Admirável Mundo Novo de Aldoux Huxley


Personagens Principais John Savage – filho de Linda nascido na reserva dos selvagem Mústafa Mond – administrador da Europa Ocidental (um dos dez líderes mundiais) Bernard Marx – Alfa+ com dificuldade de adaptação na sociedade (estatura menor) Helmholtz Watson – Alfa+ professor universitário, dificuldade de adaptação, inteligente Lenina Crowne – moça que atrai o interesse de Bernard Personagens Secundárias Linda – Beta- perdida há anos na reserva dos selvagem pelo Diretor Diretor – chefe e antagonista de Bernard Fanny Crowne – amiga de Lenina Henry Foster – Alfa que saia com Lenina a quatro meses Benito Hoover – amigo de Bernard

Interpretação Apesar de passar-se num futuro longínquo, esta obra, escrita em 1932, é de cunho político e não científico. Mais tarde, no seu ensaio de 1958 Brave New World Revisited, Aldous Huxley vai dizer que aquele futuro já estava acontecendo. Que com exceção da propaganda subliminar, não prevista no seu livro anterior, todos os outros instrumentos farmacológicos, geneticistas e tecnológicos já estavam sendo pensados, senão empregados, visando o maior controle do Poder sobre seus governados.


Neste mundo a reprodução humana foi destruída, e a população é controlada (reflete talvez as teorias de explosão populacional, e consequente escassez de recursos, que sempre se equivocam ao não prever as novas tecnologias que surgirão – as novas soluções destroem as sinistroses). As pessoas são predestinadas em castas utilitárias dentro de um regime de governo absolutamente autoritário. Não há individualidade, até a diferença física desaparece em certas castas. Esta interferência genética faz com o homem o que se faz com as vacas e cães (como inserir vocações e competências não se sabe, visto que estas são naturais ou têm algo de hereditário – vide Lipod Szondi). Desaparecem os vínculos afetivos para evitar suas consequências negativas. Drogas são distribuídas para controlar as emoções humanas. A vida é totalmente voltada para os sentidos, não reflexiva, as pessoas são tiradas de sua consciência (inclusive pelas drogas como hoje já observamos). A vida é voltada apenas para o sensorial. Neste mundo não há a possibilidade de ser “infeliz”.


Mas o grande ponto de ruptura com o nosso mundo contemporâneo é não ter pai e mãe. Perda da referência de família, fisionomia, origem, enfim é ser como um animal: “o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos, porque cada tigre tem de começar de novo a ser tigre, como se não houvesse outro antes. O homem, pelo contrário, mercê de seu poder de recordar, acumula seu próprio passado, possui-o e o aproveita” - Ortega y Gasset.

Essa é a maior monstruosidade (é a clonagem humana) – não há mais referência de uma ascendência humana, destrói-se a existência de um passado familiar. Não sabemos o que representa para o ser humano esta perda. Como condenar alguém a isso sem ter este conhecimento? Como condenar alguém a morte sem saber o que é morrer?


O sentido de tamanha destruição da natureza humana visa a destruição da individualidade e, assim, a possibilidade de resistência ao poder governante. No mundo previsto por Aldous Huxley o homem é desprogramado do conceito de moral. Desprogramado do dilema moral natural ao ser humano. John Savage é um selvagem, mas conhece os conceitos morais, os seres do novo mundo são antinaturais.


O absurdo da conversa sobre ética no mundo de hoje é que ela vem dos códigos, sendo transmitida ou ensinada pelo governo, escola, chefe e outros. Mas a única ética é aquela do seu próprio dilema moral – os códigos é que advém dos que está implícito na nossa existência e que são posteriormente traduzidos em códigos escritos. As mudanças culturais são uma transformação interna do indivíduo que depois são normatizadas. Mas hoje querem impor agendas morais as pessoas: nas escolas transformando as crianças em “cidadãos”, mediante campanhas governamentais de comportamento, programas de televisão massivos ou com o discurso politicamente correto.


Desvincular o indivíduo de uma ascendência e tradição é transformá-lo na “tábula rasa” teorizada por John Locke. O ser humano não sabe nada e é o Poder que vai dizer como ele tem que se comportar. Para isso é preciso destruir a capacidade das pessoas de pensar, elas acabam somente pensando o que todos os demais pensam. Matar o pai e a mãe também significa matar Deus - o único referencial passa a ser o Poder. Não saber o que fazer é normal – dilemas morais – e você busca alguém que sabe mais do que você. Em última instância este alguém é Deus. Mas para o Poder assumir falsamente este papel é preciso destruir as referências de subordinação: mãe, pai, família, Deus.


No século XX surgem as teorias que desresponsabilizam as pessoas dos seus próprios atos: “se Deus não existe tudo é permitido” disse Ivan Karamazov.


O modelo de mundo onde não há infelicidade proposto pelo personagem Mustafá Mond a John Savage é o “ovo da serpente”. Onde o Poder vai definir e fiscalizar o que é certo e errado.


A essência da história representa a tentativa de destruição da humanidade. Não pode haver um ser humano fora de uma condição específica. Naquele mundo, com exceção de Helmholtz todos são idiotas levando uma vida sem sentido num mundo de mentira.

Esta promessa de felicidade é a maior mentira do nosso tempo, nosso maior perigo, um perigo encoberto em névoas, e que tem no componente econômico (tecnológico) a fortaleza do seu discurso. O livro retrata a luta humana do indivíduo contra o Poder.



Huxley diz que, quando escreveu a obra, não via outro final possível para John Savage: era a insanidade do mundo utópico ou a sensaboria de um mundo primitivo. Na falta de um horizonte melhor, o suicídio. Mais tarde se diz com remorso de não ter percebido, no momento em que escrevia o trágico final, uma outra possibilidade: "Entre as duas pontas do seu dilema, a utópica e a primitiva, estaria a possibilidade de alcançar a sanidade de espírito" – sim, a liberdade da sanidade do espírito é capaz de vencer a loucura do mundo moderno.



Notas

  • Aldoux Huxley (1894-1963) nasceu na Inglaterra. Aristocrata de uma família de notáveis.

  • Teve a melhor educação que a Inglaterra oferecia. Formou-se academicamente na prestigiosa Balliol College em Oxford (ligado ao Grupo Milner derivado de Cecil Rhodes).

  • Principais obras: Contraponto (1928), Admirável Mundo Novo (1931), A Ilha (1962), As Portas da Percepção (1954 – inspirou o nome do grupo de rock The Doors) e O Céu e o Inferno (1956 – narrando suas experiências com drogas).

  • Admirável Mundo Novo é uma paródia da utopia futurista Men Like Gods de H. G. Wells.

  • Em 1958 publica Brave New World Revisited comentando em quão avançado estava o mundo teorizado em Admirável Mundo Novo.

  • A narrativa se desenvolve no ano 632 d.F. (depois de Ford nascido em 1863), logo no ano 2495 d.C. A população era mantida no patamar “ideal” de 2 bilhões de habitantes.

  • A sociedade é dividida em cinco castas: Alfa e Beta no topo (sem irmãos gêmeos), Gama, Delta e Epsilo. Com variações “mais” ou “menos”. São programados para ter inteligência decrescente conforme a posição nesta escala.

  • A droga soma produzia os efeitos da cocaína e heroína (sem colaterais) de forma que as pessoas mais alucinavam que pensavam. Era distribuída gratuitamente pelo governo.

  • Maiores crítico de literatura do século XIX: Matthew Arnold, Samuel Taylor Coleridge e Charles Augustin Sainte-Beuve. E do século XX: Northrop Frye, Otto Maria Carpeaux, Mortime Addler e Edmund Wilson.

  • A Revolução Verde liderada por Norman Ernest Borlaug (Prêmio Nobel em 1970) combinando o desenvolvimento de novas matrizes de cereais, fertilizantes químicos e novos processos agrícolas ridicularizou as profecias apocalípticas do Clube de Roma de que faltaria comida no mundo.

  • Socialismo e Capitalismo não são comparáveis pois são muito diferentes entre si. Enquanto o primeiro é uma ideologia que nasce como uma ideia, o segundo é um instrumento econômico que somente muitos anos mais tarde é teorizado no liberalismo. Tanto que há capitalismo em todas as formas de governo incluindo socialistas e comunistas.