Hípias Maior de Platão
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“O Belo é difícil.” (304e) – Sócrates, o Belo é “filho” do Bem e exige busca incansável
Personagens Sócrates – filósofo Hípias – famoso sofista de Élis
De forma irônica e cômica Sócrates aborda Hípias e sua polimatia (conhecimento enciclopédico), fazendo uso do elenchus (confutação, refutação cruzada) para expor a vaidade, superficialidade e contradições do sofista. Platão dramaticamente contrasta o sofista presunçoso e prolixo versus o Sócrates dialético e genuíno. Os discursos longos de Hípias servem para revelar sua ignorância, e o tom humorístico reforça a crítica filosófica.
Platão aplica o recurso genial do Sócrates desdobrado (um alter ego irônico que fala ferozmente, enquanto o Sócrates direto finge humildade). Esse expediente (semelhante ao de Diotima no Banquete) permite atacar sem confronto direto e sublinha a ironia socrática (fingimento de ignorância para examinar ideias). Os aparentes sofismas e ambiguidades não são falhas, mas intencionais: obrigam o leitor a entrar no “círculo hermenêutico” platônico – só quem aceita a provocação paradoxal aprende de verdade. A forma dramática empregada por Platão não é ornamento, mas veículo essencial do conteúdo: o confronto expõe os limites da polimatia sofística e ensina o verdadeiro filosofar.
A pergunta em questão é: “o que é o belo em si?”, ou seja, a essência (ousia, eidos) que torna belas todas as coisas (homem, deus, ação, conhecimento). As definições de Hípias (moça bela, ouro, vida rica e honrada) são refutadas como sendo relativas, empíricas, não universais. Enquanto as definições socráticas (o conveniente, o útil, o prazer visual e auditivo) são levadas à aporia para demostrar seus limites.
A aporia é intencional e pedagógica: descobrimos a nossa ignorância naquilo que mais deveríamos saber. Sendo a verdadeira lição de cunho metodológico: o valor da confutação como purificação da alma (traçando paralelos com os diálogos Sofista e Laquete) – uma purificação dialética que ensina a humildade da pesquisa. A aporia salutar que transforma o leitor, ensinando humildade e a busca dialética – confutação dialética como educação do desejo..
O diálogo é um prelúdio à teoria das Formas ao distinguir o belo particular (uma bela moça) do Belo em si – o Belo como manifestação do Bem (kalon e agathon unidos ontologicamente) – não é aparência, mas ser (manifestação do Absoluto). E também é uma prefiguração ao Banquete, aludindo à escala do Belo.
O Belo é manifestação do Verdadeiro, do Bem, do Absoluto, e, como diz Sócrates ao final do diálogo, “sem ele, melhor morrer do que viver.”
Notas
Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.
Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.
Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).
Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”
Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.
Hípias Maior, do Belo é diálogo duvidoso (gênero anatréptico), do período socrático (forma dramática platônica com conteúdo socrático).
O quadro Nascita di Venere (Botticelli, 1485) é a imagem renascentista mais icônica do belo ideal (kalon como manifestação do Bem). Captura o momento em que o desejo é educado: do prazer visual/auditivo para o Absoluto.


