A Crise do Mundo Moderno de René Guénon


René Guénon parte da doutrina hindu para dizer que este mundo atual está em fase final da sua decadência. Estaríamos na quarta etapa do atual Mavantara (64.800 anos – idade de Manu), ou seja, no Kali-Yuga ou idade das trevas. Estas quatro etapas correspondem as idades de Ouro (40% do Mavantara), Prata (30%), Bronze (20%) e Ferro (10%) no Ocidente, sendo que estaríamos na Idade de Ferro, na qual estamos há mais de 6 mil anos. Tudo no mundo manifestado, nosso mundo material, nasce, vive e morre. Este mundo mensurável no espaço, tempo e quantidade vai um dia acabar. E um novo ciclo terá início. Tudo no mundo físico está inexoravelmente sujeito a corrupção (daí o ridículo do panteísmo de Espinoza ao dizer que Deus é o conjunto de tudo deste mundo).


Esta visão se choca com a teoria evolucionista. Mas vivemos um processo de crescente materialização em oposição ao espírito. É um processo de afastamento do ponto inicial de tudo (espiritualidade primordial – o Absoluto), e, quanto mais se afasta deste ponto, mais decadentes tornam-se os tempos. Quanto mais nova a etapa mais próximos estamos do espírito e quanto mais distante expande-se nossa animalidade. A Queda é um momento de ruptura entre a Idade de Ouro (alta espiritualidade, não corpóreo – Paraíso perdido) e Prata (aqui já começa a ser necessário explicar ao homem a sua origem) pela desobediência do homem a Deus. E sucessivamente o homem vai perdendo sua espiritualidade e materializando-se, corporificando-se, animalizando-se. René Guénon está analisando o mundo atual com base nos critérios do mundo antigo, o oposto do que se faz hoje (e.g. Descarte restringiu o homem a Corpo e Mente, eliminando o Espírito). Todo processo de humanização inviabiliza a nossa existência pela perda da forma divina. Sua tese neste livro é a de que perdemos nossa espiritualidade decaindo para a materialização – substituímos o Espírito pela Matéria. Esta queda não é retilínea (lembrar a batida do coração ou a respiração – papel dos Avatares / nove dos dez já vieram). Estamos num momento crítico onde as forças estão se arregimentado e na qual se formarão os elementos que darão início ao novo ciclo (como Noé e sua Arca).


Datas críticas dentro do Kali-Yuga: (a) 600 a.C.: pouco conhecemos de antes desta data, considerada a separação da narrativa heroica e histórica. Quase todos os povos passaram por mudanças drásticas. Na China separam-se o Taoísmo e o Confucionismo, apogeu do Zoroastrismos na Pérsia, nascimento do Budismo na Índia, cativeiro dos judeus na Babilônia, início do período histórico romano, nascimento da filosofia pitagórica na Grécia (forma deturpada do Orfismo, que por sua vez era uma forma deturpada dos cultos Délficos do hiperbóreo Apolo). (b) nascimento do Cristianismo que evolui em paralelo a decadência Greco-romana (todo nascimento de uma nova etapa só se dá nos momentos de trevas) até tomar a formatação final da Idade Média em 800 d.C.. (c) 1314 d.C. início da era moderna e desmonte da era cristã (Reforma e Renascença são momentos trágico e emblemáticos). Advento do humanismo, reduzindo tudo a proporção do homem e abandonando o Espírito.


Desde que Guénon escreveu este livro o Oriente acelerou muito seu processo de decadência. Mas em 1927 ele ainda encontrava civilizações mais próximas da espiritualidade primordial no Oriente do que no Ocidente. Comparava as civilizações Chinesa, Hindu e Islâmica com a Idade Média ocidental. O Ocidente é mais decadente apenas por ter iniciado antes o processo (Hiperbóreos). Muitas tentativas de resgate da Tradição no Ocidente, por repúdio ao nefasto mundo moderno, acabam apenas agregando maior confusão e decadência (e.g. Teosofismo). Qualquer tentativa válida de resgate teria que passar pelo Catolicismo e um entendimento com o Oriente na busca da real Tradição espiritual (intelectual).


O mundo não pode ser focado apenas na vida prática. A contemplação é a atividade humana mais importante. Deus nos fez para admirar a sua obra. Porém filosofias como o Pragmatismo não dão valor a nada que não seja ação. A contemplação é superior a ação pois esta é apenas transitória e não trás o princípio em si mesma, enquanto a contemplação leva ao conhecimento. A ação restringe-se ao devir, ao passo que a contemplação permite deixar este mundo e sua limitação, aproximando-nos da essência. A contemplação remete aos brâmanes e a ação aos xátrias. Ambos são necessários, mas há uma hierarquia superior no espírito. Ao mergulharmos no mundo da ação acabamos nos perdendo na multiplicidade, distanciando-nos da Unidade e perdendo a capacidade de concentração e síntese. No mundo moderno ação / mudança é valorizada por si mesma independentemente de para onde ela nos leva. O Evolucionismo nasce desta ênfase na ação e como negação da transcendência, do imutável e dos princípios eternos.


Intuição intelectual tem a capacidade de utilizar o espirito para entendimento. A mente (razão) não consegue definir o que é certo e falso, apenas consegue evitar contradições lógicas. Há uma destruição da percepção intelectual (do espírito). A intuição é fundamental no processo cognoscível. É uma loucura moderna querer desvendar os mistérios da natureza apenas com a mente. Querem que só exista razão, mas esta não consegue perceber a realidade.


O funcionamento das explicações científicas depende de pressupostos metafísicos (que não mudam – Deus e a Matemática são metafísicos) para funcionar (e.g. só o que tem potencial de existir pode existir). A ciência é a materialização de pressupostos metafísicos e eternos. Há duas ciências: a subordinada aos Princípios e a não subordinada a eles.


A ciência não subordinada se dividiu e multiplicou em diferentes especialidades que perdem a capacidade de entendimento do todo, uma multiplicidade de enfoques sem capacidade de unidade (e.g. Física para Aristóteles compreendia toda a natureza, o devir, mas agora Física corresponde a apenas um dos aspectos da natureza). A ciência moderna busca aplicações práticas e não o verdadeiro conhecimento, assim as ciências tradicionais sofreram um processo de degeneração. O português é uma forma decadente do latim. Pode ter havido uma língua primordial sofisticada da qual todas as outras se originaram (na idade do Ouro). A química é uma forma decadente da alquimia. A astronomia é uma forma decadente da astrologia. São produtos do processo de materialização do Kali-Yuga.


A raiz do problema está no Individualismo, entendido como a redução da civilização aos elementos puramente humanos (ao que se chamou de humanismo na Renascença). A negação da intuição do espírito inviabiliza a metafísica – aí está a raiz do problema. É a própria negação da verdade. Daí o racionalismo cartesiano desbancar no relativismo e no naturalismo (negação da metafísica) e, daí ao evolucionismo. Este Individualismo implica na negação de toda autoridade superior ao homem e todo o conhecimento superior a razão humana. O Protestantismo é descaradamente uma forma de Individualismo ao negar à Igreja a autoridade na interpretação dos textos sagrados e entrega-la a pura razão de qualquer homem. Protestantismo é ilógico, pois quer “humanizar” a religião.


Filósofos modernos se preocupam mais em desenvolver teorias originais do que buscar conhecer a verdade, discutem para ter razão e convencer ao outro, e não para alcançar a verdade. Uma ideia verdadeira não é produto da mente humana, pois está contida no plano da realidade, e pertence a todos que a alcançam.


A perda de hierarquia subverte a ordem, o inferior quer reger o superior, a terra quer tomar o lugar do céu. As castas deixam de existir, e ninguém ocupa mais o lugar que deveria. A negação da hierarquia entre os homens causa a desordem. A erroneamente perseguida igualdade é impossível, pois ninguém pode ser totalmente diferente e igual ao mesmo tempo. Igualdade é o sacrifício da qualidade em prol da quantidade.


O conceito de democracia, segundo o qual o poder vem de baixo e é essencialmente baseado na maioria, tem como corolário a exclusão de toda a competência cuja relativa superioridade pode somente pertencer a uma minoria: o mais alto não pode proceder do mais baixo e o melhor não pode vir do pior. O povo não pode conceder um poder que não lhe pertence. Pois o poder verdadeiro só pode vir de cima, só pode ser sancionado por algo que paire acima da ordem social. A ordem hierárquica é quebrada quando o poder temporal busca independência da autoridade espiritual.


Democracia como governo do povo pelo povo é uma impossibilidade lógica, pois a mesma pessoa não pode ser simultaneamente governante e governada (segundo Aristóteles nada pode estar ao mesmo tempo “em ato” e “em potência” na mesma relação). Os “líderes” foram hábeis em lisonjear o povo e faze-lo acreditar em tal possibilidade, e em criar falsos consensos através de opiniões produzidas artificialmente (o próprio conceito de verdade é deturpado em “consenso universal”). Provocam impulsos emocionais no povo para inibir a sua reflexão (há uma incompatibilidade entre emoção e razão – alma sensitiva e racional). Assim a multiplicidade assume o lugar da unidade numa completa reversão da ordem (o múltiplo só pode emanar da unidade). É o sacrifício da minoria pela maioria, da qualidade pela quantidade. Apenas a total estupidez das massas justifica a crença de que elas se autogovernam.


Sem um princípio unificador multiplicam-se e agravam-se os problemas nesta sociedade essencialmente material (priorização dos aspectos materiais – ciência exclusivamente focada na matéria e considerada como portadora da verdade). O “sucesso” material do mundo moderno concebido pelo avanço tecnológico é sinal evidente de decadência. A visão materialista classifica o comunismo no esgoto das ideologias. Prolifera a confusão, acredita-se que acordos comerciais aproximam os povos quando o contrário é o verdadeiro. A matéria sempre multiplica e divide, cria desavenças e disputas. Proliferam as máquinas de guerra. Os exércitos deixam de ser formados por pequenos grupos profissionais e envolvem toda a população – quantidade. Alistamento compulsório, educação compulsória e sufrágio universal são sintomas da queda da qualidade para a quantidade.


O progresso desenfreado fere nosso meio ambiente físico – mau gerenciamento dos ativos concedidos por Deus ao homem. As maiorias esmagam as minorias – as minorias só são protegidas como forma de ataque a situação vigente visando conquista de poder. O igualitarismo não admite desavença da uniformidade – multiculturalismo e pregação da tolerância com o diferente são usados como armas para instituição de uma nova e terrível ordem.


A conquista de bens materiais via o dinheiro passa a ser o mais importante e valorizado. Não há lugar para quem queira trabalhar menos e viver com pouco. Criam-se necessidades materiais antes inexistentes, cria-se a competição feroz entre os homens (“cientificamente” justificada no evolucionismo), e neste ambiente prega-se o igualitarismo – germina-se o conflito e o desastre. As leis da matéria foram convocadas, e destruirão aqueles que tentam dominá-la sem elevar-se acima da matéria. As religiões esvaziam-se, substitui-se o conhecimento pela emoção.


René Guénon prega a criação de um esoterismo dentro do catolicismo para o resgate da tradição como forma de mitigar as dores do Kali-Yuga e cooperar com o início do novo tempo.



Notas

  • René Guénon (1886-1951) nasceu em Blois, França. Não é um autor/filosofo original, mas sim um grande estudioso da Filosofia Perene – uma herança da humanidade. Seu projeto era criar uma elite religiosa que fosse a base para o novo ciclo.

  • Formas de conhecimento: Religião (Revelação), Filosofia, Literatura (Grandes Obras) e Perenialismo (Tradições)

  • Grande escritor da língua francesa. Deve ser lido no original.

  • A Crise do Mundo Moderno é o primeiro livro escrito (1927) por René Guénon voltado para o público leigo, desconhecedor da Filosofia Perene. Escreveu uma continuação: O Reino da Quantidade.

  • Vedas = conjunto de livros sagrados do hinduísmo. Escrito há quatro mil anos mas já vinha da tradição oral.

  • Os hindus não definem Deus (O Absoluto), pois toda definição é limitante, logo, O Absoluto é aquele que não é.

  • A metafísica se divide em Cosmologia (debate sobre a origem e destino do mundo – origem e destino das coisas) e a Ontologia (o que é o homem, o ser – essência das coisas).

  • O mundo moderno é muito mais cruel que o medieval, e.g. alistamento obrigatório foi criado com a Revolução Francesa e crimes de ideologia (matar por pensar de forma diferente) só surge no século XX.

  • No Kali-Yuga diz-se que os homens terão filhos para comê-los – será que não é isso que fazemos com as células de embriões para uso do homem?

  • No Kali-Yuga todo que é importante será desprezado e o insignificante será valorizado. O desprezo a Mário Ferreira dos Santos no Brasil é emblemático desta decadência.

  • Ano 1314: os templários são mortos numa “sexta-feira 13” e Jacques de Molay roga uma praga em Felipe IV e Clemente V (Papa) que viriam a morrer logo em seguida. Isso pode ter contribuído para definir a data como de azar (outras: Cristo foi crucificado numa sexta-feira e havia treze pessoas na Última Ceia – sendo o 13º Judas).

  • Os homens são solares e as mulheres lunares. Os homens criam o enredo do mundo, e neste sentido as mulheres estão subordinadas a eles. Mas as mulheres conseguem ver Deus (não ofuscadas pelo Sol) e ajudam o homem nesta missão ontológica fundamental – esta é sua missão ontológica. São complementos indispensáveis (yin-yang).

  • O argumento de Zelão de Eléia da flecha que nunca atinge o alvo é desmontado pela diferenciação de indefinido e infinito (os números de pontos entre a flecha é o alvo é indefinido e não infinito).

  • Abordagem alquímica é buscar a pureza da essência. É provocar uma transformação positiva, e.g. o brasileiro precisa de um processo alquímico para transformar sua inveja em ambição.

  • O erro de Freud é acreditar que pode resolver os problemas do homem baseado no lixo do submundo do subconsciente. Mas o homem flutua sob um firmamento de luz e sobre um abismo de trevas. Viktor Frankl, com a sua Logoterapia, busca as soluções para cima.

  • Simbolismo da cruz – eixo vertical qualitativo / você entre a matéria e o espírito + eixo horizontal quantitativo / questões materiais (ver O Simbolismo da Cruz de René Guénon). As questões materiais (eixo horizontal) só terão valor quando elevados qualitativamente (eixo vertical).

  • Fazer a caridade é deixar de lado as questões materiais e ascender espiritualmente.

  • Satã, em hebreu, significa “adversário” ou “aquele que vira as coisas de cabeça para baixo”.

  • Como encarar o processo de colonização? Seguramente negativo quando impinge a cultura da quantidade sobre povos que ainda respeitam as tradições. E nos casos onde os povos eram apenas resquícios decadentes?

  • O nacionalismo é contrário ao tradicionalismo.

  • Cada etapa do Mavantara corresponde a uma das quatro castas. No Kali-Yuga prevalecem apenas os valores dos sudras (materiais / animalescos).

  • A Igreja não enxerga mais o valor da contemplação e decai, por exemplo, na Pastoral da Terra. O MST foi uma criação da Igreja Católica (ala herética) no Rio Grande do Sul.

  • S. Tomás de Aquino diz que “numerus stat ex parte materiæ” – o número faz parte da matéria. (espaço – tempo – número: estrutura do mudo manifestado).

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