Teogonia de Hesíodo



Interpretação O Caos primordial refere-se ao estado de desordem que o espírito humano se encontra quando procura decifrar os grandes mistérios da origem do mundo, inexpugnável ao homem. Desde Mistério-Caos (Princípio-Criador) emana a dualidade tensional da nossa existência humana: o polo espiritual representado por Urano-Zeus-Olímpicos (Espírito-Céu) e o polo material simbolizado por Gaia-Crono-Titãs (Matéria-Terra). O livro do Gênesis abre com “No princípio, crio Deus o céu e a terra.” – neste paralelo o mito grego surge como um monoteísmo que se expressa através de uma simbolização politeísta. A dualidade tensional humana também é expressa no Gênesis, pois se fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, também somos pó e em pó haveremos de tornar.


A Teogonia, e de fato toda a mitologia grega, trata da tensão entre estes dois polos, entre Espírito e Matéria. Onde a evolução corresponde a penetração da matéria pelo espírito, e a involução a resistência hostil ao espírito.

A primeira rebelião da Terra (Gaia) contra o Espírito (Urano) se dá pela mão de Crono (Tempo) – fome devoradora da vida – ação cuja índole nefasta manifesta-se no surgimento imediato da Culpa estampada nas Erínias. Pois a tarefa essencial do homem é preencher o sentido da vida desenvolvendo sua qualidade suprema via a espiritualização à imagem do espírito absoluto. O homem tende ao Espírito – impulso evolutivo. O homem deve buscar a harmonia de suas pulsões (desejos), a justa medida. O imperativo ético é imanente à vida.


Os mitos tratam da causa primeira da vida (metafísica) e da conduta sensata (ética). Com a evolução das cidades a representação mítica passou dos astros e suas evoluções para os conflitos da alma humana. É o combate interno do homem contra suas tendências perversas. A batalha entre o Céu e a Terra se trava na alma dos homens, e as ajudas divinas são qualidades do próprio homem usadas neste embate.


Os filhos divinos de Crono, vencedores do seu reinado, são três irmãs (Héstia, Deméter e Hera) e três irmãos (Posídon, Hades e Zeus):


Héstia: simboliza a pureza e simplicidade do desejo terrestre. Ao jurar permanecer virgem, ela recusa Apolo e Posídon (vitória sobre o perigo da exaltação em relação ao espírito e ao prazer), representando a justa medida. A exigência a moderação está assinalada em Héstia – a chama do lar (daí lareira), protetora do lar.


Deméter: símbolo do desejo terrestre legítimo. Deusa do trigo (agricultura – Ceres em latim, daí cereal), terra fecunda, provê a necessidade sadia do homem. Evolução de Gaia (terra imaculada e selvagem) e Rea (terra cheia de vida animal). Protetora da comunidade


Hera: esposa de Zeus, símbolo da sublimação perfeita do desejo. Aspiração sublima da forma mais perfeita de amor – superação do egocentrismo e da satisfação subjetiva e corporal para alcançar à doação de si, a comunhão da alma – ideal da união sublime.

As três deusas irmãs de Zeus significam, portanto, a formação do desejo (Héstia), sua satisfação ativa (Deméter) e sua sublimação (Hera).


A Zeus, autoridade da espiritualização, unem-se e opõem-se seus dois irmãos: Posídon, deus dos mares, preside a legalidade que governa a satisfação perversa do desejo, a banalização, a perversidade; e Hades, deus da região subterrânea, representa a legalidade que governa a inibição perversa do desejo, o recalcamento, a perversão.


Em linguagem não mítica, a Teogonia consiste na tensão entre uma ordem civilizacional arduamente conquistada, num equilíbrio precário, e um submundo murmurante de forças demoníacas que a qualquer momento podem irromper e destruí-la.

A trindade Caos-Gaia-Eros é designada com arché (princípio) dos deuses, do mesmo modo como um dos elementos é postulado como o arché das coisas na especulação dos físicos iônicos – simbolismo da procriação. Este símbolo da trindade já surgira na civilização minoica (3000-1100 a.C.) na flor-de-lis e sua associação com o número três (casal procriador e a prole – pai, filho e um princípio feminino). E também evoca a tetráctis pitagórica (1+2+3+4=10) que conteria “a raiz e a fonte do fluxo contínuo da natureza” – Aristóteles interpreta os primeiros três números com o par sendo o Ilimitado, o ímpar o Limitado, enquanto o Um é par e ímpar ao mesmo tempo e, portanto, origem do par e ímpar.


Na Teogonia o mito é submetido a uma operação intelectual deliberada, com o propósito de remodelar seus símbolos de modo que surja uma “verdade” sobre a ordem com validade universal – Hesíodo afirma sua autonomia contra o modo mitopoético de expressão (o pathos do ser e da existência começa a abandonar o modo compacto de expressão no mito, e tende a uma expressão mais diferenciada por meio do instrumento da especulação). A Teogonia representa um primeiro mergulho no mito olímpico com intenções especulativas (Aristóteles entendia a Teogonia como o primeiro passo evidente na direção da especulação filosófica).

Aparentemente foram os tormentos pessoais de Hesíodo, provocados pela injustiça, que o motivou a romper com a antiga anonímia, e surgir como homem individual em oposição à ordem aceita e a opor seu conhecimento da verdade à falsidade da sociedade (com a literatura homérica e os mitos dando-lhe os instrumentos de expressão).

Apontamentos referentes ao texto (tradução Jaa Torrano – Teogonia (Editora Iluminuras)) 116. primeiro nasceu Caos: mistério geral que domina todas as coisas, inexpugnável ao homem


117. Terra de amplo seio... irresvalável: trata-se de Gaia, base sobre a qual as demais coisas se apoiam – matéria como primeira existência depois do caos pela primazia de facilidade percepção e compreensão / irresvalável (palavra inventada pelo tradutor) no sentido de garantia ou segurança


119. Tártaro: aspecto abismal da matéria


120. Eros: amor não sexual, cuja referência é Afrodite, mas anterior a esta deusa e que representa o amor pela existência, amor que preside as demais coisas, que faz com que elas existam – no Cristianismo é o amor de Deus que faz com que as coisas existam


121. solta-membros: que se descontrai, permite que as outras coisas possam existir, dá vida


122. doma no peito o espírito: mais que uma personificação, Eros é um espirito que permeia a existência do mundo


123. Érebos e Noite negra nasceram: o Caos tem pedaços de si que são completamente obscuros, Érebos são as trevas e a Noite é escura. Do Caos nasce uma coisa visível como a terra e também nascem áreas de incompreensão total e absoluta.


124. cria o Éter e o Dia: são o contrário da Noite e do Érebos, noite só existe em contraste com o dia, e escuridão por contraste com a claridade. Similar no Gênesis é o conceito de que Deus separou as trevas da escuridão.


127. Céu constelado, para cercá-la toda ao redor: trata-se de Urano / cercá-la, Urano limita a terra, é mais importante do que ela, tem uma autonomia e está por cima dela. Não há matéria sem espírito Urano representa o espírito e a Gaia representa a matéria. A contraposição dos dois é a chave para entender a Teogonia.


128. e ser dos Deuses venturosos sede irresvalável sempre: verdadeira sede dos deuses, primazia de Urano, do espírito – Gaia é imanente e Urano é transcendente.


132. o Mar, sem o desejoso amor: água sem fecundidade do espírito, no sentido material, químico – Gaia está formatando o mundo, criação bruta, natureza tomando forma.


133. do coito dom Céu: começa a geração dos Titãs da relação entre Urano e Gaia – doze titãs como forças fundamentais necessárias para a existência do mundo: Oceano – diferente do Mar (partenogênese de Gaia), água fecundada Coios (norte), Crios (sul), Hipérion (leste – aurora) e Jápeto oeste – ocaso) – os quatro pontos cardeais (poeticamente), referência as quatro possibilidades da existência humana, da estrutura da realidade. Téia – mãe do sol Réia – alegria de viver Têmis – justiça bruta, conceito de vingança, lei de Talião Memóriamnemósine em grego Febe – pureza do ar Tétis – fecundidade do mar Crono – tempo


139. Pariu ainda os Ciclopes de soberbo coração: criação das forças telúricas, tectônicas, intrínseca aos elementos, forças incontroláveis, seres tão brutais como os titãs.


140. Arges de violento ânimo: arges é raio (relativo a relâmpago).


149. Coto, Briareu e Giges: os Hecantonquiros (cem braços), as forças da natureza se multiplicam sem controle, poeticamente dá a ideia da brutalidade do nascimento do mundo, brutalidade necessária para a existência do mundo.


155. detestava-os o pai: Urano não gostava desses filhos e os colocava no fundo das profundezas, uma espécie de inconsciente (para usar uma simbologia freudiana), representam aquela potência que todos têm como a violência, potência da vingança, etc. que colocamos nos abismos da nossa alma. Deuses são imortais. Urano não pode mata-los, portanto os enterra - como Héracles enterra a cabeça imortal da Hidra. Essa repressão de Urano gerará uma rebelião contra ele encabeçada pelo seu filho Crono, o mais jovem sob a inspiração e a inteligência de sua mãe.


161. grisalho aço: Gaia inventa a metalurgia (aço é cinza)


163. Disse com ousadia: rebelião da Terra contra o Céu. Toda vez que Gaia conspira contra Urano, é a terra conspirando contra o céu. Este é o sentido simbólico que está aqui.


166-167. ninguém vozeou: os titãs temeram ir contra o espírito em quem veem uma autoridade superior, apenas o ousado Crono (espertalhão) aceitou executar o plano de Gaia. O tempo aqui é contra o espírito porque ele quer tomar conta do mundo, quer dirigir o mundo e não quer que o espírito interfira. Representa a rebelião da matéria contra o espírito. Crono vai assumir o poder mas não tem as condições para sustenta-lo. Não existe tempo no âmbito do espírito. O tempo só existe no mundo material e concreto. Não há tempo no mundo de Deus. Para Deus o mundo está se criando agora simultaneamente. O tempo é um fenômeno do mundo material e, portanto este é o significado disso aqui: um pedaço do mundo material se rebelando contra o espírito. 183. salpicos respingaram sanguíneos: respingos de sangue caem do espírito e fecundam a terra. Urano não foi morto por Crono porque é eterno, mas foi castrado, não é mais produtivo, não pode mais reproduzir. A partir daquele momento então o mundo não é mais conduzido pela força do espírito, mas é conduzido pelas forças inerentes a ele. Daí o Gênesis dizer que no sétimo dia Deus descansou. Nasceram as Eríneas (vingativas e mais velhas que Zeus – significam a culpa e nasceram da castração que foi feita) que não aceitam a autoridade de Zeus, e por isso perseguem os criminosos, concordem os deuses ou não com tal atitude. Vingam crimes de morte contra parentes. que ninguém sabe bem o que significa isso. Os Gigantes são inimigos dos olímpicos. E aqui são muito pouco desenvolvidos. As Ninfas Freixos são misteriosas e ninguém sabe dizer o que são de fato.


188. O pênis tão longo, contando-o: do pênis que ejaculava, pois Urano foi castrado no ato de fazer amor com a terra, desse pênis criou-se a deusa do amor, o amor sexual nasce, na deusa Afrodite. O amor sexual que é o que reproduz os seres vivos superiores. (Figura: Nascimento de Vênus (Afrodite em latim) de Sandro Biticelli (1445-1510)).


192. Primeiro Citera divina: Citera é uma ilha (Afrodite de Citera). Chipre outra ilha (circunfluída).


195. A ela, Afrodite: Até então não havia amor sexual. O amor sexual não existia. Como forma básica do mundo nasce aqui, neste momento.


207. O pai com o apelido de Titãs apelidou-os: Urano se arrependeu de ter criado aquela prole, amaldiçoa seus filhos. Isso é comparável com o que está na Bíblia (ideia da queda). Deus bíblico se arrepende de ter feito aquela humanidade (dilúvio). Dada àquela dualidade central composta por espírito e matéria, toda vez que o espírito não está controlando a matéria, há uma desorganização cósmica. Esse é o problema central que a Teogonia.


217. as Partes e as Sortes: Parcas (nome latino) ou Moiras (nome grego) ou Meras (em grego significa partes) – personificação do destino que cada ser humano. Do quinhão (mera = perta) que lhe cabe neste mundo. São três irmãs Átropo (fia), Cloto (enrola) e Láquesis (corta o fio da nossa vida).


223. Pariu ainda Nêmesis: Deusa vingativa contra quem tem hübris, o orgulho humano desmesurado – maior defeito que o ser humano pode ter.


225. pariu Éris de ânimo cruel: Éris significa briga. As potências do mundo vão se atualizando quando Urano não está presente. Essas potências são abstrações personalizadas. O mundo vai tomando a forma que conhecemos (filhos da Noite, linhagem do Mar e linhagem do Céu).


238. Ceto de belas faces: Ceto dá origem à palavra cetáceo. Há uma incrível quantidade de nomes que usamos na linguagem técnica que tem origem em deuses. Por exemplo, aracnídeo vem de Aracne que era uma fulana que achava que tecia melhor do que Atena que a convocou para um concurso e como ela perdeu, foi transformada em aranha pela vencedora Atena.


411. pariu Hécate: deusa das mais polêmicas deusas. Na prática hoje é vista como a deusa da feitiçaria, uma entidade que fica sempre entre os polos do bem e do mal e que reside nas encruzilhadas. Por isso o pessoal da Umbanda usa as encruzilhadas. Isso não é novo. Hécate mora nas encruzilhadas. Polêmica porque dela se fala tudo de bem e tudo de mal. O Hino a Hécate parece ser uma cunha posterior, pois há um desvio do assunto.


453. Réia submetida a Crono pariu: Réia, titã como Crono, geram um conjunto de outros deuses. Essa segunda geração de deuses são chamados de olímpicos (ou olímpios), porque são esses os deuses que estão presidindo o Olimpo no momento em que Hesíodo escreve a obra. A primeira geração inclui: Posídon (cuida dos mares, águas em geral), Hades (do inferno, morada dos mortos), Héstia (das casas, lares), Deméter (da agricultura tanto que cereal vem de Ceres, seu nome latino) e Hera (irmã e mulher de Zeus) e Zeus.


459. E engolia-os o grande Crono: todos os filhos gerados com Réia, eram comidos por Crono – o tempo come tudo. O tempo devora-se a si próprio. René Guénon demonstra que vai havendo uma compressão do tempo que notamos até na vida prática. Crono (a matéria) não é um bom gestor do mundo. É a terra que não quer devolver o poder do espírito, a terra que quer tomar o poder para si.


465. por desígnio do grande Zeus: Zeus ainda não havia nascido, "por desígnios do grande Zeus" é uma interpolação tardia.


491. reina entre os mortais: Zeus derruba Crono. O espírito recupera sua posição – o espírito controla a matéria. (Urano-Zeus x Gaia-Titãs)


495. soltou a prole: Urano liberta todos os filhos que havia encarcerado, aqueles que mais tarde serão chamados de olímpicos. Os olímpicos representam simbolicamente a vida consciente. É como se agora, finalmente, tivesse havido uma tomada de consciência humana das coisas tais como elas são. As coisas foram libertadas e a consciência retomou o poder. Os desejos representados pelos olímpicos (aqueles deuses que estavam presos dentro da Terra) foram reorganizados – sentido simbólico é a reorganização dos desejos.


499. ao pé do Parnaso: Por isso os gregos diziam que o oráculo de Delfos era o centro do mundo. Foi Zeus quem estabeleceu o oráculo de Delfos. Zeus é quem fala pela pessoa de Apolo. Apolo apenas manifesta a vontade de Zeus. O oráculo de Apolo é, portanto mais um oráculo de Zeus do que propriamente de Apolo.


501a. Trovão, Relâmpago e Arges: Zeus livra-os da prisão pois agora a consciência foi retomada e é possível controlar a matéria. Agora é possível deixar que essas forças se manifestem. Em agradecimento darão a Zeus o raio como arma.


506. sobre mortais e imortais: Zeus reina sobre mortais e imortais. Zeus é capaz de estabelecer uma nova regra. A crueldade de Têmis é substituída pela benevolência de Dike. Formata-se um novo mundo.


510-511. sobreglorioso Menécio e Prometeu astuto de iriado pensar e o sem-acerto Epimeteu: sobreglorioso = arrogante / iriado = esperto / sem-acerto = inútil / Menécio é enterrado no fundo do Tártaro por um raio de Zeus e desaparece da história. Prometeu é aquele que pensa antes de fazer, e Epimeteu faz antes de pensar. / Epimeteu distribuiu as habilidades aos animais, mas sem planejamento, nada sobrou na hora de contemplar o homem. Para concertar a situação Prometeu rouba o fogo (símbolo da inteligência) de Hefesto (deus do fogo – filho de Zeus e Hera) e o entrega aos homens. Como represália Zeus envia para Epimeteu Pandora (símbolo dos desejos humanos – tal qual bíblica Eva) e sua jarra/caixa que aberta espalhou as desgraças humanas (desejos humanos – descontrole das emoções).


512. homenscome-pão: o ser humano


518. as Hespérides cantoras: filhas da Noite que vigiam , com a ajuda de um dragão, o jardim dos deuses onde crescem maçãs de ouro.


521. prendeu com infrágeis peias Prometeu: castigo por tentar enganar Zeus dando-lhe a pior parte da carne num banquete.


534. pujante Cronida: cronida = filho de Crono (neste caso Zeus) / A linhagem de Jápeto simbolicamente criou o homem, produzindo desgraças.


537. trapacear o espírito de Zeus: Prometeu faz nova tentativa de rebelião da matéria contra o espírito e vai ser acorrentado por isso. Prometeu (filho de Titãs e um deles) é o modelo de ser humano que se rebela contra o espírito para satisfazer os desejos materiais.


544. zeloso de um só: egoísta, tentou audaciosamente beneficiar a si mesmo. Excesso de desjo ilegítimo, desejo exaltado.


547. sob a dolosa arte: trapaça


559. Zeus agrega-nuvens: que manipula o clima


567. em oca férula: Prometeu escondeu o fogo roubado dentro de uma árvore.


579. o incloto Pés-tortos: Hefesto ao nascer, tão feio era, que sua mãe (Hera) o derruba de cima do Olimpo e o menino caiu. Cuidado por pastores até descobrir-se filho dos deuses e buscar pleiteara seu lugar no Olimpo, onde não é bem recebido. Presenteia então Hera com uma cadeira na qual fica presa, sendo solta apenas após promessa de ser aceito entra os deuses. Mas vive afastado por muito feio ser. Apesar da aparência casa-se com Afrodite, que o trai com Ares. Hélio (deus Sol) revela o romance e provoca a ira de Afrodite que perseguirá os descentes daquele deus.

616. a grande cadeia o retém: Hesíodo narra da História de Prometeu como aquela geração de homens foi amaldiçoada com os desejos, que produzem as desgraças e a vitória humana (desejo tem componentes ilegítimo e legítimos). O homem ganhou a inteligência dos deuses mas também os desejos representados por Pandora. Os desejos ilegítimos aprisionam a matéria e impedem o progresso evolutivo em direção ao espírito – este é o sentido de Prometeu Acorrentado.


617. Tão logo o pai lhes teve ódio: as forças titânicas, forças cruas, básicas, telúricas não podem ser extintas. Latentes, aparentam estar sob controle, trama nova rebelião contra os olímpicos (Titanomaquia)


627. Ela lhes revelou clara e plenamente: Zeus liberar os Hecatonquiros para ajudarem na batalha contra os Titãs. O espírito precisa da matéria para vencer a matéria. Sob o ponto de vista cristão Deus precisa da nossa força para vencer a luta que ele quer que nós façamos. Precisamos fazer alguma coisa concreta para vencer o projeto divino.


629. Há muito combatiam com dolorosas fadigas: A luta com os Titãs (Titanomaquia) já estava acontecendo.


636. há dez anos cheios: mesma duração da guerra de Troia.


644. Ouvi-me, filhos magníficos da Terra: Zeus discursa para os Hecatonquiros.


663. combatendo os Titãs na violenta batalha: Para combater a violência é preciso de métodos violentos também (alistar os Hecatonquiros). Gandhi venceu porque era contra os inglês, que acharam aquilo divertido. Fossem outros e Gandhi seria destruído. Dalai Lama fracassou contra os chineses.


686. batiam-se com grande grito: Descrição da batalha. Os olímpicos não têm a mesma animalidade que os Titãs, portanto os olímpicos não representam uma possibilidade de combate físico a altura dos Titãs – enorme luta entre o espírito e a matéria/natureza.


721. é da terra o Tártaro nevoento: Com esse último golpe dos Hecatonquiros, os Titãs foram lançados no fundo do Tártaro onde estão até hoje. Venceu o espírito novamente. Zeus resiste à primeira tentativa de retomada do poder da matéria.


820. E quando Zeus expulsou do céu: A terra é traiçoeira, pois ajudou Zeus a derrubar Crono e agora está ao lado da tentativa de derrubar Zeus. Ela não é de modo nenhum confiável. Foi ela quem produziu Tifón, amada por Tártaro (o fundo dos infernos), graças à Afrodite que inventou o amor sexual, então foi possível que Gaia e com Tártaro gerassem Tifón.


823. Ele tem braços dispostos a ações violentas: Tifón reinava a solta e só se amedronta quando encontra Zeus, pois o espírito não teme a matéria, ele está acima da matéria.


853. Zeus encrista seu furor: Tifón, mais um filho da Terra, é destruído pelo espírito. Acaba a última tentativa contada pelo Hesíodo da Terra tomar o poder do Céu. A ordem foi restabelecida, o céu continua a mandar na terra e essa nova geração liderada por Zeus assumiu o poder. A normalidade foi recuperada. Essa é a história da Teogonia.



Notas

  • Hesíodo (cerca de 700 a.C.) foi um dos primeiros poetas gregos. Seus principais trabalhos que chegaram até nós são Teogonia e O Trabalho e os Dias. O Escudo de Héracles comumente atribuído a Hesíodo é de autoria incerta.

  • Obra do gênero poético (como Ilíada e Odisseia) feita para ser cantada pelo rapsodo (recitador profissional de poesia), nasceu oralmente e só depois transcrita.

  • Teos = deus e gonos = nascimento, criação. Conta a história da criação dos deuses gregos na visão de Hesíodo (a de maior autoridade entre muitas versões). · Sua obra apresenta um sistema de deuses típicos, substituindo os múltiplos mitos locais.

  • Há muitas similaridades entre o Gênesis da cosmologia judaica, depois assumida pelo cristianismo, e a cosmovisão grega expressa na Teogonia.

  • O épico começa com a invocação das musas (como todo poema antigo e até renascentista) pedindo por inspiração.

  • Platão dizia que o ser humano era o intermediário entre o animal e o anjo. A Bíblia diz para você que nós não somos deste mundo, mas só estamos neste mundo.

  • Os Titãs não podem ser mortos, mas apenas enterrados no Tártaro, de onde podem ressurgir a qualquer momento. Os desejos não podem ser eliminados, mas apenas controlados (sublimados). E este controle é trabalho de uma vida toda pois os desejos (ilegítimos) podem aflorar a qualquer momento.

  • A Nova Ordem Mundial é uma nova etapa no embate entre o Espírito e a Matéria, entre Urano e Gaia – não sendo mera coincidência o movimento ambientalista servir de instrumento àquela Ordem.