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Tristes Trópicos de Claude Lévi-Strauss


Uma terra ruim, muito ruim, pior que qualquer outra...” – Comentário de antigos colaboradores do marechal Rondon

O livro é uma reflexão filosófica em torno dos registros das expedições empreendidas pelo autor às nações indígenas Caingangue, Cadiueu, Bororo, Nambiquara, Mondé e Tupi-Cavaíba. Entre 1935 e 1939, ele percorreu grandes trechos do país, indo do norte do Paraná até a margem direita do Amazonas. Além de impagáveis comentários sobre a intelligentsia paulistana da década de trinta e reflexões antropológicas interessantíssimas, o autor faz comparações luminosas com os trópicos asiáticos, que também pesquisou.


Lévi-Strauss não diviniza nem demoniza o indígena, apenas constata em sua cultura estruturas iguais a todas as outras, seja para o bem, seja para o mal. A diferença está somente no estilo. Nas palavras do autor: “O conjunto dos costumes de um povo é sempre marcado por um estilo; eles formam sistemas. Estou convencido de que esses sistemas não existem em número ilimitado e que as sociedades humanas, assim como os indivíduos... jamais criam de modo absoluto, mas se limitam a escolher certas combinações num repertório ideal que seria possível reconstituir.”


Embora Tristes Trópicos não seja o livro central da obra do autor, melhor representada por Antropologia Estrutural (1958) e La Pensée Sauvage (1962), é texto seminal que contém em potência as principais teses da antropologia filosófica de Lévi-Strauss, entre elas a própria ideia do estruturalismo. O autor não tem sempre razão, mas raciocina com elegância, mesmo quando está errado. Há pequenos erros geográficos e históricos. A tese estruturalista soa um pouco rebarbativa, já que tudo tem estrutura. Mas é a transposição de fatos etnológicos locais para leis antropológicas gerais que confere ao livro seu caráter de obra maior.


Elevado a este patamar, o conceito de estruturalismo pode significar mais do que aparenta.

Se atrás das estruturas aparentes há sempre uma estrutura profunda, em torno da qual as coisas se reformatam sob as condições históricas, a constatação dessa multiplicidade dentro da unidade contrapõe-se à própria tese evolucionista. Se os indígenas brasileiros, conforme o trabalho de campo de Lévi-Strauss, têm afinidades estruturais com os civilizados europeus, há nisso qualquer coisa rebelde ao devir, à evolução propriamente dita. Se algo permanece, a dita evolução resume-se, então, à articulação das aparências em torno da permanência.


A isso pode apenas se opor a involução, uma espécie de degeneração da estrutura. Daí resulta que não há homens primitivos, mas homens decadentes, remanescentes decaídos de culturas anteriores. Vejamos dois exemplos: o autor nos conta que, “quando, por volta de 1560, Montaigne encontrou em Rouen três índios brasileiros trazidos por um navegante, perguntou a um deles quais eram os privilégios do chefe (disse ‘o rei’) em seu país; e o indígena, ele próprio um chefe, respondeu que era ser o primeiro a caminhar para a guerra.” Na década de trinta, Lévi-Strauss descobriu que a autoridade do chefe indígena se mantinha com base na generosidade, isto é, era aceita na medida em que presenteava tudo o que tinha, empobrecendo ao longo do “reinado”.


A falta de exemplos modernos de tal dignidade indica que perdemos alguma coisa, que algo se gastou. Este algo que se perdeu só é explicável no âmbito espiritual, mas, infelizmente, prisioneiro de convicções cientificistas, o maior antropólogo do século XX apenas reconhece certa “desagregação de uma ordem original”, sem conseguir explicar o fenômeno, cultivando, no lugar, desilusão de que não escapa nem mesmo a jovem América que, como ironiza o autor, teria passado da barbárie à decadência, sem conhecer a civilização.


Os tristes trópicos são o próprio esgotamento da vida humana. Por onde andou, o autor só conheceu tristeza, incluindo a decadência dos seringais e o fracasso da linha Rondon. Sintomaticamente, de antigos colaboradores do marechal, ouviu o queixume-síntese: “Uma terra ruim, muito ruim, pior que qualquer outra...”.


 

As tribos brasileiras foram estudadas sob os diversos aspectos de organização social, modos de subsistência, crenças e ritos. Lévi- Strauss estava convencido de que a descrição dessas sociedades poderia ajudar na compreensão dos princípios comuns a todas sociedades humanas – “a conhecer bem um estado que não existe mais […] e sobre o qual é preciso ter noções justas para bem julgar nosso estado atual” diz Lévi-Strauss repetindo Rousseau.


Com isso o autor tenta justificar sua crítica exagerada aos europeus no processo de colonização, pois ao invés de apontar desatinos e eventuais crimes cometidos, critica o “risco” destas sociedades primitivas evoluírem, deixando de ser objetos de estudo para encontrar aquele suposto homem natural, arquetípico.


Esta visão desumana também levou Lévi-Strauss a um ambientalismo radical, antes mesmo do ecologismo tornar-se arma de controle social na busca de poder. E provê um álibi erudito a exploração de tribos que são mantidas até hoje em estado de penúria para supostos estudos antropológicos e instrumentalização política (ver Cloak of Green de Elaine Dewar e A Farsa Ianomâmi de Carlos Alberto Lima Menna Barreto).


 

Culpando a colonização por prejudicar seus estudos, Lévi-Strauss é ácido com tudo que encontra na América – critica desde a paisagem do Rio de Janeiro até o comportamento de seus anfitriões paulistanos.


Enxergou a feiura urbana de São Paulo cuja arquitetura envelhecia precocemente, pois as construções seriam construídas para se renovarem com a mesma rapidez que foram erguidas. E descreve a elite local como um bando de diletantes, vaidosos e invejosos. A classe acadêmica é vista como superficial, mais repetidora de conhecimentos existentes do que inclinada à pesquisa científica. Já o corpo discente dedicavam-se aos modismos intelectuais para posarem frente aos demais, com jovens apenas preocupados com o acesso aos melhores empregos que o diploma propiciaria.


 

Na antropologia estruturalista de Claude Lévi-Strauss as culturas, vistas como sistemas, são analisadas em termos das relações estruturais entre seus elementos. De acordo com suas teorias, os padrões universais nos sistemas culturais são produtos da estrutura invariante da mente humana. A estrutura, para Lévi-Strauss, referia-se exclusivamente à estrutura mental, embora ele encontrasse evidências de tal estrutura em suas análises abrangentes de parentesco, padrões na mitologia, arte, religião, ritual e tradições culinárias.


A estrutura básica das teorias de Lévi-Strauss foi derivada do trabalho da linguística estrutural. De N.S. Trubetzkoy, o fundador da linguística estrutural, Lévi-Strauss desenvolveu seu foco na infraestrutura inconsciente, bem como uma ênfase na relação entre os termos, em vez de termos como entidades em si. A partir da obra de Roman Jakobson, da mesma escola de pensamento linguístico, Lévi-Strauss adotou o chamado método de análise dos traços distintivos, que postula que uma “meta estrutura” inconsciente emerge por meio do processo mental humano de emparelhamento de opostos. No sistema de Lévi-Strauss, a mente humana é vista como um repositório de uma grande variedade de materiais naturais, dos quais seleciona pares de elementos que podem ser combinados para formar diversas estruturas. Pares de oposições podem ser separados em elementos singulares para uso na formação de novas oposições


Ao analisar a terminologia e os sistemas de parentesco, a realização que primeiro o levou à proeminência na antropologia, Lévi-Strauss sugeriu que a estrutura elementar, ou unidade de parentesco, sobre a qual todos os sistemas são construídos é um conjunto de quatro tipos de relações organicamente ligadas: irmão/irmã, marido/esposa, pai/filho e irmão/filho da mãe. Lévi-Strauss enfatizou que a ênfase na análise estrutural do parentesco deve estar na consciência humana, não em laços objetivos de descendência ou consanguinidade. Para ele, todas as formas de vida social representam a operação de leis universais que regulam as atividades da mente. Seus detratores argumentaram que sua teoria não poderia ser testada nem provada e que sua falta de interesse em processos históricos representava um descuido fundamental. Lévi-Strauss, no entanto, acreditava que as semelhanças estruturais estão subjacentes a todas as culturas e que uma análise das relações entre as unidades culturais poderia fornecer uma visão dos princípios inatos e universais do pensamento humano.


 

Notas


  • Claude Lévi-Strauss (1908-2009) nasceu em Bruxelas, Bélgica.

  • Etnógrafo, é considerado o fundador da antropologia estruturalista

  • Influenciado pelos pensamento de Rousseau, Kant, Freud e Marx, Lévi-Strauss ambicionava uma abordagem científica dos temas metafísicos.

  • Entre 1935 e 1939 também lecionou sociologia na recém-criada Universidade de São Paulo (USP) como integrante da missão francesa.

  • Tristes Trópicos foi publicado em 1955.

  • Etnografia – estudo descritivo das diversas etnias, de suas características antropológicas, sociais etc.; registro descritivo da cultura material de um determinado povo.

  • Na opinião do autor, a Universidade de São Paulo foi criada pela oligarquia visando formar uma opinião pública de inspiração civil e laica para fazer frente a influência tradicional da Igreja e do exército, assim como ao poder individual.

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