Racismo Woke de John McWhorter

“I do not mean that these people’s ideology is ‘like’ a religion. I seek no rhetorical snap in this comparison. I mean that it actually is a religion. An anthropologist would see no difference in type between Pentecostalism and this new form of antiracism.” – John McWhorter
John McWhorter distingue a luta histórica contra o racismo daquilo que chama de “Terceira Onda Antirracista”, movimento contemporâneo que passou a interpretar as relações raciais a partir das ideias de racismo estrutural, privilégio branco, identidade coletiva e relações de poder. Seu argumento central não é uma rejeição do antirracismo, mas uma crítica à transformação dessa corrente em uma espécie de religião secular, dotada de dogmas, intérpretes autorizados, rituais de penitência, acusações de heresia e mecanismos de exclusão social.
McWhorter divide a história do antirracismo em três ondas. A primeira corresponde à luta contra a escravidão e a segregação legal. A segunda, associada sobretudo às décadas de 1970 e 1980, teria enfatizado a igualdade de tratamento e a ideia de que negros deveriam ser considerados indivíduos, e não definidos primordialmente pela raça. A terceira, que ganha força especialmente a partir da década de 2010, deslocaria o foco para estruturas sociais e relações de poder. Para o autor, essa mudança produz uma concepção na qual a raça deixa de ser algo que deveria perder importância e passa novamente a ocupar posição central na interpretação das pessoas e da sociedade.
A principal crítica de McWhorter é que essa nova visão cria um sistema difícil de contestar.
Ele utiliza exemplos de pessoas que sofreram consequências profissionais ou sociais depois de declarações relacionadas a questões raciais para argumentar que a acusação de racismo se tornou uma poderosa forma de punição. Nesse ambiente, instituições e indivíduos podem aderir a determinadas posições não necessariamente porque estejam convencidos de seus fundamentos, mas porque temem ser considerados racistas. O resultado, segundo ele, é a formação de uma ortodoxia social em que determinadas ideias passam a funcionar como verdades morais praticamente incontestáveis.
É nesse contexto que McWhorter apresenta o que chama de “catecismo de contradições”. A nova ortodoxia sustenta simultaneamente princípios que podem entrar em tensão: negros devem ser tratados como indivíduos, mas também como integrantes de uma cultura específica; pessoas brancas devem procurar compreender a experiência negra, embora jamais possam compreendê-la plenamente; deve-se valorizar outras culturas, mas evitar a chamada apropriação cultural; determinadas formas de separação racial podem ser justificadas como proteção; e a responsabilidade individual pode ser enfatizada para negros enquanto responsabilidades coletivas são atribuídas aos brancos. Para McWhorter, esse conjunto de regras produz situações nas quais praticamente qualquer comportamento pode ser interpretado como problemático.
O autor relaciona essa estrutura àquilo que chama de “eleitos”: pessoas que acreditam possuir uma compreensão moral e intelectual privilegiada sobre questões raciais. Elas não precisam ser fanáticas ou hostis no cotidiano, podem ser indivíduos comuns e bem-intencionados. O problema, para McWhorter, surge quando essa convicção de possuir uma visão moral superior transforma divergências intelectuais em falhas morais. O discordante deixa então de ser alguém com quem se debate e passa a ser alguém que precisa ser corrigido, denunciado ou excluído.
McWhorter também critica a expansão da análise baseada exclusivamente em relações de poder. Ele reconhece que perguntar quem possui poder, quem fala e quais grupos são representados pode ser intelectualmente legítimo. Sua objeção é à transformação dessa perspectiva em uma lente que pretende explicar praticamente toda produção cultural e toda relação social. Como exemplo, menciona análises de obras artísticas que deixam em segundo plano seu valor estético para concentrar-se exclusivamente em questões de representação, identidade e poder.
Por trás dessas críticas está a preocupação de que o antirracismo contemporâneo possa produzir um efeito contrário ao pretendido. Na visão do autor, ao interpretar continuamente indivíduos a partir de categorias raciais, a Terceira Onda corre o risco de reforçar a própria centralidade da raça. Ele também sustenta que algumas políticas ou discursos podem estimular uma identidade permanente de vítima e reduzir a importância da responsabilidade individual, mesmo quando são apresentados como formas de combater o racismo.
Assim, a tese geral do livro é que existe uma diferença entre combater o racismo e transformar o antirracismo em uma doutrina abrangente de interpretação da sociedade. McWhorter considera que a primeira tarefa pode ser compatível com uma sociedade liberal baseada na igualdade individual, enquanto a segunda tende, em sua avaliação, a produzir conformismo intelectual, medo de discordar e uma nova forma de racialidade da vida social. O problema fundamental identificado por ele não é a existência da luta contra o racismo, mas a transformação dessa luta em uma ortodoxia moral que, ao tentar eliminar a importância da raça, acaba por recolocá-la no centro da identidade e da vida pública.
Para Thomas Sowell (1930- ) as diferenças de resultados entre grupos não demonstram, por si mesmas, discriminação. É necessário investigar história, educação, estrutura familiar, localização geográfica, incentivos econômicos, instituições e comportamentos – não se deve presumir que a raça seja a explicação causal de desigualdade.
As políticas de ação afirmativa baseadas em preferências raciais podem (a) transformar uma categoria racial em critério político permanente, (b) beneficiar desproporcionalmente membros mais privilegiados do grupo, (c) criar a suspeita de que o indivíduo beneficiado chegou a determinada posição por causa de sua raça, e (d) deslocar a atenção das causas concretas dos problemas econômicos e educacionais.
E se instituições, políticos, universidades, ONGs e movimentos sociais recebem prestígio, recursos ou poder em função da existência de determinado problema racial, surge um incentivo para que o problema seja interpretado como permanente e estrutural.
Para Shelby Steele (1946- ) a política racial pode criar uma relação de dependência entre culpa branca e reivindicação negra. O mecanismo seria aproximadamente assim: culpa → reconhecimento de uma dívida → concessões políticas → manutenção da identidade de vítima. Seria uma espécie de “moeda da vitimização”: apresentar-se como vítima produz culpa no outro e, consequentemente, poder de negociação.Assim, uma política concebida para combater o racismo acaba conservando a raça como elemento central da identidade, em vez de permitir que ela perca importância. E as políticas de preferência racial podem transmitir aos próprios negros a mensagem de que seu êxito necessita de uma compensação ou tutela externa, debilitando a ideia de autonomia, responsabilidade individual e realização por mérito.
Outra consequência nefasta é a criação de uma elite política e institucional (grievance elite) que teria incentivos para manter a narrativa da vitimização racial porque dela derivam influência, recursos e autoridade.
Glenn Loury (1948- ) critica a tendência de explicar as condições dos negros principalmente por fatores externos – racismo, discriminação e estruturas de poder – deixando em segundo plano capital social, instituições comunitárias, educação, família, comportamento e incentivos.Também critica a utilização da expressão “conservador negro” como rótulo para qualquer negro que discorde de determinadas posições progressistas. Com a racialização do debate político a pessoa deixa de ser avaliada pelo argumento que apresenta e passa a ser classificada de acordo com sua raça e com a posição racial que se espera dela.
Walter E. Williams (1936-2020) considera que a unidade fundamental da política deve ser o indivíduo, não grupos raciais. Ele desconfia de políticas que atribuem direitos, privilégios ou desvantagens a uma pessoa em função da categoria racial à qual pertence – se o princípio é a igualdade perante a lei, substituir discriminação contra um grupo por preferência em favor de outro não elimina necessariamente a lógica racial, apenas muda seu beneficiário.Williams foi um dos críticos mais contundentes das políticas de preferência racial nos Estados Unidos. Para ele, a questão central não era negar a existência de discriminação racial, mas questionar se usar raça como critério para conceder vantagens ou desvantagens seria uma maneira legítima de combatê-la.
Os problemas não começam com as Ações Afirmativas, mas veem desde a expansão do Welfare State. Um exemplo marcante é o antigo AFDC (Aid to Families with Dependent Children) dirigido a mães solteiras para aliviar sua pobreza, mas que resultou na expansão do número de famílias negras com a mãe como único progenitor de 20% para 51% em três décadas (1960 a 1990). Em 1938 11% das crianças negras nasceram de mães solteiras, mas este percentual saltou para cerca 75% em 2017, ou seja, a família negra foi mais forte nos primeiros 100 anos após a escravidão do que durante os seguintes 100 anos. O benefício incentivou a dependência financeira do Estado, desintegrando a família negra, prejudicando a formação dos jovens, fomentando a formação e violência das gangues, gerando mais pobreza e, consequentemente, mais dependência.
A ação afirmativa transforma o indivíduo em membro de um grupo. Em uma entrevista de emprego, diante de dois candidatos, a pergunta deveria ser “Quem é este indivíduo e quais são suas qualificações?” e não “A qual grupo racial ele pertence?”. Isto transmite uma mensagem de inferioridade, prejudicando os próprios beneficiários. O mesmo ocorre com a questão das cotas nas instituições de ensino.
Os maiores danos causados aos negros americanos são infligidos pelos políticos, líderes dos direitos civis e acadêmicos que afirmam que todos os problemas que os negros enfrentam são resultado de um legado da escravatura e da suposta discriminação. Essa é uma visão que garante a perpetuidade dos problemas, enquanto gera poder e riqueza para aqueles e suas ONGs e milícias afiliadas.
Notas
John McWhorter (1965- ) nasceu na Philadelphia (PA), USA.
Linguista, professor universitário e ensaísta, sua formação acadêmica inclui graduação pela Rutgers University, mestrado em Estudos Americanos pela New York University e doutorado em Linguística pela Stanford University.
Tornou-se conhecido por um público muito mais amplo graças aos seus ensaios sobre raça, cultura, educação, música e política racial nos Estados Unidos.
Seu primeiro grande livro nessa área foi Losing the Race: Self-Sabotage in Black America (2000), no qual questionou algumas interpretações predominantes sobre as dificuldades enfrentadas pelos negros americanos e defendeu maior atenção a fatores culturais e comportamentais.
Woke Racism: How a New Religion Has Betrayed Black America foi publicado em 2021.
O autor de Woke Racism, bem como fonte das anotações adicionais (Sowell, Steele, Loury e Willims), são todos destacados intelectuais negros americanos.


