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Howard Hawks (1896-1977)

"I'm a storyteller - that's the chief function of a director. And they're moving pictures, let's make 'em move!" – Howard Hawks


Howard Hawks foi talvez o maior diretor americano de filmes de gênero. Ele fez filmes em quase todos, e cada um desses filmes poderia servir como exemplo artístico de cada particular gênero. Mas em cada uma dessas narrativas de expectativas genéricas Hawks infundiu seus temas, motivos e técnicas particulares.


Qualquer que seja o gênero, Hawks imprimia sua marca: a narrativa elegante e simetricamente estruturada, fruto de um senso aguçado de contar histórias. A maioria de seus filmes eram dedicados a personagens profissionais com fervoroso compromisso vocacional, eles eram bons no que faziam, seja transportando correio, dirigindo carros de corrida, conduzindo gado ou reportando notícias.


O estilo visual de Hawks era clássico, contido, despretensioso – câmera na altura dos olhos, edição discreta, uso moderado de close-ups, movimentos de câmera e ângulos enfáticos – de modo que o foco estivesse na interação de palavras e gestos entre as personagens. A força motriz dos heróis em seus filmes é a inata necessidade do homem em alcançar autorrespeito e autodefinição.


Os críticos do Cahiers du Cinéma colocaram Hawks no mais alto panteão, ao lado de Alfred Hitchcock e Orson Welles. No entanto, ele foi o menos pretensioso dos grandes cineastas. Seu estilo é transparente e discreto – ele não queria que a estética desviasse a atenção das personagens.


Embora o trabalho de Hawks tenha sido consistentemente visto como exemplar do “estilo estúdio” de Hollywood, o próprio Hawks não trabalhou para um único estúdio com um contrato de longo prazo. Em vez disso, ele era um produtor independente de destaque que vendia seus projetos para todos os estúdios de Hollywood.


Seguem comentários de algum de seus filmes mais relevantes:


Scarface (1932): Gangster ambicioso e violento escala ao topo da máfia, mas suas fraquezas serão sua ruína. O mais violento e humorístico (os gangsteres parece crianças brincando) dos três filmes do começo dos anos 1930 que definiriam o gênero gangster (os outros são Little Caeser e Public Enemy). Consequentemente, o filme seria citado como exemplo a ser evitado ao roborarem o Hays Code dois anos depois. Apesar disto a epígrafe cobra do governo e da sociedade uma reação contundente contra a onda de crimes que afligia o país naqueles anos – bem diferente da indústria de entretenimento e da mídia da atualidade que glorificam criminosos. Hawks acerta ao fazer a jornada de Scarface assemelha-se a de Macbeth, e ao insinuar o desejo incestuoso do protagonista por sua irmã. Destaque para as cenas de abertura e da morte do rival Gaffney (Boris Karloff) na pista de boliche. O sanguinolento e badalado remake de Brian De Palma de 1983 não consegue superar o original de Hawks.


Bringing Up Baby (1938): Aéreo paleontólogo tentar garantir uma doação de US$ 1 milhão para seu museu, enquanto é perseguido por uma amalucada herdeira e seu leopardo de estimação. Modelo atemporal de screwball comedy: inteligente, espirituosa e charmosa. Howard Hawks mantém com grande equilíbrio a sequência de cenas absurdas. Primeira comédia na carreira de Katharine Hepburn que se sai muito bem (destaque para sua imitação de gangster). O filme What's Up, Doc? (1972) dirigido por Peter Bogdanovich, e estrelado por Barbra Streisand e Ryan O'Neal, foi concebido como uma homenagem a Bringing Up Baby.


Only Angels Have Wings (1939): Em um remoto porto comercial da América do Sul, o gerente de uma empresa de frete aéreo é forçado a arriscar a vida de seus pilotos para ganhar um importante contrato enquanto uma dançarina americana itinerante faz parada na cidade. Filme quintessencial de Howard Hawks, repleto de homens e mulheres idealizados. Os efeitos especiais de voo, obviamente, estão ultrapassados, mas tudo mais brilha com química e classe. O filme ajudou a impulsionar a carreira de Rita Hayworth (aqui em participação coadjuvante).


His Girl Friday (1940): Editor de jornal usa todos os artifícios para impedir que sua ex-esposa e repórter estrela case-se novamente. Baseado na clássica peça The Front Page (1928) escrita pelos ex-repórteres Ben Hecht e Charles MacArthur – o diretor teve a ideia de substituir uma das personagens centrais por uma mulher com resultados para lá de satisfatórios. Howard Hawks também obrigou os atores a dobrar a velocidade do diálogo, o que torna o filme frenético e mais engraçado. Esta screwball comedy não envelhece graças a exposição da corrupção política e da imoralidade da mídia.


Sergeant York (1941): Relato real da vida e serviço militar de Alvin York, que passou de uma origem humilde ao militar americano mais celebrados na Primeira Guerra Mundial. Alvin voltou-se para a religião depois de atingido por um raio durante uma de suas bebedeiras. Inicialmente relutou a servir na infantaria em função da religião (“não matarás”), mas vai entender a necessidade de lutar (“Pois dá a César o que é de César , e a Deus o que é de Deus”) e fazê-lo com grande valor, matando e capturando um grande número de alemães e salvando a vida de muitos dos seus companheiros. O filme é um desfile de valores: autorrespeito, família, matrimônio (a mulher salva o homem), perdão, compaixão, honra à herança do melhor das gerações passadas (i.e. patriotismo), coragem, honestidade, devoção a Deus, e o melhor diálogo contra o ardil pacifista (ver no parágrafo seguinte). Não é o melhor trabalho cinematográfico de Hawks, mas a narrativa é sublime e catártica – um dos melhores filmes da história.


Alvin: Well I'm as much agin' killin' as ever, sir. But it was this way, Colonel. When I started out, I felt just like you said, but when I hear them machine guns a-goin', and all them fellas are droppin' around me... I figured them guns was killin' hundreds, maybe thousands, and there weren't nothin' anybody could do, but to stop them guns. And that's what I done.

Maj. Buxton: Do you mean to tell me that you did it to save lives?

Alvin: Yes sir, that was why.

Maj. Buxton: Well, York, what you've just told me is the most extraordinary thing of all!


To Have and Have Not (1944): Durante a Segunda Guerra Mundial, um expatriado americano ajuda a transportar um líder da Resistência Francesa e sua esposa para a Martinica enquanto namora uma sensual cantora. Howard faz um grande filme do pior romance de Ernest Hemingway eliminando a maior parte da narrativa, incluindo as referências a luta de classes à qual o título faz referência (roteiro assinado por William Faulkner). Estonteante debut de Lauren Bacall aos 19 anos de idade.


The Big Sleep (1946): O detetive particular Philip Marlowe é contratado por uma família rica. Antes que o complexo caso termine, ele verá assassinatos, chantagem e o que pode ser o amor. Clássico film noir com excelentes ingredientes: baseado em história de Raymond Chandler, roteiro com dedo de William Faulkner, e atores com o carisma de Humphrey Bogart e Lauren Bacall. E de quebra uma ponta da deslumbrante Dorothy Malone como a dona de uma pequena livraria. Ao longo do filme seguimos os passos do detetive Philip Marlowe (ele está em todas cenas): sabemos o que ele sabe, nada mais, nada menos. E preste atenção para não se perder na teia de intrigas.


Red River (1948): Fazendeiro lidera rebanho de gado, acumulado ao longo de 14 anos, até ao seu destino no Missouri. Mas seu comportamento tirânico ao longo do caminho provoca um motim. Épico apresentando uma visão da história americana e da evolução da civilização como sucessora das gerações passadas. Nenhum outro western mostrou de forma mais bela a condução de um rebanho e o convívio entre cowboys. Uma demonstração da força masculina e sua potência de violência orientada para a construção ou conquista de algo. No final, mesmo que algo forçado, temos a intervenção feminina aplacando a violência masculina. Potente exibição da natureza dos dois sexos.


The Thing from Another World (1951): Cientistas e oficiais da Força Aérea Americana enfrentam um alienígena sedento de sangue num remoto posto avançado do Ártico. O filme é generoso em emoções e arrepios, ponteado com diálogos leves e divertidos – incluindo zombarias rápidas e sarcásticas à burocracia militar e tiradas às custas do presidente Truman – o suficiente para que o filme não pareça se levar muito a sério. Destaque para a arrogância do cientista líder e seu descaso com a vida humana, conflitando com o bom senso do protagonista militar. Um marco do gênero sci-fi que influenciou várias outras produções, e um famoso remake dirigido por John Carpenter.


Gentlemen Prefer Blondes (1953): Duas cantoras viajam para Paris, perseguidas por um detetive particular contratado pelo suspeito pai do noivo de uma delas, bem como por um velho rico e muitos outros admiradores apaixonados. Parece uma comédia romântica em forma de musical, mas os risos ficam engasgados pois a loira e a morena simbolizam ganância e luxúria, frigidez e ninfomania. Icônica performance de Marilyn Monroe cantando Diamonds Are a Girl Best Friend.


Land of the Pharaohs (1955): Arquiteto capturado projeta um plano engenhoso para garantir a inexpugnabilidade da tumba de um Faraó egocêntrico, obcecado pela segurança de sua “segunda vida”. Narrativa de cobiça e luxúria em meio a construção de uma pirâmide. Raro fracasso comercial de Hawks, em sua primeira experiência com Cinemacope. Mas vale pela grandiosidade da produção anterior aos efeitos especiais computadorizados: entre três mil e dez mil figurantes trabalharam todos os dias durante o cronograma de filmagens de mais de cinquenta dias, metade dos figurantes eram soldados do exército egípcio. Curiosamente o filme nunca foi lançado no Egito porque, segundo as autoridades locais, a heroica personagem do arquiteto parecia judeu.


Rio Bravo (1959): Xerife de uma pequena cidade no oeste americano conta com a ajuda de um homem deficiente, um bêbado e um jovem pistoleiro para manter na prisão o irmão do principal bandido local. Em vez de fazer um filme centrado num enredo principal, este é um western baseado em personagens, com vários enredos se entrelaçando. Também é uma resposta a High Noon (1952) onde ninguém queria auxiliar o xerife em sua luta. Hawks voltava a dirigir quatro anos após o fracasso de Land of the Pharaohs, e produziu mais um clássico. É o último filme em que John Wayne usa o famoso chapéu que exibia desde Stagecoach (1939), e o primeiro papel significativo de Angie Dickinson (então com 27 anos) que se assemelha a personagem de Lauren Baccal em To Have and Have Not (1944).


Hatari! (1962): Grupo de homens que captura animais selvagens na África para vendê-los a jardins zoológicos tem seu hábitos perturbados com a chegada de uma fotógrafa. Hatari significa “perigo” em suaíli. Entretenimento leve com as sequências de caça mais belas já filmadas – durante quase três horas de filme acompanha-se uma série de peripécias em meio a duas possibilidades de romance. O diretor e atores parecem apenas divertirem-se de férias na África. A despretensiosa melodia criada por Henry Mancini para uma cena com os filhotes de elefante (Baby Elephant Walk) tornou-se fenômeno mundial gravada em diferentes versões.


El Dorado (1966): Pistoleiro de aluguel (John Wayne) une forças com um velho amigo, o xerife J.P. Hara (Robert Mitchum) e, junto com um velho guerreiro mestiço e um jovem jogador, ajudam um fazendeiro e sua família a lutar contra um rival que está tentando roubar sua água. Depois de fracassar nas duas produções após Hatari! (Man’s Favorite Sport? e Red Line 7000), Hawks volta ao western com a vitoriosa fórmula aplicada em Rio Bravo. Sim, há várias repetições no enredo, mas que importa! Mais um excelente filme da dupla Hawks-Wayne.

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