuem almas nesse sentido filosófico, embora a alma humana se distinga pela capacidade racional. O intelecto humano apreende conceitos universais e realiza operações que,não podem ser reduzidas integralmente a processos materiais. É uma defesa da imaterialidade do intelecto e, consequentemente, a rejeição das diferentes versões contemporâneas do materialismo da mente.


A moralidade aparece como consequência dessa concepção metafísica da natureza humana. Se as coisas possuem essências e finalidades objetivas, e se o homem possui uma natureza determinada, então existem bens que correspondem objetivamente à realização dessa natureza. A ética da lei natural não depende, portanto, de decretos arbitrários de Deus. O bem está relacionado à realização das potencialidades próprias de uma coisa. Uma árvore saudável é aquela que realiza adequadamente as capacidades características de sua natureza, analogamente, há bens especificamente humanos ligados à razão, à sociabilidade, à vida familiar e às demais dimensões da natureza humana. Estes fundamento suporta a defesa das posições morais tradicionais, particularmente em questões de sexualidade, casamento, aborto e eutanásia – as conclusões éticas decorrem da metafísica aristotélica da natureza e não simplesmente da autoridade das Escrituras ou da doutrina religiosa.


O mal não seria uma substância positiva criada por Deus, mas uma privação de algum bem que deveria existir em determinado ser. A cegueira, por exemplo, constitui um mal para um homem porque a visão pertence naturalmente às capacidades humanas, ao passo que não é um mal para uma pedra não enxergar – o mal não é uma realidade metafisicamente equivalente ao bem. O sofrimento é uma enorme gravidade existencial, mas é preciso distinguir o problema emocional e existencial do mal do problema estritamente lógico de sua compatibilidade com a existência de Deus.


Depois de reconstruir a visão clássica, o livro passa a explicar seu abandono. A a transição da filosofia medieval para a moderna não foi simplesmente uma história de progresso intelectual em que a ciência derrotou a superstição, mas sim uma revolução metafísica. O nominalismo medieval teria preparado o terreno ao enfraquecer o realismo sobre essências e universais. Posteriormente, pensadores como Bacon, Hobbes, Descartes, Locke e Hume contribuíram, de maneiras diferentes, para substituir a concepção aristotélica da natureza por uma visão mecanicista. A ciência moderna obteve extraordinário sucesso ao concentrar-se nos aspectos quantitativos e matematicamente descritíveis da realidade e ao deixar de lado causas formais e finais. O erro não está nessa estratégia metodológica, que é fecunda, mas em transformá-la numa tese metafísica: concluir que aquilo que o método científico deliberadamente não considera simplesmente não existe.


Descartes ocupa posição especialmente importante nessa história. Ao separar radicalmente mente e matéria, concebendo a matéria essencialmente como extensão e a mente como substância pensante, ele criou o célebre “problema mente-corpo”. Mas esse problema é em grande medida artificial: surge precisamente porque foi abandonada a concepção hilemórfica de Aristóteles, segundo a qual alma e corpo são princípios de uma única substância. A filosofia moderna tenta então solucionar um problema produzido por seus próprios pressupostos, oscilando entre dualismos difíceis de explicar e materialismos incapazes de dar conta da consciência e do pensamento.


A consequência mais radical dessa evolução aparece no materialismo contemporâneo, particularmente no materialismo eliminativo associado a filósofos como Paul e Patricia Churchland. Se levado às últimas consequências, o materialismo poderia obrigar-nos a negar ou redefinir justamente aquilo que constitui nossa experiência mental – crenças, desejos, intenções e significados. O problema se torna ainda mais profundo quando se considera a própria racionalidade. Um pensamento não é apenas um acontecimento físico, ele é sobre alguma coisa, possui conteúdo e pode ser verdadeiro ou falso. Processos físicos, considerados exclusivamente enquanto processos físicos, não possuem por si mesmos essa propriedade semântica – o materialismo encontra enormes dificuldades para explicar a intencionalidade da mente, os universais, o significado e a normatividade da razão.


Se todos os pensamentos fossem inteiramente redutíveis a processos cerebrais determinados por causas físicas, seria preciso explicar como poderiam possuir validade racional objetiva. Uma inferência lógica não é correta simplesmente porque determinado estado cerebral causou outro estado cerebral, é correta porque uma conclusão decorre racionalmente das premissas. A relação lógica entre pensamentos não parece ser idêntica à relação causal entre acontecimentos físicos. Portanto, uma concepção estritamente materialista corre o risco de destruir as próprias condições que tornam possível argumentar racionalmente em favor do materialismo. O materialista utiliza razão, verdade, significado e inferência para defender uma concepção da realidade que encontra dificuldades para explicar razão, verdade, significado e inferência.


Os elementos fundamentais da metafísica aristotélica reaparecem inevitavelmente até mesmo na filosofia e na ciência contemporâneas. Conceitos como disposições, poderes causais, estrutura, informação, organização e direcionamento para determinados efeitos aproximam-se, das antigas noções de forma, potência e causalidade final. Isso não significa restaurar a física de Aristóteles. Há uma distinção decisiva entre a física aristotélica, que foi superada em muitos aspectos pela ciência moderna, e a metafísica aristotélica, que é perfeitamente compatível com as descobertas científicas contemporâneas. Newton, Einstein e Darwin podem corrigir profundamente a descrição científica do mundo sem eliminar questões metafísicas acerca da causalidade, da mudança, da forma e da finalidade.


Dessa maneira, A Última Superstição é menos uma defesa direta do cristianismo do que uma tentativa de recuperar o fundamento filosófico sobre o qual a teologia natural cristã tradicionalmente se apoiou. O autor inverte a narrativa iluminista convencional: em vez de uma história na qual a razão e a ciência progressivamente libertaram o homem da metafísica e da religião, ele descreve um processo no qual uma determinada filosofia da natureza eliminou previamente do mundo conceitos como forma, finalidade e essência e depois apresentou essa eliminação filosófica como resultado da ciência. O ateísmo materialista pareceria inevitável apenas depois que seus pressupostos metafísicos já tivessem sido aceitos.


A disputa entre teísmo e ateísmo não pode ser resolvida simplesmente pela ciência, porque antes de interpretar os resultados científicos já estamos operando com alguma concepção metafísica da realidade. Quando essa discussão é levada ao nível mais profundo – ato e potência, causalidade, essência, finalidade, mente, razão e natureza humana – a metafísica aristotélico-tomista oferece uma explicação mais coerente do mundo do que o materialismo. A “última superstição” não é a crença religiosa sobrevivendo numa era científica, mas a crença moderna de que a realidade inteira pode ser reduzida à matéria concebida mecanicamente e de que a ciência, sozinha, pode substituir a metafísica. O livro é, em última análise, uma defesa da tese de que o caminho racional para compreender Deus, o homem, a moralidade e a própria ciência passa pela recuperação da metafísica clássica que a modernidade julgou ter deixado definitivamente para trás.




Notas


  • Edward Feser (1968- ) é um filósofo norte-americano, professor de filosofia no Pasadena City College, na Califórnia. Doutorou-se em filosofia pela University of California, Santa Barbara, e tornou-se um dos mais conhecidos defensores contemporâneos da tradição aristotélico-tomista.

  • Seu trabalho concentra-se sobretudo em metafísica, filosofia da mente, filosofia da religião, teologia natural, lei natural e filosofia política.

  • Outros trabalhos relevantes: Aquinas: A Beginner’s Guide (2009), Scholastic Metaphysics: A Contemporary Introduction (2014), Five Proofs of the Existence of God (2017), Aristotle’s Revenge: The Metaphysical Foundations of Physical and Biological Science (2019), The Immortal Soul: A Treatise on Human Nature (2024),

  • The Last Superstition: A Refutation of the New Atheism, publicado em 2008, é provavelmente sua obra mais conhecida para o público geral.

  • A polêmica entre Heráclito e Parmênides gira em torno do problema da mudança e da permanência. Para Heráclito tudo está em fluxo, nada permanece absolutamente idêntico. Daí a imagem de que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Parmênides, ao contrário, sustenta que o ser é e o não-ser não é; portanto, a verdadeira mudança seria impossível, pois implicaria que algo passasse do não-ser ao ser ou vice-versa. A mudança percebida pelos sentidos seria, portanto, ilusória. Aristóteles supera essa oposição com os conceitos de ato e potência**: uma coisa pode permanecer sendo aquilo que é enquanto atualiza potencialidades, tornando a mudança real sem exigir que o ser surja simplesmente do nada.

  • A polêmica dos universais começa com Platão e Aristóteles. Para Platão, os universais – como Homem, Beleza, Justiça ou Triângulo – existem como Formas ou Ideias eternas, imutáveis e separadas das coisas particulares. Os indivíduos concretos são aquilo que são porque, de algum modo, participam dessas Formas. Assim, os homens particulares passam e morrem, mas a Forma de Homem permanece. Aristóteles rejeita essa separação. Para o Estagirita, a essência ou forma é real, mas existe nas próprias coisas: a natureza humana está concretamente em cada homem particular. O intelecto, observando os indivíduos, abstrai deles aquilo que possuem em comum e concebe universalmente “homem”. Ambos são realistas quanto às essências; a grande divergência é onde e como elas existem. Platão as transcende aos indivíduos; Aristóteles as imanentiza nas substâncias concretas.

  • A Teoria das Formas, de Platão, sustenta que, além das coisas particulares e mutáveis que percebemos, existem Formas (ou Ideias) universais, eternas e imutáveis, que constituem sua verdadeira essência. Assim, homens individuais nascem e morrem, mas a Forma de Homem permanece; coisas belas são imperfeitas e passageiras, mas participam da Forma da Beleza. O mundo sensível é, portanto, uma manifestação imperfeita de uma realidade inteligível superior, conhecida propriamente pela razão. Platão vira cristão no momento que consideramos o Mundo das Fomas como sendo a mente de Deus.

  • Teleologia = doutrina inerente ao aristotelismo e a seus desdobramentos, fundamentada na ideia de que tanto os múltiplos seres existentes, quanto o universo como um todo direcionam-se em última instância a uma finalidade que, por transcender a realidade material, é inalcançável de maneira plena ou permanente.

  • Contingente = aquilo que existe, mas poderia não existir, ou poderia ser diferente do que é. Sua existência não é necessária por sua própria natureza, e.g. uma árvore, uma pessoa, um planeta ou o próprio Sol são contingentes (existem, mas começaram a existir, podem deixar de existir e dependem de outras causas ou condições). O conceito se esclarece pelo contraste: Contingente existe, mas poderia não existir / Necessário existe e não poderia não existir. Os seres que encontramos no mundo são contingentes e, portanto, não possuem em si mesmos a razão última de sua existência. Isso conduz à questão: se tudo fosse contingente, qual seria o fundamento último da existência das coisas? A resposta tomista é um Ser necessário, cuja existência não é recebida de outro. i.e. Deus.

  • O nominalismo entra na polêmica dos universais rejeitando a premissa compartilhada por Platão e Aristóteles: a de que os universais correspondem a naturezas ou essências reais. Para o nominalista na realidade existem apenas indivíduos – “homem” é um termo que empregamos para classificar pessoas, e não existe uma “humanidade” como entidade universal real – negação da essência universal real correspondente ao conceito. Esta foi uma mudança decisiva na filosofia ocidental: se as coisas deixam de possuir naturezas objetivas, torna-se muito mais difícil fundamentar nelas finalidades naturais, lei natural e normas morais objetivas. O nominalismo é um dos antecedentes intelectuais da ruptura moderna com a realidade.

  • O mecanicismo concebe a natureza como uma grande máquina: matéria em movimento governada por leis eficientes, sem formas, essências ou finalidades intrínsecas. A ciência moderna adotou legitimamente esse método para estudar certos aspectos da natureza, mas os filósofos modernos o transformaram indevidamente em metafísica – passaram de “a ciência pode explicar os fenômenos mecanicamente” para “a realidade é apenas mecanismo”. Ao eliminar forma e finalidade, o mecanicismo acaba tornando difíceis de explicar justamente causalidade, regularidade natural, consciência, racionalidade e até a própria inteligibilidade da ciência – o mecanicismo funciona como método científico, mas fracassa quando pretende ser uma descrição completa da realidade.

  • As Cinco Vias são os cinco argumentos filosóficos apresentados por Tomás de Aquino na Suma Teológica (I, q. 2, a. 3) para demonstrar racionalmente a existência de Deus. Estas vias partem de aspectos da realidade que existem aqui e agora – mudança, causalidade, contingência, graus de perfeição e ordenação para fins – e procuram chegar ao fundamento último desses aspectos. Via do movimento – do que muda ao Motor Imóvel.: “Movimento” (motus) significa aqui mudança em sentido amplo, isto é, a passagem da potência ao ato. Uma madeira fria é quente em potência, quando aquecida, essa potência é atualizada. Aquilo que está apenas em potência não pode, enquanto tal, atualizar-se a si mesmo: sua atualização depende de algo já em ato. Uma série de atualizadores essencialmente dependentes não pode explicar a si própria, é necessário chegar a uma realidade que não precise ser atualizada por outra, isto é, *Ato Puro, sem potencialidade: Deus. Via da causa eficiente – da causalidade à Causa Primeira: Encontramos no mundo relações em que uma coisa depende causalmente de outra. Tomás não está simplesmente dizendo “tudo tem uma causa; portanto Deus causou tudo” — formulação que permitiria perguntar imediatamente “quem causou Deus?”. O argumento é que as coisas cuja atividade causal é derivada precisam, em última instância, de uma causa cuja capacidade causal não seja derivada. O exemplo clássico para compreender esse tipo de série é “mão → bastão → pedra”: o bastão só move a pedra porque está sendo movido pela mão. Retirada a fonte primeira da causalidade, os membros intermediários não possuem poder independente para produzir o efeito. A conclusão é uma “Causa Primeira não causada”. Via da contingência – dos seres contingentes ao Ser Necessário: As coisas que encontramos no mundo podem existir ou deixar de existir. Plantas, animais, homens, planetas etc. não possuem em si mesmos a razão última de sua existência: são contingentes. A realidade não pode ser explicada exclusivamente por seres cuja existência é recebida ou dependente. Deve existir algo que não apenas acontece de existir, mas que seja necessário e não receba de outro a razão de sua existência. A investigação conduz assim ao Ser Necessário, identificado com Deus. No desenvolvimento tomista mais amplo, isso se relaciona à distinção entre essência e existência: nas criaturas, aquilo que uma coisa “é” não explica por si só que ela “exista” – em Deus, em última instância, não haveria essa composição. Via dos graus de perfeição – dos graus ao Máximo: Observamos que atribuímos às coisas diferentes graus de propriedades como bondade, verdade, nobreza e perfeição. Tais gradações remetem a um máximo que funciona como fundamento dessas perfeições. Esta é provavelmente a mais difícil das Cinco Vias para o leitor moderno, porque depende da metafísica medieval dos transcendentais e da concepção de causalidade exemplar, e não do raciocínio simplista de que “se existe algo mais ou menos bom, deve existir uma coisa maximamente boa”. O argumento culmina numa realidade que possui a perfeição de modo não derivado e que é causa das perfeições encontradas nas demais coisas: Deus. Via da finalidade ou do governo do mundo – da teleologia à Inteligência ordenadora: Observamos que coisas desprovidas de inteligência atuam regularmente de maneiras determinadas: causas naturais tendem sistematicamente a produzir determinados efeitos. Uma semente tende a desenvolver-se segundo sua natureza, órgãos possuem operações características, e processos naturais apresentam regularidades orientadas. Assa causalidade final exige explicação. Aquilo que não possui inteligência não pode ser a explicação última da orientação da natureza para fins. A ordem teleológica da natureza remete, portanto, a uma Inteligência suprema que fundamenta essa ordenação. As Cinco Vias não são cinco versões do argumento “o universo teve um começo; logo alguém teve de criá-lo”. Na tradição aristotélico-tomista, seria possível, para fins do argumento, admitir até mesmo um universo sem começo temporal. A questão continuaria de pé: o que explica, neste exato momento, que seres contingentes existam, que potências sejam atualizadas, que causas tenham eficácia e que a natureza apresente ordenação? Por isso, especialmente na Primeira Via, a regressão que Tomás pretende interromper não é primordialmente uma regressão temporal – pai causado pelo avô, avô pelo bisavô etc. –, mas uma regressão de "dependência ontológica presente". Deus não seria simplesmente a primeira peça de dominó há bilhões de anos, mas aquilo de que toda a cadeia depende para possuir eficácia causal agora.

  • Embora os termos sejam muitas vezes usados quase como sinônimos, materialismo e naturalismo não são exatamente a mesma coisa. Materialismo é, em primeiro lugar, uma tese ontológica: em sua forma mais forte, afirma que tudo o que existe é matéria ou é inteiramente dependente de processos materiais/físicos. Assim, pensamentos, consciência, vontade e emoções devem ser, em última análise, estados ou processos do cérebro; não existem almas imateriais, formas substanciais ou realidades espirituais independentes da matéria. Naturalismo, por sua vez, é mais abrangente. Em sentido metafísico, sustenta que a natureza constitui toda a realidade: não existem realidades sobrenaturais ou transcendentes necessárias para explicá-la. Normalmente rejeita Deus, almas imateriais, milagres entendidos como intervenções sobrenaturais e uma ordem transcendente. Entretanto, um naturalista não precisa necessariamente afirmar que tudo é matéria no sentido estrito. Ele pode admitir propriedades emergentes, estruturas, leis, relações, informações ou até entidades abstratas, desde que não introduza uma dimensão sobrenatural ou transcendente. Há ainda o naturalismo metodológico, que é diferente do naturalismo metafísico. Ele diz apenas que a ciência, enquanto ciência, procura explicações naturais para os fenômenos observados. Um cientista cristão pode perfeitamente adotar o naturalismo metodológico no laboratório sem ser naturalista metafísico. Investigar uma doença procurando vírus, bactérias, genes ou mecanismos celulares não implica afirmar filosoficamente que Deus não existe.É plenamente legítimo investigar cientificamente as causas naturais. O problema á a passagem indevida de uma regra metodológica (a ciência investiga apenas causas naturais) para uma conclusão metafísica (portanto, somente aquilo que a ciência natural investiga existe).

  • Paul e Patricia Churchland são um casal canadense-americano conhecidos por seu trabalho em neuro-filosofia e materialismo eliminativo. Dedicaram as suas carreiras à integração da filosofia da mente com a neurociência, argumentando que os conceitos tradicionais de estados mentais (como crenças e desejos) são fundamentalmente falhos e serão eventualmente substituídos por uma compreensão científica mais precisa da atividade cerebral. O caráter contraintuitivo das conclusões dos Churchland não é um acidente, mas um sintoma das dificuldades da própria metafísica materialista.

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